sábado, 22 de novembro de 2003

olho em minha volta e só vislumbro uma mar calmo e plácido e azul onde os companheiros de meus pés são peixes coloridos e pacíficos e a única coisa que penso é que gostaria de estar numa festa de rock, escutando os impropérios de mister franck black, como os personagens de winterbottom que presenciaram o show de sid vicious e cia. e mudaram suas vidas com pulos ritmados. Acho que quero estar numa festa de rock agora e talvez não queira daqui a dois minutos como não queria, certamente, há algumas décadas atrás. talvez só queira mudar um pouco os ares, sair desse calmo e correto de dentro das expectativas, da projeção do homem de bermudas brancas passeando com o seu cão labrador pelos bosques do flamengo num domingo ensolarado. só quero estar numa festa de rock para poder respirar um pouco o ar de novidade - mesmo que as novidades estejam revestidas numa capa de vinte e poucos anos até - só quero para sentir a energia gritar pelos poros até não poder mais. Só quero para me sentir vivo, como carne e sangue, como algo que não se demonstra previsível, só para depois ter saudade da normalidade e do meu cotidiano comum e extremamente chato e enfadonho. só quero para enxergar a podridão e sentir o cheiro do sujo e chafurdar como num home sweet 'lone.

queria saber se um dia iria parar de me preocupar e me citar nessas linhas. queria saber se um dia vou me encontrar aqui e não outrem. queria saber se eu existo ou se é apenas a projeção de um mundo que sempre me chama de volta para sua vivência.

outro dia acabo com isso. o mundo comum toca a campainha.

sexta-feira, 14 de novembro de 2003

triálogos

- E não é que o Rafael voltou com a Elisa?

Dois amigos que dividem apartamento sentados na areia da praia, um segurando os joelhos, outro observando o passeio de meninas cada vez mais novas, conversam. O da direita, Téo, anda ríspido ultimamente. Não agüenta mais a vida que o da esquerda, Gera, leva. Este acorda todos os dias e abandona o corpo na frente da tevê. Só se permite levantar quando é hora da faculdade, ou para fazer algo pouco produtivo. Téo trabalha desde moleque, nunca conseguiu parar, “eu me tornaria um inútil”, ele pensa. Gera diz que se ralar, assim, desse jeito, só quando acabar a faculdade.

- O Rafael não tem jeito.

Téo acorda cedo e sempre dá de cara com as cuecas de Gera pela sala. Um dia, achou uma meia no lustre. Gera se alimenta de fast-food diariamente, o outro é vegetariano. Téo se levanta uma hora antes do necessário para chegar no trabalho, toma um banho rápido, mas frio porque “faz bem”, se arruma com aprumo, roupas de marca, camisas de botão, calças de prega e vai para a empresa. Gera demora horas no banho fervente, afirma que é a melhor hora para ficar sozinho consigo mesmo, pega roupas aleatórias, amassadas, as coloca sobre o corpo e sai para qualquer que seja o programa.

- E não adianta contar para ele que a Elisa não gosta dele.

Gera tem uma namorada que praticamente mora com os dois. Mônica é o nome dela. Téo é sozinho. Anda com várias meninas, mas nunca ficou com uma por muito tempo. Téo implica com Mônica porque ela encobre as “qualidades” de Gera. Quando ele deixou de pagar a conta de luz por dois meses, e a cortaram, Mônica disse que não tinha problema, que luz de velas era mais romântico. Téo ficou semanas sem falar com ela. Gera demorou ainda uma quinzena para pedir para religar.

- Lembra da última vez. A Elisa brigou com o Rafael e voltou com o ex-namorado. O Rafael ficou na merda completa. Depois de um mês, eu acho, ela brigou com esse ex-namorado e voltou com o Rafael.

Os dois foram morar juntos porque, na época, eram os melhores amigos. Vinham de uma cidade no interior, começavam na faculdade e as famílias se propuseram a bancar um apartamento para ambos. Assim que aportaram na capital, Téo foi em shoppings com sua pequena história debaixo do braço e conseguiu, depois de bastante andança, trabalho de balconista. Gera nunca se importou com isso. Diz que o pai se sente satisfeito em bancar seus estudos e acha isso o suficiente.

- Eu lembro que o Rafael ficou mal para cacete. Essa mulher também é foda. Só gosta de sacanear com o Careca. Ela usa ele.

