terça-feira, 23 de agosto de 2016

#Chinanews: o futuro da linguagem

Um coração sempre quer dizer < 3
Os caracteres chineses são a tentativa direta de uma linguagem que tenta ser mais visual, que tenta ser mais imagens que sons. Por exemplo, o 人, rén, em pinyin, a transliteração oficial, (se pronuncia com um "g" que sugere um "r", ou um som entre esses dois fonemas). Quer dizer "pessoas", "gente", mais de um fulano. Ao olhar para o caractere, não é exagerado falar que parece com o caminhar de um sujeito. Outro exemplo: 口, que quer dizer "boca" e se pronuncia algo como "kou / kŏu", e também parece uma abertura (alguns outros exemplos aqui).

Claro que nem todos o caracteres são tão correlacionados assim. Parece que há várias categorias e estes seriam apenas da categoria "pictogramas", mesmo, que tem exatamente essa características de lembrar um desenho. Na verdade, a linguagem seria infinitamente mais complicada se fosse apenas "representacional". Apesar de uma crença que eu tinha, o mandarim tem início-meio-fim, ou sujeito-verbo-predicado. E tem palavras bem mais abstratas. Tipo 大, dà, que quer dizer "grande" - e já dá para ver que o negócio começa a se desenhar.

De toda forma, mesmo que nem todos os caracteres sejam estritamente pictográficos, eles são, sempre, extremamente visuais. São desenhos, pequenas obras feitas com cuidado. A caligrafia aqui, aliás, é considerada uma arte, tão poderosa quanto, sei lá, a pintura.

Esses símbolos carregam em si um valor muito maior que uma simples letra carregaria. Ele já vem, sozinho, com toda uma carga de significados, que podem se multiplicar dependendo da maneira como a combinamos. Funcionam como uma espécie de emoticons versão -1.0. Como desenhos que ganharam vida sozinhos e foram se modificando ao longo do tempo.

Curiosamente, apesar de o mandarim ter a sua própria grafia de números (一, yi, por exemplo, quer dizer "um"), é extremamente comum encontrar os algarismos indo-arábicos (os que nós usamos) aqui, no meio dos ideogramas e dos pictogramas. Minha explicação-chute para isso é: os números também são símbolos, desenhos que são correlacionados a uma outra informação, como exatamente funciona os caracteres chineses. É o mesmo campo semântico.

Suspeito que, com a proliferação de designers que espalharam universalmente setas para cima e para baixo, botões verdes e vermelhos, carinhas que sorriem, choram e até duvidam, caminhamos nessa direção quando o assunto é linguagem. Não é bem uma surpresa, portanto, que a palavra escolhida pelo dicionário Oxford para representar 2015 seja um emoji: Face with Tears of Joy (só para efeito de comparação, a de 2013, na eleição bienal, foi "selfie"). O futuro da palavra não é exatamente um grunhido, como temia Saramago, mas um desenho - que retrata o grunhido, talvez?

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

CHINANEWS: O gene do cecê

Uma das dez principais dicas de todo o Lonely Planet da China, ao lado de "visitar a Grande Muralha", "Provar suas comidas diferentes", "Embrenhar-se em suas cidades históricas" é: leve desodorante.

WHAT?

Foi a minha primeira reação.

What?

Foi a segunda.

Fiquei realmente encucado. Como assim? Como assim? Como...? Para ter mais informações, já que o Lonely Planet não entrava em detalhes,  fiz contato com quem já tinha vindo para cá para confirmar: sim, era melhor trazer um frasco de desodorante extra. Aparentemente nas cidades do interior, tinha sido um problema para encontrar o produto.



Pensei: não vou ter esse problema ficando direto em Pequim. Uma cidade grande, cosmopolita, com grande circulação de estrangeiros, de todas as nacionalidades... um produto tão banal como desodorante deve ser encontrado em qualquer canto.

