terça-feira, 13 de maio de 2003

O poeta

Lembro que era uma sexta-feira. Daquelas que se fica na cama trocando de canal até o sono te convencer a dormir. Estava na casa da minha namorada da época, e percebi que em um dos canais passava uma entrevista com o poeta. Achei estranho porque nunca tinha assistido a algo parecido.

O repórter perguntava sobre a sensação de fazer aniversário. O poeta, olho longe, nem no jornalista, nem na câmera, olhava para a eternidade, com seu olhar sem olhar, cego, via o negro e enxergava muito mais do que nós todos juntos. Disse com aquele seu sotaque de nordestino orgulhoso que era apenas mais um aniversário, que não tinha nada demais por isso.

O que entrevistava, trêmulo, diante daquele que era um de seus ídolos vivos, queria saber sobre qual era a sensação de ser considerado o maior poeta brasileiro vivo. Ele apoiado no seu cajado, na sua guia, bochechas estufadas, nariz redondo, boca quieta, sente o que falar. Ele que produziu poemas da mais perfeita sincronia, poesias para serem lidos em voz alta, para brincar de encaixar, de jogos, respondeu que não sabia confrontar poesia, poesia não compara, poesia é única e indivisível.

E sobre a comparação com o mineiro de Itabira, o que o senhor diz? Eu o admiro, correu a responder, o poeta. O repórter volta a pergunta, insiste, o homem idoso, sofrido, cansado, tinha perdido o que mais prezava, a liberdade de ler o que quisesse, na hora em que quisesse, apóia-se na bengala com as duas mãos, segura o choro na garganta, fica em silêncio para engolir, a saliva prende no final da boca. Ele tinha uma certa inveja do de Itabira. O mineiro fazia poesia sobre todas as coisas ditas grandiosas, ele escrevia com o coração, era realmente emotivo, humano. Eu sou apenas um racional extremo, faço poemas exatos, daqueles que matemáticos gostariam de fazer. Às vezes duvido se sou mesmo poeta, quiçá humano.

O poeta não disse nada. Disse, mas não quis dizer nada. Falou que o mineiro era um dos maiores poetas da língua portuguesa. E eu, ele disse, só consigo fazer poesia sobre o dia-a-dia, sobre aquilo que vemos pela janela, aquilo que presenciamos na rua, que conhecemos quando estamos no sertão.

E sobre ser o “poeta cerebral”? Só acredito em poesia dessa maneira. Quem não tem preocupação formal, não faz poesia, apenas amontoa palavras e se diz poeta.

O poeta estava no fim da vida. Anos acusando-o de ser menor por ser racional. Mas, ele não era só racional. É impossível ser apenas racional quando se é poeta. Ele vê beleza no correr dos rios, no balançar da bananeira, na mineira que foi para Brasília. Ele quer educar as crianças através da pedra, mas foi ele que nos contou sobre a Morte e a Vida Severina. Não é possível ser insensível tendo escrito isso. Via a beleza nos pequenos atos e os montava para demonstrar melhor esse seu lado.

Só respondia laconicamente, estava fora do seu habitat, queria voltar para casa, esperar que o sofrimento da escuridão acabasse. Segurava a emoção na garganta como sempre segurou na sua poesia, escolhendo aqui e ali um salpico apenas. Termina a entrevista, do lado de dentro da tela, o poeta aliviado, e orgulhoso por ter se segurado. Descubro ao final ser uma homenagem póstuma, o poeta tinha morrido naquele dia, sua expectativa chegara ao fim. Do lado de fora da tela, eu choro por ele, choro para contrariá-lo, sim poeta, você, tanto quanto o outro, era um humano, humano demais que via através dos detalhes, que via por debaixo do pano da normalidade cotidiana e nos apresentava essa sua visão bem vestida, arrumada para uma festa, com os trajes característicos. Sim, poeta, poesia não se compara. Mas, você é grande, você é um dos maiores.

segunda-feira, 12 de maio de 2003

Coceira

A primeira vez que sentiu a coceira foi no final do expediente de trabalho. Numa quinta feira, final de mês, fechamento das contas e as contas não fechavam. Sete horas da noite, todo o escritório escuro, só ele e mais dois do grupo, seu chefe e sua assistente, o dia inteiro procurando o erro. Os olhos vermelhos por horas em frente à tela do computador, o rosto banhado num suor que não escorre, mas deixa a pele oleosa, o cabelo despenteado e alguma coisa continuava errada. Oito horas. A boca do estômago mais gelada que ponta de iceberg, o coração batendo mais rápido que escola de samba e faltava quase um milhão que ninguém sabia aonde foi parar. Nove horas. O chefe atrás dele e a assistente no computador ao lado procuravam essa pequenina diferença em todas as entradas e saídas da empresa.

