terça-feira, 28 de outubro de 2003

No sábado passado havia dormido na casa de minha irmã. Por azar, deveria trabalhar bem cedo no dia, assim colocara o despertador para tocar antes das oito da manhã. Acordei antes do horário previsto, apesar de termos bebido no dia anterior e dormido essencialmente tarde. Saltei da cama quando ainda não era sete e trinta. Antes mesmo de ir ao banheiro, sentei cheio de remelas em frente ao computador para entrar na internet. O que aconteceu, entretanto, eu não previra: o pc não funcionou.

Ainda um pouco molhado do banho que tomei na casa de minha irmã, colocando os fones nos ouvidos e a mochila nas costas, saí em direção a primeira banca de jornal que estivesse aberta. Contudo ela não tinha mais o diário que procurava. Me apressei para a segunda, depois de quase três quadras de vazio e angústia, quase correndo na rua. No meio de uma espécie de auto-estrada, encontrei o último exemplar. Caminhava na calçada e tinha para a minha inquietação: os carros que passavam rasantes ao meu lado bem próximos a mim, o horário para não me atrasar no emprego, a música que preenchia os meus ouvidos, a meta de pegar o transporte no lugar e hora certas e a tentativa, quase heróica, de ler a matéria que me preocupava com as letras balançando. A situação melhorou um pouco assim que consegui me sentar no banco do ônibus. Pude abrir o caderno e ter a comprovação de que meu conto não tinha sido eleito nada.

Era o quinto concurso que participava e, pela quinta vez consecutiva a minha apreensão e expectativa se repetiam. Não que ache que deveria ter sido eleito, todas as vezes que leio os textos selecionados vejo que eram imensamente melhores que os meus. Me desagrada, porém, imaginar que talvez se eu colocasse tudo aquilo que passa pela minha cabeça dentro dos meus textos, se conseguisse realmente me expressar, narrar todos os meus pensamentos, poderiam, assim, concorrer de igual para igual com os outros. Como disse em outros tempos, o meu caso é ser um escritor apenas pelos cacoetes, começando pelo branco. É sentar-se aqui, de frente para o computador e nenhuma das mirabolantes idéias que tive vem a minha mente. Ou, quando vem, não acho que sejam nada demais, ou pior, ao serem colocadas no papel virtual perdem completamente aquela força que achei que tinha.

No entanto, para minha sorte, desisti de me desesperar, escrevo apenas como prazer. Me sinto mais tranqüilo a partir do momento que descobri poder acreditar simplesmente, sem nenhum objeto de crença. Como se o simples ato de crer me tornasse mais tranqüilo, mesmo com a ausência absoluta do que acreditar. Como numa caminhada cega, como uma religião irracional, como numa fé desmotivada. Assim escrevo para me divertir. Sem nenhuma pretensão a coisa alguma. Borges dizia que o maior erro do artista é querer ser gênio. Pois então, como ele, me conscientizarei a ser somente eu, nada além desse “eu” ordinário e comum que se confundiria com qualquer pessoa. Nada mais de pressão para escrever com estilo, ou algo realmente importante. Até seria justificável ter esse tipo de ambição (ou pretensão); vários escritores dizem que seus desejos são de escreverem um livro que seja tudo para todos. Não tenho mais essa angústia, tirei essa forca do meu pescoço. Vou continuar a rabiscar essas coisas aqui e, talvez, um dia possa escrever uma pequena historinha sobre um sujeito que se transformou numa barata, ou sobre uma invasão de ratos numa cidade provinciana ou, quem sabe, narrar a saga de uma família solitária com hábitos exóticos. Histórias comuns, como se pode perceber.

Tenho certeza que no espaço físico que separa o pensamento, a formulação, o lugar onde se escuta o clique, onde se vislumbra a lâmpada se acendendo, do sentar na cadeira, de frente para o monitor, batucando nas teclas, coçando a cabeça, esfregando os olhos, se perde grande parte da produção literária do mundo. Se um dia pudesse mergulhar nesse poço para resgatar apenas as minhas idéias – juro que não roubaria a de ninguém – e as utilizasse aqui, conseguiria um resultado mais, como direi?, glorificante.

