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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

'Eu não gosto, mas eu adoro'

Pela segunda semana consecutiva, Francisco Bosco falou sobre a sua viagem à Índia na coluna de "O Globo". Se na primeira ele narrou como foi o seu duro cotidiano - muito parecido com o que enfrentamos, quando fomos, com a diferença de que estávamos muito mais "preparados", no sentido de termos evitados alguns problemas que eles não conseguiram -, nesta ele abordou a reação dos leitores aos seus primeiros comentários. De toda forma, o que mais me chamou a atenção foi essa frase que intitula esse texto, e que ele usou para falar de sua relação com a Índia: "Eu não gosto, mas eu adoro", e fez questão de ressaltar o adversativo "mas", para reafirmar que as duas partes da frase são antagônicas.

Delhi é uma cidade difícil, muito difícil
Essa frase pode parecer um paradoxo à primeira vista. Como você pode, ao mesmo tempo, "não gostar" e "adorar"? São duas sensações antagônicas, que deveriam se anular, aparentemente. E ele nem está usando "adoro", no sentido mais comumente usado por, por exemplo, os franceses, de adoração, quase religiosa, mas como uma hipérbole do gostar. Ele não gosta e gosta muito. E agora?

De certa forma, eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer na hora que ele falou - ou acho que sim. Uma das mais maneiras mais simples de se captar o sentido, na minha interpretação, é imaginar que somos seres múltiplos, que somos muitos que habitam esta carne e este osso. Um desses, ou uma parte, não gosta, a outra, adora. Mas eu prefiro uma interpretação um pouco mais inusitada.

E pego o exemplo da própria coluna dele - mas poderia ser qualquer outro. Ele diz que é um "mau viajante" "porque radicalizo, no campo do outro, aquilo que já sou em meu país". Ou seja, porque, de certa forma, se torna mais o que ele acha que ele é. Porque ele para, pensa, racionaliza, e escolhe entre vários comportamentos, aquele [ou aqueles] que ele julga ser ele. E procura - é a minha sugestão - no "campo do outro" ele mesmo, um espelho, algo que reflita, que alimente, que dialogue com esse "eu" escolhido.

Mas que também pode ser incrível
Porém, algumas experiências - e a Índia foi bastante isso para mim - são muito maiores que esse "eu" ou qualquer "eu". Ela arrebata, envolve, absorve, torna "ela" o que cai dentro do seu caldeirão. O viajante, para sobreviver à Índia, tem que, então, ser menos "eu", agir menos de acordo com os planos que você tinha pré-estabelecido, ser mais instintivo, mais maleável, tornar-se parte desse organismo vivo que é "ela". De repente, você percebe que você é aquele "eu" inicial, mas mais alguma coisa. Você percebe que, ao permitir ou ser invadido pelo outro, você acaba se transformando e, quase que como consequência, engrandecendo.

Como disse ali em cima, falei da Índia, mas poderia ter falado de qualquer outro exemplo que envolve, necessariamente a perda desse "eu", desse ser inicial, em prol de outro, ou outros. Acredito que o amor, no sentido mais puro da palavra, que não necessariamente tem a ver com erotismo, se não nasce daí, é retroalimentado por esse sistema.

Isso acontece com a relação de mãe e filho, por exemplo. Entre os casais, igualmente. Ou com soldados de um mesmo batalhão que foi para a guerra, para ficar em casos que vieram à memória agora. Todos, em algum momento, abrem mão do seu "eu" anterior em prol do outro. Imagine as noites sem dormir das mães com os bebês. A mudança de vida dos ex-solteiros. O perrengue compartilhado entre os combatentes. E, se essa concessão não for algo humilhante, se for ligeiramente recompensada, é criado um vínculo. Há uma união aí. Há uma história em comum. Um passado compartilhado. Uma interseção de trajetórias. E é aí que o amor reside.

Concorda?
Daí, é fácil entender como alguém pode "não gostar" de algo, exatamente porque nega os confortos tradicionais, os costumes já estabelecidos, e, ao mesmo tempo, "adorar" esse mesmo algo. Confrontar o que você não gosta, quando inevitável [porque senão é masoquismo], é uma das únicas formas para se mudar.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Real Bollywood

Recebemos o pai Raja, a mãe Anu e o filho Yannick, de 11 anos, em casa, por uma semana. Nossa amiga em comum dissera que ele era um cineasta e que eles viajariam por seis meses pela América Latina. Precisavam de ajuda no Rio. Sem problema, dissemos. Mas com uma condição: deveriam trazer o seu filme, para assistirmos juntos. E foi assim, num dia em que Anu, a cenógrafa do filme, preparou ainda o almoço, um ensopado de galinha com bastante leite de coco e especiarias preparadas por ela mesma. Portanto, a opinião que vai a seguir não é totalmente isenta.

"Barah Aana", se eu não me engano, é uma expressão em hindi que quer dizer algo como "75 centavos", ou seja, algo muito barato, ainda mais se considerarmos o valor da rúpia, que está valendo cerca de R$ 0,04. A sinopse descreve bem resumidamente todo o filme: três homens, de três gerações diferentes, de três origens diversas, se encontram em uma favela de Mumbai e passam pelo mesmo problema: a falta de dinheiro generalizada.

O filme retrata os três protagonistas em separado: o jovem garçom galanteador, que quer ter mais oportunidade com uma gringa que sempre vai ao café onde trabalha; o zelador de 30 e poucos, que deixou a família em outra cidade e trabalha para comprar remédios para o filho doente; o motorista já grisalho, que começa o filme fugindo de capangas que querem matá-lo para tomar suas terras, e é dado como morto, portanto nem pode reclamar na polícia do ataque que sofreu.

Os três dividem o barraco na tal favela, uma favela real, como nos falaram, mas que aparece mais idílica, mais bonita que o normal, colorida, com um jeito de 1960, de "Rio 40 graus", de uma inocência que já perdemos. Aliás, todo o filme tem um cuidado de quem passou bastante tempo na publicidade, caso de Raja. Inclusive, não é coincidência que o único filme brasileiro que ele conhecia bem era de outro cineasta egresso da publicidade, "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles.

Depois de passarem por diversas humilhações e num ato quase inconsciente, os três começam a praticar sequestros e percebem, como no início da Bíblia, que isso era bom. Os indianos de classe-média, como acontecia com os brasileiros de até há pouco, não confiam na polícia nem para dar queixa. Era dinheiro fácil e quase certo. Até que...

É bastante interessante enxergar os pontos de contato entre os dois países durante toda a projeção. Raja falou que a Índia passa por um processo de modernização que teria acontecido com o Brasil em algum momento no século passado. Mas isso não é um prêmio de consolação para o filme. Algo como: só é bom porque, em alguns momentos, se parece com o Brasil. Não. O filme tem seus méritos próprios, e são méritos que vão além da técnica, mesmo que na interpretação dos atores - dois deles bem conhecidos: Vijay Raaz e o excelente Naseeruddin Shah. "Barah Aana" tem um frescor, uma inconsequência juvenil, de quem quer mostrar que há algo de errado no reino da Índia e usa o filme como arma política, mas sem nunca perder a doçura. Raja usa o cinema para tentar falar, mais alto que a sua voz poderia alcançar, como ele vê sua terra. É mais ou menos para isso que serve a arte.