Então, Luiz sentiu uma comichão na perna, na parte anterior da canela, logo acima do calcanhar e abaixo da panturrilha. Abaixou-se, levantou a calça um pouco e começou a coçar por cima da meia. Logo abaixou a meia e coçou rispidamente a perna, só parando quando sentiu uma espécie de dor, como se ele estivesse rasgado um pedaço da pele dele mesmo. Olhou para os dedos que utilizara para se coçar para certificar se se machucara, percebeu que estavam limpos e voltou para o computador para procurar o dinheiro sumido. O chefe perguntou o que tinha acontecido, e ele respondeu que deveria ser um mosquito. O chefe se levantou para buscar café, pois dizia que a noite seria longa, e Luiz aproveitou para coçar a perna novamente, dessa vez um pouco mais devagar, e sentiu um prazer quase de orgasmo no ato de coçar. Com os olhos fechados, passava o tato dos dedos vagarosamente pela perna. A cada passada de mão sentia ondas do mesmo prazer se repetindo por todo o corpo. Aquilo o relaxava de maneira sem igual, nunca tinha percebido algo tão poderoso com esse fim. A respiração rapidamente voltou ao normal, o corpo parou de suar. Olhou de volta para o computador, e pôde ver algumas movimentações financeiras que antes tinham passado despercebidas debaixo do seu nervosismo. Consertaram todos os trâmites e conseguiram ir embora antes das dez da noite.

Foi direto para casa descansar. Abriu a porta e encarou a escuridão cotidiana do seu apartamento. Entrou se arrastando, se preocupava com o relatório mensal do dia seguinte. Sabia que o fechamento das contas era o primeiro problema de fim de mês que ele enfrentava sempre. No quarto tirou o sapato do pé direito e o colocou no chão, depois jogou a meia preta por cima, tirou o do pé esquerdo, a meia esquerda e encostou o indicador no pedaço da perna onde coçara. Sua cabeça estava presa no relatório mensal, mas na hora, uma vontade incontrolável de coçar aquela parte da perna tomou conta dele. Completamente irracional Luiz começou a passar as unhas como se fossem garras no pequeno montinho – a carne estava inchada – e sentia novamente o prazer, o mesmo impronunciável que tinha sentido no trabalho. Sua respiração mais uma vez se acalmou e ele parou de pensar no relatório mensal, deitou na cama e continuou a coçar, mais devagar, agora só com as pontas dos dedos. Só o prazer da coceira povoava sua cabeça, como se fosse algo tátil, como se fosse um líquido que inundasse todo o seu cérebro e o protegesse de qualquer outro pensamento, só aquele sentir bem, só aquela vontade de descansar, de dormir um pouco.

Nos dias que seguiram, teve que fazer o relatório mensal, a apresentação para a diretoria e aprontar a previsão para os próximos semestres. Luiz ficou algumas vezes até tarde da noite na empresa. E, sempre que se sentia muito preocupado, nervoso ou estressado com algo, descia a mão e coçava um pouco a perna. A onda de prazer sempre lhe tomava de maneira a fazer-lhe esquecer o que estava fazendo no exato momento anterior. Luiz se sentia em outro ambiente, em outro estado, longe dali, a cabeça já não pensava de maneira racional, pelo menos por alguns segundos, durante a coceira. Só quando estava nervoso acima do normal que exagerava na força. E, todos os dias, ao trocar de roupa, quando chegava em casa, após o trabalho, coçava novamente a perna e deixava o torpor tomar conta do corpo. A cada passada de mão sentia as ondas se propagarem e ele se acalmar.

A coceira noturna, ao trocar de roupa em casa, já tinha se transformado em um hábito e as no trabalho se encaminhavam para isso. Ele se coçava agora, todos os dias antes de começar a trabalhar, mesmo sem sentir a titilação. Dizia para si mesmo que era para se preparar para a pedreira diária, para iniciar a jornada de bom humor.

