domingo, 11 de setembro de 2011

Desvelando os véus

O Brasil é um país curioso em várias acepções da palavra "curioso", mas uma em especial me chama a atenção daqui de Londres: ter uma nação do nosso tamanho e com tanta gente e falar apenas uma língua. Mesmo que tenha variações regionais, sotaques e até mesmo áreas no sul que se fala alemão ou italiano e no norte que se falam trocentas línguas indígenas, podemos afirmar que a imensíssima maioria da população se comunica única e exclusivamente na última flor do Lácio.

Se compararmos com países com o nosso tamanho [EUA por exemplo, que nem tem língua oficial] ou o número de pessoas vivendo, acho que somos um caso único. Na Indonésia, uma posição à nossa frente no ranking dos populosos, há a língua oficial, o indonésio, mas, de acordo com o wikipedia, "muitos indonésios, além de falar a língua nacional são fluentes em outras línguas da região, como o sundanês e o javanês." Depois da gente, no ranking, vêm Paquistão e Bangladesh - e aqui se encerra nossa comparação.

[Me lembrei do "Filhos da meia-noite", do inglês de nascimento, mas indiano de família, Salman Rushdie, quando o personagem principal, indiano muçulmano, descreve como sua babá era um ignorante analfabeta, mas falava trocentas línguas diferentes.]

Ontem, consegui identificar - repito, consegui identificar - cinco línguas: inglês, português, francês, italiano e espanhol. Com a ajuda de Roy, descobri que em um vagão de trem havia gente falando em hindi e marathi. E ouvi uma senhora de cabelos azulados falando algo que eu posso jurar que era eslavo, mas se russo ou outra língua que o Fabrício Yuri domina, não tenho certeza. Além disso, almoçamos em um restaurante Punjabi, da região que se divide entre Índia e Paquistão [sim, há um outro lugar fronteiriço entre esses países irmãos que amam se odiar, que não a Caxemira e onde as pessoas não querem se matar], em que é claro que as pessoas falavam urdu. E não duvido que alguma das inúmeras senhoras usando véus nas ruas se expressa em árabe.

Aliás, falando em véus, descobri como somos ignorantes em relação a qualquer assunto da religião muçulmana - pelo menos eu sou. Descobri que eles têm um tipo de comida chamada halal, que, assim como a comida kosher dos judeus, respeita uma série de procedimentos na hora de matar os animais - não vejo coincidência nessa aproximação, mas parentesco. Segundo Roy, um dos procedimentos é drenar o sangue do bicho porque há o pensamento de que muito das impurezas do carneirinho estaria no sangue. Me remeteu ao episódio do sangrador do "Histórias do Brasil".

Em falando em parentesco, ontem enquanto andava no lado leste da cidade, houve um momento em que "esbarrei", ao mesmo tempo, com uma moça e sua filha envolvida em um dos mil véus, e dois judeus ortodoxos, daqueles que usam chapéus e trancinhas [repare que a minha ignorância não tem preferências]. Como estava com Roy, éramos naquele momento um hindu, dois judeus, duas muçulmanas e eu, um ex-católico.

Outro detalhe que descobri - apesar de já ter ouvido falar - é: não há apenas um tipo de véu, mas diversos. Confundir isso deve ser - imagino - o mesmo que não reparar que a sua mulher cortou o cabelo. Suspeito que as moças que usam os véus não mudam de véu para véu, conforme, sei lá, o clima. ["Hum, hoje, vou usar um mais fechadinho porque está frio."] Mas porque envolve a sua relação com a religião. Ontem, enquanto esperava no aeroporto Renata chegar, percebi três gerações de muçulmanas com tipos diferentes de véus. Quanto mais velha, mais pano. Mesmo assim, a mais nova, apesar de usar roupas ocidentalizadas, não mostrava nem mesmo uma das canelas, quiçá o pescoço.