Qual foi a minha surpresa quando - TCHARAM - realmente se comprovou o pior cenário. Não encontrei em NENHUM lugar, até agora, desodorantes. De mercadinhos a mercadões, de sujeitos que não falam uma palavra em outra língua que não chinês até a "Mark Expensive". Nada.

A situação ficou cada vez mais curiosa porque, bem, não há um cheiro de suor generalizado aqui, mesmo que o calor seja próximo do insuportável em alguns momentos. Como assim? Que tipo de magia os chineses usam para o cheiro desaparecer? Será que há algum produto caseiro para tratar o tão famoso cecê? Foi então que...

The plot thickens.

Descobri recentemente uma informação que é quase tão surreal quanto o fato de não ter desodorantes aqui. E que é a explicação perfeita para isso. Há um gene que produz uma secreção que é o que atrai a bactéria que vai produzir a fedentina. Essa especificidade genética é completamente, absurdamente, improvável. Mas por uma combinação bizarra acabou acontecendo. Há um gene do cecê. [Leia com seus próprios olhos aqui.]

No Reino Unido, cerca de 2% das pessoas nascem com uma variação nesse gene e faz com que eles não fedam [eta palavra estranha]. Já no extremo oriente, o jogo vira. A imensa maioria das pessoas aqui tem essa variante de gente e, portanto, não fedem - e não tem necessidade de usar desodorante. Daí, a indústria não investir na produção e distribuição de tal produto.

Ainda bem que trouxe um pequeno estoque para consumo próprio.

De qualquer forma, não desisti de procurar desodorantes, por esporte. Tipo caçar pokemon - só que mais complicado.

domingo, 7 de agosto de 2016

CHINAnews: Olimpíadas

Há quatro anos estava lá em Londres, tentando me equilibrar entre tablete, celular, televisão e computador, para assistir ao máximo possível das Olimpíadas - quando não estava ao vivo nas competições. [Vi, por exemplo, a medalha de bronze do Cielo nos 50 m livre. Vi Phelps perder para o Chad Le Clos, numa prova que ele é recordista mundial desde os 15 anos, o 200 m borboleta, por um centésimo - ah, o um centésimo na natação...]

Na TV, entretanto, não conseguia ver o que eu queria. Para começar, o óbvio: os quatro canais da BBC focavam em atletas britânicos. Além disso, mesmo quando não havia Britons, a BBC preferia passar os esportes que eles têm mais tradição: hipismo, remo, vela... Essas coisas que nós temos, curiosamente ou demonstrando nosso vira-latismo centenário, história também.



Aqui na China, isso acontece novamente: saltos ornamentais. Tiro com arco. Levantamento de peso. Tênis de mesa. E propaganda com Sun Yang [foto], recordista mundial dos 400 e 1500 livre - que acabou de ficar com a prata na primeira [e quem eu vi em Londres bater um recorde mundial na segunda]. E dá-lhe entrevista com os atletas vencedores na CCTV - a TV estatal com o nome mais piada-pronta que existe.

[Uma pausa para explicar o chiste: CCTV é a sigla para China Central Television, mas também para Close-Circuit Television, no Reino Unido, isto é, a gravação big brother de todos os seus passos, seja nas ruas seja em qualquer outro lugar. Uma TV estatal de um país em que as liberdades são bem controladas ter o mesmo nome do sistema de TV interna é quase batom-na-cueca.]

Voltando. Para quem acha que o Brasil é o único país capitalista-selvagem porque foca mais no futebol, vôlei, basquete e outros esportes que dão audiência, ou para quem acha que o brasileiro é um péssimo torcedor, porque só quer saber de ganhar, pode perceber que isso é um fenômeno mundial. Um fenômeno que respeita um único deus: os lucros e os dividendos.

