Casal
Os dois se viram pela primeira vez na fila do Espaço Botafogo para ver “Magnólia”, me lembro perfeitamente. Porém, só foram se conhecer, de saber nome, de conversar por horas, de rirem juntos, de ficarem colados, de se beijarem, só na noite daquele dia. Por coincidência, eu estava com ele em ambas às oportunidades.
Lembro que o Dinho – seu nome é Osvaldo, o mesmo do pai, mas ele detesta, acha formal demais – disse para mim, “Cara, se tu quiser, pode escrever essa história, aí. Não é você que gosta de escrever?”. Apenas sorri para ele. Sem sombra de dúvida, ele é um ótimo personagem, mas eu não tinha uma história na época.
Eu estava com ele na fila quando vimos as duas. Márcia, rosto lindo, baixinha, morena de corpo exemplar. E Carla, branca daquelas que nunca foi à praia, mas toda jeitosinha, toda charmosa. Ficamos nós dois parados, de lado para as duas, fingindo não reparar nelas, mas espionando rapidamente, quando elas não esperavam, só para impressioná-las.
Entramos na sala, e passamos a projeção inteira sem o menor vestígio delas. Quando o filme acabou, ainda tentamos acompanhá-las para saber se iriam ficar no café, ou em algum bar próximo, mas elas foram embora logo em seguida.
Desistimos e fomos, cada um, para as nossas respectivas casas. Tínhamos uma festa na mesma noite, e quando chegamos na boate, tinha certeza que Dinho nem se lembrava direito da menina que ele tinha visto. Mas coincidências existem, e Dinho não é o tipo de desperdiçar quando uma acontece. Márcia estava na festa, junto com Carla. Ficamos naquele jogo de olha, bebe mais um gole, dança, disfarça, finge ignorar, olha de frente para se fazer perceber, depois, com mais coragem proporcionada pelo álcool, se aproxima e diz algo que seja relevante. Dinho obviamente falou de nosso encontro prévio na fila do cinema. O papo logo caiu para o filme, os sapos que caem no final, daí para cinema de um modo geral e em pouco tempo estavam todos próximos. Ficamos os quatro juntos, conversando por horas, sem pressa, dissimulando falta de interesse, entendendo como o outro pensava, agia, bebendo mais uma cerveja, tomando mais uma caipirinha, dançando juntos ao som da música que tocava, até que num impulso, sem que eu ou Carla percebêssemos, Dinho puxou Márcia pelo braço para um canto escondido da boate. É claro que demos falta dos dois, mas essa foi a deixa para eu me aproximar de Carla também. Fomos embora da festa juntos. Dinho me disse depois que após me deixar em casa, e a Carla na dela, levou Márcia para a dele. Afirmou que ficaram horas acordados, mas não aconteceu nada demais nessa noite.
O meu caso com Carla durou apenas aquela noite e me senti mal com isso. Principalmente porque o Dinho começou a namorar, logo em seguida, com Márcia. Na segunda vez que nos encontramos, me aproximei da Carla, e ela foi altamente grosseira comigo. Disse na minha cara que aquela noite foi um erro. Nunca se espera algo dessa natureza. Assim, conforme Dinho e Márcia se encontravam, felizes, eu me sentia pisoteado por tabela. Como se a felicidade deles dependessem da minha depressão. Fiquei assim por uns três meses, até o Dinho terminar com a Márcia.
Márcia foi a primeira namorada que ele teve. No início do relacionamento dos dois, como sempre acontece, tudo funcionava como uma máquina bem calibrada. Com o tempo, ele não teve experiência, nem maturidade para encarar o desgaste do relacionamento. Já prestes a desmanchar, dizia para mim que só ficava com ela por causa do sexo. Entretanto, se sentia asfixiado por ela. Nunca tinha ficado tanto tempo só com uma mulher. Ele começou a reparar nos pequenos detalhes dela e tudo se transformava em defeito. A maneira como ela preparava o Nescau, por exemplo. Ela colocava três colheres de sopa de chocolate e ainda mais duas de açúcar. Dinho achava aquilo horrível, porque ficava doce demais. Ou o jeito que ela dormia, sempre encolhida com o travesseiro entre as pernas. Ou os filmes que ela queria ver. Todas as pequenas coisas eram motivos para o desgaste. E Dinho nunca chegou a brigar com ela, de fato. Foi acumulando as insatisfações, empurrando para debaixo do tapete tudo o que ele não gostava e num dia qualquer disse que não podia mais ficar com ela e foi-se embora.
Junto a isso, vieram as férias de final de ano e ele foi mandado embora do estágio, o que confirma que desgraça não vem sozinha nunca, e o deixou com bem menos dinheiro do que esperava. Logo não pôde viajar comigo, nem com ninguém. Passou a virada de ano em Copacabana, praticamente sozinho. Quando voltei, ele me falou que foi a pior experiência da vida dele. Estava se sentindo muito só desde que rompera com a Márcia. Falei para ele a procurar, mas ele me respondeu que estava meio sem jeito, que eles haviam terminado de uma maneira estúpida demais, sem conversar, sem ele explicar nada direito. E como eu – numa dessas coincidências da vida – estava trabalhando com ela, pediu para que eu fizesse a ponte. Não havia desencanado totalmente da Carla, mas confiava que se os dois voltassem, isso não iria interferir no meu humor. Aceitei. Disse que contaria toda a história triste, a fossa que o Dinho passava.
Liguei para ela e fiz melhor. A convidei para uma festa. Lá, ele teria a oportunidade de conversar com ela durante todo o tempo. Márcia havia se aproximado de mim nesse ínterim. Sabia que ela estava magoada com ele, embora soubesse também que ela gostava dele. Bastava que ele conversasse com ela.
Os dois ficaram juntos quase toda festa. Eu conversava com Márcia, quando Dinho passou por mim e nos interrompeu, afirmando que queria falar com ela. “Eu estou conversando com ele, não dá para perceber?”, ela disse para ele. Eu fiquei quieto. “Você não pode me dar um minuto da sua atenção”, ele já falava mais exaltado. Ela bufou baixo e quando olhou na minha direção, eu já não estava mais ali. De longe, pude perceber o gesticular dos dois. Ela passou boa parte da conversa com os braços cruzados na frente do corpo, enquanto ele andava de um lado para o outro, falando num tom de voz bem acima do normal. Por várias vezes, escutei o pedido dela para que ele falasse mais baixo. Ele pedia desculpa, para logo em seguida falar novamente quase aos berros. Num momento, ele parou de andar, esticou o braço e tocou nos braços cruzados dela, ela não retirou, ele segurou o antebraço e olhava no rosto dela, ele puxou os braços dela e eles desfizeram aquela tentativa de nó. Ele baixou o rosto, ela mexeu no cabelo dele, ele levantou já próximo do rosto dela e os dois se beijaram.
Juro que aquilo não me atingiu da maneira como tinha medo. Já não me sentia como o pêndulo da relação deles. Os dois ficaram longe do resto do grupo e eu fiquei tranqüilo. Tinham ficado separados menos de dois meses.
Dessa segunda vez, o início dos dois passou por algumas provas que pareciam denotar uma longa duração do namoro. Teve a festa da Soninha, amiga dela que ele detesta, por exemplo. Na cobertura do prédio dessa menina, onde só cabiam umas vinte pessoas. Todos conversavam entre si e Dinho teve que passar toda a noite falando exatamente com a Soninha. Tudo porque Márcia encontrou algumas amigas que não via desde a época do colégio e ficou boa parte da festa com elas. E a anfitriã não quis deixar Dinho sozinho. Soninha era exatamente o oposto de pessoa que Dinho gostava. Ela é rica e fútil e sua conversa gira em torno do próprio umbigo, roupas importadas, carros de grife, marcas conhecidas, um universo bem distante do Dinho. Ao saírem, ele espumava. Márcia perguntou por todo o caminho o motivo e ele ficou quieto até quase chegar em casa. Quando abriu a boca foi para pedir, em tom de ordem, que nunca mais o fizesse ir numa festa desse tipo. Ela nem discutiu, apenas também ficou quieta.
Depois disso, voltaram ao normal. Viajavam a cada final de semana. Viajaram no carnaval, Tiradentes, na semana santa e Dinho veio conversar comigo. “Não dá mais”, começou ele. “O que houve, cara?”, tentei apaziguar. Dinho disse que tinha chegado a conclusão que não gostava dela. Apenas a usava com medo da solidão. E essa situação estava se agravando. Mais uma vez ele começava a achar defeito nela onde, ele sabia, não existia. “Tenho que tomar uma decisão”, ele falava enquanto mexia o copo americano em cima da toalha de papel encharcada na mesa do boteco, “Vou terminar definitivamente”, e num gesto teatral, virou a cerveja direto na goela.
