quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

acabei de ver uma placa de carro com os seguintes dizeres: "god creates the man, but simon colt made them equal".

talvez o que mais me assustou aqui no inicio, como um estranhamento antropologico, se me permitem a pseudice, foi a facilidade de se adquirir armas. no supermercado, encontramos rifles - dizem que eh para cacar - por apenas 35 dolares. no minimo, impressionante.

o sujeito que foi me buscar no aeroporto, pediu para eu colocar a minha mala "over this gun". fiz uma cara de assustado e ele, "yeah, this is a gun". exatamente como se dissesse, "o meu guarda-chuva, ora. vc nunca viu um guarda-chuva". depois, descobri que ele tem quinze armas em casa, mas nunca pensou em usa-las para se defender.

e olha que, apesar do bigode e de beber cerveja pelo gargalho ao dirigir, ele foge bastante do estereotipo do americano medio.

o que choca eh perceber que o que o michael moore mostrou no seu doc., nao eh aumentativo de nada. nao houve fantasia para fazer cinema. muito do que ele foi acusado (de falsificar a realidade) pode ateh pesar contra ele, mas como eh impressionante a maneira como ele captou a fascinacao americana por armas.

sigo aqui, esperando que algum dia um sujeito me aponte a arma apenas porque sou brasileiro. e nao, eles nao acham que somos macaquinhos de circo, eles nao acham anada. nao tem a menor ideia de quem somos, o que ateh acho pior.

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

aqui, em South Carolina, North Charleston, nao ha nada para se fazer, caso vc nao tenha carro. e ha pouquissimo caso vc o tenha. assim, minhas distracoes se resumimem a ficar dentro de casa, lendo e escutando musica.

retirei dois paragrafos de um dos livros que estou lendo. achei interessante. nao irei destrincha-los. acho que sao auto-explicativos.

"coleridge observa que todos os homens nascem aristotelicos ou platonicos. os ultimos sentem que as classes, as ordens e os generos sao realidade; os primeiros que sao generalizacoes; para estes a linguagem nao passa de um aproximativo jogo de simbolos; para aqueles eh o mapa do universo. o platonico sabe que o universo eh de certo modo um cosmos, uma ordem; essa ordem, para o aristotelico pode ser um erro ou uma ficcao de nosso conhecimento parcial. atraves das latitudes e das epocas, os dois antagonistas trocam de dialeto e de nome: um eh parmenides, platao, spinoza, kant, francis bradley; o outro, heraclito, aristoteles, locke, hume, william james"

borges, o rouxinol de keats, outras inquisicoes.

"wells, inacreditavelmente, nao eh nazista. inacreditavelmente porque quase todos os meus conteporaneos o sao, por mais que o neguem ou ignorem. desde 1925, nao ha publicista que nao opinie que o fato inevitavel e trivial de ter nascido em um determinado pais e de pertencer a tal raca ( ou a tal mescla de racas) nao seja um privilegio singular e um talisma suficiente. vindicacoes da democracia, que se julgam muito diferentes de goebbels, instam seus leitores no mesmo dialeto do inimigo, a escutar o palpitar de um coracao que recolhe os intimos mandados do sangue e da terra. lembro-me de certas discussoes indecifraveis, durante a guerra civil espanhola. uns declaravam-se republicanos; outros nacionalista; outros marxistas; todos, com um lexico de gauleiter; falavam em raca e povo. ate os homens da foice e do martelo revelavam-se fascistas... tambem recordo com certo estupor uma assembleia convocada em repudio ao anti-semitismo. ha varias razoes para que eu nao seja um anti-semita; a principal eh esta: a diferenca entre judeus e nao-judeus parece-me, em geral, insignificante, `as vezes ilusoria, ou imperceptivel. ninguem, naquele dia, quis compartilhar minha opiniao; todos juraram que um judeu-alemao difere enormemente de um alemao. em vao lembrei-lhes que nao outroa coisa diz adolf hitler; em vao insinuei que uma assembleia contra o racismo nao deveria tolerar a doutrina de uma raca eleita; em vao citei a sabia declaracao de mark twain: "eu nao me pergunto de que raca eh um homem; basta que seja um ser humano ninguem pode ser nada pior" (the man that corrupted hadley burg, p. 204)."

Borges, dois livros, outras inquisicoes.
o que colocarei aqui embaixo, foi produzido em papel, a punho, por uma necessidade absurda de fazer tatil e de transformar em realidade a minha memoria. provavelmente parecera bobo (e sem nenhum acento). mas era urgente. e nas emergencias, relevamos um pouco a qualidade dos escritos.
como percebivel, estou sem acentos, por causa dos teclados americanos. como perceptivel, estou em terras confederadas, no sul da america do norte. nada, ou quase nada - porque temos sao paulo e nova iguacu - eh pior. enfim.

algo como uma resenha.

ontem, ao ler o quarto conto de "dublinenses", senti pela primeira vez a fisgada do genio que da ali, atras das costelas, entre a terceira e a segunda.

os primeiros eram de uma brandura que deixavam os olhos correrem e a memoria incolume. apesar de de ja faiscarem com lampejos das tintas dos grandes autores.