Ontem de noite por exemplo. Subi num coletivo e o motorista anunciou que havia mudado o itinerário por causa de um tiroteio que estava acontecendo na área que deveria ir. Desci e esperei o próximo que provavelmente não tivesse conhecimento da história e me levasse até o meu destino. Não demorou nada e veio um logo atrás. A coincidência – e aqui nasce a idéia – foi que ao me sentar, calmo, observando, através da janela molhada e embaçada ao mesmo tempo, um Rio de Janeiro escuro, vazio, chovido, o meu telefone tocou com a minha irmã na linha. Depois de todas as amenidades comuns de irmãos que não se encontram há algumas semanas, ela pediu para que eu tomasse cuidado, pois “a cidade está muito perigosa”. Poderia ser apenas uma preocupação familiar, tão tradicional na frase da mãe que diz para o filho não voltar tarde, ou quando pede para a irmã ligar quando chegar, onde quer que for, pois assim vivemos na cidade partida e sitiada. Porém ambas as informações se ligaram na minha cabeça na hora. E se um destino superior – não acredito nesse tipo de coisa, mas que ele existe, ele existe – tivesse tentando me passar uma espécie de mensagem para que eu desistisse de trafegar naquele dia, naquela via, daquele jeito? Claro que as teorias mirabolantes são prima-irmãs das paranóias, e resolvi continuar no meu trajeto até o final. Por sorte, ou porque assim tinha que ser, nada aconteceu comigo (fora ter molhado completamente o meu pé numa poça de água suja no meio da rua assim que desci). Com a minha chegada inocente e isento a casa que queria, resolvi usar a história apenas como pretexto para inventar um final mais empolgante, por assim dizer. Então lembrei que todas as histórias já foram contadas e que não deveria perder o meu tempo, nem fazer um eventual “você” ler essas baboseiras que na internerd tem aos montes, muito melhores que as minhas.

Agora aconteceu de novo. Quando escrevia o parágrafo anterior, esse que você acabou de ler, tive uma idéia. Não era brilhante, mas tinha achado bastante interessante, e agora ela não existe mais. Perdeu-se, foi para o beleléu.

Digressiono. Como podem ter percebido, escrevi a pequena historinha aqui. Sei que não mudará a vida de ninguém, mas com certeza transformará a minha em algo mais tranqüilo.

Iria continuar a escrever o parágrafo anterior e dizer que já vivo completamente independente da opinião de outras pessoas. Bastaria a mim somente escrever. Mas a afirmação não seria de toda verdadeira. O que passa pela minha cabeça, por exemplo, é que se desisto completamente de ser escritor – ou algo do gênero – as possibilidades que se figuram na minha frente diminuem drasticamente indo próximas a zero. Ou, sendo mais claro, não tenho idéia do que ser quando “crescer”. Mas como disse lá em cima, isso não é mais meu problema. Não sei de quem é, mas vou deixar para o futuro (se é que ele existe) decidir por mim.

epílogo

Tudo o que foi escrito até agora demonstra claramente a confusão que passa na cabeça de um garoto de vinte e poucos anos que ao terminar uma faculdade percebe-se completamente perdido, sem nenhuma pretensão de trabalhar naquilo que ele (pseudo) aprendeu. E nesse ínterim de desespero, não escreve nada. Fica numa espécie de greve dele mesmo. Não se forçará a colocar nada no papel. Depois de dezenas de dias, de semanas, um mês, volta a colocar qualquer coisa, apenas para não enferrujar, tentar se convencer. As esperanças diminuem proporcionalmente ao tempo que se esvai. Ele continua a acreditar em “nada”, nesse nada que não tem nome, que não tem forma, que não tem gosto. Exatamente o que faz a falta de perspectiva diminuir no hall de preocupações – sendo substituídas por outras mais táteis, mais prováveis, mais iminentes. Ele segue, porque é inevitável. Decidiu que se cair, cairá lutando. Acha, nessas últimas semanas, que não há como mudar o próprio futuro, mesmo que tente muito, tudo está praticamente feito. Porém, sabe do valor da escolha. Porém, entretanto, mas “Se deus não existe, tudo é permitido”. Deve-se abastecer o destino com possibilidades, e se essas não forem escolhidas, optar pela próxima. Cair lutando. Repete como um mantra. Para poder se convencer.
Seu Livro?

No intervalo do primeiro ato para o segundo a vi pela primeira vez. Poderia tentar descrevê-la, mas qualquer palavra que utilizasse seria de menor expressividade que o necessário. Ela é alta, cabelos dourados escorridos que passam pelos ombros ignorando-os até a metade das costas. Eu tomava um café apoiado no balcão e me era impossível não estar com os olhos grudados nela. Me sentia diminuto porque não havia a possibilidade de, de alguma forma, me aproximar. Não sei se a expressão exata é essa, mas sentia algo parecido com a culpa.

