terça-feira, 13 de agosto de 2002

Eva

A mira procura qualquer coisa que se move. O longo cano mira e espera a ordem do gatilho para cuspir sem nenhum traço de culpa. O atirador, que traja apenas uma calça com suspensórios, um cigarro na boca e meias sem sapatos, ignora quem são os pontos que se movem lá no fundo da sua visão. Ele acabara de acordar e antes de tomar o desjejum costuma apertar o gatilho pelo menos uma vez. Lá embaixo, um senhor, com uma picareta nas mãos, tenta abrir uma vala comum. Passa por ele uma mulher, com um lenço nos cabelos e uma criança nos braços. A mira vai dele para ela e volta para ele. Perto deles há um soldado armado e que ignora completamente quem são as pessoas as quais ele deve zelar pela falta de liberdade. São apenas rostos, ele pensa nesse momento. O cano sai do velho com a picareta e acompanha a vala. Encontra outros homens de todas as idades que também cavam. Ele ignora se eles sabem que podem morrer a qualquer momento. Mas isso não importa. Há uma concentração de homens parados que tentam tirar uma pedra do rastro da vala. O homem aponta na direção da concentração de gente e dispara algumas vezes. Três homens caem. Logo alguns outros retiram os corpos e voltam para substituir os caídos.

O atirador levanta o corpo e olha para a aglomeração de pessoas lá embaixo. Longe da mira parecem tão distantes. Puxa os suspensórios e aparece um meio sorriso com cuidado para não deixar cair o cigarro da boca. Vira-se de frente para o quarto que dormiu e caminha para ele, saindo da sacada. Encontra Eva que segura suas roupas e olha para ele sem demonstrar nenhuma emoção no rosto. Ele olha para ela e ela repara na fumaça que sobe do cigarro aceso que se equilibra na boca do homem. Ele fica nervoso e grita alguma coisa ininteligível por causa do cigarro na boca. Ela não sabe o que fazer e abre um pouco a boca espantada. Ele grita novamente e caminha na direção dela. Os dois estão separados pela cama dele. Segura o braço dela e a puxa para o lado onde estava. Ela fecha os olhos de forma indecisa, talvez por causa da claridade que vinha da varanda, talvez por causa do rifle parado ali. Eu disse para você colocar a minha roupa aqui, diz o homem de forma nervosa. Ela abre os olhos na direção dele. Repara na sua respiração cansada, nervosa, hesitante e nos seus olhos injetados de raiva. Ele segura o braço dela e olha para o seu rosto com os cabelos desalinhados jogados na testa e a fumaça do cigarro que sobe e forma uma pequenina cortina. Ele larga o braço dela, se apóia na porta da varanda com olhos lá embaixo e olhos dentro do quarto, passa a mão no cabelo, tira o cigarro da boca e aponta para poltrona, Ali, coloca a roupa ali, diz. Ela, silenciosamente, coloca a roupa no lugar indicado e se vira em direção a saída. Caminha de maneira rápida, mas com cuidado. Espere, grita ele da porta da varanda, ela se vira, ele olha para os olhos dela, olhos de um verde único, o rosto róseo, o cabelo castanho escuro grudado na cabeça, olha para toda ela com as roupas indignas dela, indignas dela, ele pensa, Desculpa, ele fala com a mão com o cigarro apontando para o quarto e para a poltrona. Ela se vira e sai do quarto.