Gera faz administração, Téo publicidade. Téo gosta de praia, Gera da vida noturna. Téo fez natação, judô, basquete. Gera entrou para o jiu-jitsu porque todo mundo fazia, mas nunca treinou direito. Os dois saíam juntos todas às vezes. Era Téo que segurava a onda de Gera nas brigas que este arranjava. A irmã de Gera foi a primeira namorada de Téo, fumaram o primeiro baseado juntos, ambos freqüentam o cinema, gostam de quadrinhos e rock. Foi de Téo a idéia de irem à praia.

- Pois é. A Elisa não presta.

Téo pensa seriamente em procurar outra casa. Só que sente um certo vínculo com Gera, acha que se ele sair de lá, o amigo não conseguirá sobreviver muito tempo no apartamento. Téo já meteu o dedo na cara de Gera inúmeras vezes, mas Gera sempre pergunta que é o Téo para lhe dar lição de moral. Téo acha que Gera está desperdiçando um talento, ele acha que o amigo é criativo - os dois brincam de fazer roteiros para clipes imaginários - poderia estar se arranjando dentro de alguma empresa, ganhando dinheiro. Gera nunca parou para pensar sobre Téo. Para falar a verdade, Gera raramente reflete sobre assuntos sérios, somente quando alguém o pergunta diretamente.

- E nem adianta falar com o Rafael.
- Nem adianta.

quinta-feira, 13 de novembro de 2003

Gargalhada

O homem se sentiu estranho quando não riu durante toda a encenação. Depois, na rua, quando sua mulher lhe perguntou se havia gostado da peça, ele não teve coragem de dizer que a única coisa que passava em sua cabeça durante a peça era estar o mais distante dali que pudesse, ou que aquele suplício acabasse o mais rápido possível. Se sentia numa tortura oriental onde cada segundo é revestido de todo o cuidado para ser inesquecivelmente doloroso. No dia seguinte, no trabalho, a situação foi ainda mais embaraçosa. Ao apanhar um café para tomar, encontrou um daqueles colegas piadistas que se sentem engraçados na saída do banheiro. Miguel tomava seu café e continuou virando o copo mesmo vazio para acompanhar o sujeito. Repentinamente, o piadista parou de falar e esperou que explodisse a gargalhada do outro. Miguel rasgara o pequeno copo na tentativa de prestar atenção, contudo não conseguiu achar a graça daquela história absurda e grotesca. Sorriu a contragosto, mas o sujeito percebera a falsidade estampada no seu rosto. O falastrão ainda repetiu o final com outra entonação, para ver se conseguia arrancar dessa vez, mesmo que a força, algum tipo sincero. Nada. O meio sorriso não se abalara, não se movera nem um centímetro. O sujeito deu as costas e saiu quieto e perturbado.

A confirmação, como em qualquer outra experiência ou situação, veio com o terceiro incidente. Em casa, na mesa do jantar, o filho contava como tinha sido o dia e todos ao redor da mesa, acompanhavam-no. Menos Miguel que olhava burocraticamente para o garoto de quatorze anos. Quando ele terminou de falar, a mãe e irmã riram com vontade. Miguel deu apenas mais uma garfada em seu purê. O menino, ansioso por algum tipo de aprovação por parte do pai, inquiriu diretamente se havia algum problema com ele, o filho. Miguel mastigava e enquanto os dentes esmagavam o pedaço de frango que estava na boca pôde ter um pensamento rápido sobre se havia alguma coisa errada com ele. Claro que tinha ficado mais que constrangido quando não conseguiu rir verdadeiramente na presença do gaiato no trabalho. E também tinha achado estranho não rir na peça com a mulher. Mas não tinha feito nenhuma ligação entre tais fatos até aquele momento. Parecia que estava cotidiano – como deve ser, argumentava consigo mesmo. Começou a vasculhar rapidamente por toda a memória se havia ocorrido algum tipo de incidente que o fizera mudar de humor nas últimas semanas. Porém, o frango já tinha se desmanchado completamente na boca e teve que responder para o filho que tinha adorado sua história e não, não tinha problema nenhum com ele.