Entretanto, para piorar, Dinho enrolou por mais alguns dias. Mais uma vez, eles não brigavam. Dinho ficava, apenas, cada vez mais quieto. E Márcia encarava isso como algo normal, como se o comportamento dele fosse esse mesmo em certas horas. Ou ela não queria ver. Ou ela tinha medo de que se conversassem, tudo poderia piorar. Ele me parecia nitidamente irritado com tudo, mas eu nunca a vi tentando conversar sobre isso. Não sei nada ao certo, isso é apenas uma hipótese. Eu sei que não há nada de concreto e tudo não passa de suposições, mas ela nunca tentou conversar com ele, senão eu saberia.
A bomba estourou no pior momento possível. Três dias antes do aniversário dela – ela já tinha gastado um dinheiro para uma festa, chamado vários convidados, reservado uma boate – ele foi à casa dela buscar suas coisas. Entrou quando ela abriu a porta, não a cumprimentou, foi direto no quarto, pegou suas roupas, colocou numa sacola – ela acompanhava assustada ao seu lado, sem conseguir pronunciar nem uma única palavra –, foi em direção à saída, parou debaixo do batente, virou-se para ela e disse, “Tá acabado”. Ela tentou dizer algo, perguntar alguma coisa, mas as palavras ratearam. Foi o tempo dele pegar o elevador e ela sair correndo para a janela. Quando ele apareceu lá embaixo, ela gritou, “O que, Dinho? O que você disse?”, ele apenas se virou, olhou para cima e a ignorou completamente. Saiu andando pela rua até chegar no carro. Ela observou o caminho dele, e quando o carro zarpou, deixou seu corpo cair, sem forças, se arrastando pela parede até o chão, abraçou os joelhos e chorou baixinho, em estado de choque.
Márcia foi à sua própria festa, mas ela não estava exatamente lá. Ficou a maior parte do tempo sentada num sofá, bebendo algo que não estava fazendo efeito algum sobre ela. Márcia estava aérea, distante, alheia a todo mundo que ia lhe dar parabéns. Parecia sedada. Algumas pessoas tentavam conversar e ela respondia apenas com sorrisos impessoais.
Lá para as quatro da manhã, quando grande parte dos convidados já tinha ido embora e eu já pagava a minha conta para também ir, Dinho entra no salão, completamente bêbado. Ela se levanta de pronto e, calada, acompanha os passos dele. Ele carrega um embrulho e caminha cambaleante na direção dela, ela arregala os olhos. Quando está bem próximo, ele fala de maneira embaralhada, “Eu não disse que viria? Pois é, tô aqui. Agora você não vai poder falar nada. Eu tô aqui. Pronto, eu tô aqui”, e repetia que estava ali, que ela não poderia reclamar, nem culpá-lo, nem nada. “Toma”, esticou o pacote para ela que o segurou. Ele pegou o pequenino corpo dela com ambas as mãos e o puxou para si, deu um beijo na bochecha esquerda e depois na direita, no gesto quase de pantomima, no que ela ficou parada, sem esboçar nenhuma reação. “Viu como eu sou educado. Viu como eu sou moderno”, virou-se na direção da saída, levantou a mão direita e disse sem ao menos olhar para ela novamente, “Agora, tchau”. E da maneira que entrou, cambaleou de volta. Antes de ele sair, ela gritou, “Peraí”, ele parou, se virou, toda a boate acompanhava os dois, ele percebeu isso, “O que é que vocês estão olhando?”. Ela continuou, “Peraí, não vai embora”, “Eu não tenho nada para fazer aqui”, ele se virou e foi embora. Ela deixou cair o embrulho no chão e o corpo no sofá. Acredito que ela ficaria ali para sempre, se não a tivessem carregado para casa.
Os dois se separaram completamente. Dinho não queria nem ouvir falar o nome dela. Márcia demorou um tempo para se acostumar com a nova situação. Ficou na merda completa. Emagreceu perceptivelmente, vivia com olheiras e chorava à toa. Demorou uns bons dois meses para ela voltar às suas atividades normais. Um tempo depois, foi Dinho que começou a se sentir novamente muito sozinho. Ele até que saiu com outras meninas, mas não conseguiu sentir nada demais. Elas apenas preenchiam um espaço por pouco tempo. Dinho dizia que não gostava de Márcia, mas tinha ainda menos paciência para com as outras meninas. Passou mais alguns meses e ele recebeu a notícia, por mim, que Márcia tinha arranjado um novo namorado. Ele não perguntou quem era, mas se sentiu, na hora, traído. Repetia em voz alta para si mesmo, “Como é que ela teve coragem, como é que ela teve coragem”, e esquecia que tinham passado mais de cinco meses desde que eles se separaram. Depois, quando percebeu que ela não tinha nenhuma obrigação com ele, ele percebeu que tinha perdido algo. Sabia que ela era dele, e pensava que a qualquer momento que quisesse voltar, ela estaria disposta. Agora não mais.
Nessa época, ele ficou um bom tempo sem sair com ninguém. Dizia sem interesse até mesmo para sair de casa. Eu o convidava e ele sempre tinha alguma desculpa. Só ia para o novo trabalho e de noite para a faculdade. Não ia mais às festas, ou participava de qualquer programa com os nossos amigos. Ele nunca me explicou direito o motivo disso, e, em se tratando do Dinho, acredito que nunca vai dizer mesmo. Podemos apenas supor.
Com quase um ano depois do término do namoro dos dois, ele voltou a aceitar a diversão como algo saudável. Primeiro foi aos cinemas, depois aos bares, às festas. Mais dia, menos dia, acabaria acontecendo o que aconteceu. Dinho estava tomando uma cerveja, conversando com alguns amigos numa festa e Márcia aparece com o namorado. E eu era o namorado. Ele tentou disfarçar, mas não conseguiu. Interrompeu uma frase no meio para olhar-nos. Conseguira esconder até aquele momento, mas a hora de enfrentá-lo tinha chegado. Entramos no salão e percebemos os olhos dele pesando em cima da gente. E, junto a isso, parecia que o resto da festa tinha se tornado, de uma hora para outra, em espectadores e, nós, em atores de um espetáculo cujo final era uma surpresa. Fomos para um canto e fingimos nos divertir. Fingimos dançar, fingimos conversar, fingimos estar nos sentindo a vontade. Não tínhamos cumprimentado ninguém de perto, apenas com acenos discretos de longe, para evitar passar pelo constrangimento de falar com ele. Mas, depois de algumas músicas e algumas cervejas, ele que veio falar conosco. “Então, você é o namorado dela, hein?”, e, antes que eu esboçasse qualquer tipo de resposta, continuou, “E, você nem tinha me dito que estava namorando”, e virou a lata de cerveja. Eu e Márcia quietos, acuados como presas, “Que amigo filho da puta você é”, e deu uma pausa para sentir a frase explodir. Senti meus dedos dos pés travarem na hora de nervoso, “Nem conta que está namorando”, eles se afrouxaram um pouco, mas não era nada confortável. “Você sabe a situação era um pouco mais complicada...”, tentei melhorar a situação. Ele bateu no meu ombro, balançou o queixo para apontar para ela, “Aproveite. É uma ótima foda”, e saiu. Fiquei, ficamos, eu e ela, estáticos, covardemente paralisados.
A festa se transformou num exercício de paciência. Era óbvio que queria ir embora o quanto antes. Todavia, isso não seria nada de bom tom. Além de apenas postergar o problema. Se queríamos ficar juntos, tínhamos que ter um pouco de coragem, pelo menos dessa forma. “Vamos embora”, ela me pediu, assim que tinha me convencido de ficar e enfrentar o Dinho. Tentei falar para ela que não era o certo, que deveríamos enfrentar, e ela me interrompeu. “Fica quietinho. Vamos embora e fica quietinho”. Não pronunciamos mais nenhuma palavra.
Evitamos, de todas as formas possíveis, encontrar com o Dinho no dias seguintes. E tivemos um certo resultado positivo com isso. Nunca mais freqüentei a casa dele, nem fomos às festas do nosso grupo nem aos lugares que ele normalmente ia. Mantivemos esse tipo de regime por algumas semanas. Entretanto, depois que encontramos Dinho, a nossa relação tinha se esfriado. Nunca fora algo realmente emocionante. Costumava fazer tudo junto dela, ia até para os tradicionais, e chatos, almoços da família dela, coisa que nem o Dinho se propôs. Mas nesses últimos dias, éramos dois estranhos que se encontravam porque tinham que se encontrar, nada além. Saímos, quando conseguia tira-la de casa, e ela logo pedia para ir embora. Inventou milhares de desculpas para não dormir na minha casa, nem eu na dela. Me evitou de formas variadas, só conseguia vê-la nos fins de semana, e mesmo assim, sempre pedia para eu deixá-la. Foi quando num domingo, dia 15 maio, ela me chamou na casa dela. Sabia exatamente o que iria acontecer, mas mesmo assim fui. “Não dá mais para continuar assim”. Ela fez um discurso enorme, com todos os motivos, nenhum era o real. Disse que nós não gostávamos um do outro o suficiente, que queria rever pontos da vida, que queria dar apenas um tempo. Escutei tudo dela sem pronunciar uma única palavra. Quando ela acabou, me levantei e fui embora. Seco, quieto, mas triste, amargurado, oco por dentro.