Ele se arruma e se encaminha para tomar o desjejum. Senta na cabeceira da grande mesa vazia de madeira maciça na copa. Eva entra no recinto com duas tigelas, uma em cada mão, e apressasse para colocar na frente dele. Ele acompanha a movimentação dela somente com os olhos sem produzir nenhum som. Ela sai da copa e retorna com mais duas travessas e repete o movimento anterior. Ele espera que ela saia do recinto para olhar para os pratos. Começa a comer do que estava mais próximo dele. Ela volta com um jarro e coloca na frente dele. Sai novamente. O que é isso, ele pergunta puxando uma das terrinas para próximo dele, O que é isso, ele repete aumentando o tom de voz. Ela entra no recinto com uma xícara nas mãos. O que é isso, ele quase grita sem desviar os olhos dela, Você fez comida da sua raça para mim, ele inquire com as duas mãos postadas em cima da mesa e os olhos injetados, Essa comida você devia fazer para os porcos, ele se levanta e derruba a tigela no chão, Nunca mais, ele levanta o dedo em riste, Nunca mais faça esse tipo de comida para mim, ouviu, você está entendendo, ele berra, ela abaixa a cabeça, ele sai da copa.

Desce as escadas, passa pela secretária que faz um cumprimento, e entra no seu escritório feito todo em madeira de lei escura. Puxa a pesada cadeira e senta atrás da mesa. Entrecruza os dedos e olha através deles para a porta impassível. Ela é inferior, ela é inferior, repete mentalmente como um mantram. Fica imóvel durante minutos. Levanta-se e caminha lentamente escutando cada som da sola das botinas no chão para a janela. Abre a cortina e olha para fora. Sujos, fala baixo para ele mesmo, Imundos, repete. Volta um pouco mais seguro para a mesa. Antes, porém, a secretária bate à porta e a abre. Ela anuncia que o subcomandante quer entrar para despachar. Ele autoriza e senta-se na pesada cadeira com os dedos entrecruzados na frente do rosto.

O subcomandante faz o cumprimento e ele o autoriza a sentar-se. O subcomandante começa a passar as informações de movimentações da tropa e de todo exército. Ele olha além do subcomandante para a porta. O subcomandante continua com os olhos fixos nos papéis que tem na sua frente. Ele levanta-se e o subcomandante pára de falar, ele pede que continue, que não se importe com ele de pé. Ele se encaminha para a porta com a voz do subcomandante bem no fundo. O subcomandante se vira na tentativa de acompanhar o pequeno passeio dele. Ele espalma a mão direita na porta e com a esquerda segura a maçaneta. Ela é inferior, não pode, ele repete para si baixo, O que foi que disse, senhor comandante, pergunta o outro. Ele se vira e ordena que ele não repare no que ele diz. O subcomandante pede perdão e pergunta se deve continuar, ele autoriza e volta para a mesa e para se sentar na cadeira.

Continua a fala no fundo e ele olha para os dedos entrecruzados da mão. Pega um cigarro leva a boca e vê que o subcomandante se oferece para acende-lo. Ele aceita, mas com um olhar agressivo. O subcomandante prossegue e ele repara na fumaça que queima o cigarro. Traga mais uma vez e escuta o cigarro queimar e vê a brasa consumir o toco. Bate a cinza do cigarro no cinzeiro de prata que há em cima da mesa. Olha para fora. Eva, ele escuta, O que há com ela, ele, num misto de inquietude, curiosidade e nervosismo, pergunta para o subcomandante, É que, o senhor sabe, não é aconselhável ter alguém de raça inferior trabalhando para o senhor, Quem disse isso, ele questiona em tom arrogante, Ninguém, responde o subcomandante, Escuta-se por ai, completa, E o que dizem, ele instiga, Nada, apenas que não é de bom tom o senhor ter uma criada da raça deles, Pois eu acho que quem fala isso está completamente errado, Eva faz o seu serviço de maneira impecável, não tenho o que reclamar. Mas, o subcomandante começou a falar, Eu não terminei, e eu tenho certeza que eles prestam para estes tipos de afazeres menos qualificados sim, eles devem nos servir, Sim, entendo comandante, mas, Mas o que, acho que fui claro, Sim, senhor. Ele bate a cinza do cigarro que ficou parado no cinzeiro e traga com os olhos na fumaça. Senhor, peço permissão para me retirar, todas as considerações foram feitas, Claro, pode ir. O subcomandante levanta-se. Quando gira a maçaneta, ele pede para chamar sua secretária, Claro, senhor, responde o subcomandante.

