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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O inglês e as línguas vulgares

Conversando com uma amiga há muitos anos, ela dizia que o inglês era uma das línguas mais complexas e com o vocabulário mais amplo que ela conhecia [ela falava espanhol e italiano, também, e, acho, francês]. Desconfiei na hora: como assim? Uma língua que nem precisa conjugar o verbo?

Claro que anos após essa conversa, e depois de ter morado em Londres, a minha opinião mudou. Não que eles conjuguem os verbos na Inglaterra - hoje, ao menos, é beeem incomum ouvir um "thou hast" - mas a gama de verbos, adjetivos e substantivos, que, aliás, são intercambiáveis, é absolutamente imensa. Tomemos por exemplo um verbo simples, banal, tipo "brew". A tradução mais simples é "fermentação". Mas não dá para traduzir isso. É bem mais. Principalmente porque dá para "brew" o "tea".

Pode-se argumentar que os povos desenvolvem as palavras de acordo com as suas necessidades, como acontece com o sempre citado exemplo da quantidade de tons - e palavras para esses tons - que os inuit conseguem "enxergar" no branco da neve. Ou, demonstrando a importância que essa parte da anatomia tem entre nós, aquela famosa tentativa do primeiro número da revista "Bundas" [link é luxo] de listar todos os sinônimos em português para as nádegas. Ou a quantidade de palavras - todas ligeiramente diferentes entre si - que Pete Brown conseguiu reunir no seu livro "A man walks into a pub". Cada um com as suas prioridades.

O certo, porém, é que, assim como há o Hochdeutsche, há uma outra língua inglesa além daquela falada comumente nos filmes hollywoodianos ou que você aprende no cursinho. Para se ter uma ideia, a wikipedia tem uma página chamada "Simple English" exatamente com uma gramática e um vocabulários mais... simples.

Alberto Manguel - o escritor - também comentou essa, digamos, capacidade de adaptação da língua inglesa atualmente. Ele, que é argentino de nascimento, mas, como filho de diplomata, teve como primeira língua o idioma de Shakespeare, disse que o inglês estaria se comportando não somente como o esperanto, no sentido de ser a língua falada por todos, em todos os lugares, mas também como o latim.

Ele lembrou que o latim foi se "vulgarizando" [na primeira acepção do Houaiss: "relativo ou pertencente à plebe, ao vulgo; popular"] e, como consequência, deu nos nossos conhecidos idiomas do sul da Europa. Somos / falamos a última flor do lácio, não? O que nos leva a pensar quais seriam as consequências dessa "vulgarização" do inglês. Talvez nos EUA já tenhamos um vislumbre disso, com a influência cada vez mais potente do espanhol. Sempre me lembro, nesse caso, da famosa cena de "Blade Runner" [que eu já descrevi, aparentemente, de maneira errada aqui e aqui].

Diálogo em húngaro, alemão, francês...

Outro detalhe que me pareceu interessante na fala de Manguel se refere a afirmação de que uma das características das línguas vivas é exatamente estar sempre em mutação, não poder ser nunca aprisionada, dicionarizada por completo. A única língua que não se modifica é aquela que está exatamente morta. Como o latim, por exemplo. Qual será o futuro do inglês?

sábado, 10 de dezembro de 2011

Esculacho

Temos – quem tem essa prática de escrever, sejam escritores, jornalistas ou qualquer amador que traça linhas mais a sério – uma propensão à linguagem mais dura, mais antiga, mais tradicional, mais gramatical, mais registrada em outros livros, em vez de abrir os ouvidos para o que está acontecendo lá fora, nas ruas, nesse momento.

Claro que há grandes escritores com ótima audição que conseguem transformar o que escuta em palavras, dando ritmo e coloquialismo a frases que não foram registradas. Mas admito que, talvez por ter esse passado de letras, é muito difícil para mim escrever coisas simples como um “tá”, sendo que ninguém que eu conheça diz, hoje em dia, “está”. Escrevo e não sei bem como deixar, ou como conjugar, ou como fazer para que soe, ao mesmo tempo, natural e correto.

Esses dias ouvi uma palavra que é do vocabulário comum de qualquer pessoa, ao menos, de qualquer carioca, e que eu raramente vi em um jornal, quiçá – ou nem mesmo, já que é um espaço para experiências – em um livro: esculachar.

Todo mundo sabe o que é, não precisa que eu a explique, mas quase ninguém a usa formalmente. Por que isso acontece? Bem, provavelmente por uma lentidão dinossáurica dos meios escritos em assumir a oralidade, dicionarizando novos vocábulos.

No caso de esculachar, há até uma curiosidade: a palavra está dicionarizada. Segundo o Houaiss, a provável etimologia vem do italiano “sculacciare (1598) 'dar palmadas nas nádegas, especialmente em crianças', derivação parassintético de culo 'cu, ânus, nádegas'”. Por que, então, não se usa esse tipo de palavra?

Lembro de um uso, quando prenderam um criminoso famoso e ele pediu para não ser “esculachado” pela polícia. Há casos de músicas, que aceitam melhor a oralidade, mas, pensando ainda de uma maneira massificada, a palavra não é usada comumente nos meios escritos mais tradicionais. Por quê?

Uma possibilidade é a interpretação da palavra como algo muito pueril – não, pueril não é a palavra –, como algo raso – hum, também não – algo simples – quase lá – popularesco. Como algo popularesco. Acho que é isso. Há uma conotação social na palavra.