(talvez, devesse ter dado maior atencao `a orelha do livro que denuncia que joyce apenas cronicou, sem muita necessidade de exemplificar um inicio, meio, fim)

o primeiro, por exemplo. "as irmas" narra a morte e o funeral de uma paroco catolico do bairro. o conto so demonstra sua razao nas utlimas paginas quando as irmas (freiras e amigas do morto) conversam sobre o falecido. no inicio, declaram todas a admiracao, todo o respeito que possuiam, e como o padre era importante. com o tempo, a conversa descamba para a crueldade, citando morbidamente a fase final da vida do padre, com seus tiques e trejeitos. como se dissesse que na superficie todos mantemos uma capa de animosidade, entretanto ao aprofundarmo-nos dentro de cada alma, o que encontramos nao e nada bonito de se ver.

o segundo conto tambem tem no seu fim o seu porqu^e. tres garotos em idade escolar programam-se para gazetear por um dia. um deles falta e os outros dois andam a esmo por dublin ate que encontram um personagem para la de esquisito. o sujeito e a graca de toda a historia. assim como "as irmas", este sujeito apresenta-se bifacial, porem com visoes muito mais antagonicas e conservadoras que no conto anterior.

o terceiro e' uma pequenina historias ja bastante conhecida. uma garoto, para impressionar uma menina, promete um presente. porem, para consegui-lo, ele necessita do dinheiro do pai que, obviamente, implica o maximo possivel e o impede de atingir sua meta original. a fraqueza deste cointo pode ser exemplificadas pelas belissimas ultimas frases que nao a salvam do lugar-comum: "fitando a escuridao, eu me vi como uma criatura tangida e ludibriada por quimeras. meus olhos queimavam de angustia e odio".

ja o quarto mostra uma menina de dezenove anos dividida entre a sua chance de felicidade (fugir com o namorado marinheiro que aparentemente gosta dela para a argentina) e a obrigacao (ficar em dublin para cumprir uma promessa de cuidar do pai velho e doente que bate nela). apesar de sua extrema infelicidade na irlanda, evelyn - o titulo do conto - se sente culpada por abandonar o pai. apesar deste a maltratar, ela consegue, com um esforco anormal, recordar-se de boas lembrancas, de cenas felizes entre os dois. opta, em detrimento do namorado, ficar e cuidar do pai. a culpa vence a felicidade, ou altruismo vence o individualismo. depende do otimismo de cada leitor.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Porta

Uma fina porta de madeira nos separa. Não toquei a campainha nem tocarei; mesmo assim, ela sabe que eu estou aqui estancado. O máximo que me permito é massagear a maçaneta, ou alisar o comprimento da porta ou sentir o cheiro do verniz. Ela – acredito – faz semelhante.

Se me perguntarem como cheguei aqui, é improvável a certeza. Estou sem norte há três dias, posso jurar sobre bíblias. Desde exatamente quando ela me disse que não poderia vir comigo. O porquê não importa, se foi algo fora das nossas órbitas, algo que é impronunciável, ou que não respeita vontades ou desejos, o que isso vale a pena? A certeza é única e presente e tátil como essa porta aqui.

Desde então ela distanciou-se e em apenas alguns fragmentos de segundos que estivesse ao seu lado, fui grosseiro e egoísta. Não necessariamente por pretensão, apenas porque achava que era o certo ser como fui e agora acho que não era. Ela abriu a porta por instantes, para me ver, para que eu apoiasse sua cabeça e ela chorasse até secar suas águas e eu decidi ir ali na esquina, rapidinho, só vou comprar dois maços de cigarros e volto. Encontrei a porta fechada e eu estou aqui, do lado de fora e só.

Se fosse apenas isso, sei o certo que ela com o tempo entenderia que pequenas situações são passageiras e todo o qualquer que temos certeza um do outro é melhor, para não repetir o maior. Parece que consegui vê-la de relance, num momento de alta concentração, mas ela não mais quer saber que eu existo nesse exato instante. Quer dormir e acordar com uma lembrança.

Toda vez que sua imaginação trai seu raciocínio e fornece minha imagem para ocupar o tempo que temos para gastar até acabar nosso prazo de validade, ela desaba e não pára de desabar até que eu finja que já não existo há décadas e tudo o que ela sonhou nesse ínfimo espaço de tempo anterior faz parte de um lamaçal profundo que não deve ser revirado. Não agora.

Agora estou sentado no chão, jurava (poderia) que ela iria abrir a porta. A surpresa foi quando ela passou um papel por baixo da porta com delicadas três palavras escritas em sua letra infantil: “Espera por mim”.

sábado, 13 de dezembro de 2003

(Espaço em branco)

e - agora - você - me - diz

conversa comigo
eu calo sozinho
para escutar a tristeza tocar lá no fundo
e ecoar.
ou sorrio e rio
para limpar as vermelhas dos seus olhos.

nada sei sobre três meses
com a face do dado na vertical
nada a saber porque não há.

mesmo com a luz apagada
mesmo desligado
sinto falta
e incapaz de dizer qualquer coisa.

volto, eu juro,
com minhas pernas, rosto, boca
intáctil.
volto, eu juro
volto para e por.