Numa dessas manhãs, sentiu algo molhado em seus dedos. Pela primeira vez, desde que toda essa história começara, teve curiosidade em olhar para aquela parte da perna que ele arranhava diariamente. Aproximou-se para olhar bem de perto e viu um montinho de carne, do tamanho exato que imaginara, porém com uma cor roxa parecida com a de carnes estragadas, sem nenhum pêlo em volta. Ele achou estranho, pois a outra perna era extremamente cabeluda, mas não se prendeu muito tempo a isso. A água que molhou seu dedo era esbranquiçada como pus, porém mais clara. Não havia sinal de sangue ou qualquer coisa parecida. Porém, de tudo isso, o que mais o chocou foi um ponto bem pequeno, extremamente preto na parte mais alta do montinho. Parecia que a pele estava morta. Luiz ficou assustado com a idéia de ter um pedaço dele morto enquanto ele continuava respirando, andando e indo trabalhar. E se imaginou como o assassino dele mesmo. Olhava para frente, e seu computador ainda estava desligado. Sua imagem refletia na tela escura, mas ainda não tinha percebido nisso, até esse exato momento. Sentiu raiva de si mesmo, se viu com uma arma apontando para a própria cabeça ou dando nessa mesma área da perna. Sonhou com os olhos ali olhando para os próprios olhos na tela do computador desligado com ele cortando um dedo para poder se alimentar. Destrinchava o indicador da mão esquerda e mordia a ponta, na altura da unha e puxava uma falange inteira. Dava para ver o osso ainda com sangue em volta, mas a carne apodrecia rapidamente ficando da mesma cor roxa e com o mesmo ponto preto que tinha na perna. Levantou-se correndo e foi no banheiro lavar o rosto.

Luiz prometera para si mesmo, no banheiro, que não iria mais se coçar. Não queria mais um pedaço de carne podre no meio da perna, não queria mais se sentir como o responsável pelo assassinato de si mesmo.

O dia passou e Luiz ficou irritadiço com seus colegas, de uma maneira que nunca tinha sido. Foi ríspido com todo o mundo que tratou, gritou com a assistente e pediu dados impossíveis de se conseguirem para alguns subalternos para aquele mesmo dia. Foi para casa nervoso sem nenhum grande relatório, apresentação ou motivo aparente. Ao tirar as meias e a calça, a coceira irracional o tomou de súbito. Começou a se debater na cama, abraçando os joelhos, mas algo arranhava exatamente aquela região, parecia que uma pena passava bem de leve sobre a pele sensível da perna, resolveu colocar a mão por cima, tapando o machucado, mas, ao simples toque da sua mão com a região, fez proporcionar uma pequena onda de prazer, bem mais fraca que a que sentia quando se coçava, é verdade. Contudo, Luiz ficou insano, não conseguia raciocinar, queria apenas que a coceira acabasse, e começou a passar os dedos em volta da ferida, no intuito de diminuir a vontade. Era ineficaz, a coceira só aumentava. Luiz, cada vez mais sem ser dono de suas atitudes, tomado por uma espécie de síndrome de abstinência, coçou com as unhas novamente em volta e, por fim, em cima da ferida. O prazer o abraçou como uma onda de calor e ele se deitou calmamente. Ficou deitado até adormecer.

À medida que os dias passaram, Luiz tentou diminuir a quantidade de vezes que se coçava, mas sempre que isso ocorria, ele ficava mais nervoso. Seus colegas não entenderam muito bem esse comportamento e Luiz não se deu o trabalho de explicar para eles. Com uma força de vontade sobre-humana, conseguiu ficar dois dias inteiros sem se coçar. Para Luiz, foram os dias mais longos da sua vida. As horas derretiam-se nos relógios e ele olhava para todos ao mesmo tempo para saber se algum deles tinha se atrasado no instante anterior. Ficou num extremo de concentração nesses dias que não puxou conversa com ninguém. E ignorou muitas pessoas que dirigiam a palavra a ele, pois não prestava a atenção em mais nada além do prurido na perna. Na primeira noite, teve insônia e só conseguiu dormir às quatro horas da manhã. E mesmo assim, um sono leve que era acordado a todo o momento pelo barulho dos carros que passavam na rua, bem longe dali. Na segunda noite, como na anterior, tirou as roupas rapidamente para não ser pego por uma fraqueza momentânea e deitou-se direto para tentar dormir um pouco que fosse. Sentia-se mais do que cansado, sentia que todas as suas forças tinham sido gastas nas últimas 48 horas sem descanso. Deitou de bruços e sua mente não conseguia dar grandes vôos porque sempre estancavam na perna e na coceira. Colocou o outro travesseiro na cabeça, na tentativa de abafar esse pensamento, mas ele se mostrava mais forte que qualquer outra coisa. Agora sentia como que uma pequena formiga andasse em volta da área machucada. Ela andava em círculos e, no centro exato, ficava se mexendo sem parar. Na cama, sentiu ainda algo pior. A formiga imaginária subia suas pernas e por onde quer que passasse a comichão se alastrava. Pela panturrilha, pelo joelho, pela coxa, por debaixo das nádegas, entre as nádegas, na região pélvica, na virilha e Luiz não resistiu. Coçou com ambas as mãos, com todos os dedos, com as garras afiadas com uma violência nunca antes utilizada, queria rasgar, estava determinado, queria procurar por todo o corpo a formiga imaginária, que destruí-la. Entretanto, por mais que ele a procurasse, não conseguiu achar nada. Ao final de alguns minutos, exausto, adormeceu mais uma vez sem perceber.