No bar de todas as quintas, seus amigos gargalhavam de qualquer coisa na mesma intensidade que Miguel afundava sozinho nos seus pensamentos. Tentava lembrar da última vez que rira e a lembrança não vinha. Voltou muito tempo atrás e conseguiu enxergar que ria mesmo em conversas bobas com a mulher, na época de namorados. Recordou que sorriu até chorar no dia que seu filho nasceu; pode observar que gargalhava nessa mesma reunião que estava, há anos atrás, quando esta começou. Entretanto ultimamente, tinha um pedaço enorme de sua memória contaminada com uma tinta azul-cinzenta. O pensamento de que ele era um amargurado com a vida passou como um elefante pela sua cabeça. Tratou de se convencer de que gostava de sua vida da maneira como ela era, e obteve resultados positivos. Sabia que sua vida não era brilhante, mas nunca teve a pretensão de ter uma vida mirabolante e de dar inveja nos amigos. E o seu caso, repetia para si, não era de falta de aventuras, mas de ausência de risos, em todos os seus formatos. Nessa etapa do pensamento foi interrompido por um amigo que estava no seu lado perguntando quem era a dona de seus pensamentos para ele poder ignorar dessa maneira seus camaradas.

Recusou a carona de volta naquele dia e pegou um ônibus com o argumento de que precisava passar na locadora. Sentou-se num banco sozinho, mas logo uma senhora gorda ocupou todo o lugar que sobrara e mais um pouco. Fez um esforço enorme e logo conseguiu voltar para as suas recordações. Estava empenhado em organizar uma lista com alguns títulos de filmes que o fizeram rir com muita vontade quando vistos pela primeira vez. Os primeiros que vieram foram as paródias pastelões. Apertem os cintos o piloto sumiu, Top Secret. Depois não houve nenhum mais. Foi para o outro lado do Atlântico e lembrou que riu de algumas cenas de Monthy Pyton e o cálice sagrado. Porém, achou A vida de Brian chato. O mesmo aconteceu com Monicelli, achara Os companheiros, engraçado, mas Brancaleone apenas passava de ser entediante. Pensou em Woody Allen. Sempre provocava, pelo menos, pequenas mudanças nas configurações de sua boca. Nunca dera uma gargalhada, mas nessas circunstâncias, já era uma vantagem.

A fita rebobinava e Miguel concluiu que Crimes e Pecados não tem o mesmo impacto ao ser revisto. Então entendeu que o filme ao ser assistido mais de uma vez não traz a mesma surpresa. E quanto mais repete as mesmas cenas, com os mesmos enredos, as mesmas falas, tudo se torna previsível e chato. Sua mulher entra no quarto exatamente nessa parte do seu raciocínio e pergunta o que ele faz ali. Ele levanta a capa do vhs e sai do quarto antes que ela possa lhe perguntar alguma coisa.

Não agüentava acordar todos os dias no mesmo horário e dar os mesmos bons-dias que dera ontem e anteontem. Ou estar há anos criando os mesmos relatórios no seu trabalho sem que ninguém reparasse. Ter que repetir as mesmas frases que ouvira do pai para o filho como uma canal direto, sem nenhuma modificação no timbre da voz e sem ter a menor idéia de que isso é o correto. O pior, disse para si mesmo, é que se tivesse a coragem de remexer o marasmo que imperava no seu cotidiano, atingiria pessoas que não pediram nem queriam estar em tal situação. Viu-se assim nitidamente amarrado em cima de uma cadeira, com as mãos às costas, a boca amordaçada e os olhos vendados e pela primeira vez sentiu um gosto amargo subir de dentro de suas entranhas à garganta até a boca e teve uma ânsia de vômito. Cuspiu na pia do banheiro um líquido viscoso esbranquiçado e doente.

A partir daquele dia, desistiu de procurar qualquer tipo de motivação para se sentir feliz. Resolveu se enclausurar dentro de si até o dia que tal tormento acabasse, de qualquer forma imprevista. Havia antevisto o infinito com torturas diárias. A cada pergunta típica da idade do filho, cada vez que ligasse o computador no trabalho ou apagasse a luz no quarto para dormir, descobriria que mais um pedaço dele estaria podre e inutilizável. Já não conseguia usar a razão para desvendar uma trilha para fora desse labirinto. A única resposta que a cabeça lhe dava era fugir, sumir, desaparecer, se transformar em lembranças cada vez mais distantes para aqueles que tiveram algum tipo de contato com ele. Mas se sentia covarde demais para tomar tamanho impulso. Observava suas asas e não as considerava grandes o suficiente para poder voar o percurso que se propunha, muito menos carregar outros pesos. Em nenhum momento considerou que as pessoas envolvidas pudessem, também, estar insatisfeitas com o barro que os cercavam. Assim, Miguel manteve suas tarefas sem aparentar nenhuma presença ou iluminação.

