Eu tenho um certo preconceito com atores. Acredito que todos são... parecidos. Mas, claro, é pura implicância. E, recentemente, tive oportunidade de conhecer alguns que são, bem, reconhecidamente diferentes de outros. Como Irandhir Santos, de quem já ouvi os maiores elogios, de diversas pessoas diferentes. E Lima Duarte, que, de tão humilde, diz que não é um bom ator de cinema.
Quem seria, então?
quarta-feira, 26 de maio de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
'Alice' é um filme só para crianças
Diferentemente do livro de Lewis Carroll, "Alice no país das maravilhas" de Tim Burton é um filme só para crianças - infelizmente. Eu o li na versão bonitona da Cosac Naify, que saiu ano passado com ilustrações do Luiz Zerbini. Coisa fina. Na quarta capa, Ana Maria Machado atentava que a tradução de Nicolau Sevcenko, diferentemente de outras, como a dela mesma, conseguia atingir adultos e crianças. Verdade verdadeira. O livro tem um humor nonsense que, bem preservado, é muito saudável para qualquer idade.
O filme, entretanto, não é ruim. Tim Burton é um craque. O que ele faz, ninguém mais faz. Um filme dark, mas para os pequenos. Menos mal.
ps. Já disseram que Burton só tem dois telefones na agenda. Mas eu gosto de diretores que repetem atores.
pps. A dança final de Johnny Depp é constrangedora.
O filme, entretanto, não é ruim. Tim Burton é um craque. O que ele faz, ninguém mais faz. Um filme dark, mas para os pequenos. Menos mal.
ps. Já disseram que Burton só tem dois telefones na agenda. Mas eu gosto de diretores que repetem atores.
pps. A dança final de Johnny Depp é constrangedora.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
Nietzsche e o hábito olhar o outro lado
O Verissimo escreveu uma coluna semanas atrás contando sobre o poder de influência de Wagner sobre a formação do estado alemão do século xx (ver "Das weisse Band", Haneke, Michael) e como o compositor pensou que era mais que um músico em certo momento, se levando a sério demais.
Para contrabalançar esse caminho, Nietzsche, que no início de sua vida admirava fielmente Wagner, rompe relações com o compositor e profere o adjetivo que Verissimo logo transformou em verbo: "Era preciso mediterranizar a música." Que, na interpretação do próprio Verissimo, era "evitar dramas ruidosos, megalomanias épicas e arrebatamentos místicos e nos concentrarmos nos simples prazeres possíveis." Vou além, seguindo uma tradição do próprio escritor, que é conhecido por sua leveza: é preciso rir de si mesmo.
O curioso é enunciar Nietzsche como o profeta da leveza. O filósofo alemão não era exatamente sutil em suas posições. Mas, como aconteceu em toda a sua vida, Nietzsche trafegava bem entre os extremos das suas posições, podendo oscilar entre os dois lados facilmente, exercitando o ponto-de-vista oposto ao confortável.
Deleuze escreve no capítulo sobre a vida do alemão do seu livro "Nietzsche" que a influência da doença que veio a enlouquecer o alemão, de certa forma, sempre esteve presente na filosofia nietzschiana. Porque, segundo o raciocínio de Deleuze, que faz completo sentido após ler um pouco o alemão, ele gostava de escrever sobre a doença quando estava são; e sobre a saúde, quando estava mal. Se distanciava da sua posição, para olhar o outro lado. Assim, fazia jus a sua luta contra a metafísica e se sentia completo, sem divisão. Acho uma atitude para lá de saudável.
Para contrabalançar esse caminho, Nietzsche, que no início de sua vida admirava fielmente Wagner, rompe relações com o compositor e profere o adjetivo que Verissimo logo transformou em verbo: "Era preciso mediterranizar a música." Que, na interpretação do próprio Verissimo, era "evitar dramas ruidosos, megalomanias épicas e arrebatamentos místicos e nos concentrarmos nos simples prazeres possíveis." Vou além, seguindo uma tradição do próprio escritor, que é conhecido por sua leveza: é preciso rir de si mesmo.
O curioso é enunciar Nietzsche como o profeta da leveza. O filósofo alemão não era exatamente sutil em suas posições. Mas, como aconteceu em toda a sua vida, Nietzsche trafegava bem entre os extremos das suas posições, podendo oscilar entre os dois lados facilmente, exercitando o ponto-de-vista oposto ao confortável.