Seria isso "democrático", portanto? Já que é o "povo" quem escolhe ao que quer assistir? Sem entrar numa discussão que remeteria diretamente à escola de Frankfurt, não consigo aceitar a hipótese facilmente. Só queria levantar a dúvida para quem ainda hoje pensa que a China é um país comunista. Guiar a programação por um critério tão capitalista é, no mínimo, contraditório.

sábado, 6 de agosto de 2016

CHINANEWS: O Ocidente ao ocidente do Ocidente

Somos tão diferentes dos chineses, assim? Se espantar com as óbvias dissimilaridades é ridiculamente fácil. Como, então, ao contrário, enxergar o que ou em que nós somos parecidos? 

Me descobriram.
Para começar, China e Brasil são países que até hoje não ditaram as regras do mundo. China, nos últimos anos, vem assumindo um papel de liderança, sim, mas isso é bem recente, principalmente se considerarmos a história dessa imensa e antiquíssima nação. É muito provável que o mundo venha se tornar cada vez mais chinês – seja lá o que isso queira dizer –, mas isso ainda não é uma realidade. Ainda assistimos a filmes americanos, comemos pizza, tomamos vinho, escutamos rock.

Como bem disse Caetano – fazendo já uma citação às avessas de Fernando Pessoa – o Brasil é o Ocidente ao ocidente do Ocidente. Não conseguimos nos encaixar perfeitamente bem nessa divisão tão simples, capitaneada pelos países ricos e famosos, em que há uma e única forma de fazer as coisas. Sempre sobra algo.

Mesmo o nosso pé europeu do tripé é torto, parece bruto demais para o clube dos ricos e famosos. Somente nossa elite acredita que pode se achar mais europeia que os próprios europeus. Ou mais norte-americana – de Miami ou Orlando, claro – que os estadunidenses. Ninguém mais, além desses deslumbrados vira-latas, consegue se olhar no espelho e dizer sem titubear que é branco puro-sangue de corpo e alma. Sempre escorregamos.

E deveríamos incentivar esses escorregões, ao invés de reprimi-los. Deveríamos mostrar que é nesses escorregões, quando saímos do julgamento, do padrão estabelecidos pelos outros, que conseguimos criar algo fora dos padrões obrigatórios. Só assim que encontramos o contraponto, o balanço, o entre que não é estático, que é sempre um movimento, em suma, sincopado.

Vejo um paralelo que é comum em outros lugares grandes e que tem uma classe média forte [como a Índia, por exemplo]: O chinês urbano vê o rural com o mesmo desprezo que o brasileiro do asfalto olha para o do morro. Não deve ser visto como coincidência como esses países lidam com as pessoas de pele mais escura. Na Índia, anunciam cremes para clareamento de pele nos pontos de ônibus. Na China, as mulheres usam roupas de manga comprida para evitar se queimar. No Brasil, bem, no Brasil nem precisamos dizer nada.

Há uma cisão que é uma ferida que nunca sara. Um lado olha para o outro de cima para baixo; o outro, de baixo para cima. O chinês urbano é um turista na zona rural, assim como o brasileiro do asfalto é um perdido em qualquer favela. É uma generalização, claro, mas a divisão está igualmente clara. Quem conseguiu participar do jogo do andar de cima, entendeu suas regras, imita os movimentos dos líderes da corrida, versus quem ainda faz a própria partida, com as próprias limitações, lutando pela sobrevivência diariamente.

No Brasil, sabemos que não somos ocidentais, mas também não somos orientais [e o que é exatamente o oriente?, pergunta há bastante tempo o Edward Said]. Se os chineses são quase o exemplo do extremo outro, do completo diferente, nós podemos nos contentar em dizer que somos algo que está além, que verga o Ocidente até ele se transformar em outra coisa. Um Ocidente que, para seguir a citação do Caetano, dá uma volta completa no globo para se reencontrar no mesmo lugar de antes, mas com um sentido diferente. Não uma oposição ao ocidente, porque carregamos também esse DNA, mas uma opção, um refresco, uma respirada, por assim dizer, que confunde a cabeça de quem tenta nos entender, com a régua fixa e imutável do pessoal lá de cima.