Luiz acordou com ambos os pés no travesseiro, onde devia estar sua cabeça. A cama estava desarrumada de tal maneira que parecia que uma batalha campal, ou uma noite de sexo selvagem ocorrera ali. Ele se levantou para observar todo o corpo e perceber em que estado se encontrava. Um pedaço da noite anterior tinha sido apagado da sua memória. Olhou para a ferida na perna e ela estava igual à sempre, sem nenhum traço de diferença. Porém, teve que aproximar mais a cabeça porque não acreditou no que conseguiu enxergar. Passou as mãos nos olhos para desembaça-los e teve a certeza que toda a área que ele sentiu o prurido na noite anterior, tinha um pontinho extremamente preto, exatamente como o da ferida maior. Em toda a perna, ainda na virilha, levantou-se foi para frente de um espelho grande do armário e viu as nádegas, tinha os mesmos pequenos pontos negros. Foi olhar para elas e sentir a coceira começar a se apoderar de todo o corpo. A razão fugiu e ele se coçava como um animal com sarna, completamente enlouquecido, não fazia distinção na parte ferida e passava as unhas violentamente por toda a extensão das duas pernas. Não satisfeito, puxou as pernas para próximo do rosto e mordeu a região mais afetada, arrancando um pedaço da pele com a boca e cuspiu do lado. Sentiu uma dor e a ignorou completamente, continuando a morder e arranhar-se com as garras, sangue brotava por toda a perna, manchando o lençol branco, e as mãos começaram a coçar, o rosto, no interior da boca, ele se coçava e sangrava. Parou somente quando desfaleceu completamente em cima da cama. Ao seu lado, pedaços de sua carne misturados com sangue e vários pequenos insetos ainda se mexendo no chão.

quarta-feira, 7 de maio de 2003

Dedicatórias

Houve uma terça a noite, no início da madrugada que me sentia completamente entediado. Era janeiro e todos os meus amigos haviam viajado, e eu tinha ficado, sem nada para fazer. Passei o final de semana inteiro praticamente dentro do meu quarto.

Na maior parte do tempo, ficava deitado na cama, muitas vezes com a televisão ligada, mas com o meu pensamento longe. A tv funcionava diretamente como um hipnótico para mim. Não pensava na mesma coisa sempre, mas esbarrava a todo o momento com a idéia de que não tinha nada para fazer, e que ficaria assim por um bom tempo ainda. Viajava, voava, mudava, imaginava, mas sempre encontrava esse bloqueio, esse quebra-mola que me devolvia ao chão duro.

Aluguei três filmes para ajudar o tempo passar. No entanto, assim que cheguei em casa, os vi em seqüência. Terminava um, voltava a fita, colocava na caixa e substituía por outro no vídeo. Ligeiro como se eu estivesse atrasado para algo. No final, ficaram vagas lembranças das histórias. Sei que não gostei de um em específico. De outro tenho menos lembrança ainda, nem sei se me agradou. O terceiro foi o único que ainda consegui pescar alguma coisa. Foi o que conseguiu ultrapassar, mesmo que de maneira tímida, a barreira da minha inércia e hoje consigo repetir uma de suas frases: “Você tem todos os sintomas, menos a doença”.

Tanto percebi o efeito do último filme que tentei revê-lo no dia seguinte na parte da tarde. Só que durante a projeção pude perceber que não adiantaria nada, o filme que passava na minha frente era a prova mais do que concreta da minha total falta do que fazer. E saber disso era, talvez, ainda mais torturante do que não fazer nada. Desisti de assisti-lo assim que passou de uma hora de fita.

Com o tempo em profusão, decidi terminar de ler uma novela que comprei há muito tempo. Antes de recomeçar, porém, já tinha a minha opinião formada sobre ela: era extremamente chata. Nada além disso. Na segunda, sem nenhum motivo aparente, acordei cedo e o peguei em cima da tv que tem em frente a minha cama. Passei os olhos nas últimas quarenta páginas que faltavam e acabei ainda antes de comer alguma coisa. Elas não fizeram nenhuma diferença para a trama e tive certeza que foram completamente desnecessárias.

No final de semana, eu esgotara todas as possíveis visitas em sites e quando segunda chegou, ia rever meus e-mails com extrema culpa por gastar pulsos telefônicos. Reli e re-folheei um livro de poesias que ganhei no meu último aniversário. Sabia as poesias de cor e muitas vezes fechava os olhos para ver se conseguia enxergá-las sem nem mesmo vê-las. Essa brincadeira me ajudou a passar algumas horas, se contabilizarmos todos os dias, mas, em determinado momento, ela também ficou chata.

A terça foi o pior dia de todos. Tinha decorado cada pedaço do meu quarto e ele parecia que estava diminuindo de tamanho aos poucos. Pensei em sair de casa, mas tinha medo de parecer louco andando sem nenhum motivo nem destino. Levantei várias vezes e fui no banheiro me olhar no espelho, tomei alguns banhos durante o dia, que também me ajudaram a combater o calor de dentro de casa. Minhas costas doíam de tanto ficar deitado na cama. Sentei, então, por horas. Olhava a parede vazia, ali na minha frente, a poucos metros, sem nenhum barulho em toda a casa, só o de um raro carro que passava na rua, com o único intuito de ver se ela se aproximava de mim.

Certo momento, decidi começar a ler alguma coisa nova. Levantei num pulo, como se tivesse descoberto o remédio para o marasmo. Sentei no piso, ao lado da caixa de papelão em que meus livros ficavam e comecei a tirar um por um de dentro. Contos de suspense, policiais, romances épicos, livros dos meus autores favoritos, crônicas, algumas poesias, três peças de teatro, e cheguei a conclusão de que já tinha lido tudo. Não havia nenhuma novidade para mim. Já sabia o início, o meio e o fim de praticamente todas as obras. Tinha o costume de, ao gostar de uma obra, lê-la por vezes seguidas até que eu ficasse bastante íntima. E, fora essas, não tinha nenhuma vontade de reler as que não tinha gostado da primeira vez. Principalmente aquelas que tinha sido complicado até terminar.

Havia apenas um livro que não conhecia, um dos últimos da caixa. “Obras completas”, dizia sua lombada, de um autor que não reconheci, nem o nome, nem o sexo, nem a nacionalidade, pois não havia a página que deveria informar isso. Era um completo desconhecido. Não me considero nem próximo do que é usualmente chamado ‘pessoa informada’, mas raramente encontrava algum autor, principalmente dentro de minha casa, que eu nunca tivesse ouvido falar nem do nome. E não me lembrava de ter visto o livro alguma outra vez aqui. Ele não me parecia novo, e pude comprovar que não o era, ao encontrar uma dedicatória cordial, nada emotiva, para uma moça pelo seu aniversário, que não tinha a mínima idéia de quem fosse, e uma assinatura ainda mais estranha ao final do pequeno texto.

Fiquei com o tijolo na mão, tinha mais de quinhentas páginas mais a capa dura, e imaginei que fizesse parte do espólio de meu pai, e que ele comprara em algum tipo de sebo. Sentei na minha cama com as pernas para fora, numa empolgação que não me assaltava há muito tempo. Sempre tive vontade de comprar, nessas feirinhas de livros que atravessam a cidade dentro de barraquinhas verdes, livros que eu não tivesse nenhum tipo de informação sobre a história. Pegar até mesmo os de autores considerados menores e ler todas, até achar alguma que fosse boa. Achava impossível que todas, sem exceção, fossem ruins. Essa minha idéia sempre ficava para depois porque nunca tinha tido nem dinheiro nem tempo de sobra para gastar com essas escavações. Com esse livro, desse tal Gerlu Auska, teria a oportunidade de me aventurar num livro completamente inesperado.