Fiquei mal, como não ficava há muito tempo. Sentia-me como o lixo do mundo. Como a escória. Tentava achar algum sentido na minha vida, e não chegava a nenhuma conclusão. Pensei que nossa vida era boa. A nossa estabilidade, a nossa vida em comum me dava uma segurança que nunca tinha tido. Márcia funcionou para mim como um troféu que eu conquistei. Tive que me dedicar muito na empreitada, mas fui agraciado no final. Com a perda dela, fiquei sem parâmetros, sem referências, sem saber direito quem eu era.
Mesmo assim, tentei voltar a minha vida – dita normal – em pouco tempo. Alguns amigos insistiram que ficar em casa não ia melhorar em nada a situação. E encontrá-los me aliviaria um pouco, teria a possibilidade de pensar em outra coisa. Na minha casa, tudo me lembrava a Márcia. Tentei racionalizar o problema, ser o mais prático possível. Hoje, acredito que não foi uma boa idéia. Mas foi a única que apareceu naquele momento.
Por isso resolvi ir à festa no final de semana passado que uns chegados organizaram. Era aniversário de um grande amigo meu, e as suas festas costumavam ser homéricas. Era certeza de encontrar uma galera lá que não via há tempos. Me aprontei e fui cedo para lá. Queria chegar antes de todo mundo para não perder nada. E fui impelido a sair de casa pela minha ansiedade. Imaginei que ficaria jogando papo-fora, beberia uma cerveja, essas coisas. Contudo, nada ocorreu da maneira como eu previa. Saltei do carro, caminhei apressado para a casa de festas e avistei o casal. Diminui o passo até parar completamente na calçada. As primeiras pessoas que vi na fila foram Dinho e Márcia. Juntos.
Pronto. Já tinha a história para contar.
sábado, 31 de maio de 2003
quarta-feira, 28 de maio de 2003
Vestido de Noiva
Por décadas, e até hoje, toda a obra de Nelson Rodrigues é bastante associada no meio comum a uma alcunha que ele, como dramaturgo, recebeu ainda na década de 50, pornográfica.
O que por si só, já denuncia um certo preconceito. Como se a arte pornográfica fosse menor ou pior que as que abordam outros aspectos. Mas esse nem é o caso.
É certo que as personagens rodrigueanas tem ligações extremas com sexo, traição e tudo que é comumente ligadas à pecaminosidade. Porém, isso foi a forma do autor de mostrar o temperamento forte e imprevisível de suas protagonistas e secundários.
Mas, antes disso ainda, deve-se ater a fatos muito mais concretos da obra de Nelson. Por exemplo, seu belíssimo texto, um clássico que consegue passar por décadas quase incólume e bastante vivo, cheio de poesia em forma de prosa, como costumava afirmar Manuel Bandeira. E principalmente, sua revolução estética, que começou com “Vestido de Noiva”.
Nelson sempre foi uma parabólica que captava tudo a sua volta. Por isso mesmo, não deixou passar em branco “Cidadão Kane”, o que ainda hoje é considerado o melhor filme de todos os tempos. O que foi proposto por Orson Welles, na sua primeira incursão no meio cinematográfico, tinha a ver com a forma como a história era contada, num eterno flashback e flashforward, começando pela cena final com a morte do protagonista e voltando até o início da cronologia.
O dramaturgo ficou impressionado com essa idéia e resolveu adaptá-la para o teatro, porém, a sua maneira. Assim, “Vestido...” não só mexe com o tempo real dos acontecimentos, mas se passa em três ‘tempos’, o presente, o passado, através de lembranças e o delírio da personagem principal.
Como o filme de Welles, a peça começa do fim, a protagonista está numa mesa de cirurgia preste a morrer. O espectador é bombardeado por diversas informações desconexas, que não se encaixam e não sabe o que acontece. Com o tempo, através de um jogo de reconstrução, da procura da verdade, descartamos o irreal para nos ater somente à verdade.
Claro que, mesmo assim, não é tão simples como podemos supor. O dramaturgo brinda-nos com jogos de idas e vindas, voltas, reformas de cenas, modificações, inclusões de outros personagens no meio da história, tudo para desvendar esse mistério. O espectador se transforma num quase detetive que, ao longo da peça, recebe pistas, algumas falsas, outras verdadeiras e monta sua própria resolução.
O que é mais incrível é que, assim como o filme norte-americano, a peça de Nelson, escrita em 1943, continua hoje atualíssima. É ainda mais vanguarda que muitas produções que hoje se julgam modernas. Na época que foi escrita, não tinha nenhuma correspondente no mundo inteiro. Nelson era um autor muito a frente do seu tempo e era julgado no Brasil muitas vezes apenas por seus personagens extravagantes. O que fez amargar um longo período de ostracismo. E ainda sofre com isso.
Por décadas, e até hoje, toda a obra de Nelson Rodrigues é bastante associada no meio comum a uma alcunha que ele, como dramaturgo, recebeu ainda na década de 50, pornográfica.
O que por si só, já denuncia um certo preconceito. Como se a arte pornográfica fosse menor ou pior que as que abordam outros aspectos. Mas esse nem é o caso.
É certo que as personagens rodrigueanas tem ligações extremas com sexo, traição e tudo que é comumente ligadas à pecaminosidade. Porém, isso foi a forma do autor de mostrar o temperamento forte e imprevisível de suas protagonistas e secundários.
Mas, antes disso ainda, deve-se ater a fatos muito mais concretos da obra de Nelson. Por exemplo, seu belíssimo texto, um clássico que consegue passar por décadas quase incólume e bastante vivo, cheio de poesia em forma de prosa, como costumava afirmar Manuel Bandeira. E principalmente, sua revolução estética, que começou com “Vestido de Noiva”.
Nelson sempre foi uma parabólica que captava tudo a sua volta. Por isso mesmo, não deixou passar em branco “Cidadão Kane”, o que ainda hoje é considerado o melhor filme de todos os tempos. O que foi proposto por Orson Welles, na sua primeira incursão no meio cinematográfico, tinha a ver com a forma como a história era contada, num eterno flashback e flashforward, começando pela cena final com a morte do protagonista e voltando até o início da cronologia.
O dramaturgo ficou impressionado com essa idéia e resolveu adaptá-la para o teatro, porém, a sua maneira. Assim, “Vestido...” não só mexe com o tempo real dos acontecimentos, mas se passa em três ‘tempos’, o presente, o passado, através de lembranças e o delírio da personagem principal.
Como o filme de Welles, a peça começa do fim, a protagonista está numa mesa de cirurgia preste a morrer. O espectador é bombardeado por diversas informações desconexas, que não se encaixam e não sabe o que acontece. Com o tempo, através de um jogo de reconstrução, da procura da verdade, descartamos o irreal para nos ater somente à verdade.
Claro que, mesmo assim, não é tão simples como podemos supor. O dramaturgo brinda-nos com jogos de idas e vindas, voltas, reformas de cenas, modificações, inclusões de outros personagens no meio da história, tudo para desvendar esse mistério. O espectador se transforma num quase detetive que, ao longo da peça, recebe pistas, algumas falsas, outras verdadeiras e monta sua própria resolução.
O que é mais incrível é que, assim como o filme norte-americano, a peça de Nelson, escrita em 1943, continua hoje atualíssima. É ainda mais vanguarda que muitas produções que hoje se julgam modernas. Na época que foi escrita, não tinha nenhuma correspondente no mundo inteiro. Nelson era um autor muito a frente do seu tempo e era julgado no Brasil muitas vezes apenas por seus personagens extravagantes. O que fez amargar um longo período de ostracismo. E ainda sofre com isso.
Aquela noite
Foi naquela noite, a última da boate Interpol, ali em Copacabana. Disseram que iriam fechar para reformas por alguns meses, mas ela não voltou a abrir, até hoje.
Como iam fechar, eles queriam acabar com todo o estoque de bebidas que tinham. Por isso, fizeram uma promoção onde tudo era vendido por dois reais. Doses de uísque, tequilas, caipirinhas. Várias pessoas passaram mal pelos banheiros e até na pista de dança.
Por esses dois motivos, a liquidação das bebidas e o último dia da boate, a Interpol estava absurdamente lotada. A fila de entrada dobrava o quarteirão e ficava na rua transversal. Muita gente chegou cedo, antes das onze horas, e teve que esperar nessa fila. Lá dentro, o ar condicionado não dava vazão para tantas pessoas e o suor corria nas costas, empapando todas as camisas.
Mesmo assim, ou por causa disso, eu fui na despedida da Interpol. Um casal de amigos meus passavam uma temporada na minha casa e os levei juntos. Chegamos também cedo e engrossamos a fila de espera. Ficamos bebendo cerveja, que buscávamos toda a hora, de um boteco de péssima categoria ao lado da boate.