Tenho uma namorada, como nunca tivera nunca. Estou com ela há mais de seis meses – fora nosso aniversário no dia anterior – e ela me deu uma carta dizendo-se muito surpreendida e feliz por estarmos juntos. Falava de nossas semelhanças, citava nossas brincadeiras e terminava com uma citação poética. Chorei discretamente abraçado no seu pescoço por alguns instantes maravilhosos. Não tenho dúvidas que gosto dela. Não tenho dúvidas que ela combina comigo, que ela me entende, que é linda, que adoro ficar ao seu lado. Entretanto, depois desse tempo inédito para mim, a empolgação, como é de se esperar, declinou-se.

Na volta para o segundo ato, mudei de lugar na platéia indiscriminadamente e percebi que, por uma questão de coincidência, sorte ou sei lá que nome pode-se dar para isso, a loura televisiva estava na minha frente, um pouco à esquerda. Até ai, não há nenhum problema nem nenhuma solução, estávamos insossos como havíamos de estar. Então ela olhou para trás. Na primeira vez para nenhum lugar, como que mapeando o ambiente, na segunda próximo a mim, na terceira para mim. Tinha dez, quinze minutos de espetáculo e ela virou três vezes para trás. Perdi completamente o fio da meada d’ “O Avarento”.

O problema era particularmente maior porque a loura me proporcionava exatamente aquilo que minha namorada não possuía: a perfeição estética. Ao olhar para ela eu a desejava mais que, talvez, outra mulher ao alcance. No intervalo me perdi observando nuances do seu corpo e imaginando sua voz, sua quentura, a textura da sua pele... A cintura fina, o detalhe da pele da barriga queimada de praia que aparece quando ela se mexe, o cabelo meio preso, meio caído, os olhos extremamente claros, o quadril generoso, o sorriso largo mostrando todos os dentes brancos, meu deus, o sorriso largo...

Tenho que dizer: vivo praticamente com a minha namorada – moramos um perto do outro e consigo ir na casa dela a pé quando quero. Os pais dela são ótimos. Ela gosta das mesmas coisas que eu. Estar junto dela é certeza de me sentir confortável, bem. Me sinto criando um relacionamento estável, exatamente como deve existir entre pessoas adultas e maduras. No entanto, algo não me deixa esquecer que tenho apenas vinte e dois anos. Tudo bem, não quero entrar na história do “desperdício de vida” tão cantada aos quatro ventos. Parece uma ladainha dizer que há benefícios em ambos tipos de relacionamentos, tanto na solterice convicta quanto na união duradoura. Falar com esse mesmo discurso, já tendo escutado diversas vezes amigos reclamarem da vida por isso, e contra-argumentar da irresponsabilidade dos atos, seria como me contradizer e ter um comportamento pouco, digamos, prático (apesar de que a praticidade nessas horas é das piores coisas que podemos fazer).

Pela completa falta de experiência em relacionamentos longos e estáveis, acredito que este tenha uma certa vantagem sobre mim por causa do seu caráter inédito (que também é um outro tipo de fetiche). Todavia, o que eu quero, se é que posso colocar nesses termos, é que ela, a que esteja comigo, me proporcione prazer tanto com meus olhos abertos quanto fechados, apenas isso. Não, também não quero cair no clichê da mulher perfeita, não é isso. Seria uma bobeira que acredito ter deixado para trás há tempos (mesmo que ainda tenha recaídas constantes). Muito menos confirmar a tese da constante insatisfação com a posse, o próximo e o desejo pelo distante, o do vizinho. Acho até que, de todas as teorias essa é a mais válida no meu caso, pela comprovação prática e estatística. Entretanto, dessa vez não. O que eu quero é simplesmente uma união da loura do teatro com a minha namorada.

Depois da terceira olhadela, ignorei por completo o espetáculo e apenas mirava os fios claros tão pertos do toque da minha mão. Ela demorou, mas olhou novamente para trás, dessa vez rapidamente. Um frio na barriga me tomou de assalto junto com os olhos dela. Foi então que num ímpeto, numa loucura minha, me aproximei dela que nem um cão desgarrado, catei seu rosto, o aproximei do meu e violentamente beijei-a sobre as cadeiras do teatro. Não, não isso foi apenas a minha imaginação agindo.

Esperei uma próxima virada de cabeça, mesmo que não suspeitasse da atitude que eu deveria tomar, porém ela não retornou. No início senti-me angustiado, pensei que tinha perdido uma oportunidade única, que tudo era culpa minha por não ter tomado atitude nenhuma, num espaço altamente propício para flertes e afins, como se pode perceber, mas logo a minha atenção retornou para a peça e a loura se transformou num belo preenchimento de tela.

