quinta-feira, 27 de abril de 2006

Será (2)?

"(...) o leitor é, em geral, bastante idiota. Mesmo os mais esclarecidos dentre eles. Há uma tendência, em nosso tempo, de seguir uma moda. Por conseqüência, os gostos se parecem tanto quanto os maus-gostos. Tudo é padronizado e planificado. Dificilmente o leitor foge da opinião mais comum. Aliás, a própria idéia do leitor como uma entidade digna de defesa é monstruosa em sua concepção, porque nivela a todos de acordo com parâmetros discutíveis do que é leitura aceitável ou não."

Linguagem padronizada

Mas há diversas outras dificuldades (antes de se publicar), como o preconceito dos leitores com a literatura brasileira, acostumados que estão com as obras traduzidas, transcritas numa linguagem padronizada, que suprime grande parte do estilo do autor. Daí, quando abrem um Machado, um Graciliano, um João Antônio e se deparam com uma língua diferente a cada autor, se desesperam, não se adaptam e saem pelos salões dizendo que o autor brasileiro não presta, não sabe escrever. Na verdade, é o leitor que não sabe ler. Ignora que existem estilos, formas, estéticas, modelos, variações, procedimentos, e que a língua da tradução é só uma escolha, a mais fiel à gramática talvez, e que os autores vernáculos violam isso de propósito, pois imprimem aos seus livros seu estilo, sua pessoa, pois, afinal de contas, o estilo é o homem, o que o artista é e como vê o mundo. Cada autor brasileiro é uma modalidade nova do português, com a qual o leitor, se competente, deve saber lidar. E devemos seguir o ensinamento de Giacinto Scelci: “Não diminuir o significado do que não se compreende”. "
Será?

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Não sou a favor, mas não há como conter o avanço do internetiquês.


"TC

Às vezes, o etimologista doido assume as rédeas. Sendo doido, acredita que o verbo adolescente-internético TC – ou tc, abreviação de “teclar” – tem alguma coisa a ver com o vernacular e nobre “tecer”, entrelaçar fios para formar tecidos. Hein? É que, nos momentos em que é mais etimologista do que doido, o etimologista doido sabe que “tecer” e “texto” têm o mesmo ancestral, o latim texere. Pois então: se o texto é um tecido, uma tessitura (e é mesmo), o TC que muita gente considera bárbaro, inculto e até ameaçador à ordem lingüística constituída ganha uma beleza clássica que deixa o etimologista doido com lágrimas nos olhos. O médico mandou não contrariá-lo."
Quanto tempo vai demorar para isso acontecer aqui no Brasil?

"Agências recrutam blogs para jornais

Sete jornais norte-americanos de médio e grande porte estão testando um serviço que permitirá incorporar os weblogs à sua cobertura diária numa ação que está sendo vista por muitos como um provável novo foco de atritos entre os sindicatos de jornalistas, empresas e blogueiro independentes.
O serviço chamado BlugBurst é, na verdade, uma versão online das agências que comercializam artigos, fotos, desenhos ou vídeos de profissionais autônomos. "
Gilberto Scofield é um dos mais produtivos repórteres d'O Globo. Não sem motivo é o correspondente do jornal na China. Produz sempre matérias para o impresso e, quase que diariamente, posta comentários superelucidativos sobre a sociedade oriental, em geral, e chinesa em particular. Hoje, o post é sobre a vida sexual dos conterrâneos de Sun Tzu (como pode se perceber, meu conhecimento sobre o povo chinês é mínimo). Vale copiar o último parágrafo - que é muito engraçado.

"A Cupido (agência de casamento que preza a abstinência sexual) gosta de citar como exemplo o caso de Wang Li, 29 anos, filho de uma família rica do interior da China que acaba de conquistar uma noiva através da agência. Wang agora está casado depois de anos procurando uma esposa e se diz plenamente satisfeito com sua falta de vida sexual. Com um detalhe: Wang possui o que os médicos chamam de micropênis (o nome explica tudo). Não foi divulgada a opinião da esposa".

terça-feira, 25 de abril de 2006

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Este é o momento apropriado para usar a expressão "pano para manga". Segura a tréplica. (Se quiser a senha, basta mandar email pedindo)

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Inseguranças cruéis

A única coisa que me deixaria na dúvida sobre ir ou não ir no próximo show do Chico, seria o do Radiohead. Hum... Acho que eu ficaria com o Chico.

O motivo, se necessário, é único: Chico é mais velho, logo mais propenso a morrer.