Algumas pessoas dizem que os escritores são mais racionais, sendo as escritoras mais emotivas. Isso tem tantas exceções que é impossível propor uma regra. Mas, se mesmo isso fosse verdade, no caso dessas ‘Obras Completas’ seria complicado classificá-lo.

O primeiro livro que a coleção comporta é de poesias, com poemas sobre angústia, sufoco, desespero diante da vida. Não há nenhuma preocupação aparente com formatos, rimas, métricas. Há um, em específico, que encontrei declarações de amor tanto por homens como por mulheres, de maneira bem parecida, e concluía afirmando que o poeta admirava realmente o ser humano de uma maneira ampla.

O segundo, porém, é diametralmente oposto. Se o anterior se chamava ‘Poemas’, este possui um nome, também simples, porém bem mais definido: ‘Sonetos da Razão’. Toda a emotividade foi substituída por respeitos às regras, como diz o próprio título da obra.

Ao terminar de ler, supus que ele poderia ter mudado de opinião sobre suas posturas literárias e optado virar radicalmente de estética. Porém o terceiro livro, também de poesia, chamado por um variável ‘Coletâneas’, fez embaralhar todas as minhas expectativas. Ele misturava ora poemas com um rigor técnico, ora de versos livres. Às vezes seus poemas eram carregados de emotividade, falando de coisas simples da vida, como observar a chuva, porém totalmente rimadas e com um ritmo impressionante. Ou eram racionais e quase lacônicos, rápidos e práticos.

A única conclusão a que cheguei após ler todos os três livros de poesias da coletânea era vaga demais. Apenas que eu tinha gostado da grande maioria dos poemas. Na sua fase emotiva, se é que posso chamá-la assim, cada verso parecia vivo e com destino certo. Eram universais e qualquer um que lesse se identificaria. Os mais racionais possuíam uma beleza quase visual. Era, da mesma maneira, impossível não gostar deles ao recitá-los em voz alta. E dessa forma, eles pareciam sair quase prontos para uma canção.

O quarto livro era de contos. É muito difícil tentar traçar algum tipo de linha comum entre todos. São tão diferentes entre si que falar do livro como se fosse unitário seria ignorar as diversas arestas que separam uns dos outros. Um possui um protagonista completamente improvável, um monte de pedras. Outros dois não possuem protagonistas únicos, mas diversos durante toda a narrativa. Sua prosa é, assim como a poesia foi, múltipla. Ora bem seca, apenas informando, quase jornalisticamente, o que acontece, ora dando detalhes e informações que me fizeram visualizar completamente a imagem a que queria se referir. Talvez o único elemento em comum a todos os contos seja o ritmo, altamente irregular em todos eles. Como se ele dirigisse um carro que evoluísse as marchas normalmente até que, de repente, sem ao menor aviso, ele diminuísse e você fosse pego de surpresa. Não chega a ser desagradável, apenas, parece-me, ele tenta inovar demais, o que no início causa algum estranhamento.

O quinto, e penúltimo da coleção, é outro de contos, bem parecidos, pela falta de unidade ao anterior. Diferentemente do que aconteceu com a poesia, os contos parecem, de certa forma, não terem sido modificados com o passar do tempo. Porém, ao considerar que dentro do próprio livro é difícil criar uma certa unidade, fica fácil alentar para sua capacidade de se metamorfosear. O que vale ressaltar nesse volume é uma preocupação maior com jogos, armadilhas e surpresas finais. Assim, ele poderia ser considerado um pouco mais racional que o anterior. Porém, essa afirmação deve ser considerada apenas como uma sugestão na interpretação. Está longe de ser a verdade absoluta, vista por qualquer olho.

Terminei de ler o quinto livro da coletânea e olhei para o relógio, marcava 4:30 da manhã. O livro me prendera de tal maneira que nem sentira o tempo passar. Ajudava também o fato de ter passado um final de semana inteiro sem fazer quase nenhum esforço, estava bem descansado. Fiz as contas das páginas para o último livro. Ele era um romance curto, de cento e oitenta e poucas páginas. Levantei, fui na cozinha, preparei um café expresso para mim e resolvi encará-lo numa talagada só. Sabia que era muita informação para um dia só, mas há tanto tempo não encontrava um autor que fosse tão versátil, que me surpreendesse tanto, que eu tivesse tanta vontade de devorá-lo quanto esse tal de Gerlu Auska, que decidi o terminaria o mais rápido possível. Assim, releria sua obra quando acordasse, para fixá-la bem, já que também não teria nada para fazer no dia seguinte.