Por mais que os dois estivessem passando férias aqui no Rio, senti desde o início que o clima não era dos mais favoráveis entre eles. Raramente participavam da conversa ao mesmo tempo. E eu tinha que fazer o tipo cicerone, ora com atenção mais focada nele, ora nela.
Próximo de meia-noite, outros amigos chegaram e entraram na fila conosco, o que diluiu o peso que pairava entre nós três. Gente que não via há décadas, outros companheiros de longas datas. Conversávamos animadamente por algumas horas, já que era praticamente impossível entrar na Interpol na hora que quiséssemos.
Só depois das duas da manhã, já bêbado, entramos. Como disse antes, o lugar estava extremamente cheio. Em todos os lugares, corredores, pistas de dança, banheiros, bares, havia filas de gente suada. Começamos a beber caipirinhas e uísque por dois reais. Era para esquecer, brincamos.
Lá dentro, todo momento que olhava para o casal, eles discutiam. Não queria nem saber o motivo, mas via os dois gritando, ele apontava para ela, ela sarcástica, ele olhava para alguém que passava, só para irritá-la, ela saía para o banheiro e não avisava para ele. Decidi dar uma volta para deixá-los mais a vontade.
Fui para o outro lado da boate, fiquei atrás de uma pilastra, onde pude observar, três degraus acima de todos, a pista de dança completamente lotada, e a cabine do dj ao fundo. Por mais que a imagem seja batida, devo admitir que é bastante apropriada, era uma massa de pessoas sem rosto dançando ali, bem abaixo de mim, a poucos metros de onde estava. Uma coleção de corpos pulando ao som, completamente ignorantes do que acontecia ao lado. E eu, algumas vezes que bebo, fico meio triste, meio pensativo, sozinho num canto sem motivo, sem querer encontrar ninguém. Nessa hora, na minha frente exatamente, avistei um grupo de meninas lindas – o tipo que nunca tinha ido a Interpol e se aproveitava do fetiche de último dia . E logo assim que eu reparei nelas, percebi que uma, talvez a mais bonita de todas, me olhava com insistência.
Se por um lado me sentia cheio por saber do interesse de uma das meninas por mim, por outro me achava culpado por não querer aproveitar essa oportunidade. Já não era a primeira vez que isso acontecia. Num grupo de meninas, a que era mais bela de todas sempre olhava para mim com outras intenções. No entanto, nem sempre tinha vontade de ir falar com ela. Sentia que essa facilidade, essa necessidade descartável que algumas meninas têm, de querer alguém aqui, e logo outra pessoa ali, só para não ficarem sozinhas, me tirava a vontade de conhecê-las. Poderia estar fazendo um pré-julgamento, porém na quase totalidade sabia que estava certo.
Eu sei que esse pensamento é apenas uma adaptação do comportamento masculino de décadas. A mulher apenas se aclimatou àquilo que o homem pediu. Essa era uma das causas de querer, quase sempre, ficar sozinho nesses lugares. Observar os tipos, sem nenhuma pressão.
A menina, depois de alguns minutos me observando, na tentativa de demonstrar que estava interessada em mim, mas sem tomar nenhum tipo de atitude em relação a isso, desistiu e foi para outro lugar. Bem provavelmente com o intuito de achar outro alguém.
Algo dentro de mim sentia que eu tinha desperdiçado uma ótima oportunidade de ficar com uma menina linda. E havia um outro pedaço de mim que afirmava que a situação era tão sedutora quanto em um bordel. Não previa nenhuma complicação, e seria uma experiência puramente física. Qual seria a dificuldade, me perguntava. Quantas, iguais a essa, poderia conseguir, caso quisesse? Contudo, o lado que dizia que eu havia desperdiçado mantinha uma voz constante. Mesmo que não fosse a que me comandava naquele momento, ele falava baixinho na minha orelha ‘que desperdício’.
Olhei para o meu relógio e não acreditei quando vi que eram apenas quatro e meia. Fui dar uma volta nos outros ambientes, meio sem motivo, apenas para o tempo passar, e encontrei no caminho o casal de amigos, ainda numa discussão. Ele me chamou para próximo, entretanto falei que ia ao banheiro e escapuli. Em frente ao bar, pude ver uma cena que era exatamente antagônica a que eu havia participado. Um sujeito super malhado, sem camisa, com o corpo brilhando de suor, agarrava a força meninas que passavam na sua frente. Para ele, pensei no momento, a única coisa importante era o contato físico. Agia como que por instinto, sem nenhum tipo de trava, censura ou pensamento, mesmo. O pedaço de mim que repetia ‘desperdício’ observou a cena e apenas sorriu. Sentiu uma certa inveja dele por não ter nada que o impedisse de ser o mais impulsivo possível. Por outro lado, achei toda a cena violenta demais, apesar de perceber algumas meninas mais que interessadas no fortão.
Voltei do banheiro e encontrei o casal separado, ela sentada num banco com a cara amarrada, ele com um copo na mão, observando toda a pista de dança, de costas para ela. Propus irmos embora, e fui atendido de pronto pelos dois, na, talvez, única vez que concordaram em toda a noite. Saímos e fizemos sinal para um táxi parar sem pronunciar nenhuma palavra. Ele entrou no banco da frente, eu e ela no banco de trás. Ficamos sem falar nada até chegar em casa. No entanto, minha cabeça não parou. Queria saber se minha atitude tinha sido a certa ou era apenas um sinal de covardia. A menina, mesmo sendo muito linda, não me atraía em nada. A situação era asséptica, fria, impessoal. Mas o ‘desperdício’ voltara a minha orelha.
Entramos em casa, dei ‘boa noite’ para ambos e fui para o meu quarto. Eles – acredito – foram para o quarto que estava vazio. Coloquei uma música para tocar, deitei na minha cama, apaguei as luzes e fiquei com os olhos abertos, na espera do sono. O álcool mostrou-se eficiente e em poucos instantes já cochilava. Foi quando ouvi pequenas batidas na minha porta. Abri os olhos, meio que assustado, não sabia o que acontecia, e não era algo comum. Sentei na cama e abri a porta. Era ela, a mulher do meu camarada. Com um short e um top colado que deixava metade dos seios à mostra. Ela ficou na minha frente quieta, percebi que ela olhava na minha direção, só que não me enxergava. Parecia que atravessa o meu corpo, o meu quarto e chegava lá na rua. Ela fechou a porta com a mão esquerda e, a esse ato, senti uma resposta imediata do meu corpo. Aquela situação era por demais inesperada para não me excitar. Ela baixou os olhos para o meu rosto, com uma expressão próxima da assustada, querendo esconder os braços que sobravam, com uma necessidade de provocar o mal a alguém, de quebrar algo, de destruir e disse uma única frase: ‘Posso te chupar?’.
Na hora nem percebi muito bem o que aconteceu. Alguém pode estar se perguntando se eu não tive algum tipo de culpa. A resposta é sucinta. Sim, tive. Mas só no dia seguinte. No meu quarto, com a luz apagada, com a respiração dela ofegante, com nossos corpos suados se esfregando, não dava para identificar muito bem o que passava na minha cabeça. Apenas sabia que era algo proibido e isso me dava mais vontade de continuar. Não raciocinava que ela era a mulher do meu amigo, apenas que era alguém impossível, intocável. O que a tornava melhor,
Havia uma confusão no meu pensamento. Culpa, talvez do álcool, talvez de uma embriaguez impulsiva, talvez de alguma necessidade animal. Quando acabamos, ela se levantou e sem dizer mais nenhuma palavra desde que chegara, foi-se embora. Logo voltei a dormir, como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, os dois haviam parado de brigar. Ficaram agarrados durante todo o dia, em frente a televisão, ou quando saímos para almoçar e não perderam uma única oportunidade de se beijarem. Não tenho idéia se ela contou o que aconteceu conosco para ele. Mas, se fosse apostar, diria que não. Ela tratou de uma forma como se não tivesse acontecido. E hoje já começo a duvidar se aquela noite realmente aconteceu da maneira como me lembro ou se foi apenas algum tipo de sonho. Só tenho certeza que no outro dia, não escutei mais a palavra ‘desperdício’ sendo repetida na minha orelha.
Foi naquela noite, a última da boate Interpol, ali em Copacabana. Disseram que iriam fechar para reformas por alguns meses, mas ela não voltou a abrir, até hoje.
Como iam fechar, eles queriam acabar com todo o estoque de bebidas que tinham. Por isso, fizeram uma promoção onde tudo era vendido por dois reais. Doses de uísque, tequilas, caipirinhas. Várias pessoas passaram mal pelos banheiros e até na pista de dança.
Por esses dois motivos, a liquidação das bebidas e o último dia da boate, a Interpol estava absurdamente lotada. A fila de entrada dobrava o quarteirão e ficava na rua transversal. Muita gente chegou cedo, antes das onze horas, e teve que esperar nessa fila. Lá dentro, o ar condicionado não dava vazão para tantas pessoas e o suor corria nas costas, empapando todas as camisas.