O sentimento de culpa, o qual aludi no início do texto, não deixara nem um pequeno traço de vestígio. Parecia que ele só tinha passado para demonstrar que ainda existe, aqui dentro em algum lugar, nada mais. Mesmo assim, quando as luzes se acenderam levantei-me rapidamente para não me deixar cair em tentação outra vez. Todavia, ela se virou ainda com mais pressa que eu para trás e me fez uma interrogação. Ao menor rumor da sua voz quieta, meio rouca, quase me arrepiei. Com um livro na mão ela me perguntou se o dito cujo era meu. Primeiro não sabia o que responder, depois de alguns centésimos, consegui concatenar algumas fagulhas de sinapses e pude negar com a cabeça. Ela olhou para outro lado a procura de alguma coisa ou alguém e eu consegui fugir do teatro um pouco embaraçado.

quinta-feira, 25 de setembro de 2003

boteco

Cena 1

Boteco mal iluminado e sujo, com pequeno espaço interno, um mesa de ferro espalhada pelo saguão. Seu Ulisses passa um pano em cima do tampo do balcão. Ele está com a camisa azul aberta, como faz todos os dias. Passa por ele Dona Marta, sua mulher, uma morena robusta, porém de baixa estatura, com um lenço no cabelo, segurando uma bandeja de ovos coloridos cozidos. Ela abre a gaveta do balcão e coloca a bandeja no interior. Seus Ulisses dá um suspiro ao olhar para o bar.

Que foi Ulisses?

Nada mulher.

Que foi, homem? Tu ta assim há dias. Me conta o que aconteceu.

Isso.

Isso o que, homem de deus?

Ah, mulher, todo dia é isso. O nosso boteco ta às moscas. Não vem viva’alma aqui.

Entra seu Adenecir vagarosamente. Pele curtida, cabeça chata, muita estrada pela vida.

Tem o seu Adenecir. Ele vem aqui todo dia.

Seu Adenecir levanta o dedo e produz um murmúrio baixo, quase impossível de entender. Seu Ulisses enche um copinho pequeno de velho barreiro e o empurra na direção de seu Adenecir. Não dá maior atenção para ele.

Mas com o seu Adenecir não dá para pagar as contas. Não pára de chegar conta. Todo dia é uma coisa diferente que tem que pagar. É luz, é água, é imposto da prefeitura, é conta da Ambev, assim não dá.

Dona Marta sai do ambiente, vai para a minúscula cozinha. Seu Adenecir continua na frente de Ulisses, os dois não se comunicam. Dona Marta volta com uma colher de pau na mão.

Faz comida hoje?

Seu Ulisses não responde.

Faz comida hoje, me responde, homem de deus?

Para quem, Marta? Para que você quer fazer comida? Para jogar fora depois?

Marta volta para dentro da cozinha.


Cena 2

É noite, Seu Ulisses fecha a porta do estabelecimento. Ele bate repetidas vezes com a chave na mão e fica olhando para a porta arriada com um semblante triste. Depois de alguns instantes, ele sai do lugar. Ao lado da porta fechada, há uma placa de madeira ordinária, pintada a mão que diz: “Passo o ponto” e com o telefone embaixo.


Cena 3

Seu Ulisses carrega o freezer da loja com algumas caixas que o entregador deixou na porta. Vai até a cozinha, Dona Marta está lá lavando louça.

É a última vez que eu compro essa quantidade de cerveja. Fiz já um pedido com a metade das caixas. Tava demorando duas semanas para acabar com o estoque. Ficava tudo entulhado aqui atrás.

(...)

Ulisses, O Seu Manél veio falar contigo?

Não ele nunca mais veio depois daquele dia.

Quanto foi mesmo que ele disse que ia pagar?

Quarenta mil.

Oh, Ulisses, com quarenta mil na mão, hein... dá pra fazer uma festa...

E depois a gente vai viver de que, Marta?

Impera um silêncio. Seu Ulisses volta para o balcão. Seu Adenecir já está no seu cantinho com o copo na mão.



Cena 4

Seu Ulisses almoça sozinho na mesa de ferro no meio do salão.

Marta, tem pimenta?

Pimenta acabou.

Tem farinha, então?

Vou levar.

Demora alguns segundos e Dona Marta leva o pote de farinha. Assim que ela sai, entra no boteco três sujeitos completamente diferentes da freguesia habitual. Dois são altos, um magro e outro mais musculoso. Este tem um cabelo grande e usa óculos. O terceiro era menor e tinha uma certa calva.

Opa, tudo bem?, diz o de óculos.

Hum, resmunga Seu Ulisses com a boca cheia de feijão com farinha.

O senhor vende skol? Garrafa?

Harrã, sim, harrã.

Pra quanto ta?, pergunta o magro.

Dois e vinte.

Dois e vinte?, o menor se espanta.

É aqui mesmo que vamos ficar, o senhor tem uma mesa?

Seu Ulisses se levanta de imediato, carregando o prato nas mãos.

Não, que isso, tio? Almoça ai tranqüilo que a gente espera. Não tem pressa.

Não, sentem ai, eu ia mesmo lá para dentro.

Seu Ulisses larga o prato razoavelmente cheio na pia da cozinha e volta secando a mão na calça e limpando a boca na camisa. Abre o freezer, pega uma garrafa e a coloca em cima da mesa dos rapazes.

Traz mais uma?, pergunta o mais alto e magro para os outros. Com a confirmação de cabeça de todos, ele repete o pedido para seu Ulisses

Seu Ulisses se vira rapidamente para pegar mais uma cerveja e coloca na mesa. Dona Marta aparece na entrada da cozinha.


Cena 5

Seu Ulisses está observando os rapazes bebendo e conversando em altos tons no boteco. De repente, passa um sujeito de cabelo liso jogado na cara, os três de dentro do bar gritam para fora ao mesmo tempo.

Oh Verme!

O de cabelos lisos olha para dentro do bar e reconhece os amigos. Caminha para dentro e cumprimenta cada um.

Ta indo aonde?

To indo comer uma parada.

Pô, to com mó fome, também. Será que aqui não rola também uma comida?

Não sei, pergunta ai para o tio.

Ai, meu tio, tem alguma coisa para tirar o gosto?

Tem sim.

O que é que o senhor tem?

O que é vocês querem?

Tem aipim frito?

Aipim?

É aipim, macaxeira, mandioca...

Ah, mandioca frita, tem sim.

Ta bom aipim frito?, o cabeludo pergunta para a mesa, todos concordam, em seguida ele pede para Seu Ulisses: Me vê uma porção bem caprichada, então.

Seu Ulisses olha para Dona Marta que estava parada ao seu lado, ela entra na cozinha.

Não tem mandioca não.

Então vai comprar, mulher, ora onde é que se viu? Vai na tenda do Dílio e pega umas três. Aproveita e pega também carne seca e cebola.

Cebola a gente tem.

Então vai logo, não se demore mais.



Cena 6

Seu Ulisses coloca mais uma cerveja para os rapazes. Embaixo da mesa falta apenas duas garrafa para fechar a caixa.

Oh tio, o aipim demora para sair ainda?

Ta saindo.

A gente pediu o troço há um século.

Porra, que cara exagerado, ironiza o calvo.

Ta saindo, ta saindo.

Seu Ulisses entra na cozinha, Dona Marta está no fogão fritando. Ao seu lado, há uma bandeja com alguns aipins já prontos. Ela pega com a escumadeira e os colocam na bandeja.

Vou levar. Frita também a carne seca.

Dona Marta pega as tirinhas que já havia cortado da carne seca e as joga na mesma frigideira.

Seu Ulisses entrega o prato para os rapazes. Eles não falam nada, atacam o prato.

To fritando também uma carne seca para vocês. Vocês querem.

Pô, perfeito.

Peraí, quanto é o aipim?

O aipim?

É.

Três reais.

E a carne seca?

A carne seca é... cinco reais.

Ta, tudo bem. Pode trazer.



Cena 7

Já está de noite. Há um e meio engradado de cerveja cheios. Os garotos estão todos muito bêbados.

Vamo’embora. Vamo perder a festa de hoje.

Ta, pede a saideira e a conta.

Ai, tio, dá pra trazer a última e a conta pra gente?

Seu Ulisses sai no balcão pega a cerveja no freezer, a entrega para os sujeitos e volta para o balcão para fazer a conta.

Porra, gostei daqui. Vamo voltar amanhã?

Também gostei. A cerveja tem um preço honesto e a comida é boa.

Seu Ulisses leva a conta para eles. O mais alto e magro pega, a coloca sobre a mesa e puxa a própria carteira. Todos em seguida fazem o mesmo, sem nenhuma reclamação. Em pouco tempo, o dinheiro está sobre a mesa.

Aqui tio. Vamo voltar amanhã.

Ta.

Vamo trazer uma galera. A gente vai encher isso aqui.

Ta. Ta, pode trazer.

Até amanhã, tchau senhora

Dona Marta balança a mão de volta. Seu Ulisses pega o engradado e o coloca na cozinha. Ele está visivelmente empolgado.

Vou ligar pro Russo pra trazer cerveja.

Por que, Ulisses?

Porque os garotos acabaram com a minha toda. Tenho mais quatro caixas e meia e só. Se eles vierem mesmo amanhã, como é que eu faço? E se vierem com esse povo todo que eles tão falando que vão trazer?



Cena 8

O dia está claro. Seu Ulisses desliga o telefone em cima do balcão, ele está com um guardanapo numa mão e uma caneta na outra. Caminha para a cozinha onde está Dona Marta.

Pedi dez caixas. Acho que vai dar.

Quem deve ser esses meninos?

Num sei, Marta.

Será que eles moram por aqui? Eles poderiam morar por aqui, né? Se eles morarem por aqui seria melhor.



Cena 9

Na hora do almoço, chega a entrega de cerveja. Seu Ulisses ajuda os homens a descarregar. Um dos homens dá um tapinha nas costas de Seu Ulisses.

Ai, Seu Ulisses, fazendo pedido extra. Vai ter festa?

Não, não.

Que isso, Seu Ulisses? Nem me convida para as suas festas.

Não vai ter festa nenhuma não, Russo.

O homem sai depois que Seu Ulisses assina a nota de entrega. Seu Ulisses fica na porta do boteco com a mão na cintura olhando para ambos os lados. Fica uns quinze minutos assim depois volta para dentro do balcão.

Se esses moleques não aparecerem, eu to no prejuízo de mil real.

Mil real?

Seu Ulisses não responde. Coloca mais uma pinga para Seu Adenecir.



Cena 10

Seu Ulisses fecha a loja de noite. Dona Marta está ao lado dele. Os dois começam a caminhar para a casa.

E agora, Ulisses?

Seu Ulisses não responde. Ele anda cabisbaixo, mexendo na chave para distrair.

E agora, o que a gente vai fazer, Ulisses?

Eu não sei, Marta, eu não tenho a menor idéia. Me deixa quieto no meu canto, ta?

Os dois continuam a caminhar sem pronunciarem nenhuma palavra.



Cena 11

Seu Ulisses passa um pano sobre o balcão, na manhã seguinte. Seu Adenecir toma sua pinga no mesmo lugar de sempre. Seu Ulisses se senta no banco que ele tem dentro do balcão e num ímpeto se dirige para a mulher, dentro da cozinha.

Vou ligar para o Manél.

Dona Marta sai secando as mãos num pano de louça e apenas o observa. Não tece nenhum comentário. Seu Ulisses pega o telefone e disca alguns números.

Manél?... É Ulisses... Isso, isso, da “Flor do Bairro”... Isso... Como vai, também?... To ligando, Manél, para saber se tu ainda vem aqui ou não... Não sabe?... Não?... Vem amanhã?... Já... Não pode ser... Ta... Semana que vem, então... Ta, ta marcado, então... Um abraço.

Por que você mandou ele vir só na semana que vem?

Porque a gente tem que resolver todo o negócio nesse meio tempo.

Que negócio é esse que a gente tem que resolver?

O negócio todo, ora.

Mas ele vem aqui só para dizer se quer comprar ou não. O que é que a gente tem que resolver?

Oh, oh, Marta, não se mete nas minhas coisas não. Deixa que com o Manél eu me entendo.

Você tem cada uma...

Dona Marta volta para a cozinha, Seu Ulisses fica no balcão com o caderninho de contabilidade aberto escrevendo nele.



Cena 11

O céu está escurecendo, o céu está azulado, com alguns tons de laranja. Seu Ulisses está na porta do boteco olhando para fora. A rua é pouquíssimo movimentada. Principalmente nessa época do ano, dezembro, janeiro. Subitamente aparece na rua, três sujeitos completamente desconhecidos, vestidos de puta, da pior qualidade. Porém, o que mais chama a atenção é que eles caminham como homens. Todos têm feições masculinas e não fazem nenhum esforço para disfarça-las. Seu Ulisses, meio rindo, meio se defendendo, volta para atrás do seu balcão. Demora poucos minutos, entra um sujeito enorme com uma fralda no meio das pernas. Junto a ele, vem um cara com roupa de exército.

O senhor pode me ver uma cerveja.

Seu Ulisses sai de trás do balcão e pega a cerveja e coloca em cima da única mesa.

A gente pode ficar bebendo aqui na porta?

Claro.

O senhor tem copo de plástico, para não quebrar nenhum copo do senhor.

Tudo bem.

Seu Ulisses voltou para detrás do balcão e olhou para fora e viu várias pessoas vestidas de maneira incomum. Umas mulheres de maiô com orelhas e rabos de gatos, coelhos, cachorros. Um garoto pequeno de trança de jamaicanas, um outro com uma batina de padre, uma mulher de freira, outra de mulher-maravilha, um sujeito com camisa do chapolim, outra de enfermeira, um médico, um dentro de uma caixa enorme, um vestido com roupa de esqueleto, outra de she-ra, outro vestido de caçador, um de tenista, outra de nadadora, uma de mergulhadora. Todos entravam na birosca de Seu Ulisses e pediam uma cerveja para comprar. Seu Ulisses já não conseguia atender a todos.

