quarta-feira, 26 de março de 2003

e não é que o chinewski, depois de um ano fora do ar, voltou? para quem quiser ler algumas boas coisas - e outras nem tanto - www.chinewski.com ou cliquem lá embaixo...

sexta-feira, 21 de março de 2003

Óbvio ululante

Óbvio ululante. Seria assim que Nelson Rodrigues iria tratar da Guerra do Bush. É óbvio ululante que Saddam Hussein é um ditador cruel, sanguinário, genocida e todos os outros adjetivos que os americanos e ingleses dão para ele. Porém, uma invasão norte-americana, com o suposto apoio de trinta países, da Inglaterra até alguns nanicos, e sem o da onu, mostra até onde vai a empáfia dos eua. Esse tipo de atitude unilateral mostra que nenhum país está protegido de uma intervenção americana para proteger os interesses deles. O que é assustador.

O que não é considerado óbvio ululante, e por isso mesmo tão ou mais assustador, é a falta de atitude prática de todo mundo em relação à violência que vive à nossa espreita.

Não é o caso só de culpar o governo, que até tem a maior parcela da culpa, mas também de olhar para cada umbigo. E não é um problema para ser resolvido com passeatas emocionantes e inúteis. Mas uma questão de tomar uma atitude que traga resultados mais imediatos.

Enquanto ficarmos somente em frente à televisão assistindo anestesiados ao noticiário das oito, viveremos recebendo notícias de pais de amigas assassinados na porta de casa durante um passeio com o cachorro. Ou que o irmão de doze anos de um amigo foi agredido na saída de um jogo de futebol, sem que as autoridades nada fizessem. Ou presenciar um tiroteio num restaurante que estamos acostumados a freqüentar no meio de um dos bairros ditos pacíficos da cidade.

Não sei se posso chamar, mas arrisco. Vivemos numa guerra civil. Acredito que o termo não é nem próximo de original, entretanto é o mais adequado para todas os problemas que enfrentamos.

Durante décadas, a classe média fez que não viu o crescimento expressivo das populações marginais. As favelas cresciam e o “estabilishment” varria a imagem para debaixo do tapete. Agora, o morro desce para pedir seu quinhão.

É razoavelmente comum encontrar argumentos de que basta eliminar o povão excluído que vive na periferia. Como se de um dia para o outro isto acabasse com todos esses problemas. A idéia é tão fraca que se projetarmos um período de vinte anos, todos os problemas estarão de volta.

Contudo, o caos urbano provocado pelo estado de violência cotidiano não se resolverá com atitudes somente estruturais. Aquela combinação famosa em campanha política de “saúde e educação”. Elas são indispensáveis, mas já viraram óbvios ululantes.

Uma tentativa seria levar a presença do Estado para essas comunidades de uma maneira diferente do que há agora. Para pobre, o único braço do Estado que chega até ele – o policial – é sinônimo de tiroteio e problemas. Temos que levar possibilidades de inclusão. Temos que mostrar que não há diferença entre o cara que desce o morro todo dia e aquele que vive freqüentando cinemas, boates de grife e points badalados.

Temos que lidar com inteligência com a situação. Monitorar todas as regiões mais violentas. Criar estatísticas não-camufladas de crimes. Mapear a cidade e promover atitudes direcionadas. Li certa vez, num artigo do Xico Sá para o Nomínimo, que o governo do PT no Rio, durante os oito meses que ficou ativo, implementou alguma coisa parecida. Tudo, claro, jogado fora agora.

Tomar atitudes mais severas em relação aos chefes das grandes quadrilhas. O sistema penitenciário é feito para re-socializar o preso, porém citem-me um caso em que isso aconteceu? Não é o caso de desistir da base de atitude, a prisão deve continuar tendo como meta a re-inclusão do delinqüente na sociedade. Mas, o que dizer dos grandes comandantes dos comandos, para ser bastante redundante, que estão presos? Não é uma defesa da pena de morte ou coisa parecida, apenas um pedido humilde para impedir que eles tenham o mesmo tipo de poder dentro ou fora da cadeia. Como diria Nelson, o óbvio ululante.