O romance, um pouco diferente dos contos, era razoavelmente tradicional. Falava no início do nascimento de um garoto e contava sucintamente a história da infância do menino. Continua narrando o crescimento do protagonista e em certo momento senti, como acontece em dezenas de outras ocasiões, uma certa identificação com ele. Exatamente quando isso acontece, acredito que eu me empolgo mais, sempre me colocando no lugar dele para saber quais seriam minhas atitudes.

Lá para a página 20, 25, já percebi que tinha entrado em completa sintonia com a narração. Às vezes precisava apenas de passar o olho pelas linhas e sabia exatamente o que acontecia. Passaram mais dez, quinze páginas e foi então que eu comecei a achar algo de estranho naquele menino que era o fio condutor da história. Todas as minhas pretensas atitudes em relação à trama era demasiadamente similares ao do protagonista. Em nenhum momento ele tomava posições que eu não tomaria. Houve casos de ainda mais impressionantes, ele narrava situações exatamente iguais às que eu tinha passado. Falou, por exemplo, de um briga no colégio que havia presenciado quando ainda bem pequeno, a primeira vez que vi sangue voando. Depois atentei que a história não se situava em nenhum tempo, tampouco em nenhum lugar, mas me era muito familiar. Suas duas irmãs mais velhas, o aspecto físico carrancudo do seu pai, o comportamento alegre da mãe. Praticamente não tínhamos diferenças táteis. Parecia, e a cada página que virava eu tinha mais uma comprovação, que o menino era eu.

Li a história como que escravizado, mas ao mesmo tempo completamente assustado. Até agora, quando digito essas linhas, fico arrepiado, olhando para os lados a cada barulho. Porém não conseguia tirar os olhos do livro. Parecia que ele era o meu dono, tinha a minha vontade, me guiava para onde quisesse. Falava do colégio, da época da natação, das minhas primeiras namoradas, as minhas primeiras alegrias, várias das minhas derrotas, tudo estava lá, quando entrei para a faculdade, os meus amigos, os problemas com a saúde, a minha saída de casa, as mortes na família, ele não esquecia de nada.

Um capítulo começava falando sobre como o garoto se sentia entediado num final de semana porque todos os seus amigos tinham viajado. Ele passa quatro dias sem sair direito de casa e no quarto dia encontra um livro velho dentro da caixa de papelão que guardava os livros. Nesse momento, fechei as tampas do livro de súbito. Olhei para frente e dei duas respiradas fundas para tentar me acalmar, mas minha pulsação estava muita acima do normal e meus olhos estavam extremamente arregalados. Respirei novamente e abaixei a cabeça vagarosamente para olhar para a capa do livro. Cor marrom, com o nome do autor e “Obras Completas” em letras douradas, apenas. Fiquei alguns instantes sem poder raciocinar nada direito. Não tinha a mínima idéia do que estava acontecendo, e não queria ter. Levantei e dei um passo depois do outro bem devagar até chegar na caixa de papelão. Algumas obras que tinha tirado ainda estavam fora do lugar, assim o fundo da caixa ainda podia ser visto. Joguei o livro da minha mão lá dentro e nem dei tempo para observar a maneira como ele caiu, joguei outros em cima dele para soterrá-lo. E prometi para mim mesmo nunca mais mexer naquele livro.

sábado, 3 de maio de 2003

Falando a minha caixa de correio...
(Talking to my mailbox...)

menino, não venha dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.

menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.

menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.

menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.

menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.

isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.

charles bukowski.
(trad. jorge wanderley)
Madrugadas

Bêbado com os pés sobre o asfalto morno da madrugada outonal. O lugar era dos mais propícios, em frente ao bar que havíamos bebido, acabado com toda a cerveja que possuía. Conversava com um desses seres que as esquinas possuem sobre alguma das maravilhas que certos chás podem proporcionar. Num momento impreciso, uma camisa florida azul aparece no meio da chuva que transformava tudo em cinza rodeado por meninas que esbarram nos dezessete anos. Podem ser percebidos cumprimentos formais entre todos os habitantes, para demonstrar que ainda há respeito por certas normas de convívio. Como dizia, o chá de boldo era a maneira mais aconselhável de melhorar as ressacas dos dias que seguem diariamente. Nada mais emocionante, apenas espremer o tempo para que ele não acabe de uma hora para outra. A camisa florida interrompe as divagações com súplicas modernas por um punhado de notas, para as derradeiras bebidas. Dei a menor de todas e diretamente fui inquirido sobre o motivo disso. Sorri de volta com toda a ignorância irônica que habita meu coração. A camisa foi-se na tentativa de conseguir mais e melhores notas.