Também é curioso a indústria do véu, na moda. As lojas aproveitam que aqui as pessoas ganham em pounds e colocam para vender as mais garbosas hijabs, al-amira ou shayla, ou até mesmo uma niqab. Vi uma adolescente muçulmana negra com um chador preto brilhante. Claro que eu não aprendi esses nomes e essas distinções em um dia de andada pelas ruas londrinas. Descobri que a BBC tem um infográfico simples e bem informativo sobre os diferentes panos que se coloca em volta da cabeça ou do corpo. Vale a conferida.

sábado, 10 de setembro de 2011

Impontualidade britânica

Cai o mito. Por seis minutos. Estávamos no norte da cidade, indo para a área do estádio de Wembley  [a toda hora eu confundo com Wimblendon. Estávamos indo para aquele lugar onde se joga com a bola grande] e esperávamos uma das muitas linhas de metrô. Nessa, diferentemente de outras mais constantes, há um painel que mostrava a que horas chegaria o próximo trem - igual ao que acontece em outros muitos lugares do mundo, em que há organização. E eis que o painel indicava uma hora e... não, não, o trem não chegou no horário. Ao menos a locutora - ou a voz que diz "Stand clear" e "Mind the gap" - avisou que aquele trem que chegava à estação às 4h28 era o trem atrasado de 4h22. Afinal, eles continuam protestantes e éticos.

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Pensei em uma camiseta, usando a logo da Gap, com o dizer: "I don't mind the gap".

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Algumas estações e inclusive linhas inteiras estão sendo fechadas aos fins de semana, para obras visando as Olimpíadas do ano que vem. Claro que isso não atrapalha em nada o funcionamento da cidade. Ou, ao menos, o meu deslocamento.

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E falando sobre as olimpíadas, começou ontem, dia 9, as inscrições para voluntários para os Jogos Paraolímpicos ["paraolímpicos" perdeu o hífen? - vou me abster da piada de cunho duvidoso]. Há uma campanha maciça nas ruas para que as pessoas participem. Aliás, há uma campanha também grande para as Olimpíadas, em si.

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E falando sobre voluntários... Vi hoje um anúncio impensável no Brasil, em que sugerem às pessoas trabalharem por 16 horas mensais - de graça - na polícia! O slogan - se eu me lembro bem - era "A new Scotland Yard". Imagine a galera passando dois dias na PM ou mais especificamente no Bope? Acho que haveria fila. O slogan? "Venha brincar de polícia e ladrão de verdade." Ou "Paintball com balas de verdade". "Tiro ao alvo móvel". Ou "O velho Bope".

Pints & pubs

Segundo dia

Você descobre que está em Londres não pela quantidade de indianos e jamaicanos e coreanos andando nas ruas, falando dialetos e línguas nacionais. Nem pelo clima - supposed to be - frio, chuvoso, escuro [não está frio, garoou e está um nublado branco]. Nem mesmo pelos "cheers, mate" ou pelos "lovely lady" onipresentes. Mas pela cerveja. Amarga, quente, com baixa carbonatação. E excelente.

Ontem, cometi o meu mais grave erro: me senti em casa de cara. E, como sempre, optei pelas cervejas das quais nunca tinha ouvido falar. O que - nada a ver com falsa modéstia, mas com a globalização das marcas - foi razoavelmente difícil, e me levou a cometer o outro erro de sempre, comprar gato por lebre. Mas chegamos lá.

Uma das tradições que sempre ouvi falar sobre Londres é a dos pubs que, além de fabricar a própria cerveja, tiram o líquido sagrado dos seus barris sem usar gás carbônico e sem máquina de pressão . É tudo no muque. A pessoa do outro lado do balcão - pode ser um japa com mais tatuagens que João Gordo, ou uma loura saída de um comercial da Volvo, if you know what I mean - tem que fazer força para tirar sua ale de dentro das câmeras onde é armazenada. Claro que não há refrigeração - a temperatura é perfeita lá fora. E o amargor, bem, quem sou eu para negar a tradição de atração pelo lúpulo?