Assim, podemos tentar ser, em vez de europeus ou americanos – nunca seremos –, talvez mais orientais, no sentido de aceitar, de corpo e alma, ser esse outro – que ao mesmo tempo, sem deixar de ser, é, desde sempre, o mesmo. Por isso Ocidente ao ocidente do Ocidente. Pensando assim, talvez sejamos mais orientais do que nós imaginamos – ou queremos aceitar.

ps. Esse texto nasceu após eu ouvir a versão do Paulinho da Viola do hino nacional.

CHINANEWS: Incomunicabilidade

[Metáforas aparecem pelo caminho e podemos ou não colhê-las – acolhê-las – para tentar nos confortar de alguma maneira. Talvez as religiões tenham nascido daí. Quando alguém ouviu o trovão e disse que aquilo era Tupã – ou Thor – e que isso significava que havia um sentido maior, transcendental, para a existência, além da própria existência. Mas não precisamos ir tão longe assim.]

Ficar sem internet no seu quarto de hotel no primeiro final de semana livre é horrível. Mas é ainda muito pior se você está na China, longe dos seus entes mais queridos de quem você já sente saudade, é carioca, gosta de esportes e sua cidade está sediando uma olimpíada. Melhor dizendo, A Olimpíada. Aí é angustiante.



O sentimento de incomunicabilidade que já é alto aqui, em qualquer momento, é elevado nessa situação ao exponencial. Você se sente numa prisão em que não precisa estar exatamente dentro de quatro paredes, com um cadeado à porta. O mundo em que vive, com seus códigos, sua cultura pregressa, toda a sua trajetória, completamente diferente do seu entorno, é sua prisão. Não tem como sair, assim, rapidamente. Está encarcerado, dentro do seu próprio modo de ser, sem saber como chegar a qualquer outro alguém.

O tradutor Mabel Lee explica na curta introdução de “Soul Mountain”, talvez a obra mais conhecida do Nobel de literatura Xingjian Gao, sobre o mote central do livro: a necessidade da ligação com o outro para que o homem se constitua em sua humanidade. Em outras palavras, para que o homem [a mulher] se saiba homem [mulher]. “Quando privado da comunicação humana, não estaria o indivíduo condenado à existência do Homem Selvagem das florestas de Shennongjia, do Pé Grande da América ou do Yeti dos Himalaias?”.

Essas talvez sejam as figuras selvagens do sujeito que não consegue entrar em contato com o outro. No imaginário brasileiro, talvez se transformem no Saci ou no Curupira, ou ainda alguma das entidades da umbanda, não sei. No mundo urbano, ocidentalizado, essa personagem assume outras máscaras, que o tronco psi tenta mapear, como o esquizofrênico, o psicótico ou, numa versão menos violenta com o outro, o deprimido.

O mundo contemporâneo retira o senso de comunidade e condena o homem a ser somente um indivíduo, com todo o peso dessa decisão. O resultado, muitas vezes, é uma solidão acachapante, como uma bola de ferro presa no pé. Quando muitos dos meus amigos sugerem a força das ruas, a necessidade de se pensar o mundo pelo olhar do carnaval, é mais ou menos contra essa força que eles lutam. É a cultura do encontro, da celebração, da comemoração. Da comunidade.

Há quatro anos, estava em Londres e escrevia minha primeira coluna para o “Segundo Caderno” d’“O Globo”, coincidentemente sobre o espírito da cidade que se tornava também olímpica. Lembrava de um trecho de um poema do inglês John Donne que afirmava que “nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo” porque cada um é “parte do gênero humano”.