Mesmo assim, ou por causa disso, eu fui na despedida da Interpol. Um casal de amigos meus passavam uma temporada na minha casa e os levei juntos. Chegamos também cedo e engrossamos a fila de espera. Ficamos bebendo cerveja, que buscávamos toda a hora, de um boteco de péssima categoria ao lado da boate.
Por mais que os dois estivessem passando férias aqui no Rio, senti desde o início que o clima não era dos mais favoráveis entre eles. Raramente participavam da conversa ao mesmo tempo. E eu tinha que fazer o tipo cicerone, ora com atenção mais focada nele, ora nela.
Próximo de meia-noite, outros amigos chegaram e entraram na fila conosco, o que diluiu o peso que pairava entre nós três. Gente que não via há décadas, outros companheiros de longas datas. Conversávamos animadamente por algumas horas, já que era praticamente impossível entrar na Interpol na hora que quiséssemos.
Só depois das duas da manhã, já bêbado, entramos. Como disse antes, o lugar estava extremamente cheio. Em todos os lugares, corredores, pistas de dança, banheiros, bares, havia filas de gente suada. Começamos a beber caipirinhas e uísque por dois reais. Era para esquecer, brincamos.
Lá dentro, todo momento que olhava para o casal, eles discutiam. Não queria nem saber o motivo, mas via os dois gritando, ele apontava para ela, ela sarcástica, ele olhava para alguém que passava, só para irritá-la, ela saía para o banheiro e não avisava para ele. Decidi dar uma volta para deixá-los mais a vontade.
Fui para o outro lado da boate, fiquei atrás de uma pilastra, onde pude observar, três degraus acima de todos, a pista de dança completamente lotada, e a cabine do dj ao fundo. Por mais que a imagem seja batida, devo admitir que é bastante apropriada, era uma massa de pessoas sem rosto dançando ali, bem abaixo de mim, a poucos metros de onde estava. Uma coleção de corpos pulando ao som, completamente ignorantes do que acontecia ao lado. E eu, algumas vezes que bebo, fico meio triste, meio pensativo, sozinho num canto sem motivo, sem querer encontrar ninguém. Nessa hora, na minha frente exatamente, avistei um grupo de meninas lindas – o tipo que nunca tinha ido a Interpol e se aproveitava do fetiche de último dia . E logo assim que eu reparei nelas, percebi que uma, talvez a mais bonita de todas, me olhava com insistência.
Se por um lado me sentia cheio por saber do interesse de uma das meninas por mim, por outro me achava culpado por não querer aproveitar essa oportunidade. Já não era a primeira vez que isso acontecia. Num grupo de meninas, a que era mais bela de todas sempre olhava para mim com outras intenções. No entanto, nem sempre tinha vontade de ir falar com ela. Sentia que essa facilidade, essa necessidade descartável que algumas meninas têm, de querer alguém aqui, e logo outra pessoa ali, só para não ficarem sozinhas, me tirava a vontade de conhecê-las. Poderia estar fazendo um pré-julgamento, porém na quase totalidade sabia que estava certo.
Eu sei que esse pensamento é apenas uma adaptação do comportamento masculino de décadas. A mulher apenas se aclimatou àquilo que o homem pediu. Essa era uma das causas de querer, quase sempre, ficar sozinho nesses lugares. Observar os tipos, sem nenhuma pressão.
A menina, depois de alguns minutos me observando, na tentativa de demonstrar que estava interessada em mim, mas sem tomar nenhum tipo de atitude em relação a isso, desistiu e foi para outro lugar. Bem provavelmente com o intuito de achar outro alguém.
Algo dentro de mim sentia que eu tinha desperdiçado uma ótima oportunidade de ficar com uma menina linda. E havia um outro pedaço de mim que afirmava que a situação era tão sedutora quanto em um bordel. Não previa nenhuma complicação, e seria uma experiência puramente física. Qual seria a dificuldade, me perguntava. Quantas, iguais a essa, poderia conseguir, caso quisesse? Contudo, o lado que dizia que eu havia desperdiçado mantinha uma voz constante. Mesmo que não fosse a que me comandava naquele momento, ele falava baixinho na minha orelha ‘que desperdício’.
Olhei para o meu relógio e não acreditei quando vi que eram apenas quatro e meia. Fui dar uma volta nos outros ambientes, meio sem motivo, apenas para o tempo passar, e encontrei no caminho o casal de amigos, ainda numa discussão. Ele me chamou para próximo, entretanto falei que ia ao banheiro e escapuli. Em frente ao bar, pude ver uma cena que era exatamente antagônica a que eu havia participado. Um sujeito super malhado, sem camisa, com o corpo brilhando de suor, agarrava a força meninas que passavam na sua frente. Para ele, pensei no momento, a única coisa importante era o contato físico. Agia como que por instinto, sem nenhum tipo de trava, censura ou pensamento, mesmo. O pedaço de mim que repetia ‘desperdício’ observou a cena e apenas sorriu. Sentiu uma certa inveja dele por não ter nada que o impedisse de ser o mais impulsivo possível. Por outro lado, achei toda a cena violenta demais, apesar de perceber algumas meninas mais que interessadas no fortão.
Voltei do banheiro e encontrei o casal separado, ela sentada num banco com a cara amarrada, ele com um copo na mão, observando toda a pista de dança, de costas para ela. Propus irmos embora, e fui atendido de pronto pelos dois, na, talvez, única vez que concordaram em toda a noite. Saímos e fizemos sinal para um táxi parar sem pronunciar nenhuma palavra. Ele entrou no banco da frente, eu e ela no banco de trás. Ficamos sem falar nada até chegar em casa. No entanto, minha cabeça não parou. Queria saber se minha atitude tinha sido a certa ou era apenas um sinal de covardia. A menina, mesmo sendo muito linda, não me atraía em nada. A situação era asséptica, fria, impessoal. Mas o ‘desperdício’ voltara a minha orelha.
Entramos em casa, dei ‘boa noite’ para ambos e fui para o meu quarto. Eles – acredito – foram para o quarto que estava vazio. Coloquei uma música para tocar, deitei na minha cama, apaguei as luzes e fiquei com os olhos abertos, na espera do sono. O álcool mostrou-se eficiente e em poucos instantes já cochilava. Foi quando ouvi pequenas batidas na minha porta. Abri os olhos, meio que assustado, não sabia o que acontecia, e não era algo comum. Sentei na cama e abri a porta. Era ela, a mulher do meu camarada. Com um short e um top colado que deixava metade dos seios à mostra. Ela ficou na minha frente quieta, percebi que ela olhava na minha direção, só que não me enxergava. Parecia que atravessa o meu corpo, o meu quarto e chegava lá na rua. Ela fechou a porta com a mão esquerda e, a esse ato, senti uma resposta imediata do meu corpo. Aquela situação era por demais inesperada para não me excitar. Ela baixou os olhos para o meu rosto, com uma expressão próxima da assustada, querendo esconder os braços que sobravam, com uma necessidade de provocar o mal a alguém, de quebrar algo, de destruir e disse uma única frase: ‘Posso te chupar?’.
Na hora nem percebi muito bem o que aconteceu. Alguém pode estar se perguntando se eu não tive algum tipo de culpa. A resposta é sucinta. Sim, tive. Mas só no dia seguinte. No meu quarto, com a luz apagada, com a respiração dela ofegante, com nossos corpos suados se esfregando, não dava para identificar muito bem o que passava na minha cabeça. Apenas sabia que era algo proibido e isso me dava mais vontade de continuar. Não raciocinava que ela era a mulher do meu amigo, apenas que era alguém impossível, intocável. O que a tornava melhor,
Havia uma confusão no meu pensamento. Culpa, talvez do álcool, talvez de uma embriaguez impulsiva, talvez de alguma necessidade animal. Quando acabamos, ela se levantou e sem dizer mais nenhuma palavra desde que chegara, foi-se embora. Logo voltei a dormir, como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, os dois haviam parado de brigar. Ficaram agarrados durante todo o dia, em frente a televisão, ou quando saímos para almoçar e não perderam uma única oportunidade de se beijarem. Não tenho idéia se ela contou o que aconteceu conosco para ele. Mas, se fosse apostar, diria que não. Ela tratou de uma forma como se não tivesse acontecido. E hoje já começo a duvidar se aquela noite realmente aconteceu da maneira como me lembro ou se foi apenas algum tipo de sonho. Só tenho certeza que no outro dia, não escutei mais a palavra ‘desperdício’ sendo repetida na minha orelha.
segunda-feira, 19 de maio de 2003
Cronistas.
Definir o que é Literatura é excepcionalmente complicado no tal ‘hoje em dia’. Nesses tempos onde os limites ficaram embaçados e não podemos afirmar sem medo do erro onde começa a produção literária e acaba o emaranhado de palavras, umas atrás das outras, sem nenhum valor artístico.