Sim, senhor, a secretária diz ao entrar no escritório. Peça a Eva que traga o café para mim agora, sim, Sim senhor, ela responde. Ele apaga o cigarro e pega outro. Coloca na boca e abre a gaveta à procura do isqueiro de prata que há dentro. Acende o isqueiro e repara na chama. Aproxima do cigarro dá uma tragada e desliga o isqueiro. Guarda-o na gaveta e traga uma vez mais. Vê a brasa que come o cigarro, prende a fumaça e a solta pelo nariz. Batem à porta. Entre, ele diz. Eva entra com um bule e uma xícara grande de porcelana em cima de uma bandeja. Coloca ambos os utensílios na frente dele. Ele observa todos os movimentos dela. Ele fica imóvel, com os olhos plantados no rosto dela, explorando cada detalhe, conhecendo as pequeninas dobras de expressão, descobrindo o cheiro dela, detalhando o tom da sua pele. Ela enche a xícara com o café forte, da maneira como ele gosta, e coloca o bule em cima da bandeja novamente. Ele segura o braço livre dela. Ela olha para ele assustada. Ele começa a apertar o braço dela, ela desvia os olhos dos dele e repara na mão dele que faz a pressão. Ele a solta e olha para janela. Dá mais uma tragada com as mãos trêmulas. Ela se vira e sai do escritório. Ele se levanta e vai para a janela. Repara num homem que empurra um carrinho com pedras dentro e que passa na frente da janela. Porcos, repete para si mesmo, Imundos. Anda rapidamente para a porta em direção à saída. Consegue enxergar o homem que havia passado em frente a sua janela e anda na sua direção. Quando chega próximo, grita para ele parar. O homem vira-se num sobressalto, ele saca a sua pistola do coldre e mira para ele, o homem cai de joelhos, ele se aproxima e encosta o cano na testa dele e aperta o gatilho. Vira-se, limpa o cano com a manga da camisa e a coloca de volta no coldre. Antes de entrar no escritório, o subcomandante, que havia visto toda a cena, alcança-o. Senhor, posso perguntar o motivo do tiro no homem, Pode perguntar sim, mas eu talvez não queira responder, Senhor, nós não podemos mata-los dessa forma ou corremos o risco deles se revoltarem, Então, meu caro subcomandante, diga para esses porcos imundos não passarem tão próximos da minha janela, você me escutou, Sim, senhor. O subcomandante sai em direção a um oficial menos graduado e ele para o escritório.

Entra na sua sala e se apóia na mesa com as duas mãos e de costas para a porta. Pega o café e toma um gole. Sente que já tinha esfriado um pouco. Engole mais um pouco. Mexe na xícara como se quisesse misturar algo. Coloca a xícara de volta no pires. Volta-se para a porta, abre-a e pede a secretária que chame Eva para retirar a xícara. Sim, senhor, ela responde. Ele abre a gaveta e pega o isqueiro. Acende mais um cigarro e olha pela janela o lado de fora. Tira a cortina de maneira que a luz entre sem nenhum entrave. Demora um pouco e escuta batidas na porta. Entre, ele diz. Eva entra cabisbaixa. Ele olha para fora, tenta evita-la. Ele escuta o barulho do pires ao encostar-se à bandeja. Estava muito ruim, diz ele olhando através da fumaça para ela. Ela se vira, ainda com a cabeça baixa, e volta-se para porta, Da próxima vez, tente fazer um café melhor, ela abre a porta e sai. Ele apaga o cigarro e acende outro.