No fim das contas, é provável que aconteça o que já aconteceu quando vi pela única vez o Veríssimo. Nada demais. Apenas percebi que ele, realmente, existia.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Santa paciência

Sexta-feira da paixão foi ou não foi brasileiríssimo? Sem ordem: "Árido Movie" nas telonas, "Cidadania no Brasil" no papel, um documentário sobre a arte brasileira ao longo dos séculos, um CD de MP3 com a discografia do Chico...
Uma pergunta para o novo milênio:

Como se malha o Judas após o revisionimo Histórico?
Quem te viu, quem te vê:

"Trecho do Jornal O Estado de São Paulo de 9 de Junho de 1993:
(...)PT mostra na Câmara documentário da TV inglesa sobre a Globo (Brasília, 9/6/93). A fita de vídeo "Brasil: Além do Cidadão Kane", documentário produzido pela televisão inglesa "Channel Four" sobre a Rede Globo, foi exibida hoje no espaço cultural da Câmara dos Deputados para uma platéia formada por políticos e jornalistas. A sessão foi promovida pelo PT e o deputado Luiz Gushiken (PT-SP), que conseguiu a fita na Inglaterra e encaminhou hoje uma cópia do programa para a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara. Com base no documentário, que denuncia as ligações da Globo com os militares, Gushiken vai encaminhar uma representação à Procuradoria-Geral da República para que a emissora do empresário Roberto Marinho seja enquadrada no artigo 220 da Constituição, por formação de monopólio e oligopólio.(..)"

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Brincadeira de criança

Sábado passado fui a Niterói a fim de ver a exposição "Mirabolante Miró" no MAC (Museu de Arte Contemporânea). Ao contrário do que se pode imaginar, o meu conhecimento do artista catalão é o mesmo que tenho sobre física quântica. Ou seja, próximo do nada. Sabia que Juan Miró gosta das cores primárias e secundárias, linhas grossas e pretas e das abstrações. Em resumo: tudo o que qualquer leigo poderia saber se já tivesse observado qualquer de seus trabalhos. Fui, então, ao "Museu do Niemeyer" – como uma amiga minha o chama – armado apenas com meu pré-conceito e da curiosidade de conhecê-lo mais.

Na porta, dezenas de pessoas lotavam os corredores para os salões de exposição. Estávamos em um grupo de sete pessoas que poderia ser dividido em: aqueles que não entendiam nada de Miró e aquelas que achavam suas telas "alegres". Nem é preciso dizer a que grupo eu pertencia. Na primeira parede, uma coleção de gravuras originais da mesma fôrma, apenas pintadas de maneiras diferentes. Digo isso assim, rápido, mas para descobrir que todas faziam parte de uma mesma série demorou bastante e contou com a ajuda de uma voluntária da exposição. Fiquei algo em torno de 15, 20 minutos nas duas primeiras obras, tentando enxergar algum nexo entre ambas, um significado escondido, algo que não se encontraria à primeira-vista. Em vão. Amigos meus passavam por mim e diziam: "olhe ali um coração"; "está vendo aquela cabeça de menino?". E eu pensando que não se deveria perder tempo tentando achar forma onde nunca houve intenção de criar forma.

Minha paciência resistiu até a segunda parede. Olhava para aquelas telas e imaginava que meu sobrinho de sete anos poderia fazer o mesmo. Não via significado, razão, quiçá necessidade de estarmos ali, parados em frente a telas que nada tinham de extraordinárias, além de terem sido consagradas pela crítica especializada. Imaginei que eu era um completo imbecil (não acho que errei muito) por não entendê-lo e fui sentar num banco.

Foi então que, com a energia que lhe é peculiar, R. veio me dizer que eu é que estava tentando achar linearidade onde não havia. Eu é que procurava uma explicação fácil, um rosto escondido, uma cena camuflada, um sentido para toda aquela miscelânea quando na verdade eu necessitava apenas era encará-las sem idéias pré-concebidas. Olhar para uma tela de Miró não é assistir a um filme, ler um livro, olhar para uma tela de (vá lá) Picasso. O catalão propõe que a arte seja compartilhada por aquele que a vê também. É necessário entrar no jogo para poder enxergar. Entender cada uma das gravuras como poemas isolados. Ao invés de pensar que era um trabalho de criança, usar os olhos de uma criança, livre de preconceitos.

Aceitei o jogo. Admito que não foi fácil. Ao me levantar, as telas ainda pareciam reuniões aleatórias de traços grossos com tinta preta e pontos de azul, amarelo, verde e vermelho. Saímos do primeiro andar, subimos as escadas e então aconteceu algo estranho. Sem querer exagerar, uma espécie de epifania. De longe, observava os traços de Miró e eles formavam imagens para mim. Um era uma vaca, outro um marciano, outro um cangaceiro. Comecei a brincar com cada um dos quadros como se tivessem um sentido apenas para mim. Senti uma alegria crescer dentro de mim, não porque eu entendia, mas porque eu via. Era como se tivesse me conectado com a arte, tivéssemos feito contato.

O tempo, em seguida, voou. Logo o museu fecharia e tivemos que sair. Mas havia um sentimento novo dentro de mim: felicidade. Talvez as meninas é que estavam corretas. Miró é alegre