Deleuze escreve no capítulo sobre a vida do alemão do seu livro "Nietzsche" que a influência da doença que veio a enlouquecer o alemão, de certa forma, sempre esteve presente na filosofia nietzschiana. Porque, segundo o raciocínio de Deleuze, que faz completo sentido após ler um pouco o alemão, ele gostava de escrever sobre a doença quando estava são; e sobre a saúde, quando estava mal. Se distanciava da sua posição, para olhar o outro lado. Assim, fazia jus a sua luta contra a metafísica e se sentia completo, sem divisão. Acho uma atitude para lá de saudável.
***
ps. Entrevistei o Alexandre Vogler, que fez a obra com o cartaz da Fani e que originou toda a confusão. Ele me pareceu centrado e atinou contra um detalhe que não tinha reparado sobre esse ponto de vista: como o direito está falido, também, na hora de lidar com as obras de artes. O artista não sabe quais são os seus limites legais. Assim como não sabemos qual é o limite da própria arte. Será que estamos num período ilimitado?
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Lost filosófica: esperança renascida
Não é de hoje que Lost namora a filosofia, vide seus personagens John Locke e (Desmond) David Hume. Namora tanto que saiu até um livro sobre essa ligação direta. Até aí nada, porém, já que o doutor House também ganhou a sua "homenagem" [além disso, a filosofia, de certa forma, está bastante na pauta - talvez para substituir a agenda da psiquiatria / análise].
Mas ou eu estou junto com a moda, ou eu estou muito empolgado com a pós (Arte e filosofia) e vendo relações com tudo e todos com a filosofia - que tem, tem -, ou realmente há uma mensagem filosófica no fim desta que é a última das temporadas do seriado.
Como disse antes, o que mais me interessava na série, além de seus mistérios, mitologia, suspense e surpresas, era a ambiguidade dos personagens. Ninguém era totalmente mau nem bom. Todos são, como deveriam ser mesmo, um misto de ambas as coisas, sendo que, em determinados momentos, podemos ser mais uns que outros. Não precisa ser um gênio para perceber isso, basta ver o BBB. Se não faz o seu estilo, basta olhar para as pessoas nas ruas.
A filosofia entra agora: Nietzsche (meu atual filósofo preferido) combateu em sua obra o que ele chamava de metafísica. Para ele, metafísica seria a divisão do mundo em dois pólos, com a supremacia de um sobre o outro. Ou seja, para usar um exemplo mais próximo, o bem e o mal. Para ele, não existia essa separação (vide seu livro "Para além do bem e do mal"), simplesmente não podemos viver só com o bem ou só com o mal. E tentar evitar um dos dois (adivinha quem todo mundo tenta evitar?) é não aceitar a vida como ela é, é percebê-la menor, faltando uma metade. Ele sugere que sejamos corajosos e enfrentemos as propostas do que acontece. Não precisaríamos ir tão longe - ou melhor, tão perto, se considerarmos a questão histórica. A proposta do ying & yang não era, lá no fundo, exatamente isso?
Com o episódio de ontem, não-por-acaso [em minha opinião] protagonizado pelo broda Hume, minha esperança de que a série não seja decepcionante se reacendeu. Porque eles sugeriram - e eu interpretei dessa forma - que é melhor viver uma vida completa, com sofrimentos, alegrias e decepções, que uma perfeita, em que você tem tudo - mas não tem nada.
Mas ou eu estou junto com a moda, ou eu estou muito empolgado com a pós (Arte e filosofia) e vendo relações com tudo e todos com a filosofia - que tem, tem -, ou realmente há uma mensagem filosófica no fim desta que é a última das temporadas do seriado.
Como disse antes, o que mais me interessava na série, além de seus mistérios, mitologia, suspense e surpresas, era a ambiguidade dos personagens. Ninguém era totalmente mau nem bom. Todos são, como deveriam ser mesmo, um misto de ambas as coisas, sendo que, em determinados momentos, podemos ser mais uns que outros. Não precisa ser um gênio para perceber isso, basta ver o BBB. Se não faz o seu estilo, basta olhar para as pessoas nas ruas.
A filosofia entra agora: Nietzsche (meu atual filósofo preferido) combateu em sua obra o que ele chamava de metafísica. Para ele, metafísica seria a divisão do mundo em dois pólos, com a supremacia de um sobre o outro. Ou seja, para usar um exemplo mais próximo, o bem e o mal. Para ele, não existia essa separação (vide seu livro "Para além do bem e do mal"), simplesmente não podemos viver só com o bem ou só com o mal. E tentar evitar um dos dois (adivinha quem todo mundo tenta evitar?) é não aceitar a vida como ela é, é percebê-la menor, faltando uma metade. Ele sugere que sejamos corajosos e enfrentemos as propostas do que acontece. Não precisaríamos ir tão longe - ou melhor, tão perto, se considerarmos a questão histórica. A proposta do ying & yang não era, lá no fundo, exatamente isso?
Com o episódio de ontem, não-por-acaso [em minha opinião] protagonizado pelo broda Hume, minha esperança de que a série não seja decepcionante se reacendeu. Porque eles sugeriram - e eu interpretei dessa forma - que é melhor viver uma vida completa, com sofrimentos, alegrias e decepções, que uma perfeita, em que você tem tudo - mas não tem nada.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
'Sem título' - Capítulo 26 - Teste
Nesses tempos de ócio, estou aproveitando para reescrever o próximo livro, que já tem algumas muitas páginas. Por acaso encontrei esse trecho, que certamente - e felizmente - não é a melhor coisa escrita. Mas tem um pouco do humor atual, de tantas desgraças, internas e externas. Resolvi testar a leitura, publicamente. Vamos ver qual é a reação.
26
A fase era péssima. Nada dava certo. Nenhum pensamento prosperava na minha cabeça guiada por um único pensamento, que dominava por completo a atenção. Sentia um peso danado por ter feito o que fiz. Não sabia como lidar com isso. Era tão absurdo, tão inesquecível, tão chocante que desisti de fazer qualquer coisa que fosse considerada por qualquer sujeito comum simples. Em poucos meses, chegava ao lugar onde não há qualquer alternativa.
***
26
A fase era péssima. Nada dava certo. Nenhum pensamento prosperava na minha cabeça guiada por um único pensamento, que dominava por completo a atenção. Sentia um peso danado por ter feito o que fiz. Não sabia como lidar com isso. Era tão absurdo, tão inesquecível, tão chocante que desisti de fazer qualquer coisa que fosse considerada por qualquer sujeito comum simples. Em poucos meses, chegava ao lugar onde não há qualquer alternativa.
Estava definhando. Não saía de casa há dias, já tinha esquecido o que era comida, vivia num estado entre o dormir e o ficar acordado, sonâmbulo. Perdi as forças e estava me entregando. Não vislumbrava qualquer sentido, significado, possibilidade para o que se chama vida. Não decidia nada. Permanecia deitado, em qualquer pedaço do apartamento, e mais recentemente, só do quarto. Observava, no início da avalanche, a janela, a favela. Prestava a atenção nos barulhos da rua. Em seguida, olhei para a parede, num transe que mistura dia e noite na cor amarelada.
Passava pela minha cabeça apenas a ideia de que não havia motivo algum para se levantar. Ficar deitado ou desaparecer eram a mesma coisa. Sentia-me sem força. Cansado de uma luta que nem havia começado. A culpa aprisionava os meus membros num casulo, impedindo-os de se movimentar. Havia cometido um crime, era um criminoso, fora-da-lei, merecia a prisão, merecia não existir. Era a minha única oração, e eu repetia como uma ladainha, hora após hora. Só não fazia algo pior porque não tinha coragem nem para isso. Os órgãos iam se paralisando um a um, até que um dia, perdi os sentidos.
Só acordei tempos depois, talvez dias, talvez horas. E, incrivelmente, me sentia melhor. Sentia-me... Vazio. Não havia tristeza, culpa, rancor, pena, dor, fome, nem alegria, felicidade. Era o meu corpo e nada dentro. Eu era um robô, um homem sem emoções que acordava. Alguém que não tinha nada para expor e que poderia ser, por completo, preenchido.
Pela primeira vez, pude avaliar o incidente de uma distância segura, sem ser influenciado por nenhum resquício de outro sentimento. Estava à vontade comigo mesmo. E, observando o ato, analisando toda a cena, quadro a quadro, em câmera lenta, voltando e adiantando, acelerando e atrasando, mudando a ordem das ações, cheguei a uma conclusão: tinha gostado do que fizera.
Sentira um prazer, uma força, algo que nunca tinha acontecido comigo. Sentia-me poderoso. Era isso. Senhor da vida e da morte. Quem decide o destino dos outros. O que interrompe. Era um mensageiro de deus, uma espécie de anjo da morte. Eu estava seguindo por essa linha e ri, não de felicidade, mas de mim mesmo, do raciocínio que tive, megalomaníaco, infantil. Era um sentimento tão inusitado para mim. Eu não acredito em deus, menos ainda em uma religião. O que senti não tinha a ver com o divino. Também não tinha a ver com nada místico, por motivos óbvios. Decidi, então, descobrir de onde vinha essa felicidade. Nem que, para tanto, tivesse que matar mais pessoas.
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