Avisa para a secretária que vai almoçar e sobe as escadas tentando ser o mais silencioso possível. Senta na cabeceira da mesa. Eva está na cozinha ainda. Ele tenta escutar o barulho dela. Percebe que ela murmura uma música de melodia suave. Ele fecha os olhos e imagina que ela canta para ele. Não, ele abre repentinamente os olhos, Ela é inferior. Arrasta a cadeira e tenta levantar-se. Eva percebe que ele já havia subido e pára de cantarolar. Ele se apóia no umbral da porta da cozinha e a olha trabalhar. Não precisa parar de cantar, diz ele, Eu não me incomodo. Ela lava algumas louças de forma impassível. Ninguém vai saber, ele fala, Vamos, ele dá um passo à frente, Cante, ele se aproxima dela, Cante para mim, ele segura a cintura dela com ambas as mãos, ela pára de lavar a louça, ele fecha os olhos, Vamos, cante para mim, ela fica imóvel, ele tenta sussurrar a mesma harmonia perto do ouvido dela, ela não se mexe, Vamos, cante comigo, eu sei que você sabe, hum-hum-huum, eu escutei, vamos, ela não se move. Ele pára de cantarolar, abre os olhos, a vira e agarra o rosto dela aproximando-o do seu e grita, Eu disse para você cantar para mim, começa a balançar a cabeça dela, Cante para mim quando eu mandar, entendeu, joga a cabeça dela de um lado para o outro, ela começa a chorar, Cante para mim, cante, cante, ele pára. Larga o rosto dela e se apóia na pia. Ela sai da cozinha no meio do choro.

A pia ainda pingava. Ele fecha a torneira e sai da cozinha para a sala onde fica o bar. Abre a porta de vidro da cristaleira e pega o conhaque com um copo. Coloca um cigarro na boca e abre a primeira gaveta abaixo do bar para apanhar um isqueiro fajuto e o acende. Senta numa poltrona de costas para o corredor que liga o quarto à cozinha. Enche o copo e toma em uma talagada. Repete a ação mais duas vezes. Enche o copo pela quarta vez, se encosta à poltrona e traga o cigarro. Repara na fumaça do cigarro. Ela é inferior, repete para si mesmo, Porcos imundos. Vira novamente a bebida e enche o copo mais uma vez. Porcos imundos. Traga o cigarro. Porcos imundos. Vira a bebida e enche o copo. Traga o cigarro, Porcos imundos, Porcos imundos, Porcos imundos. Levanta-se.

Caminha cambaleante pelo corredor que leva para o quarto de Eva. Porcos imundos. Abre a porta. Ela está deitada na cama de bruços com o rosto no travesseiro chorando. Ele olha para ela. Ela se assusta com ele parado na porta do quarto e pára de chorar. Ele repara no seu rosto, mais róseo ainda. Percebe que os seus olhos verdes ressaltavam-se. Lindos olhos verdes. Não, ela é um dos porcos imundos, pensou. Você deveria me servir o almoço, ele fala. Ela se senta na cama, passa a mão pelo rosto e se levanta. Chega perto dele e ele não se afasta da porta. Ela percebe que ele está embriagado e dá um passo atrás. Vai colocar a minha comida, ele aponta para o corredor. Ela abaixa a cabeça e cruza as mãos como se quisesse se defender. Ele dá um passo à frente, Vai colocar a minha comida, agarra o cabelo dela, Eu te ordeno, e a empurra em cima da cama. Ela cai e começa a chorar novamente, Porcos imundos, começa a gritar, Você é inferior, você é igual a eles, começa a enforca-la, Porcos imundos, aperta o pescoço dela mais, Você é inferior, se aproxima, tenta dar um beijo, mas ela já está inerte, Porcos imundos, Porcos imundos. Ele se ajoelha no chão, abaixa a cabeça, e começa a murmurar, Por que você tinha que ser inferior, ele grita, Por que... Ele se levanta, olha para ela deitada, para o rosto róseo, para os cabelos castanhos e volta para a sala. Senta na poltrona e acende um cigarro. Olha através da fumaça a parede vazia. Porcos imundos, repete para si mesmo em tom bem baixo, Ela é inferior, ela é inferior, ela é um dos porcos imundos.

Nenhum comentário: