domingo, 18 de dezembro de 2011

Conto de fada tailandês


Em vez de fazer comentários esparsos, vou fazer diferente. Vou contar uma história, uma história que eu vi em um filme tailandês, bem ilustrativa. Um conto de fadas que começa com “Era uma vez...”.

Era uma vez... um caçador que, noite após noite, é acordado em sua cabana, no meio de um sonho, o mesmo sonho, um sonho em que ele está na floresta atrás de um fantasma, um fantasma que devora as suas caças e que não deixa nada para ele caçar quando acorda. O fantasma bate à janela sobre sua cama, derruba frutos sobre o telhado, faz barulhos à porta, tenta de todas as maneiras que ele não durma. O caçador, depois de dias com dificuldade para adormecer, resolveu matar o fantasma. Pegou sua arma e foi para a floresta caçar essa diferente caça.

Mas como achar um fantasma, ele se perguntou apreensivo? Tentou procurar pegadas, mas percebeu que fantasma pode ter qualquer tipo de pegada, já que ele assumia as formas de todos os animais possíveis. Tentou escutar os seus sons, mas a floresta encobria qualquer barulho do fantasma. Apelou para os animais, perguntando-os onde estava o fantasma que ele queria caçar para poder dormir novamente, mas os animais se recusaram a contar-lhe – ele era um caçador, ora!

O caçador, então, decidiu deixar de dormir. Ficou na floresta sem voltar para sua cabana. Subiu em uma árvore bem alta e tentou observar todo o movimento da floresta. Ele imaginou que logo iria encontrar o fantasma e, aí, poderia atirar nele e, finalmente, voltar para sua cabana e descansar. Ele percebia os macacos pulando pelos cipós e lhes perguntava se tinham visto o fantasma, e os macacos o ignoravam. Ele tentava conversar com a cobra, mas a cobra avisava que não tinha qualquer informação, e se tivesse, não lhe passaria. Ele continuava de tocaia, com a arma envolta nos braços, pronto para atirar, caso avistasse o fantasma. Ele queria dormir, novamente, sem qualquer problema.

Depois de diversas noites em claro e sem qualquer sinal do fantasma – que era bastante inteligente e conseguia se esconder do caçador –, ele acabou caindo no sono e sonhando. Sonhou que consegue achar a trilha do fantasma e está logo atrás dele, pronto para matá-lo e assim se libertar, e poder voltar para a cabana e dormir em paz. Ele escuta as folhas se mexendo logo à sua frente e corre na mesma direção. Sabe que o fantasma não pode estar longe. Ele já sente a presença do fantasma. O fantasma não é tão rápido como ele imaginava, é possível alcançá-lo, está logo ali à frente. O caçador vai encontrá-lo, em instantes – ele acredita – ele vai encontrá-lo. Basta ser mais ágil, e estar pronto para agir ao menor sinal do fantasma, porque o fantasma pode desaparecer de uma hora para outra. Ele não pode pensar, tem que ser automático, instantâneo. Ao avistar o fantasma, deve atirar. Deixa a arma já engatilhada. Quando tiver o menor sinal do fantasma, aperta o gatilho. Assim, imediatamente. Falta pouco. Dá para sentir. Falta pouco. Aperta o passo, correndo como uma lebre pelas folhas. Os galhos estão se mexendo cada vez mais, o fantasma está perto, ele sabe que está se aproximando, ele sabe. Tem que ficar pronto, não pode pensar muito, tem que ser instantâneo. Ver o fantasma e apertar o gatilho, não pode deixar o fantasma escapar, ele quer voltar para a cabana, ele quer dormir! Falta pouco. As folhas, os galhos estão balançando cada vez mais forte. É agora! Ele vê o vulto do fantasma: é agora! Está sobre uma árvore: é agora! Se prepara, aponta, e atira.

Acorda o caçador, acorda com uma ferida na barriga, de um tiro. Olha para frente e não entende muito bem. Está zonzo, confuso. Ele se vê. É ele mesmo, o próprio caçador, olhando para si próprio, abaixando a arma, que ainda saía a fumaça do tiro, satisfeito com o tiro certeiro que dera, enquanto ele sangra, até que cai da árvore, morto.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Empatia é humana

Rüdiger Safranski, em sua biografia comentada sobre Schopenhauer, ressalta que o filósofo sempre abordou a necessidade de, de certa forma, doutrinar as suas próprias vontades - mesmo que conscientemente ele soubesse que isso fosse de todo impossível. De qualquer forma, ele ressalta um caso específico, que ele não apelidava de vontade, mas eu tomo a liberdade para fazê-lo, em que diz como a solidariedade é intrínseca ao ser humano. Mesmo que não quisermos, somos sempre levados a compartilhar um pouco do que o outro está sentindo - seja para o bem ou para o mal.

Já ouvi dizer, também, que o amor-fraterno, que é um outro nome para a solidariedade, assim como, veremos, empatia, e não o amor-erótico, seria o maior dos sentimentos humanos.

Isso tudo me veio à mente quando li, no início do "Do the androids dream of electric sheep", o narrador do livro de Philip K. Dick falando sobre como a única forma de identificar os androides que têm o sistema operacional mais avançado é aplicar um determinado teste - aquele que, no "Blade runner", tem um ponto fixo de luz vermelha - em que mede a empatia da pessoa. Nesse mundo, os androides não teriam empatia, que é um sentimento próprio para os que querem - ou precisam - viver em comunidade.

O problema, no livro, e um problema que, aparentemente aparece em diversas obras de Dick, é avaliar sob esses critérios os doentes mentais que não tem capacidade de produzir afecções, como os esquizofrênicos ou os esquizoides, conforme ele mesmo cita. Medir a humanidade pelas suas mais nobres características é, portanto, injusto. Ou, melhor dizendo, medir a humanidade é sempre injusto.  

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ensinamentos


“Quando voltamos para a cidade, perdi logo contato com Klaus. Nunca mais o vi. Desapareceu como se eu nunca o tivesse conhecido. Às vezes, pensava que ele talvez não tenha existido mesmo, aí, começo a rir, sozinho, percebendo o que ele me ensinou.

“Voltei e quis viajar, quis sair de casa, quis mudar de vida. A minha casa já não me pertencia, já não podia ficar ali, estava completamente caustrofóbico, me sentia sufocado, sem ar. Decidi sair pelo Brasil, pelo interior, atrás de gente que pudesse me ensinar alguma coisa. Queria aprender, e não era a escola que me ensinaria o que eu queria aprender. A escola, esse formato, não era para mim, como não é para muita gente. Peguei um dinheiro que tinha economizado, juntei algumas roupas e fui. Saí de casa. Saí de casa para nunca mais voltar.

“Andei muito, conheci muitos lugares, aprendi com muita gente e também me tentaram enganar também, algumas vezes. Sempre haverá charlatães, como a minha mãe, que dizia que falava com os mortos, que incorporava espíritos. Uma mulher, uma vez, falou que para me ensinar eu deveria confiar nela. Ela me levou para a linha de trem e mandou eu ficar lá, em pé, até que ela me mandasse sair. Subi nos trilhos e fiquei parado. Ela disse para olhar para ela, para olhar só para frente. E eu fiquei lá. Horas. Sem nada a acontecer. O sol forte na minha cabeça, e eu com sede, mas não podia me mexer. Estava sem sentir os pés, de tanto tempo parado. E ela à minha frente. Depois de horas imóvel, escutei o trem se aproximando. E ela, impassível à minha frente. O trem vinha, apitava, e ela não fazia nada. O trem continuava, escutava os freios sendo acionados, e ela, sem mexer um músculo. No último instante, olhei com o meu canto de olho, usei a minha visão periférica, e pulei à frente, sentindo o trem passar raspando, logo atrás de mim. Quando caí, ela apenas disse, antes de ir embora: nunca confie em ninguém e siga apenas os seus instintos.

“Das coisas mais impressionantes que eu vi, eu lembro de uma mulher, no meio do sertão, acho que era Pernambuco ou Bahia, que matava com uma bacia d’água.

“Ela recebia a incumbência, colocava uma bacia de água na sua frente e ficava olhando para o líquido, quieta, entrando num transe, descendo mais e mais, até que a água não mais refletia o seu rosto, mas o rosto de quem quer que fosse o futuro morto, e ela prendia a respiração e a pessoa do outro lado começava a ter dificuldade de respirar até que caía no chão, azulada, sem ar, morta. A mulher também quase morria nesse processo, porque tinha que ficar tanto tempo quanto o outro sem respirar. Mas ela era velha, treinada, experiente, sabia se controlar.

“Fiquei com ela por quase quatro meses e só consegui, só fui autorizado a ver uma de suas mortes, e apenas na última semana. Ela era uma mulher que vivia só com uma sobrinha, que a ajudava nas tarefas caseiras, numa casa de palha, com chão de terra batida. Subia uma poeirada toda vez que alguém entrava. Era seco o lugar, mas tinha um açude perto, onde a sobrinha ia buscar água.

“Ela era velha, rosto enrugado, sempre com um pano prendendo o cabelo. Se dizia devota de Maria, mas também dizia que tinha essa maldição, que ela tinha que colocar em prática, se não a consumia, se não ela iria apodrecer por dentro e ia cair dura, seca, ela mesma. Nunca aceitava dinheiro pelas suas mortes e tinha que ser convencida pelo interlocutor de que o morto merecia morrer.

“Agora, ela dizia que não queria mais viver, e estava negando os pedidos de todo mundo que vinha até ela. Por isso, inclusive, disse ela, estava enrugada. Porque tinha perdido sua água. Ela só aceitou o pedido de uma mãe, sua vizinha, cuja filha tinha sido abusada por um primo. A velha se apiedou da mãe que chegou com ódio no coração, mas se sentia incapaz de matar o primo, que era mais forte e vivia numa casa grande, rica.

“A mãe morava também numa dessas casas de pau-a-pique e tinha vários filhos para criar. Só não tinha mais filho porque o marido tinha morrido, de um dia para o outro. O coração parou. A velha dizia que tinha sido um trabalho. Desde então, a mãe aceitava a ajuda do primo, rico, que morava na cidade. O primo sempre tinha se interessado pela filha mais velha, de 10 anos, mas ela imaginava que era coisa de família. Chamava a garota para passar o fim de semana com ele, na cidade, e até tinha levado a garota para a praia.

“Na volta de um desses passeios, a menina chorou dois dias e duas noites, sem parar. A mãe, depois de muito insistir, conseguiu que a menina desembuchasse o que lhe aperreava, mas a menina se sentiu culpada, como toda criança. O primo disse para a menina que se ela contasse algo para a mãe que ele nunca mais ia ajudar a família. A menina, porém, falou tudo para a mãe,  que foi em busca da velha. A velha me deixou assistir a essa morte.

“Ela foi para o quintal, com o sol a pino, tinha que ser ao meio-dia, com o horizonte amarelo de tanto calor. Trazia a bacia d’água, a colocou no chão, pegou um cadeira de madeira, sentou, e começou a olhar para a água. E respirou fundo, e inspirou e expirou, e o ar entrou e saiu, e ela segurou o ar nos pulmões por mais tempo, e ela soltou o ar, e o ar foi e veio, veio e foi, até a água começar a tremer, como se uma pedra tivesse caído no meio e as ondas tivessem saído do centro para as bordas, a água ficava cada vez mais nervosa, tremendo, balançando como em uma tempestade, até que a figura do primo apareceu: de bigode, cabelo gordurento com gel, para trás, barriga proeminente, sorriso largo de quem acha que é superior aos outros, camisa suada, moscas em volta dele, andando como se fosse um coronel, agindo como se fosse o dono do mundo. A velha começou a respirar mais fundo. Entrou o ar e não saiu mais. Ela só inspirava agora, parou de expirar. O corpo da velha cresceu, como se fosse uma bola, um balão, inflando. Ela parecia outra pessoa, o corpo enrugado agora se esticara. E o primo, do outro lado da bacia, começou a sentir a garganta apertar, segurou no colarinho da camisa de botão, e puxou para o lado, pigarreou, parou de andar, tentou inspirar e nada, se abaixou, se ajoelhou, abriu o último botão da camisa, arfou, mas nada acontecia, as pessoas se aproximaram dele, e ele foi ficando mais vermelho, mais vermelho, e a velha parou de respirar, trancou a garganta, apertou o pulmão, olhando  fixamente para a água, e o primo ficando mais vermelho, e agora roxo, se tremendo, se estrebuchando, tendo um ataque, era possível ver a vida saindo do corpo dele, era possível perceber como ele estava se perdendo, até que parou de se mexer. Era morto.

“A velha expirou todo o ar que tinha dentro de si, e uma ventania agitou todo o seu quintal, levantou poeira, como se fosse uma tempestade de areia, não foi possível ver nada a um palmo de distância. Eu me levantei para me proteger. Quando a poeira desceu, a velha está ainda sentada, respirando com dificuldade, com a sua sobrinha do seu lado, amparando, porque ela estava cansada. A velha foi levada para dentro da casa, para dormir um pouco.”

O que podemos saber?


“Eu também encontrei um dos nossos quando tinha mais ou menos a sua idade. De vez em quando, encontramos um dos nossos, um desses homens que, se quiser, nunca encontra a mortalidade, que não morre nem se a cabeça for cortada, melhor que o Highlander. Estava fora de casa, como eu sempre estava, para evitar encontrar as pessoas que viviam lá em casa – eu odiava ficar em casa, era sempre muito bagunçado, confuso, escuro, fedido – estava andando pela nossa vizinhança, a esmo, sem qualquer destino, apenas para matar o tempo e a angústia.

“Eu o vi na esquina, em frente à padaria. Dava para ver que era um homem pobre, mas ele tinha uma elegância incomum. Usava um terno púrpura que, apesar de gasto, estava alinhado. Sua postura foi o que mais me impressionou. Era magro, alto, parecia ter mais de dois metros, mas na verdade não tinha mais que um metro e oitenta. Estava apoiado no poste, olhando o vazio, mas sem ver. Destacava-se do seu entorno, como se fosse a única figura com cor, num ambiente sépia, a única pessoa em movimento, onde todos apenas eram fotografias congeladas, de um passado que insiste em se repetir. Era louro, de olhos claros. Usava um chapéu – no meu tempo de moleque, as pessoas usavam terno e chapéu, não ria.

“Era um dia morno, sem sol, mas a umidade castigava. Percebi que, aparentemente, ele também me enxergou. Depois de uns instantes, fixou os seus olhos em mim e me fez ir até ele. O seu olhar era tranquilo, não tinha qualquer interpretação. Era simples, direto, comunicava que ele queria falar comigo, que ele queria apenas me conhecer, que ele me achou diferente de todos os em nossa volta.

“Atravessei a rua e fui em direção a ele. Ele me ofereceu um cigarro. Eu não fumava, mas aceitei. Ele me disse o seu nome, Klaus. Era alemão, tinha vindo para o Brasil na época da Guerra. Na Alemanha, ele estudava o cérebro e os limites do pensamento. O governo nazista gostava do assunto e o incentivava, mas quando acabou a guerra, ele foi visto como um traidor e tinha sido condenado à morte. Como ainda achava que poderia prosseguir com suas pesquisas, decidiu fugir. Conseguiu chegar ao Brasil e vivia de bicos, de conseguir que os outros pagassem as coisas para ele. E ele falou que isso era fácil. Eu duvidei – era novo, não sabia ainda nada – e ele sorriu para mim, como quem dissesse: inocente. Ele decidiu, então, me mostrar. Fomos ao supermercado do lado da padaria. Entramos e ele andou pelos corredores até encontrar uma fila de pessoas, comprando algum produto escasso, carne ou algo assim. Ele entrou na fila e começou a conversar com aquelas senhorinhas que estavam na fila antes dele e, em menos de cinco minutos, já tinha convites para almoçar ou jantar de duas senhorinhas de cabelos brancos.

“Decidi aproveitar e aprender tudo o que eu podia com esse homem. Voltei em casa, peguei a chave da nossa casa de praia e fomos, naquele mesmo dia, para lá. Ficamos três semanas lá. A primeira coisa que ele fez ao chegar e nos instalarmos foi perguntar o que eu queria saber. Eu, ainda muito cru, perguntei o que é a verdade. Ele olhou para mim, sorriu ternamente, com carinho, e respondeu: é uma mentira.

“Aquela resposta ficou rodando dentro da minha cabeça e eu não consegui perguntar mais nada naquele momento. Fiquei desconcertado. Ainda acreditava em algo que fosse a emanação de todas as outras coisas. Por um lado, é um pensamento mais simples, que, se não nos esforçarmos muito, acabaremos tendo. Por outro, não há como fugir de nosso ambiente, de nosso entorno e sempre repetimos o que estamos acostumados a ouvir, até que conseguimos nos livrar disso, nos libertar, nos tornarmos independentes. Portanto, eu ainda repetia, sem perceber a ideia de um deus, que fosse o dono, o criador das demais coisas, fosse a verdade, e o restante fosse apenas o reflexo dele, um reflexo opaco, sem comparação com o brilho original, quando na verdade, somos um erro, somos o máximo que a evolução chegou – mas o mundo já viveu gerações e gerações sem que nenhum ser vivo aparecesse, e o mundo pode continuar sem nenhum ser vivo. Somos coadjuvantes, somos colaterais.

“Dias depois, após raciocinar muito sobre a resposta dele, sem chegar a qualquer conclusão, sem entender bem o que ele tinha dito, apenas achando a frase estilosa, como tudo o que ele fazia – era um homem elegante – tomei coragem e o perguntei, diretamente, o que ele queria dizer, o que quis dizer com a verdade ser mentira. Novamente ele me deu um sorriso de ternura, como se achasse engraçado eu estar passando por esses tipos de dúvidas, mas também entendesse que era algo normal para mim, como se ele, de certa maneira, se visse em mim, como se eu estivesse seguindo, sem saber, o caminho que ele tinha trilhado um dia, lá na Alemanha. A verdade é uma invenção, disse ele, a verdade não existe, só existe mentiras, ficções, que nós acreditamos. Mas não é ruim não existir nenhuma verdade?, tentei ainda perguntar, mas já completamente confuso. Ele respondeu que não, não havia nem bom nem ruim. Isso também era invenção. Perguntei se a vida, se o mundo não era ruim, ele disse que a vida não era boa nem ruim, a vida é.

“A vida é. Aquela frase, aquela frase, interrompida, assim, no meio dela, como se faltasse algo, como se pedisse que alguém a completasse, como se causasse propositalmente um estranhamento para despertar um interlocutor, mas apenas o interlocutor razoavelmente curioso, porque o adormecido iria passar sem perceber que a frase acabou antes de terminar. A vida é. A vida é o quê?, me perguntava, sem saber que estava fazendo a pergunta errada. Sem saber que essa pergunta não existia, sem saber que qualquer resposta poderia se encaixar ali, sem saber que a vida é o que ela é, no momento que ela está sendo, para quem for que esteja vivendo.

“Minha cabeça ficava cada vez mais confusa. Meus raciocínios não chegavam a qualquer conclusão. Eu queria clareza, mas uma clareza a que eu estava acostumado, com uma luz fraca, enquanto ele acendia um farol para onde eu não conseguia olhar diretamente, porque não estava acostumado, porque tinha medo de ficar cego. Nós temos medo de saber, de conhecer porque pode nos desconectar com a nossa vida, pode nos levar a um mundo onde o chão é gelatinoso, onde o ar é duro, onde tudo o que conhecemos é diferente, e teremos que nos adaptar, teremos que nos modificar – e raros são os que querem mudar, raros os que querem sair do chão, mudar de ar, se movimentar. O resto gosta de raízes que o identifiquem com o ambiente, que ele não precise fazer qualquer esforço. Eu quero remar contra a maré – como diz o Cazuza, para me exercitar. Eu quero mais sofrimento, para fortalecer esse meu músculo, esse músculo que não existe fisicamente, mas que é o único que nos faz andar, realmente. Enquanto as pernas caminham, mas não saímos do chão, esse músculo, que é treinado, que é exercitado com o sofrimento, com os problemas, ele é o que nos faz avançar, é o que nos fortalece, nos prepara.

“Extremamente confuso, perdido nos meus raciocínios que não chegavam a qualquer conclusão, interrompi o café dele na manhã e o metralhei com diversas perguntas. Hahaha. Eu era tão inocente. Até curioso pensar nisso, hoje. Perguntei o que havia no mundo, antes do mundo existir. Perguntei para que nós existimos. Perguntei como sabemos se estamos fazendo a coisa certa. Perguntei qual caminho tomar. Ele me ofereceu um cigarro. Tomou mais um gole do café e falou para segui-lo.

“Fomos andar na praia. Eu sei, é meio clichê, mas estávamos em frente ao mar, e era 1950, quando os nossos atuais clichês foram criados. Ele me perguntou: por que o mar tem ondas? Porque a gravidade da lua afeta a água, respondi, cheio de mim. Ele sorriu, ternamente. E por que é ritmado? Por que há uma onda e depois outra, por que há um balanço? Eu não sabia responder. E ele também não dizia nada, apenas me olhava, ternamente, no que eu interpretei na hora como se fosse uma cobrança. Aquilo me angustiava. Não saber o que de alguma coisa, o motivo, o porquê, aquilo me consumia, aquilo começou a me fazer mal. Era um dia nublado e frio, típico do inverno na costa, com céu cinzento e vento constante. Mas eu sentia um calor que não tinha razão de ser, sentia um peso, a minha vista escurecendo a cada piscadela, até que uma hora eu quase desfaleci. Me abaixei, ajoelhado, cansado, como se tivesse gasto toda a minha energia procurando uma resposta de algo que eu nem mais lembrava o que era.

“Ele esticou a mão para me ajudar a levantar e disse apenas: tente focar sua energia naquilo que você pode saber. No que você não tem como saber, espere até a resposta vir a você. E quando levantamos, eu estava ainda um pouco confuso, eu olhei para o mar e fiquei muito impressionado, fiquei o mais impressionado que já fiquei na minha vida, antes daquilo e até hoje, quase 50 anos depois, eu olhei para o mar e não havia uma única onda,  o mar estava mais parado que uma piscina, estava quieto, tranquilo, calmo.

“Ele me levou para casa e eu ainda pude dar uma olhada no mar, antes de entrar, e o mar continuava sem qualquer movimento.  Entrei e apaguei no sofá, como se eu não dormisse há semanas, como se eu estivesse gasto todas as minhas energias, como se estivesse esgotado. Quando eu acordei, a primeira coisa que eu fiz foi olhar o mar e ele estava agitado como sempre esteve.”

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Rússia negra

No sábado, íamos a uma festa no Sul de Londres, e decidimos pegar um ônibus no Centro, perto do Parlamento. Saímos do metrô e tivemos uma grande surpresa: toda a rua estava fechada. Vimos diversos policiais vestidos para o choque e suspeitamos que era um protesto grande, mas não tínhamos ideia do que era. Como Londres é a capital do mundo, no lado oriental do Atlântico, a primeira sugestão era de russos, que estão reclamando uma fraude nas eleições parlamentares.

Chegando próximo a Trafalgar Square, vimos que os manifestantes eram todos negros. Ficamos assustados quando um deles foi preso. Vimos que eles estavam encurralados em um pequeno quadrado embaixo da estátua de Nelson. Nos aproximamos e um homem grande, corpulento, se aproximou e nos disse: "não tenham medo, nós estamos aqui apenas protestando por nosso país". Explicamos que não estávamos com medo, mas curiosos, porque queríamos saber o que estava realmente acontecendo, em vez de apenas passar ali sem qualquer relação. E ele contou que eles estavam protestando contra uma suposta fraude nas eleições presidenciais.

Com toda a diferença histórica, a importância econômica e relevância no cenário internacional entre as duas nações - para usar apenas alguns detalhes - achei curioso que ninguém - no meu círculo, claro - estivesse comentando esse caso do Congo, enquanto o da Rússia era razoavelmente corrente.

Isso me lembrou um filme de advogado baseado num bestseller do John Grisham, "A time to kill". O fim, a pior parte do longa, mostra a fala do advogado de defesa que quer absolver um pai que matou os acusados de estupro de sua filha, assim que eles foram absolvidos pelo caso. O livro é situado no Sul dos EUA e mostra o racismo como um problema ainda não resolvido na região. A menina estuprada era negra, os acusados, brancos, rednecks.

O advogado começa a sua preleção descrevendo de maneira genérica, sem dar nomes ou relacionar diretamente com o caso em questão, toda a cena do ataque à garotinha, com requintes de detalhes, mostrando o quão cruel e ignóbeis foram os dois acusados e como era revoltante aquela situação. Só que, ao fim, num twist de retórica, e demonstrando como as pessoas estão entranhadas no preconceito, ele pede para que as pessoas imaginem que a menina do caso que ele estava narrando não era a filha do seu cliente, mas uma criança branca.

Imagine o Congo branco.