Temos que nos lembrar disso, sempre, para fugirmos do isolamento, mesmo quando estamos incomunicáveis.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

CHINANEWS: A comida

Uma das forças culturais da China é, inegavelmente, sua comida. É tão presente que a tradução literal para o cumprimento igual a “Como vai você?” é algo como “Já fez sua refeição?” ou “Já comeu?”. Ontem fiquei treinando a pronúncia com os chineses do escritório na hora do jantar. É algo como “ni chi le ma?”, ou"你吃了吗?", se eu entendi direito.

algodão doce deve ser uma invenção chinesa


Ligeira interrupção para dizer que a entonação das vogais em mandarim engana muito: são quatro possibilidades diferentes. O exemplo clássico que é dado é o do Ma. Má, em que o som do “a” cresce, quer dizer cânhamo. Já mà, em que ele decai abruptamente, ralhar. Por sua vez, mă, em que há um balanço, começando alto, descendo e depois subindo novamente, quer dizer “cavalo”. Por fim, mā, em que o som permanece alto sempre, é mãe. O último "ma", como se vê no parágrafo anterior, é uma partícula interrogativa. Cuidado, então, para não pedir, sem querer, para fumar ou cavalgar uma mãe.

Voltando à comida. Segundo o "Lonely planet", há quatro grandes “cozinhas” na China, que representam os quatro pontos cardeais do país. Cada um com suas especiarias, seus pratos principais, suas carnes prediletas. Em Beijing, predomina a culinária do norte. E o seu prato principal é, inegavelmente, o pato laqueado.

Claro que, após quase uma semana aqui, eu já comi uma vez o pato, mas não é sobre a pobre ave que fica horas no forno especial para ficar com a casca que lembra a nossa pururuca que eu quero focar aqui. Deixo isso para quando for visitar o famoso pato de 1406: o restaurante que faz a mesma receita desde o ano em questão.

Nem mesmo sobre os Dim Sum do Duyichu, um restaurante que fica numa área completamente turística [me disseram que parece a Epcot Center – e parece mesmo], mas que faz dumplings [pequenas massas de trigo com recheios variados que são fervidos dentro de caixas de bambu em vapor] tão maravilhosos e variados que, reza a lenda, o imperador Qianlong, da dinastia Qing, no século XVIII, se disfarçava de plebeu para poder provar suas maravilhas. São ótimas, as bolinhas, mesmo, mas não vou tentar aqui ser crítico culinário. Hoje, não.

Queria falar – ou tentar falar – sobre o que representa a comida para os chineses. Claro que eles têm McDonalds e Burguer King. É certo que eles comem comida tailandesa e italiana. Você pode ver gente tomando café ou bebendo coca-cola. Mas é inegável a ligação dos chineses com a sua comida. É mais que um patrimônio. É um laço invisível – e delicioso.

Ir jantar com chineses é certeza de se esbaldar. A quantidade e a diversidade de pratos que se pede impressiona até os maiores comilões, como eu. A mesa mais característica é aquela com um tampo de vidro no meio, em que você pode rodar os pratos por cima. Aí, vale tudo: língua de pato, pata de rã, orelha de porco. Ou pratos menos exóticos, a princípio: como um peixe com um molho que deixa a língua dormente que nem jambu. Ou o frango que parecia xadrez, mas era picante e ligeiramente doce. Ou bambu, que lembrou o gosto de palmito. Ou diferentes tipos de preparo de tofu. Você roda e vai provando e repetindo de tudo.

Algo que se percebe rápido: além de gosto, comida é costume, hábito. Por que os americanos almoçam um sanduíche e jantam cedo? Por que cariocas gostam das feijoadas às sextas e paulistas às quartas [é quarta, né?]? Por que chineses não tem nojo de nenhuma parte dos animais e comem até as coisas mais impensáveis – para nós? Todas essas questões podem ter tido uma explicação inicial [os americanos não querem perder tempo no almoço, os cariocas já emendam o almoço da sexta, os chineses passaram por muitas privações, etc.], e que muitas vezes não fazem mais tanto sentido – acho difícil um carioca normal conseguir emendar todas as sextas, por exemplo – mas o hábito já está entranhado.

Mas mesmo os hábitos mais entranhados podem passar por uma certa padronização - para não usar a palavra da moda, goumertização. Hoje, o carioca [e aposto que o paulista também] quase nunca encara uma comida um pouco mais pesada, fora dos padrões ditos saudáveis. A feijoada quase sempre é magra. Ninguém mais come pé ou rabo de porco na feijoada. Rabada virou prato exótico. Buchada, então...