Os olhos já não estavam mais brancos, pois se conservavam abertos apesar de todas as petições para o descanso. Escutava-se de tudo que tinha no bolso. Um pequeno compartimento que carregava uma variada gama de sons surpreendentes e diferentes. Os sorrisinhos e os gritos agudos em volta da camisa florida volvem seus pequenos olhos nas mais variadas direções, inclusive a nossa. A camisa, cheio de si, nem percebe o detalhe.

Dança-se no meio da rua sem constrangimento. O álcool impedia a ciência do ridículo. Empurrava-se para mais para dentro da madrugada a recolhida com o intuito único de manter-se acima da sensatez. Lembrei-me que gostava muito de chá preto, mas não tinha idéia de para que servia.

Almas conhecidas passavam diante dos olhos que já não entendiam muito bem. Ao fundo, pude distinguir a camisa florida argüindo por uma carona. O intuito era levar os dezessete anos embora. Engoli mais um pouco do amarelo amargo e morno e ri de alguma piada sem nenhum motivo. Tocava algo que era bom, vinha do fundo da alma, escutava Kurt cantar e tentava ainda concatenar sobre os motivos que o levaram. Um pouco depois, todos os drogados do mundo estavam ao redor. Muitos, para ser eufêmico, com suas mentes a uma distância segura. Estavam ali por estar. Chá mate é o meu preferido, e dá ligadeira, disse e tive que explicar o vocabulário dos gaúchos.

A noção de tempo havia abandonado meu corpo para voltar só quando acordasse, longas horas depois. A camisa florida retorna com o que lhe deu carona e só. Logo somos apenas uma grande e disforme roda. Murmura-se pelos cantos pelos mais diferentes motivos. É facilmente identificável a sujeira que acompanha cada um. Uns ainda tentam disfarçar, mas estão fadados ao fracasso nessa empreitada. O cheiro de carne podre invade cada narina dali. Não me importo porque não tenho nada para me preocupar. Minha madrugada era aquela e não tinha nada além daquela. Sorria com a maior das paciências possíveis para todos. Produzia pequenas gafes contornáveis que eram motivos de constrangimentos rápidos, mas completamente plausíveis. Fico ao lado do dono da carona e falamos sobre algo que já ficou para trás, em algum lugar perdido no meio da minha memória. A camisa florida retorna e pede, quase ordena, um novo favor para o dono do carro. Digo que a camisa florida só abre a boca para pedir dinheiro ou para pedir carona. É a vez dele de ignorar o que eu digo e repete o anseio pela carona, que diz, meio encorajado por mim, acredito um pouco, não voltará no momento. Digo que a camisa florida só abre a boca para pedir dinheiro ou para pedir carona. Novamente. E rio, gargalho muito alto, surpreso com a minha sapiência, e sabendo que a camisa florida nada mais podia fazer além de tornar a pedir, seria um eterno pedinte, quase um mendigo. E eu me debruçando sobre a barriga, com caretas e espasmos. E com olhos atentos para todas as expressões de raiva que passavam no rosto da camisa que transparece sua insatisfação com a realidade sendo posta as claras. Com certeza era mais fácil para a camisa florida enquanto todos os seus pedidos eram apenas encarados como favores que um dia seriam retribuídos, não como ordens que deveriam ser acatadas. A camisa florida parecia um general impotente que os homens riem das suas ordens. E eu ria, para ajudar na figura de linguagem, eu ria. Foi-se embora em seguida despedindo-se de longe para demonstrar sua cordialidade. Ficamos uns poucos segundos a mais apenas. Tínhamos em mente a demonstração de um certo tipo de vitória, mesmo que pequena e boba. Com certo exagero, uma desmistificação de uma camisa florida azul e ordinária. Dessas que ninguém tem por receio de parecer exagerado, ou ridículo em demasia.