Porém, para surpresa geral, essas definições nunca foram unanimidades. No caso específico da Literatura, para usar um exemplo mais a mão, existe até um ser que é o maior motivo de briga entre duas das facções que sobrevivem de escrever: o cronista.
Desde os tempos mais remotos do jornalismo, esse sujeito existiu, para alegria e/ou desespero de jornalistas e escritores. E existem tantas e tamanhas diferenças entre eles – os cronistas – e elas – as crônicas – que fica difícil enquadra-los num mesmo saco.
Existem aqueles que usam o espaço que o jornal lhes dá para mostrar informações privilegiadas do cenário nacional, mostram pontos-de-vista contraditórios, que marcham contra a maré e etc. Também é confundido, e conhecido, como Articulista.
Outros falam sobre a cidade que os envolve. Falam de cenas insólitas, mas cotidianas, ou versam pela poesia, mas em prosa. Há ainda aqueles que escrevem contos, egotrips, e outros tipos de narração. Definitivamente não há regra que enquadre os cronistas.
Alguns, ou algumas, são mais próximas de jornalistas, enquanto outros poderiam sobreviver só de ficção, se isso fosse possível nesse país. Porém, no fundo, no fundo, acredito mesmo numa mescla entre esses dois seres tão díspares e tão sinônimos.
A capacidade de concisão de um jornalista é quase indispensável para quem quer passar uma informação – mesmo que irrelevante – num espaço pré-determinado. Dentro dos jornais, o cronista só tem aquele espaço e mais nada. De outra forma, deve escrever a crônica em partes, o que pode torna-la quase um folhetim.
Porém, mesmo aqueles mais preocupados com fatos jornalísticos têm a possibilidade de ignorar completamente as regras impostas pelos manuais de redação. Onde diz lead, proibido o uso da primeira pessoa, imparcialidade, essas coisas, ele desfruta de uma liberdade incomparavelmente maior.
A crônica é um híbrido. Que já produziu – ou foi produzido por – gente do quilate de um João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria, Vinícius de Morais e outros. E ainda rende frutos com Luiz Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Élio Gaspari, Clovis Rossi, Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes, Joaquim Ferreira dos Santos, Fritz Utzeri, Arthur Dapieve, Arnaldo Jabor, Walter Salles, Eliana Catanhêda, e muitos outros que, obviamente, esqueci.
Talvez, por uma questão de definição, poderíamos supor que aqueles textos que sobrevivem a temporalidade, independentes de serem mais jornalísticos ou inventivos, são obras de literatura. Ou, podemos sugerir que aqueles que apresentam estilo próprio produzem literatura. São apenas critérios que se movem para melhor adaptar a quem necessita disso.
O mais correto, acredito, é exatamente ignorar as definições duras e ranzinzas que impedem que algo – ou alguém – faça parte de duas categorias ao mesmo tempo. Principalmente quando essas categorias não são antagônicas e utilizam as mesmas ferramentas. Palavras.
Ps. E eu que queria apenas falar sobre um livro do Antônio Maria que li e reli nas últimas semanas...
Definir o que é Literatura é excepcionalmente complicado no tal ‘hoje em dia’. Nesses tempos onde os limites ficaram embaçados e não podemos afirmar sem medo do erro onde começa a produção literária e acaba o emaranhado de palavras, umas atrás das outras, sem nenhum valor artístico.
Porém, para surpresa geral, essas definições nunca foram unanimidades. No caso específico da Literatura, para usar um exemplo mais a mão, existe até um ser que é o maior motivo de briga entre duas das facções que sobrevivem de escrever: o cronista.
Desde os tempos mais remotos do jornalismo, esse sujeito existiu, para alegria e/ou desespero de jornalistas e escritores. E existem tantas e tamanhas diferenças entre eles – os cronistas – e elas – as crônicas – que fica difícil enquadra-los num mesmo saco.
Existem aqueles que usam o espaço que o jornal lhes dá para mostrar informações privilegiadas do cenário nacional, mostram pontos-de-vista contraditórios, que marcham contra a maré e etc. Também é confundido, e conhecido, como Articulista.
Outros falam sobre a cidade que os envolve. Falam de cenas insólitas, mas cotidianas, ou versam pela poesia, mas em prosa. Há ainda aqueles que escrevem contos, egotrips, e outros tipos de narração. Definitivamente não há regra que enquadre os cronistas.
Alguns, ou algumas, são mais próximas de jornalistas, enquanto outros poderiam sobreviver só de ficção, se isso fosse possível nesse país. Porém, no fundo, no fundo, acredito mesmo numa mescla entre esses dois seres tão díspares e tão sinônimos.
A capacidade de concisão de um jornalista é quase indispensável para quem quer passar uma informação – mesmo que irrelevante – num espaço pré-determinado. Dentro dos jornais, o cronista só tem aquele espaço e mais nada. De outra forma, deve escrever a crônica em partes, o que pode torna-la quase um folhetim.
Porém, mesmo aqueles mais preocupados com fatos jornalísticos têm a possibilidade de ignorar completamente as regras impostas pelos manuais de redação. Onde diz lead, proibido o uso da primeira pessoa, imparcialidade, essas coisas, ele desfruta de uma liberdade incomparavelmente maior.
A crônica é um híbrido. Que já produziu – ou foi produzido por – gente do quilate de um João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria, Vinícius de Morais e outros. E ainda rende frutos com Luiz Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Élio Gaspari, Clovis Rossi, Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes, Joaquim Ferreira dos Santos, Fritz Utzeri, Arthur Dapieve, Arnaldo Jabor, Walter Salles, Eliana Catanhêda, e muitos outros que, obviamente, esqueci.
Talvez, por uma questão de definição, poderíamos supor que aqueles textos que sobrevivem a temporalidade, independentes de serem mais jornalísticos ou inventivos, são obras de literatura. Ou, podemos sugerir que aqueles que apresentam estilo próprio produzem literatura. São apenas critérios que se movem para melhor adaptar a quem necessita disso.
O mais correto, acredito, é exatamente ignorar as definições duras e ranzinzas que impedem que algo – ou alguém – faça parte de duas categorias ao mesmo tempo. Principalmente quando essas categorias não são antagônicas e utilizam as mesmas ferramentas. Palavras.
Ps. E eu que queria apenas falar sobre um livro do Antônio Maria que li e reli nas últimas semanas...
traição
Faz dez anos. E só por isso já há duas coisas que povoam a minha cabeça. Primeiro a idéia de que as cenas ainda estão excepcionalmente recentes. Cores, posições, traços, tudo tem o seu lugar dentro de mim. Nem sei se o que me lembro é a verdade absoluta, pois não tenho o distanciamento pessoal mínimo exigido, mas a riqueza de imagens, tantas e tão boas, fazem-me crer que é bem provável que aquilo mesmo aconteceu. Não teria tamanha imaginação.
A outra é uma questão. Aonde foi parar aquele menino cheio de coragem e curiosidade? Lembro dele, mas ele é outra pessoa hoje em dia, muito distante daquele. Ele não existe mais, serve-me apenas como personagem.
Tinha doze anos, idade que sabemos tão pouco de tudo que ainda esquecemos por vezes de sermos falsos, e tinha uma namorada, que ganhara com sorte, numa daquelas oportunidades semelhantes a apostas em cavalos azarões e que ele se mostra vencedor, para surpresa de todos, principalmente do leigo que apostou nele. É, eu sei, sempre fui meio precoce.
Namorava como por esporte de entretenimento, para ocupar espaço na minha estante temporal. E, depois de um tempo, já estava enjoado do cotidiano da relação, se é que posso usar tal expressão para uma vida tão jovem. Nessa época, houve uma festa onde a minha namorada não iria.
O lugar tinha tão poucas pessoas que era possível conversar com todas ao mesmo tempo. E estava absurdamente maçante. Sentar numa cadeira e olhar a paisagem era o meio mais aconselhável de se divertir. No entanto, uma das convidadas era uma menina loirinha da minha idade que eu conhecia há pouco tempo, e que sabia, tinha um certo interesse por mim.
Tinha doze anos e com doze anos, não temos nenhuma noção das conseqüências de nossas atitudes. Pedi para um amigo meu, primo da lourinha, ir falar com ela. O que mais queria era experimentar a sensação de trair. Saber se sentiria alguma culpa, ou apenas se me tornaria vitorioso. O que aconteceria de diferente comigo ao cometer um dos pecados na vida cotidiana, e um dom dos galãs da tv.
Ele demorou horas na conversa. Na época estava com o braço quebrado e tomava água mineral apoiado numa pilastra, em copo de plástico. Quando ele saiu, fez sinal para mim que deveria entrar. Ela estava de costas para mim, colada na pia da cozinha, com sua blusa branca de um tecido leve. Segurava um outro copo de plástico e o rasgava em tiras finas. E tremia. Seus braços, seus ombros, o corpo inteiro chacoalhava levemente num nervosismo impossível de se esconder.
Oi. Eu disse quando me aproximei. Ela não respondeu. Estaria estática, caso não se mexesse tanto por causa da intranqüilidade. Tentei puxar do fundo da minha alma alguma coisa que a acalmasse, mas acredito que nessas horas a experiência é essencial. Realmente algo que não tenho, até hoje. Resolvi, então, ser pelo menos direto, para que o sofrimento acabasse logo. Perguntei, da maneira mais clássica, e indelicada, se ela queria ficar comigo. “E sua namorada?”, foi a resposta dela que ouvi. Ela sabia da minha namorada, e eu não tinha pensado que essa hipótese houvesse. Fui pego de surpresa. “Estamos mal. Amanhã, vou acabar tudo”. Pareceu que ela se confortou um pouco, pois levantou os olhos pela primeira vez e procurou os meus. Ou apenas queria saber se o que dizia era a verdade ou se eu a estava enganando. Não sei ao certo, até hoje, qual foi a minha intenção real. Talvez fosse apenas isso, dar um conforto para ela, naquele momento. Peguei o copo de plástico das mãos dela e, num gesto altamente latino, a beijei.
Em poucos segundos, percebi que tinha sido a maior furada que tinha me metido em toda a minha vida, até aquele momento. Não por causa da traição, a idéia ainda nem passava na minha cabeça, mas porque ficar com a menina era, da mesma forma como ficar na festa, muito monótono. Fomos para o lado das pilastras e só torcia para que aquele sofrimento acabasse logo. Da mesma maneira como ela estava antes, me sentia deveras desconfortável. Descobri anos depois, que fui o primeiro menino que ela beijou e isso fez esquecer todo o enfado do momento e acrescentou uma pitada a mais de santidade naquela noite.
II
No outro dia, no clube, onde encontrava religiosamente a minha namorada, me sentia um homem quase completo. Já tinha até traído. Passara a noite empolgado com a novidade, ávido para contar para alguns amigos meus e me transformar numa espécie de desbravador. Seria uma referência, o experiente do grupo, aquele que todos procurariam caso precisassem saber como deveriam se portar diante das adversidades da vida.
Encontrei um camarada meu que crescera comigo e detalhei, até à invenção, o que tinha feito. Ele me olhava com uma certa inveja, podia perceber. Sentia-se como uma virgem ao lhe contarem como é na prática o sexo. Eu falava para ele de um mundo que ele não conhecia e só eu tinha estado lá. Despedimo-nos e a sensação de bem-estar, de autoconfiança, me fez procurar o primo desse meu camarada. Também meu amigo, contudo um pouco mais distante. As feições de apalermado se repetiram. Procurei outro amigo, ainda mais distante para contar novamente e sentir, mais uma vez, a sensação de estar por cima da situação. Já me sentia líder de um clã, com uma legião de seguidores, eu estava a frente deles, era visível. Contei a história para mais um colega. Não o conhecia há muito, menos de um ano, mas pensei que poderia confiar nele, como acontecera com os outros. E ele reagiu de maneira bem semelhante aos outros, na minha frente.
A noite engoliu a tarde e era a hora de encontrar a minha namorada. Fui para o lugar de sempre. No caminho, entretanto, a avistei de cabeça baixa, apoiada em uma de suas amigas. Achei estranho, mas pensei que poderia ser alguma coisa que eu pudesse ajudar e me aproximei ainda mais depressa. Ela passou direto por mim, com o rosto desfigurado pelo choro convulsivo. Eu era o culpado, percebi ali.
Com o braço quebrado, fiquei fora do treino de natação. Olhava para todo mundo dentro d’água, dando braçadas e mais braçadas, e voltava a cabeça para o final do parque aquático, onde a minha namorada estava com a amiga, com choro e mais choro. Pela primeira vez senti que tinha estragado alguma coisa bonita.
Certo momento, um outro amigo, o único que conversei que era mais velho, parou ao meu lado e contei toda a história, sem literatices e com o adendo mais recente. Contava tudo como num descarrego, sendo o mais sincero que poderia ser, retirando todo o peso das minhas costas e a vi passando, minha namorada passou no exato momento por nós. Num ímpeto de coragem que eu não tenho idéia até hoje de onde veio, gritei seu nome. Ela parou e me olhou de longe. O rosto inteiro vermelho, os ombros mortos, os olhos caídos. Pedi para que ela viesse até onde eu estava. Sua amiga a soltou e ela andou cambaleante. O caminho era curto, mas sentia todo o seu peso tocando no chão a cada passo. Meu amigo mais velho se levantou e nos deixou sozinhos. Ela sentou ao meu lado e não sabia nem por onde começar. Não tinha tomado decisão nenhuma até aquele momento e não suspeitava do porquê a tinha chamado para conversar. Na maior frieza, no maior distanciamento, na maior cara-de-pau, como se não fosse o meu destino que estivesse sendo decidido, eu perguntei para ela o motivo dela estar chorando. Engasgando, entrecortado por soluços involuntários, ela me respondeu que haviam contado para ela que eu a havia traído. Fiz cara de indignado e neguei toda a história com a maior veemência que se pode fazer com palavras. Tinha ido, sim, para a festa, mas nunca faria algo dessa natureza com ela. Em seguida perguntei gaguejando quem tinha inventado tal história sórdida. Queria saber quem tinha sido o delator, o Judas, o filho da puta. Ela me contou que tinha sido o último camarada que contara a história. Eu falei com ele, ele se levantou e correu atrás dela para me alcagüetar.
Falei com tanta vontade, com tanta certeza do que eu estava dizendo, que ela parecia realmente ter acreditado em mim. Tinha parado de chorar, de tremer e levantara os olhos para mim. Parecia, por ironia, as atitudes da menina do dia anterior. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu não pensava nela, mas na apunhalada que tinha tomado. Na decepção de ter confiado em alguém e esse alguém ter preferido o cortejo à amizade. Ela me olhava com olhos de “está bem, agora só me leva para casa. Já confio em você novamente, vamos esquecer tudo e começar mais uma vez”. Foram poucos segundos, mas como todos os instantes decisivos, o tempo se flexibilizou. “Nós temos que terminar”, comecei outra frase. Os olhos dela se encheram d’água no exato momento posterior. Não tinha motivo e não tinha cabeça para inventar algum, então não dei motivo. Disse apenas que deveríamos terminar e ela voltou a chorar. No início, apenas lágrimas rolavam, mas logo o rosto inteiro ficou molhado e vermelho. “Podemos ser amigos, a partir de agora”, e me levantei.
Sentia-me ainda mais traído que ela. Tinha, por certo, mais experiência em amizades que em namoros. Não entendia a atitude do garoto. Em nenhum momento suspeitei que alguém pudesse fazer algo parecido. Foi quando senti o peso da culpa pelo que tinha feito. E, quanto mais eu pensava no assunto, percebia o quanto canalha tinha sido, e quanto tinha piorado todas as coisas mentindo ao final para ela. Para piorar, a amiga da minha, agora, ex-namorada, veio falar comigo depois. Veio me parabenizar pela minha atitude corajosa ao enfrentar a situação. Tinha sido um calhorda e ainda recebia elogios por isso. Minha cabeça dava nós.
Fui para casa com uma preocupação incomum para alguém da minha idade. Entretanto, exatamente como um comportamento comum de alguém de doze anos, em pouco tempo já achava a história parte de um passado muito anterior. Hoje já acho engraçada. Acho que até tem uma moral implícita, uma dica de comportamento. Algo como: seja canalha até não agüentar mais, e receba congratulações por isso. Sei que é uma piada. Mas também, uma prova de que uma história pode ser contada de maneiras completamente antagônicas. Tornando uma história de crianças, por exemplo, em um drama.
Faz dez anos. E só por isso já há duas coisas que povoam a minha cabeça. Primeiro a idéia de que as cenas ainda estão excepcionalmente recentes. Cores, posições, traços, tudo tem o seu lugar dentro de mim. Nem sei se o que me lembro é a verdade absoluta, pois não tenho o distanciamento pessoal mínimo exigido, mas a riqueza de imagens, tantas e tão boas, fazem-me crer que é bem provável que aquilo mesmo aconteceu. Não teria tamanha imaginação.
A outra é uma questão. Aonde foi parar aquele menino cheio de coragem e curiosidade? Lembro dele, mas ele é outra pessoa hoje em dia, muito distante daquele. Ele não existe mais, serve-me apenas como personagem.
Tinha doze anos, idade que sabemos tão pouco de tudo que ainda esquecemos por vezes de sermos falsos, e tinha uma namorada, que ganhara com sorte, numa daquelas oportunidades semelhantes a apostas em cavalos azarões e que ele se mostra vencedor, para surpresa de todos, principalmente do leigo que apostou nele. É, eu sei, sempre fui meio precoce.
Namorava como por esporte de entretenimento, para ocupar espaço na minha estante temporal. E, depois de um tempo, já estava enjoado do cotidiano da relação, se é que posso usar tal expressão para uma vida tão jovem. Nessa época, houve uma festa onde a minha namorada não iria.