A comida fica cada vez mais padronizada, igual. Não há muito mais diferença entre os lugares. Há uma pasteurização, uma tentativa de higienização. Mesmo assim, é de se notar que, como nação, só engordamos nos últimos anos.

Na China, porém, ao menos na comida, eles não se renderam - ainda. Mesmo nessa área completamente ocidentalizada, a quantidade de restaurantes chineses em que os menus só têm informação em mandarim e em que os atendentes também não falam nada além da nobre língua da etnia han é enorme. E dá-lhe barriga de porco, gorduras variadas, peles crocantes. Tudo bem pesado. Coincidência, ou não, ainda não vi ninguém obeso aqui.

Talvez seja o metabolismo. Talvez seja as práticas de atividade física. Seja genótipo ou fenótipo, suspeito que em poucas décadas, essa China esbelta vai ficar para trás. Quando o Ocidente mostra as suas armas cada vez mais pesadas [sedentarismo, estresse, trabalho excessivo], não sei se há como resistir totalmente intacto.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

CHINANEWS: No topo de Pequim

Lembram quando eu falei que este bairro aqui era chique para padrões ocidentais, mas que tinha ainda lojas que eram consideradas populares em outros lugares do mundo? Já tenho outra teoria.

Ontem fomos a um bar no topo do prédio que, se eu entendi bem, é o mais alto de Pequim, com 80 andares. O lugar era chique para qualquer padrão do mundo. O nível de frescura era alto. Só não era mais alto que os seus preços. Para dar o tom: havia uma seleção de uísques escoceses de edições especiais cujos preços passavam dos R$ 5 mil. A Coca-cola custava algo como R$ 25. Uma dose do single malte mais barata: R$ 40. A Duvel, curiosa e comparativamente, estava barata para os [altos] padrões brasileiros: R$ 37. E não é porque eles têm uma boa relação com a Bélgica ou com o fabricante da cerveja: a Heineken estava R$ 30. É porque pagamos muito caro, muito caro, pela endiabrada loura no Brasil. [Mas antes de acharem que eu ganhei na mega-sena: não, eu não tomei nem água da bica no lugar.]

Essa era a porta da entrada do hotel que serve de apoio para o bar
No caminho para o lugar, quase fomos atropelados por um Ferrari e pude comprar cinco bombadas bananas e uma pêra vitaminada por 20 yuan, ou cerca de R$10, na rua, numa versão local da carrocinha de cachorro-quente [quando eu entreguei as duas notas de 1 yuan, mal interpretando o “v” dos dedos da vendedora, ela não fez nada além de rir de mim]; também vimos hotéis com inumeráveis estrelas e lustres pesadíssimos, ao lado de jovens executivos agachados de cócoras [depois escrevo minha teoria sobre essa posição]; ou ainda uma jovem da área de tecnologia vindo de rickshaw guiado por um típico malandro da Lapa versão pequinesa. Isto é: o confronto entre as múltiplas Chinas acontece, e muito, mesmo na ilha da fantasia.

O caso das marcas populares se poderia explicar assim. Prossigo.

Como todo mundo sabe, fui criado na aprazível e clima-de-montanha localidade de Nova Iguaçu. Quando nasci tal benevolente cidade ainda vivia longe das [pigarro para limpar a garganta] benesses da modernidade. Em resumo: não tinha shopping. Em outras palavras: Não tinha qualquer elemento que pudesse identificar a cidade com o Ocidente mais capitalista. Em mais outras palavras: não tinha sequer um McDonald’s.

Quando a loja do McDonald’s do primeiro shopping da cidade foi inaugurada, aconteceu o esperado: a procura foi tão grande que o pão acabou. As pessoas faziam filas imensas para pedir o dois-hambúrgueres-alface-queijo-molho-especial-cebola-e-picles-num-pão-de-gergelim. Comer o Big Mac era a certeza de entrar num mundo de privilegiados. Fazer parte de um grupo “diferenciado”. Era ser um tipo de elite. Era, enfim, ser moderno.

