segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alho e cebola

Em certo momento de "Estômago", de Marcos Jorge, o personagem Raymundo Nonato (João Miguel), na cadeia, diz para o dono do pedaço que basta trazer alho, cebola, pimenta do reino e um pouco de alecrim para resolver qualquer tipo de prato, não importava qual.

Ao sair, fiquei pensando que, antes de serem condimentos ou ingredientes, o alho e a cebola, principalmente, são condições para se cozinhar no Ocidente. Praticamente não há um prato em que, pelo menos um deles, não se encontra escondido ou à mostra. Você pode ter preferências, ou não gostar de um deles, mas é improvável que, morando da Europa para cá, não tenha comido, na vida, uma vez, pelo menos, os dois.

Com essa, me despeço por um mês, quando vou provar as variações peruanas e colombianas dos ingredientes.

domingo, 27 de abril de 2008

O efeito "maneiro"

Seguindo a linha do texto anterior, e cortando uma bola já levantada, vou iniciar com um lugar-comum, só para esquentar: o que seria arte, em qualquer formato? Respondo, sem rodeios, hoje em dia, é aquilo que, ao ver / ouvir / ter acesso o interlocutor tem que falar "maneiro". O que é algo "maneiro"? Não sei, mas a impressão, a sensação, o que a arte transmite, ou deveria transmitir, é exatamente essa. De algo "maneiro".

É fútil, é bobo, simplista e infantil. Exatamente como a nossa época.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

As coisas simples

(Vou começar esse texto com uma frase bem clichê, mas que, com o decorrer, vai ter o seu motivo desvendado) Para que serve a arte e a literatura? Vários filósofos já discutiram esta razão, e obviamente não há uma conclusão universal. Há várias possibilidades, tantas que você pode se agarrar a uma para chamar de sua.

Como sempre cito Schopenhauer (aliás sonhei que haveria uma série de TV ambientada numa escola para criança chamada "Schopenhauer". Que viagem), farei dele a idéia que permeia esse texto. Muito resumidamente e numa interpretação pra lá de pessoal, arte (literatura, música, pintura...) seria a única coisa importante do mundo. O motivo pelo qual vivemos, já que não haveria nenhuma outra razão - não à toa chamam o alemão nascido no território da atual Polônia de pessimista.

A arte seria a maneira genuína de ligar nossa intuição e ativar nossa emoção. Viver para a arte e pela arte, portanto, seria o único modo de encarar a vida. Enfim.

Entretanto, temos outro problema, e outra pergunta clichê: o que seria arte, então? Seguindo o raciocínio de Schopenhauer, aquilo que nos desperta a intuição e ativa a nossa emoção. Pode-se perceber, contudo, que esse processo não é algo comum a todas as pessoas. Cada um tem o, digamos, botão em um diferente lugar. Portanto, não há como fazer um grande índex do que seria a arte - mesmo porque em um centésimo já ficaria defasado.

Isso tudo para dizer que estou lendo e adorando Dashiell Hamett, um clássico menor. Ou seja, uma arte considerada de "segundo escalão". Ele não faz parte dos norte-americanos da geração perdida, apesar de retratar o lado B dessa mesma época, não foi beatnik nem lembrado por essa galera, mesmo tendo antecedido muito da parte biográfica e do "live and let die" de Kerouac e cia., e fazia literatura, literalmente, barata.

Escrevia para revistas impressas em papel de péssima qualidade, as pulp fictions imortalizadas por outro rei do lado b, Quentin Tarantino, sobre detetives - basicamente - assassinatos e o submundo em geral. Criou a figura do detetive soturno, de capa de chuva e chapéu para se esconder, sempre com um cigarro na boca e andando pelas sombras. Daí um apelido dessa literatura: noir (já comentado no post anterior).

Ele não aborda o drama da existência humana, como os russos fazem, não passa horas tratando de uma decisão de vida ou morte, não há dramas de consciência. Ele é ágil, prático, mordaz, irônico, perfurocortante. Seu texto é tão planejado que chega a ser uma obra de engenharia, um cálculo matemático.

No fundo, a questão continua a mesma. Dashiell Hamett faz, claramente, parte do grupo "literatura de trama" (em oposição à de "personagem"), apesar de ter repetido seus protagonistas em mais de uma história. Sabe como é, ele ganhava por palavra escrita.

Mas é aí que mora a minha diversão. É aqui que eu falo "maneiro" (maior indicativo do que é obra de arte, nos dias de hoje. Mas isso é papo para outro post). A arte, às vezes, está nas coisas mais simples.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O meio é a mensagem

O filme noir (preto em francês) é chamado assim pelas sombras e contrastes exagerados, oriundos do expressionismo alemão da década de 1920. Por sua vez, a literatura noir, que recebeu esse nome por causa dos filmes e de uma série de livros de uma editora francesa.

Já a letteratura gialla (literatura amarela, em italiano), tem essa alcunha porque era impresso com capa... amarela.

Já "pulp fiction" porque utilizavam a polpa da celulose, mais barata, para imprimir os livros e revistas, geralmente cheios de violência e estilo. Curiosamente Dashiell Hammet é conhecido pelos seus livros de pulp fiction e noir. Mas, principalmente, pelo hard boiled, algo como "muito cozido".

Ah, as metáforas.