O lugar tinha tão poucas pessoas que era possível conversar com todas ao mesmo tempo. E estava absurdamente maçante. Sentar numa cadeira e olhar a paisagem era o meio mais aconselhável de se divertir. No entanto, uma das convidadas era uma menina loirinha da minha idade que eu conhecia há pouco tempo, e que sabia, tinha um certo interesse por mim.
Tinha doze anos e com doze anos, não temos nenhuma noção das conseqüências de nossas atitudes. Pedi para um amigo meu, primo da lourinha, ir falar com ela. O que mais queria era experimentar a sensação de trair. Saber se sentiria alguma culpa, ou apenas se me tornaria vitorioso. O que aconteceria de diferente comigo ao cometer um dos pecados na vida cotidiana, e um dom dos galãs da tv.
Ele demorou horas na conversa. Na época estava com o braço quebrado e tomava água mineral apoiado numa pilastra, em copo de plástico. Quando ele saiu, fez sinal para mim que deveria entrar. Ela estava de costas para mim, colada na pia da cozinha, com sua blusa branca de um tecido leve. Segurava um outro copo de plástico e o rasgava em tiras finas. E tremia. Seus braços, seus ombros, o corpo inteiro chacoalhava levemente num nervosismo impossível de se esconder.
Oi. Eu disse quando me aproximei. Ela não respondeu. Estaria estática, caso não se mexesse tanto por causa da intranqüilidade. Tentei puxar do fundo da minha alma alguma coisa que a acalmasse, mas acredito que nessas horas a experiência é essencial. Realmente algo que não tenho, até hoje. Resolvi, então, ser pelo menos direto, para que o sofrimento acabasse logo. Perguntei, da maneira mais clássica, e indelicada, se ela queria ficar comigo. “E sua namorada?”, foi a resposta dela que ouvi. Ela sabia da minha namorada, e eu não tinha pensado que essa hipótese houvesse. Fui pego de surpresa. “Estamos mal. Amanhã, vou acabar tudo”. Pareceu que ela se confortou um pouco, pois levantou os olhos pela primeira vez e procurou os meus. Ou apenas queria saber se o que dizia era a verdade ou se eu a estava enganando. Não sei ao certo, até hoje, qual foi a minha intenção real. Talvez fosse apenas isso, dar um conforto para ela, naquele momento. Peguei o copo de plástico das mãos dela e, num gesto altamente latino, a beijei.
Em poucos segundos, percebi que tinha sido a maior furada que tinha me metido em toda a minha vida, até aquele momento. Não por causa da traição, a idéia ainda nem passava na minha cabeça, mas porque ficar com a menina era, da mesma forma como ficar na festa, muito monótono. Fomos para o lado das pilastras e só torcia para que aquele sofrimento acabasse logo. Da mesma maneira como ela estava antes, me sentia deveras desconfortável. Descobri anos depois, que fui o primeiro menino que ela beijou e isso fez esquecer todo o enfado do momento e acrescentou uma pitada a mais de santidade naquela noite.
II
No outro dia, no clube, onde encontrava religiosamente a minha namorada, me sentia um homem quase completo. Já tinha até traído. Passara a noite empolgado com a novidade, ávido para contar para alguns amigos meus e me transformar numa espécie de desbravador. Seria uma referência, o experiente do grupo, aquele que todos procurariam caso precisassem saber como deveriam se portar diante das adversidades da vida.
Encontrei um camarada meu que crescera comigo e detalhei, até à invenção, o que tinha feito. Ele me olhava com uma certa inveja, podia perceber. Sentia-se como uma virgem ao lhe contarem como é na prática o sexo. Eu falava para ele de um mundo que ele não conhecia e só eu tinha estado lá. Despedimo-nos e a sensação de bem-estar, de autoconfiança, me fez procurar o primo desse meu camarada. Também meu amigo, contudo um pouco mais distante. As feições de apalermado se repetiram. Procurei outro amigo, ainda mais distante para contar novamente e sentir, mais uma vez, a sensação de estar por cima da situação. Já me sentia líder de um clã, com uma legião de seguidores, eu estava a frente deles, era visível. Contei a história para mais um colega. Não o conhecia há muito, menos de um ano, mas pensei que poderia confiar nele, como acontecera com os outros. E ele reagiu de maneira bem semelhante aos outros, na minha frente.
A noite engoliu a tarde e era a hora de encontrar a minha namorada. Fui para o lugar de sempre. No caminho, entretanto, a avistei de cabeça baixa, apoiada em uma de suas amigas. Achei estranho, mas pensei que poderia ser alguma coisa que eu pudesse ajudar e me aproximei ainda mais depressa. Ela passou direto por mim, com o rosto desfigurado pelo choro convulsivo. Eu era o culpado, percebi ali.
Com o braço quebrado, fiquei fora do treino de natação. Olhava para todo mundo dentro d’água, dando braçadas e mais braçadas, e voltava a cabeça para o final do parque aquático, onde a minha namorada estava com a amiga, com choro e mais choro. Pela primeira vez senti que tinha estragado alguma coisa bonita.
Certo momento, um outro amigo, o único que conversei que era mais velho, parou ao meu lado e contei toda a história, sem literatices e com o adendo mais recente. Contava tudo como num descarrego, sendo o mais sincero que poderia ser, retirando todo o peso das minhas costas e a vi passando, minha namorada passou no exato momento por nós. Num ímpeto de coragem que eu não tenho idéia até hoje de onde veio, gritei seu nome. Ela parou e me olhou de longe. O rosto inteiro vermelho, os ombros mortos, os olhos caídos. Pedi para que ela viesse até onde eu estava. Sua amiga a soltou e ela andou cambaleante. O caminho era curto, mas sentia todo o seu peso tocando no chão a cada passo. Meu amigo mais velho se levantou e nos deixou sozinhos. Ela sentou ao meu lado e não sabia nem por onde começar. Não tinha tomado decisão nenhuma até aquele momento e não suspeitava do porquê a tinha chamado para conversar. Na maior frieza, no maior distanciamento, na maior cara-de-pau, como se não fosse o meu destino que estivesse sendo decidido, eu perguntei para ela o motivo dela estar chorando. Engasgando, entrecortado por soluços involuntários, ela me respondeu que haviam contado para ela que eu a havia traído. Fiz cara de indignado e neguei toda a história com a maior veemência que se pode fazer com palavras. Tinha ido, sim, para a festa, mas nunca faria algo dessa natureza com ela. Em seguida perguntei gaguejando quem tinha inventado tal história sórdida. Queria saber quem tinha sido o delator, o Judas, o filho da puta. Ela me contou que tinha sido o último camarada que contara a história. Eu falei com ele, ele se levantou e correu atrás dela para me alcagüetar.
Falei com tanta vontade, com tanta certeza do que eu estava dizendo, que ela parecia realmente ter acreditado em mim. Tinha parado de chorar, de tremer e levantara os olhos para mim. Parecia, por ironia, as atitudes da menina do dia anterior. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu não pensava nela, mas na apunhalada que tinha tomado. Na decepção de ter confiado em alguém e esse alguém ter preferido o cortejo à amizade. Ela me olhava com olhos de “está bem, agora só me leva para casa. Já confio em você novamente, vamos esquecer tudo e começar mais uma vez”. Foram poucos segundos, mas como todos os instantes decisivos, o tempo se flexibilizou. “Nós temos que terminar”, comecei outra frase. Os olhos dela se encheram d’água no exato momento posterior. Não tinha motivo e não tinha cabeça para inventar algum, então não dei motivo. Disse apenas que deveríamos terminar e ela voltou a chorar. No início, apenas lágrimas rolavam, mas logo o rosto inteiro ficou molhado e vermelho. “Podemos ser amigos, a partir de agora”, e me levantei.
Sentia-me ainda mais traído que ela. Tinha, por certo, mais experiência em amizades que em namoros. Não entendia a atitude do garoto. Em nenhum momento suspeitei que alguém pudesse fazer algo parecido. Foi quando senti o peso da culpa pelo que tinha feito. E, quanto mais eu pensava no assunto, percebia o quanto canalha tinha sido, e quanto tinha piorado todas as coisas mentindo ao final para ela. Para piorar, a amiga da minha, agora, ex-namorada, veio falar comigo depois. Veio me parabenizar pela minha atitude corajosa ao enfrentar a situação. Tinha sido um calhorda e ainda recebia elogios por isso. Minha cabeça dava nós.
Fui para casa com uma preocupação incomum para alguém da minha idade. Entretanto, exatamente como um comportamento comum de alguém de doze anos, em pouco tempo já achava a história parte de um passado muito anterior. Hoje já acho engraçada. Acho que até tem uma moral implícita, uma dica de comportamento. Algo como: seja canalha até não agüentar mais, e receba congratulações por isso. Sei que é uma piada. Mas também, uma prova de que uma história pode ser contada de maneiras completamente antagônicas. Tornando uma história de crianças, por exemplo, em um drama.
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