O McDonald’s, entretanto, é uma lanchonete extremamente popular em qualquer país que dita as regras para o restante do planeta do que é moderno ou não. Mesmo no Brasil, esse afã pela “novidade” do fast food diminuiu consideravelmente, em cidades maiores. Mesmo Nova Iguaçu já se tornou demasiadamente “moderna”.

O resultado disso é claro. Lá, engarrafamentos bizarros que travam a cidade e transformam o pedestre em um alienígena. Aqui, uma geração de chineses de garotos e garotas que trabalha até 20 horas por dia, dorme muitas vezes nos seus próprios postos, e nem tem tempo de gastar o [comparativamente com os países que ditam as regras] parco salário que recebem, quiçá ter alguma vida.

O Ocidente repete seus símbolos: carro, Coca-Cola, trabalho.

CHINA NEWS: Ficção científica

Quando se pensa em China qual é a imagem que vem logo à cabeça?

(a) A Grande Muralha
(b) Mao Tsé-Tung
(c) Agricultores de arroz com chapéu cônico 
(d) um cenário de "Blade Runner"
(e) Todas as alternativas acima

A resposta para o distrito de Chayang, onde estamos alocados, é certamente a letra "D". Prédios imensos, totalmente espelhados, ruas milimetricamente planejadas, lojas ocidentais em todas as esquinas, uma névoa constante que à noite deixa um ar translúcido e com uma luz opaca, carros [de brinquedo] que parecem flutuar e, principalmente, PRINCIPALMENTE: telas. Telinhas, telonas, telas. Celulares e tabletes são itens de primeira necessidade. Os habitantes vivem com a cabeça em ângulo quase reto com o corpo em constante torcicolo. Mas o mais assustador é o teto do shopping aqui do lado.

Diz aí que eu não sou um péssimo fotógrafo?

No céu artificial do centro comercial - onde o supermercado inglês Marks Spencer [ou seria "Marks expensive"?] me cobrou cerca de R$ 50 para um saco de granola e uma garrafa de suco de laranja - um telão de quase 100 metros por 20 de largura [você não leu errado] fica ligado non-stop [ao menos de noite] passando imagens completamente surreais para os nossos padrões.

Na primeira vez que o vimos, ele projetava imagens de candidatos a um relacionamento sério. Como disseram aqui, é uma espécie de Tinder - só que bem mais público. Tenho amigos que iriam se esbaldar com a proposta.

Imagine: aparece a cara de um sujeito em um vídeo em que ele ri para a câmera tentando mostrar toda a sua simpatia, e ao seu lado suas características principais - como um jogo de videogame. Força: 8. Carinho: 7. Amizade: 9. [Não era exatamente assim, mas não me assustaria, agora, se fosse.] Do lado, o telefone para entrar em contato. Match.

Chayang parece, inegavelmente, um cenário de "Blade Runner". Mas, às vezes, percebo que é uma obra feita pelo prefeito do Rio de Janeiro, padrão Olimpíadas 2016. Sempre se percebe que rolou um jeitinho, um cuspe para colar o último azulejo do banheiro. Como um bom símbolo de que nem sempre a velocidade de crescimento segue o cuidado com a execução do projeto. O exemplo mais óbvio disso que encontrei até agora foi a maneira como consertaram o olho mágico do meu quarto. 

Com a exceção do mau gosto na tentativa de parecer ocidental, como o lustre que imita cristal ou a cama rosa e redonda, típica de motéis [mais uma prova de que a tentativa acelerada para entrar na modernidade tem efeitos colaterais visíveis], o quarto pode ser considerado de luxo. Impressiona todas as vezes que ele é mais "oriental" que "ocidental" - como nas madeiras escuras, na cadeira de vime de balanço onde estou sentado agora. Tudo pelo menos em ordem - razoavelmente, ao menos. Menos no olho mágico. 

