terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nascimento, o primeiro super-herói brasileiro

Agora que cerca de 6 milhões de pessoas já viram "Tropa de elite 2", pensei em escrever alguma coisa sobre o assunto. O primeiro pensamento que passou pela minha cabeça foi: gostei mais do primeiro. Ou melhor, o primeiro filme me impressionou mais. Fui um dos famigerados que assistiu em cópia pirata [vou arder no mármore do inferno por isso, eu sei] à primeira versão, logo assim que ela foi informalmente lançada. Não esperava tal qualidade de uma produção brasileira, mesmo após "Cidade de Deus". Foi uma surpresa - e um certo orgulho.


Claro que a tortura presente no primeiro filme me chamou a atenção logo de cara, mas não via traços do fascismo que, depois, foi logo associado ao longa. Aliás, comigo aconteceu um fenômeno interessante. Vi o filme pouco antes de entrar de férias quando ainda era razoavelmente desconhecido. Quando voltei, o capitão Nascimento era capa das três maiores revistas brasileiras e todo mundo só falava sobre "Tropa". Qualquer assunto - e quando eu digo "qualquer assunto" quero dizer realmente "qualquer assunto" mesmo - sobre "Tropa" virava pauta.

O segundo veio cheio de expectativas e um esquema de segurança digno do Bope - literalmente - que alavancaram a bilheteria. E é, talvez, até melhor que o primeiro. Mas menos impactante. Melhor por quê? Por que mostra um capitão-agora-tenente-coronel-subsecretário-de-segurança Nascimento mudando completamente sua opinião, indo de um total antagonismo com o professor-de-História-deputado-correto Fraga para, ao fim, estarem lado a lado contra o perigo em comum? Por que criou-se um vilão - o miliciano Rocha - de quem você consegue sentir verdadeira raiva verdadeira? Por que apontou para os verdadeiros culpados pelo problema da violência no Rio - os políticos? Por tudo isso, sim, mas, principalmente porque reafirmou e ressaltou o valor de nosso [nosso, brasileiro] primeiro super-herói, o Nascimento, que já vem pintados com as cores da modernidade, em que a dúvida e as atitudes contraditórias são as duas matizes mais fortes.

Nunca tivemos super-homens, homens-aranhas, justiceiros, ou jiraias, jaspions, ou mesmo asterixes, quiçá tintins. Já tivemos capitães-gays, mônicas até riobaldos. Mas ou eram paródias, ou eram voltados para o público infantil ou não tiveram o alcance pop que Nascimento atingiu com os dois filmes. Já tivemos anti-heróis, como Odete Roitman ou Nazaré ou mesmo Olavo, mas nunca um sujeito por quem torcer do início ao fim de uma produção cultural.

Nascimento tem a moral ilibada. Coloca na cadeia políticos só com o seu depoimento. Tem um grupo que o protege e antevê quando sua família será atacada. Além disso, ele é irônico, pai apaixonado pelo filho, e luta do lado certo da lei, numa sociedade carcomida pela corrupção. Também é um homem e, como tal, sujeito a problemas e erros diversos - o que o aproxima dos mortais normais.

Parte da responsabilidade fica, é claro, com Padilha, diretor-economista, que gosta de uma dialética quase marxista em seus filmes. Parte do Bráulio, roteirista de trocentos filmes brasileiros de sucesso; e parte do próprio Rodrigo Pimentel, que viveu, na vida real, esse capitão do Bope que passa por tanta mudança. Mas dou o meu crédito maior para Wagner Moura. Francisco Bosco disse em sua coluna e eu repito aqui: feliz de nós que vivemos na mesma época que um ator desse naipe.

4 comentários:

Alexandre disse...

Também gostei muito do filme e tal qual o primeiro, devo rever muitas vezes. Recomento a todos e achei bastante coerente as observações do Ronaldo.

Ronaldo disse...

opa, obrigado, Alexandre, pelos comentários.

abraços

eduardocafe disse...

Gostaria muito que a DC'Comics ou mesmo a Marvel"adotasse" o Capitão Nascimento como um de seus super herois. Teriamos um heroi dos tempos modernos no universo de herois de uma das duas. quanto ao personagem, achei sensacional . . . que vive aqui no rio de janeiro ], viu a realidade da vida nas favelas e no dia a dia na telona e isso foi muito emocionante pra mim.

Ronaldo disse...

curioso: quando escrevi, pensei no Justiceiro, se não me engano, da Marvel. Mas foi só um impulso inicial. Eles têm mais diferenças que semelhanças.

Agora, fica a pergunta: será que o Padilha vai aproveitar esse personagem em outros formatos [série de TV, quadrinhos, livros...]?