Aquele dia pareceria comum. E o era, e não mudará pelo que vai ser contado. Ninguém sentiu a diferença, nem mesmo a outra parte dos envolvidos no caso. Apenas achou algo estranho, comentou com a mulher em casa, e em poucas semanas já havia esquecido e a substituído por outra lembrança ainda mais fugaz. Naquele dia, Miguel chegou às oito horas e treze minutos no trabalho, adiantado como ocorrera em todas as oportunidades do mês corrente. Seu chefe se aproximou e tocou carinhosamente em seu ombro chamando-o para sua sala, pois tinham que conversar. Miguel, exatamente como um robô faria, se levantou e seguiu passo a passo o chefe até o aquário. Lá dentro o chefe apontou a cadeira que Miguel estava autorizado a sentar e ele se sentiu dormente, escutava um zumbido no ouvido que deixava a voz do chefe num volume baixíssimo, e enxergava tudo em volta do interlocutor embaçado, como se, dessa forma, pudesse enxergar algum tipo de aura. O chefe falava monocordicamente e Miguel só conseguiu captar algumas frases salpicadas aqui e ali. Escutava “empresa vendida”, “grupo japonês”, “downsizing”, “funções desnecessárias”, “capacitações técnicas” e só conseguiu conter uma gargalhada depois dela ter escapado. A conversa cresceu em peso e densidade, o chefe falava agora mais claro e mais pausado e continuava “falta de motivação”, “qualidade técnica”, “gostamos de você, mas” e Miguel riu novamente em voz alta e tapou a boca com a mão logo em seguida. O chefe parou de discursar e perguntou se ele estava bem, Miguel respondeu que sim, que estava, e então continuou. Miguel sentiu um soluço aportar dentro do seu peito e não pôde conter vários solavancos do corpo. A cada golfada sentia expelir algo inominável e impossível de ser codificado que desintoxicava seu corpo e em certo momento, já ignorando completamente o que o chefe falava, apenas por se sentir bem, bem demais, gargalhou com todos os dentes aparecendo, mostrando o palato mole e o duro, a garganta vermelha e quase todo a laringe. Segurava a barriga, pois tinha a impressão que iria explodir, as bochechas estavam com câimbras e os olhos lacrimejavam. Quando voltou a si, o chefe estava ao lado gritando seu nome e alguns transeuntes parados do lado de fora da sala observando a cômica cena. O chefe, então, reperguntou se ele estava bem, no que Miguel não respondeu. Apenas sorriu sinceramente do fundo do seu coração.

terça-feira, 28 de outubro de 2003

No sábado passado havia dormido na casa de minha irmã. Por azar, deveria trabalhar bem cedo no dia, assim colocara o despertador para tocar antes das oito da manhã. Acordei antes do horário previsto, apesar de termos bebido no dia anterior e dormido essencialmente tarde. Saltei da cama quando ainda não era sete e trinta. Antes mesmo de ir ao banheiro, sentei cheio de remelas em frente ao computador para entrar na internet. O que aconteceu, entretanto, eu não previra: o pc não funcionou.

Ainda um pouco molhado do banho que tomei na casa de minha irmã, colocando os fones nos ouvidos e a mochila nas costas, saí em direção a primeira banca de jornal que estivesse aberta. Contudo ela não tinha mais o diário que procurava. Me apressei para a segunda, depois de quase três quadras de vazio e angústia, quase correndo na rua. No meio de uma espécie de auto-estrada, encontrei o último exemplar. Caminhava na calçada e tinha para a minha inquietação: os carros que passavam rasantes ao meu lado bem próximos a mim, o horário para não me atrasar no emprego, a música que preenchia os meus ouvidos, a meta de pegar o transporte no lugar e hora certas e a tentativa, quase heróica, de ler a matéria que me preocupava com as letras balançando. A situação melhorou um pouco assim que consegui me sentar no banco do ônibus. Pude abrir o caderno e ter a comprovação de que meu conto não tinha sido eleito nada.

Era o quinto concurso que participava e, pela quinta vez consecutiva a minha apreensão e expectativa se repetiam. Não que ache que deveria ter sido eleito, todas as vezes que leio os textos selecionados vejo que eram imensamente melhores que os meus. Me desagrada, porém, imaginar que talvez se eu colocasse tudo aquilo que passa pela minha cabeça dentro dos meus textos, se conseguisse realmente me expressar, narrar todos os meus pensamentos, poderiam, assim, concorrer de igual para igual com os outros. Como disse em outros tempos, o meu caso é ser um escritor apenas pelos cacoetes, começando pelo branco. É sentar-se aqui, de frente para o computador e nenhuma das mirabolantes idéias que tive vem a minha mente. Ou, quando vem, não acho que sejam nada demais, ou pior, ao serem colocadas no papel virtual perdem completamente aquela força que achei que tinha.

No entanto, para minha sorte, desisti de me desesperar, escrevo apenas como prazer. Me sinto mais tranqüilo a partir do momento que descobri poder acreditar simplesmente, sem nenhum objeto de crença. Como se o simples ato de crer me tornasse mais tranqüilo, mesmo com a ausência absoluta do que acreditar. Como numa caminhada cega, como uma religião irracional, como numa fé desmotivada. Assim escrevo para me divertir. Sem nenhuma pretensão a coisa alguma. Borges dizia que o maior erro do artista é querer ser gênio. Pois então, como ele, me conscientizarei a ser somente eu, nada além desse “eu” ordinário e comum que se confundiria com qualquer pessoa. Nada mais de pressão para escrever com estilo, ou algo realmente importante. Até seria justificável ter esse tipo de ambição (ou pretensão); vários escritores dizem que seus desejos são de escreverem um livro que seja tudo para todos. Não tenho mais essa angústia, tirei essa forca do meu pescoço. Vou continuar a rabiscar essas coisas aqui e, talvez, um dia possa escrever uma pequena historinha sobre um sujeito que se transformou numa barata, ou sobre uma invasão de ratos numa cidade provinciana ou, quem sabe, narrar a saga de uma família solitária com hábitos exóticos. Histórias comuns, como se pode perceber.

Tenho certeza que no espaço físico que separa o pensamento, a formulação, o lugar onde se escuta o clique, onde se vislumbra a lâmpada se acendendo, do sentar na cadeira, de frente para o monitor, batucando nas teclas, coçando a cabeça, esfregando os olhos, se perde grande parte da produção literária do mundo. Se um dia pudesse mergulhar nesse poço para resgatar apenas as minhas idéias – juro que não roubaria a de ninguém – e as utilizasse aqui, conseguiria um resultado mais, como direi?, glorificante.

Ontem de noite por exemplo. Subi num coletivo e o motorista anunciou que havia mudado o itinerário por causa de um tiroteio que estava acontecendo na área que deveria ir. Desci e esperei o próximo que provavelmente não tivesse conhecimento da história e me levasse até o meu destino. Não demorou nada e veio um logo atrás. A coincidência – e aqui nasce a idéia – foi que ao me sentar, calmo, observando, através da janela molhada e embaçada ao mesmo tempo, um Rio de Janeiro escuro, vazio, chovido, o meu telefone tocou com a minha irmã na linha. Depois de todas as amenidades comuns de irmãos que não se encontram há algumas semanas, ela pediu para que eu tomasse cuidado, pois “a cidade está muito perigosa”. Poderia ser apenas uma preocupação familiar, tão tradicional na frase da mãe que diz para o filho não voltar tarde, ou quando pede para a irmã ligar quando chegar, onde quer que for, pois assim vivemos na cidade partida e sitiada. Porém ambas as informações se ligaram na minha cabeça na hora. E se um destino superior – não acredito nesse tipo de coisa, mas que ele existe, ele existe – tivesse tentando me passar uma espécie de mensagem para que eu desistisse de trafegar naquele dia, naquela via, daquele jeito? Claro que as teorias mirabolantes são prima-irmãs das paranóias, e resolvi continuar no meu trajeto até o final. Por sorte, ou porque assim tinha que ser, nada aconteceu comigo (fora ter molhado completamente o meu pé numa poça de água suja no meio da rua assim que desci). Com a minha chegada inocente e isento a casa que queria, resolvi usar a história apenas como pretexto para inventar um final mais empolgante, por assim dizer. Então lembrei que todas as histórias já foram contadas e que não deveria perder o meu tempo, nem fazer um eventual “você” ler essas baboseiras que na internerd tem aos montes, muito melhores que as minhas.

Agora aconteceu de novo. Quando escrevia o parágrafo anterior, esse que você acabou de ler, tive uma idéia. Não era brilhante, mas tinha achado bastante interessante, e agora ela não existe mais. Perdeu-se, foi para o beleléu.

Digressiono. Como podem ter percebido, escrevi a pequena historinha aqui. Sei que não mudará a vida de ninguém, mas com certeza transformará a minha em algo mais tranqüilo.

Iria continuar a escrever o parágrafo anterior e dizer que já vivo completamente independente da opinião de outras pessoas. Bastaria a mim somente escrever. Mas a afirmação não seria de toda verdadeira. O que passa pela minha cabeça, por exemplo, é que se desisto completamente de ser escritor – ou algo do gênero – as possibilidades que se figuram na minha frente diminuem drasticamente indo próximas a zero. Ou, sendo mais claro, não tenho idéia do que ser quando “crescer”. Mas como disse lá em cima, isso não é mais meu problema. Não sei de quem é, mas vou deixar para o futuro (se é que ele existe) decidir por mim.

epílogo

Tudo o que foi escrito até agora demonstra claramente a confusão que passa na cabeça de um garoto de vinte e poucos anos que ao terminar uma faculdade percebe-se completamente perdido, sem nenhuma pretensão de trabalhar naquilo que ele (pseudo) aprendeu. E nesse ínterim de desespero, não escreve nada. Fica numa espécie de greve dele mesmo. Não se forçará a colocar nada no papel. Depois de dezenas de dias, de semanas, um mês, volta a colocar qualquer coisa, apenas para não enferrujar, tentar se convencer. As esperanças diminuem proporcionalmente ao tempo que se esvai. Ele continua a acreditar em “nada”, nesse nada que não tem nome, que não tem forma, que não tem gosto. Exatamente o que faz a falta de perspectiva diminuir no hall de preocupações – sendo substituídas por outras mais táteis, mais prováveis, mais iminentes. Ele segue, porque é inevitável. Decidiu que se cair, cairá lutando. Acha, nessas últimas semanas, que não há como mudar o próprio futuro, mesmo que tente muito, tudo está praticamente feito. Porém, sabe do valor da escolha. Porém, entretanto, mas “Se deus não existe, tudo é permitido”. Deve-se abastecer o destino com possibilidades, e se essas não forem escolhidas, optar pela próxima. Cair lutando. Repete como um mantra. Para poder se convencer.
Seu Livro?

No intervalo do primeiro ato para o segundo a vi pela primeira vez. Poderia tentar descrevê-la, mas qualquer palavra que utilizasse seria de menor expressividade que o necessário. Ela é alta, cabelos dourados escorridos que passam pelos ombros ignorando-os até a metade das costas. Eu tomava um café apoiado no balcão e me era impossível não estar com os olhos grudados nela. Me sentia diminuto porque não havia a possibilidade de, de alguma forma, me aproximar. Não sei se a expressão exata é essa, mas sentia algo parecido com a culpa.

Tenho uma namorada, como nunca tivera nunca. Estou com ela há mais de seis meses – fora nosso aniversário no dia anterior – e ela me deu uma carta dizendo-se muito surpreendida e feliz por estarmos juntos. Falava de nossas semelhanças, citava nossas brincadeiras e terminava com uma citação poética. Chorei discretamente abraçado no seu pescoço por alguns instantes maravilhosos. Não tenho dúvidas que gosto dela. Não tenho dúvidas que ela combina comigo, que ela me entende, que é linda, que adoro ficar ao seu lado. Entretanto, depois desse tempo inédito para mim, a empolgação, como é de se esperar, declinou-se.

Na volta para o segundo ato, mudei de lugar na platéia indiscriminadamente e percebi que, por uma questão de coincidência, sorte ou sei lá que nome pode-se dar para isso, a loura televisiva estava na minha frente, um pouco à esquerda. Até ai, não há nenhum problema nem nenhuma solução, estávamos insossos como havíamos de estar. Então ela olhou para trás. Na primeira vez para nenhum lugar, como que mapeando o ambiente, na segunda próximo a mim, na terceira para mim. Tinha dez, quinze minutos de espetáculo e ela virou três vezes para trás. Perdi completamente o fio da meada d’ “O Avarento”.