Marta, vem cá, vem cá, Marta, preciso que você me ajude aqui. Me dá uma mão aqui. Liga para o Oséas e pede para ele vir para cá. Vê se ele pode trazer mais cerveja, vê se dá também.

A rua está lotada de pessoas. Não são dezenas nem centenas, a multidão aparenta ter próximo de mil pessoas. Muitas delas entrando e pedindo uma cerveja ou algo mais forte.

Tu tem caipirinha?

Dá pra fazer rabo de galo?

Aqui tio, to pagando três cervejas.

Me arranja uma gelada, por favor.

Seu Ulisses em determinado momento, por mais incrível que pareça, fica sozinho com Dona Marta.

Marta, vou tirar a placa lá de fora.

Seu Ulisses sai do boteco, quando Oséas está chegando com o seu chevete bege. O dono do bar pega a placa do lado de fora e guarda debaixo do balcão.

terça-feira, 2 de setembro de 2003

Os defensores dos bairros proibidos

Gostaria que esse texto se transformasse, no futuro, em um primeiro capítulo dum grande livro em que contarei todas as minhas memórias em detalhes. Neste escrito, entretanto, não narrarei nenhuma das minhas façanhas, nenhuma das minhas missões civilizadoras, nada que eu tenha feito. Tentarei somente introduzir o conceito que me guia, aquele me torna um ser que existe para ajudar o próximo.

Se você está me lendo, já posso afirmar sem muita margem para erros, que somos seres especiais, únicos. É uma questão de estatística. Não tenho os números de cabeça, mas entre em um sítio de um instituto de pesquisa qualquer para saber quantos entre os habitantes desse país sabem ler e escrever. O número fica ainda menor quando peneiramos para aqueles que tem o hábito de ler livros ordinários. E, quer você queira ou não, tornamo-nos a elite quando compramos livros como o meu que, com certeza, não estará no hall dos mais vendidos. Por isso, acostume-se, você é um dos poucos.

Para comprovar a tese de que estamos no cume da montanha, posso afirmar sem nem ao menos lhe conhecer que, bem provavelmente, você fez alguma faculdade, ou está em curso agora. Eu, por exemplo, fiz engenharia. Poderia ter feito medicina, direito, administração, economia, nada iria mudar muito a minha formação. Você estudou num colégio particular – eu passei quinze anos num de freiras – ou nesses públicos que tem provas semelhantes a vestibulares. Ou seja, possui um bem que a grande maioria daqueles que tem a sua nacionalidade não tem: educação. Não tenho a menor idéia do que você fez com a sua, mas eu usei a minha para servir aos meus semelhantes.

Para fazer aquilo que faço hoje em dia, não precisei de nenhum grande trauma para mudar a minha vida. Isso só existe em filmes e nos piores manuais de psicologia. Apenas observei meus arredores e decidi que do jeito que estava, não dava mais. Não houve um estopim, algo fatídico, somente um amontoado de situações que tornaram toda a convivência impossível.

Tenho esposa, duas filhas, uma casa espaçosa e confortável perto da praia, um carro, minha mulher anda com outro, uma casa na serra e outra num balneário. Lutei muito para conseguir isso tudo. Trabalho desde os dezesseis anos na firma de construção que meu pai deixou para mim. Tripliquei o seu tamanho sem nunca ter entrado num “esquema” dessas (ditas) autoridades públicas. Ganho licitações apenas com o meu suor e esforço. Pago todos os meus impostos em dia e nunca, nunca na minha vida, subornei qualquer fiscal.

Porém essas mesmas autoridades públicas resolveram ignorar cidadãos de bem, como eu ou você. Aqueles porque nosso país sobrevive, agonizantemente, devo admitir, mas sobrevive. O descaso para conosco já é endêmico e nos últimos anos tem piorado cada vez mais. Há umas duas décadas, mais ou menos, a situação ficou insustentável. Conheço dezenas, não é um ou outro, mas dezenas de amigos, trabalhadores como eu, que empregam, por suas vezes, centenas de homens nas suas empresas, e que vivem numa total situação de esquizofrenia e mania de perseguição. Tudo por causa dessa escalada da violência.

Tentei evitar a citação direta desse termo porque parece que já está muito batido e perdeu todo o seu real peso. Por isso, alegarei que estamos vivendo em algo que chamo de “barco do medo”. Tentamos navegar nosso caminho em paz, porém somos sempre interceptados por piratas que enlevam nossos bens e aterrorizam nossas famílias. Isolamo-nos, então. E, como os responsáveis pela nossa segurança não tomam nenhum tipo de atitude, achei por bem que eu, cidadão em dia com as minhas obrigações e habitante do cume dessa nossa sociedade, deveria tentar da melhor forma, resolver esse problema.