Provavelmente devem ter descoberto que o vidro permitia que se visse o interior dos quartos desde o lado de fora. Qual foi a peneira usada para tapar o sol? Papel. Higiênico. Isso mesmo.

Devem ter deixado para eu não sentir falta das Olimpíadas. Só pode ser.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

CHINA NEWS: Perdido na tradução

Cansado e suado, depois de mais de 24 horas de viagem e algumas horas de passeios instantâneos debaixo de um sol do fim de verão pequinês que não deve nada ao carioca [com direito a uma umidade sem humildade]. Foi assim que cheguei ao imponente 23º andar de um prédio totalmente espelhado numa rua recém-construída do bairro chiquerérrimo [para padrões ocidentais]. Chiquerérrimo, mas em cuja esquina fica a loja da Adidas ao lado da do Burguer King [Nike e McDonald's são tão século XX...]. Não é, ainda, padrão Gucci ou Prada. Mas vai ser em breve, suspeito, pela quantidade de Porsches e SUVs na rua.

Muralha da China é ruim de invadir...
Foi lá que fomos recebidos por uma espécie de gerente desse tipo de apart-hotel de luxo em que fomos instalados. O sujeito chegou atrasado, vindo, ao que parece, diretamente da academia, com um short estilo adidas índio de novela [ah, a ocidentalização...] e se apresentou... por meio do celular. Ele não falava nada, absolutamente nada, de inglês. Nem "yes" ou "no". Nada.

Falava com o celular, olhava para a tela e em seguida nos mostrava. Muitas vezes, a frase não fazia qualquer sentido e olhávamos para ele com cara de quem estava escutando chinês. Mal traduzido. Pelo que entendemos, nossa reserva teve que ser mudada. Duas vezes, ao menos. Nada do que esperávamos se concretizou. E ele ficava falando lá no telefone e nos mostrando. Quando alguma frase funcionava - ou parecia funcionar - tentávamos responder na mesma "língua": apertávamos o botão e tascávamos nossa melhor entonação do Fisk nosso de cada dia, para depois perceber que o celular não tinha entendido nada. Ou, quando entendia, era a vez do gerente-malhador nos olhar com cara de que estava perdido.

Citar a barreira linguística, de como é difícil qualquer tipo de comunicação, de como se fica perdido na tradução, é a repetição do principal clichê quando se fala em China. Mas esse talvez seja o primeiro sentimento ao se chegar do outro lado do mundo. Ou melhor, o sentimento mais constante, que não nos abandona nem quando vamos ao banheiro - agachado ou sentado. Se a minha pátria é a minha língua, ou se o ser se dá na linguagem, para usar duas das frases mais batidas sobre o assunto, estamos completamente isolados dos outros.

O sentimento aumenta e se transforma em metáfora quando percebemos as barreiras que os chineses impõem [o pacote Google é bloqueado! - salvem a VPN!] e sempre impuseram ao outro - ao estrangeiro. Uma nação que foi constantemente invadida, saqueada, destruída, vilipendiada e que muito rapidamente, nos últimos anos, se transformou num dínamo que está arrastando - para o bem ou para o mal - o resto do mundo. É um tipo diferente de proteção. Parece. Tudo aqui só parece.

Talvez a língua seja a última barreira, a muralha que o Ocidente não vai conseguir ultrapassar tão facilmente. Podem invadir suas ruas, podem vestir e mudar seus hábitos. Podem criar o maior êxodo rural da história - com mais de meio bilhão de pessoas saindo do campo para as inchadas cidades, para se "modernizarem". Podem criar ou agudizar antagonismos, mas jamais vão tirar a proximidade entre os chineses que dividem, ao menos, a mesma língua. Que podem morar nessa mesma linguagem e serem os mesmos, iguais, de alguma maneira, aí.

Somos e seremos sempre estrangeiros.

ps. Vou tentar escrever sempre sobre esse período aqui.