Só quem é pobre que a fala, comumente. O rico, quando a fala, está querendo usar os códigos relacionados aos pobres, como a malandragem, a fácil assimilação social, a camaradagem generalizada, etc. etc. etc..

E, como se sabe, no nosso país, os meios escritos são, claro, tradicionalmente um meio mais elevado, voltado para poucos e bons.

Um esculacho isso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As línguas inglesas

Nós somos colonizados pelos americanos, quando o assunto é a língua inglesa. Raros são os que aprendem inglês como os britânicos falam - nem estou falando de sotaque, porque aí, a questão é: que britânicos? Mas com relação a algumas palavras, que são comuns aqui e não são lá do outro lado da poça, a.k.a. Oceano Atlântico.

Antes de encerrar o assunto sotaque, basta dizer que quando vim aqui pela primeira vez, tive dificuldade de comunicação no momento que tentei pedir "tomeiroes". Nossa amiga Lou me olhou como se eu estivesse falando português. Não adiantava eu repetir, que ela não entendia. Até que eu apontei o fruto vermelhinho, que aliás é lindo aqui. Ela: "ah, tomatols". Depois descobri que os irmãos Gershwins tinham feito uma música exatamente sobre as diferenças de acento, e com o tomate como personagem principal, que ficou eternizada na voz de Ella Fitzgerald e de Louis Armstrong [abaixo], "Let's call the whole thing off".



Voltando para as diferenças de palavras, basta lembrar que o termo para metrô não é "subway", mas "tube", ou, no máximo, "underground". E um dia eu pedi para ir no "restroom", e o cara me disse que ali não era um "restaurant". Aqui é "toilette".

Aliás, o Oscar Wilde [irlandês] tem uma frase muito boa sobre essas diferenças: "We have really everything in common with America nowadays except, of course, language." O também irlandês George Bernard Shaw, contemporâneo de Wilde, ateou fogo nas diferenças: "England and America are two countries separated by a common language".

Esses irlandeses.

domingo, 11 de setembro de 2011

Famosa samosa

Renata chegou. Isso quer dizer que fizemos programas mais leves hoje. Fomos ao Borough Market.

Decidimos não saltar na estação mais próxima [London Bridge] e descer na anterior [Waterloo] - porque era mais rápido e porque teríamos a desculpa de caminhar beirando o Thames. [Antes de continuar, vale duas notas: hoje as interrupções de tráfego do metrô nos atrapalharam, mas pouco. E que a linha Jubilee, acredito que seja a mais antiga da cidade - ao menos é a mais profunda no underground -, tem um vidro nas estações, imagino que para evitar eventuais suicídios.] Essa nossa antecipação foi uma grande bola-dentro. Está rolando apenas neste fim de semana um festival, em que há várias barraquinhas vendendo artesanatos, mas, principalmente, comida. Não havia comida de todos os lugares do mundo, como já encontrei aqui em outras feiras, mas principalmente da Coreia - aparentemente uma das patrocinadoras do evento - e da Polônia, onde ocorrerá a próxima Eurocopa, ano que vem, na cidade de Gdansk, junto com a Ucrânia, parece.

Mas havia uma barraquinha de churros brasileiros, diversas de tacos mexicanos, várias de paellas espanhola, e uma que vendia sambosa, da Etiópia e da Eritreia. Adivinhe qual eu escolhi?

A sambosa nada mais é que a famosa samosa indiana, mas com recheio etíope - no caso, lentilhas. Samosa, para quem não sabe, é um tipo de pastelzinho, frito, que vem com recheio normalmente de batata, mas pode ser de qualquer coisa. É um petisco que se pode comer em qualquer lugar e é ótimo para aquela hora que estamos com fome não sabemos de quê.

Na última vez que estivemos aqui, fomos a outra feira - cujo nome, claro, eu esqueci - onde encontrei comida das ilhas Maurício. Era - razoavelmente - parecida com a da Índia, o que me dá vontade de e argumento para sugerir que a Índia é uma grande influência - ao menos - na costa leste da África. Já sabia, por exemplo, que Bollywood é um sucesso no Oriente Médio, e no chamado Sudeste asiático, e certamente a comida deve seguir esse caminho.

O caso da samosa/sambosa ainda tem o "agravante" da sonoridade ser bastante parecida, o que reforça esse parentesco. Aliás, essa pequena mudança na fonética me remeteu a outra mudança que apostaria ter acontecido da mesma maneira. No Brasil, chamamos aquele famoso prato de repolho alemão de "chucrute". O original é "sauerkraut". Para mim, uma coisa deu na outra.

Essas mudanças fonéticas são muito comuns, na influência de uma cultura em outra. Borges disse algumas vezes que o famoso Thor, deus nórdico do trovão, que virou super-herói da Marvel, nada mais era, de acordo com alguns estudiosos, que a forma que os nórdicos chamavam Heitor, da mitologia grega, "um príncipe de Tróia e um dos maiores guerreiros na Guerra de Tróia, suplantado apenas por Aquiles". Os do Norte da Europa queriam ter um grande épico pelo qual cantar, assim como os do Sul, e começaram a transliterar alguns personagens. De certa forma, já imaginava isso, quando chamava o Heitor Pitombo, que é fascinado por histórias em quadrinhos, de "hei, Thor!" [Aparentemente, todos os amigos dele sempre fizeram o mesmo, desde quando ele era uma criança].