Não tenho a mínima idéia se essas atitudes são as corretas ou se irão dar algum resultado diferente. Porém, se continuar assim, o futuro é mais do que certo. Já ultrapassamos os números de mortos de alguns países em conflito ou até em guerra. Já há pessoas que não saem em determinadas horas de casa por medo. Já há casos de cidadãos que acumulam dezenas de assaltos. Não quero imaginar aonde chegaremos.

Já colecionamos uma nomenclatura toda própria sobre o assunto. Cidade sitiada, cidade partida, em guerra. Mas parece que o futuro resvala na frase definitiva de Nelson. Se não fizermos algo em caráter de urgência pela nossa cidade, e conseqüentemente pelo nosso estado, pelo nosso país, nem o óbvio ululante a salvará.
aconselho a dar uma visita nos blóguis relacionados ali em baixo. principalmente dos camaradas. o do César, por exemplo, conheci hoje. depois foi a vez do da Nira. Iuri, sempre o Iuri, volta a escrever com bastante freqüência. e o do Jafas, sobre cinema é bem legal.

quarta-feira, 19 de março de 2003

Segundo o Arthur Dapieve, um dos maiores entusiastas do período, a diferença entre os dois mais conhecidos filósofos existencialistas de língua francesa era que Sartre escrevia suas teses filosóficas com inspiração em romances, enquanto Camus escrevia romances que tinha inclinações filosóficas. Ou algo do gênero.

Certo é, e isso me lembro bem, que ele dizia que Camus escrevia melhor do que Sartre. Nunca li nada do francês, mas é inegável a capacidade do argelino em contar histórias interessantes de maneira interessante. Li dois livros de Albert Camus, “O Estrangeiro” e “A Peste”, e, por mais que sejam díspares, eles defendem bem essa tese.

Em “O Estrangeiro”, o escritor consegue sintetizar na forma de seu protagonista, Mersault, o homem do século XX. É um romance urgente, rápido, visceral. Quase um manifesto punk, décadas antes dos ingleses quererem usar piercing e tocar músicas de três acordes.

O personagem não aspira a nada, deixa ser levado pela maré. Não almeja a nenhuma coisa, apenas está. Não quer mudar de vida, espera permanecer para ser mais um. Não quer desfigurar do meio comum, sonha apenas ser parte da massa. Não é superior nem inferior, faz parte da média.

As emoções não o tocam, vive planando ao longo disso. E o primeiro parágrafo é exemplar quanto a isso. Ele conta, em primeira pessoa, que sua mãe havia morrido, mas não tinha certeza se tinha sido no dia anterior, ou no dia antes desse.

Ele constrói sua persona ao longo da primeira parte do livro. Primeiro com a morte da mãe e sua indiferença, depois com o emprego público e a pouca vontade de mudar de posição, em seguida ao encontrar uma nova namorada por acaso, e aceita-la mesmo sem estar apaixonado, e por último quando começa a freqüentar a casa de conhecidos que se diziam amigos. Mersault é um homem que vive na maré sendo levado sem sua vontade.

A virada na vida do protagonista vem quando ele, sem mais nem menos, assassina um argelino – o estrangeiro do título – numa praia qualquer. O homem do século passado é assim, não tem motivos, age por agir, sem pensar. Nem é um instinto no sentido de ser irracional, mas voltado para o lado de dar pouca importância para tudo. Ele observa sua vida como sem objetivo, sem nenhum porquê, sem rumo.

A partir daí, Mersault enfrenta um julgamento onde ele nem tenta se salvar, pois tinha a certeza de que isso pouco importava para ele. Por mais que a condenação fosse iminente, o protagonista não luta pela liberdade. Para ele, qual é a diferença?

Já em “A Peste”, Camus fala de uma cidadezinha no norte da sua Argélia natal chamada Oran que é invadida, também sem muito motivo, pela peste. A doença que já dizimou milhares de pessoas em diferentes partes do globo em várias épocas.

Tudo, porém, é metáfora para narrar a invasão alemã na sua França de adoção na segunda guerra mundial. De maneira exemplar, ele compara os Nazistas à peste bubônica, e deixa isso disfarçado, mas decodificável, desde o prefácio.

“A Peste” é um romance mais tradicional. Funciona como crônica de uma cidade que é invadida e sitiada de maneira indesejável – se é que haja algum tipo de invasão desejável.

Conta histórias de um grupo de amigos que ficam divididos entre a necessidade de ajudar toda a cidade a se salvar da doença e ficar distantes de familiares e vulneráveis a contaminações.

É um romance mais cerebral onde a cada informação parece que existe uma referência para ser achada. Onde a cada problema relatado, pode ser encontrado um que correspondia à França de Vichy.

É também uma história política para os padrões camusianos. Cética, onde se admite que não há muita coisa a se fazer além de lutar contra um adversário sem rosto e que não se sabe se vai vencer ou não.

O mais interessante dessa obra, em comparação àquela, é sua atemporalidade. Com seu caráter mais urgente, “O estrangeiro” fica mais restrita a um determinado período, o século XX, como sua obra definitiva. Já “A peste” é não se prende tanto a determinados períodos. Ele mesmo diz isso no livro quando afirma que não há prognósticos acertados e definitivos sobre quando a peste atacará novamente. Ou quando ela irá invadir novamente uma cidade, estado ou nação sem autorização de ninguém. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

O que mais falha nessa última obra, parece-me, é o seu caráter, às vezes, excessivamente cerebral. Por mais que o autor tente passar como era a reação de cada cidadão da cidade, de diferentes classes e estilos de vida, parece que a emoção vem requentada. Ao contrário, porém, do que acontece com “O Estrangeiro”, onde a cada página vemos traços genuínos de uma indiferença que aperta a boca do estômago. A cada bater de ombros do protagonistas, dá vontade de parar, olhar para um espelho e perguntar, será que somos assim mesmo? E fugir antes que possamos escutar a resposta, para não se assustar ainda mais.

As duas obras em conjunto, contudo, retratam de maneira exemplar, o que foi o século que acabou há menos de cinco anos. Talvez elas sejam complementares. Uma tenta falar sobre cada um de nós especificamente e a outra na maneira como nos comportamos em conjunto. Ambos indispensáveis para conhecer onde estamos e para onde estamos indo. Se é que isso é realmente importante.

sexta-feira, 14 de março de 2003

Não se dê tanta importância

Não se dê tanta importância.
Escutei à minha passagem.
Pense em zumbidos,
igual a milhares de abelhas em vôo ao lado do ouvido
apenas para desviar sua atenção.
Mas, por quê?
Martelava na minha cabeça.
Um por que sem verbo, adjetivo, ou qualquer coisa a mais.
Um por que, apenas e simples.

Não se dê tanta importância.
Repete como num mantra para desviar minha visão.
Esqueça aquilo que você viu.
Acredito que seria bom para você ver o filme.
Não tenho certeza se você vai gostar.
Apenas acho que seria bom, pelo contraste.

Não se dê tanta importância.
Mas como não pensar que a vida não é vida caso você fuja dela?
Já tenho todos os cacoetes necessários para ser um escritor.
Só os cacoetes.

O zumbido desvia a intenção.
Se der importância, percebo que não vale a pena.
Não há lição de moral, não há nem moral.
Apenas pergunto e a pergunta foge com insistência.

Por quê?
A covardia é minha amiga.
Quer dar algum motivo.
Me instiga a responder.
Fornece colaboradores.
Demonstra exemplos.
Abstrato.
Percebo que tudo o mais pode ser tátil, isso não o é.

Eu sei que desistir de tudo agora, novo, é sinal de impaciência.
Mas, e se a única coisa que o tempo me trouxer for o arrependimento?
E se a única coisa que eu puder ser durante toda a minha vida for um fardo?
E se a única maneira de conseguir sobreviver for através de migalhas camaradas?
Por quê?

Eu sei.
Eu sei que a cada tempo uma impaciência diferente povoará minha mente. Como um sinal de angústia temporária.
Eu sei que poucas coisas poderão me fazer feliz por mais de dez segundos. Eu sei que posso conhecer tudo e desistir de tudo na metade de uma volta ao mundo.

Não se dê tanta importância.
Escuto o zumbido ao meu lado.
Basta viver sua vida, medíocre, plana, na superfície.
Sobreviverá.
Terá sempre alimento em casa.
E aos sessenta ou setenta anos, morrerá de um infarto cardíaco.

E como explicar para mais alguém que isso não é o suficiente?
Como dizer que se há a possibilidade de mais alguma coisa,
por que se contentar com algumas migalhas?
E não digo de algo que possa tocar, ou medir com ambas as mãos.
É algo inenarrável.
É algo que existe sem a minha presença ou até existência.
Algo que me infringe a perguntar por quê?

Por quê?
O que é que faz sentido nessa vida?
Dê-me um pequeno exemplo para saber o que é que faz sentido.
Não aceito conceitos ou idéias salvacionistas.
Vivemos porque não temos nada melhor para fazer.
Ou porque não somos corajosos.
Ou porque aceitamos o dia-a-dia como a melhor coisa que tínhamos para fazer.
Por quê?

Medo.
Não se dê tanta importância.
Quem sou eu para dizer algo importante.
Não tenho importância.
Não tenho importância, repete aqui ao lado.
Não sabemos o que somos,
não sabemos aonde chegaremos,
não sabemos nada.
Vivemos numa roleta onde a cada jogada devemos apenas agradecer como a única coisa possível.
É essa pressão que carregamos,
que nos prende ao banco,
que impede de nos levantar.

Quem somos nós além de peças sem importância?
Somos seis bilhões de peças sem importância,
uns com mais poder divino que outros,
nenhum por minha inteira e irrestrita vontade.
E acredito, se é que posso acreditar em algo, que nem de ninguém.

O que temos além de horas que espremem horas, que espremem horas, até o infinito?
E se o infinito já tiver sido definido como o momento exato que existe agora, quando você já pensou já passou.
O infinito é ou era.

Por que, se quero viver apenas para aprender,
apenas para escrever,
para transformar-me numa máquina,
numa locomotiva de produção,
numa espécie de fábrica com coração?

Porém, o que é mais viável, cada vez mais viável
é ser um pequeno e irrisório nada.
Daqueles que só conseguem produzir cascas, embalagens, redomas. Aqueles que só conseguem, ou imaginam, ou fingem entender.
Que riem de alguns por comodismo,
que não sabe nem tocar, nem falar, nem imaginar.
Que não sabe perdoar, não sabe conviver, não sabe imaginar de dentro, de dentro de uma caixa torácica quentinha.

Não se dê tanta importância.
Não se dê importância nenhuma.
Esqueça que você existe.
Viva apenas.
Siga em frente.
Vá a praia.
Ria, disfarce o rancor.
A vida é bela, não é?

Não.
E não adianta agora vir com bolas de cristal,
runas ou qualquer uma dessas coisas.
Não adianta.
Não me dou a importância necessária para acreditar em algo.
Vivo para ser um pária.
Apenas um pária daqueles que só existem por caridade da sociedade.

E se disserem que eu deveria lutar,
que deveria levantar a cabeça,
que deveria ir em frente,
direi que nem sei para onde minha visão aponta.
Não é uma fuga, é a realidade.