O problema era particularmente maior porque a loura me proporcionava exatamente aquilo que minha namorada não possuía: a perfeição estética. Ao olhar para ela eu a desejava mais que, talvez, outra mulher ao alcance. No intervalo me perdi observando nuances do seu corpo e imaginando sua voz, sua quentura, a textura da sua pele... A cintura fina, o detalhe da pele da barriga queimada de praia que aparece quando ela se mexe, o cabelo meio preso, meio caído, os olhos extremamente claros, o quadril generoso, o sorriso largo mostrando todos os dentes brancos, meu deus, o sorriso largo...

Tenho que dizer: vivo praticamente com a minha namorada – moramos um perto do outro e consigo ir na casa dela a pé quando quero. Os pais dela são ótimos. Ela gosta das mesmas coisas que eu. Estar junto dela é certeza de me sentir confortável, bem. Me sinto criando um relacionamento estável, exatamente como deve existir entre pessoas adultas e maduras. No entanto, algo não me deixa esquecer que tenho apenas vinte e dois anos. Tudo bem, não quero entrar na história do “desperdício de vida” tão cantada aos quatro ventos. Parece uma ladainha dizer que há benefícios em ambos tipos de relacionamentos, tanto na solterice convicta quanto na união duradoura. Falar com esse mesmo discurso, já tendo escutado diversas vezes amigos reclamarem da vida por isso, e contra-argumentar da irresponsabilidade dos atos, seria como me contradizer e ter um comportamento pouco, digamos, prático (apesar de que a praticidade nessas horas é das piores coisas que podemos fazer).

Pela completa falta de experiência em relacionamentos longos e estáveis, acredito que este tenha uma certa vantagem sobre mim por causa do seu caráter inédito (que também é um outro tipo de fetiche). Todavia, o que eu quero, se é que posso colocar nesses termos, é que ela, a que esteja comigo, me proporcione prazer tanto com meus olhos abertos quanto fechados, apenas isso. Não, também não quero cair no clichê da mulher perfeita, não é isso. Seria uma bobeira que acredito ter deixado para trás há tempos (mesmo que ainda tenha recaídas constantes). Muito menos confirmar a tese da constante insatisfação com a posse, o próximo e o desejo pelo distante, o do vizinho. Acho até que, de todas as teorias essa é a mais válida no meu caso, pela comprovação prática e estatística. Entretanto, dessa vez não. O que eu quero é simplesmente uma união da loura do teatro com a minha namorada.

Depois da terceira olhadela, ignorei por completo o espetáculo e apenas mirava os fios claros tão pertos do toque da minha mão. Ela demorou, mas olhou novamente para trás, dessa vez rapidamente. Um frio na barriga me tomou de assalto junto com os olhos dela. Foi então que num ímpeto, numa loucura minha, me aproximei dela que nem um cão desgarrado, catei seu rosto, o aproximei do meu e violentamente beijei-a sobre as cadeiras do teatro. Não, não isso foi apenas a minha imaginação agindo.

Esperei uma próxima virada de cabeça, mesmo que não suspeitasse da atitude que eu deveria tomar, porém ela não retornou. No início senti-me angustiado, pensei que tinha perdido uma oportunidade única, que tudo era culpa minha por não ter tomado atitude nenhuma, num espaço altamente propício para flertes e afins, como se pode perceber, mas logo a minha atenção retornou para a peça e a loura se transformou num belo preenchimento de tela.

O sentimento de culpa, o qual aludi no início do texto, não deixara nem um pequeno traço de vestígio. Parecia que ele só tinha passado para demonstrar que ainda existe, aqui dentro em algum lugar, nada mais. Mesmo assim, quando as luzes se acenderam levantei-me rapidamente para não me deixar cair em tentação outra vez. Todavia, ela se virou ainda com mais pressa que eu para trás e me fez uma interrogação. Ao menor rumor da sua voz quieta, meio rouca, quase me arrepiei. Com um livro na mão ela me perguntou se o dito cujo era meu. Primeiro não sabia o que responder, depois de alguns centésimos, consegui concatenar algumas fagulhas de sinapses e pude negar com a cabeça. Ela olhou para outro lado a procura de alguma coisa ou alguém e eu consegui fugir do teatro um pouco embaraçado.