Acreditava piamente antes de começar esse ofício que não conseguiria resolver em cem por cento dos casos essas atrocidades que nos rodeiam. A minha intenção nem era essa exatamente. Queria criar algum tipo de resistência em nosso gueto, uma espécie de redoma de proteção contra esse invasor que toma as nossas moradias e impede de fazermos aquilo que queremos na hora desejada. Todavia, os resultados vêm se mostrando mais prósperos que o esperado.

Vivemos isolados do mundo não por vontade, mas por necessidade. Vivemos numa espécie de roleta-russa onde, mais cedo ou tarde, seremos os sorteados. Vivemos rodeados por essa doença, por esse câncer que come a nossa sociedade e agora chegou ao núcleo, ao centro, à parte mais nobre. Ficarmos de braços cruzados seria como assinar um atestado de óbito de toda a civilização da maneira como nós a conhecemos. Tudo a nossa volta se transformaria numa guerrilha, de maneira ainda mais aberta do que hoje. Queria, com o que eu faço, mostrar que nós não estamos sozinhos, desprotegidos, que não será fácil para eles virem aqui e tirar de uma vez só tudo o que nós tivemos tanto trabalho para construir. E acho que estamos conseguindo.

No início era só eu. Pode parecer estranho que eu tenha tomado à frente da execução da parte braçal desse projeto. Porém, não queria contar com mais ninguém naquele momento. Acreditava que quanto menos pessoas soubessem do que acontecia, menor era a possibilidade de termos problemas. Por isso, nem para a minha mulher contei. Devo admitir, também, que o contato com o perigo era algo que me fascinava e foi ponto decisivo nessa atitude de atuar sozinho. Hoje, somos uma rede, pequena tenho certeza, de doze pessoas, sendo dez homens e duas mulheres que funciona eficientemente, de maneira constante e sem periodicidade. Todos pertencem às melhores famílias, com tradições, todos como eu e você, habitantes do topo.

Porém, mesmo respeitando o nosso código de sigilo, era inevitável que, com o tempo, soubessem das nossas atividades. O que mais me impressionou, entretanto, nesses anos de ações, foi exatamente a conivência da polícia para com nosso grupo. Nunca houve nenhuma investigação na nossa vizinhança, apesar de alguns pobres coitados que sempre berram pelos direitos dos inimigos. Esperneiam como se nós não tivéssemos defendendo os direitos deles também. Os casos são arquivados, ou simplesmente esquecidos. Nenhum dos nossos foi importunado nas suas missões e – o melhor – mantemos um relacionamento altamente produtivo com eles. O que, aliás, mostra que existe ainda o bom senso dentro daquela corporação.

Até o governador tem se aproveitado de nossos trabalhos. Vocês devem ter percebido que é constante a presença dele nos meios de comunicação para afirmar que nos nossos bairros, o índice de criminalidade é tão baixo quanto em países desenvolvidos. Obviamente nunca contou o real motivo disso e o relaciona a uma suspeita eficiência da polícia. Ótimo para nós.

Outro fator de interesse é o insignificante número de reclamações por desaparecimento, ou coisa parecida, nos órgãos competentes. Eles simplesmente somem e ninguém dá falta. O que nos leva a crer que o nosso trabalho é aceito e era necessário para a grande maioria dos nossos vizinhos e conta com o baixíssimo número de insatisfeitos. Porém, qual serviço que agrada a todos?

Hoje já criamos uma certa respeitabilidade. Os nossos bairros não sofrem tanto quanto antigamente, é perceptível. Há ainda casos isolados e imprevisíveis que fogem de nossa alçada, como os loucos de dentro da nossa própria vizinhança que praticam atos delinqüentes. Mas estamos estudando formas de resolver esses problemas também.

Mantemos, assim, operações de rotina e é cada vez mais raro termos que agir prontamente. Tentamos conservar o que é nosso para que nossos filhos e netos consigam desfrutar de toda a maravilha dos nossos bairros tranqüilamente, exatamente como era antigamente.

Eles estão aprendendo que devem viver bem longe daqui, nas suas casas, que se vierem para cá, não terão a moleza que existia antes. Hoje em dia, eles já sabem que há uma instituição muito mais organizada que eles e que existe apenas para proteger os nossos iguais. O recado está dado.

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

a coisa aí de baixo faz parte de um concurso de contos da prefeitura de Niterói. é até primeiro de setembro. não sei se dará tempo para ajudar alguém. o endereço é: http://www.niteroi-artes.gov.br/nitconto.html