O problema desse tipo de estratagema é - imagine - esquecer de todos os tipos que você tomou ontem. E nem foram tantos pints assim. Porém, seguindo também outra das tradições londrinas, fomos em uns quatro pubs e em cada um deles, tomamos um pint. No penúltimo, já sem opção, pedi aquela marca verde que era a que se repetia em todos os lugares e eu não conhecia. De cara, vi que algo estava errado. Havia muitas borbulhas. Provei, doce demais. Depois de eu muito pensar, meu camarada Roy chegou a conclusão de cara: era cidra. A inglesa do meu lado, ao escutar toda a conversa, não se furtou de comentar: "Fail". Roy, polite como um gentleman indiano, falou que tomaria para me ajudar. Então, para manter a tradição que eu acabara de inventar - ei, estamos em Londres, não? -, terminei a noite com uma Guinness. Acho que deveria ser a lei. Todas as noites abaixo de 20 graus célsius devem terminar com uma porter desse porte. E antes de ir para casa, comer um kebab!

Trinta e dois


Primeiro dia – 08/09/2011 – quinta-feira, aeroporto do Rio de Janeiro

Trinta e dois deve ser um dos números mágicos da cabala. Além de ser a junção do algarismo “3” – que remete à santíssima trindade que rege os que seguem a sagrada escritura – e do “2” – do par, do casal, da coincidência – e de ser a idade conhecida pela mesma escritura em que Cristo morreu na cruz , é também o peso limite para as malas em voos internacionais.

Se você for um reles mortal [ o/ ], você pode levar até duas malas com essa massa cada [um amigo físico implica com o termo “peso” para determinar... o peso] mas não pode transportar uma única de 42 quilos. Adivinha qual era o meu caso.

[Nunca imaginei que um dia pudesse ultrapassar o limite e nunca me imaginei abrindo aquela mala imensa no meio do aeroporto para fazer uma reengenharia. Tipo: saca a cueca e mete o sapato chulezento. Ou tira a roupa suja e atocha ao lado do terno de casamento. Sempre tinha visto outras pessoas fazendo isso e pensava: “há! Deu mole.”]

O argumento da companhia aérea é: “’A Europa’ não aceita além desse peso.” [Imagine como os ingleses se sentiriam feridos em seus egos se soubessem que estão sendo chamados de europeus...] “A Europa”, milênios após a popularidade do personagem mitológico grego, voltou a ganhar uma personificação. Voltou a ser sujeita de si.

A ameaça – me contou a simpática atendente – é de a bagagem se perder. Ela – “A Europa” – só receberiam bagagens de até 32 quilos. Após isso, não*. Devem colocar num cemitérios de malas abarrotadas e, depois, exportam para países subdesenvolvidos junto com o lixo atômico. Tenho certeza disso.

De qualquer forma, pelo blefe ou pelo aviso, considerei que era melhor não me arriscar. Principalmente quando o que está em jogo é toda a roupa da sua vida [agora eu sei o peso que eu carregava nas costas...]. Abri as malas [“Há! Deu mole”] e tasquei livros, sapatos e outras quinquilharias em uma outra bolsa onde carregava eletrônicos e afins. Na mala-imensa ficou só roupas. E três garrafas de cachaça que, agora, sem tantas peças a pressioná-las, poderão sambar, evoluir na passarela aeronáutica, até que uma delas, mais saidinha, certamente se esparramará calmamente sobre calças, casacos, camisas, shorts... Em uma tacada, posso ficar sem eletrônicos – que, claro, serão chutados pelos moços nem tão simpáticos da companhia aérea –, sem presentes e sem minhas roupas. E, claro, minha bagagem reserva viajou – está viajando, vai viajar, dependendo de quando for a leitura – sem cadeado. Tudo bem, vou estar na Europa.

* Conversando com um amigo-de-voo, que fez seu mestrado em direito em Londres, ele sugeriu sem muita certeza que a questão envolveria legislação: os trabalhadores das companhias não podem, por lei, carregar mais que esse peso.

ps. tudo chegou inteiro. Menos a rodinha da mala de rodinha, que quebrou. Claro.

domingo, 4 de setembro de 2011

Perenidade da arte

Se há um conceito que eu gosto a priori da arte de rua é a sua perenidade. Estava eu voltando para casa e vi uma cena que é recorrente no universo do pessoal do grafite e da pichação ["xarpi"]. Um fulano estava desenhando por cima de outro que tinha feito o seu desenho há mais tempo. Há um movimento de substituição. Há a percepção que a sua produção tem uma data de validade. Há a noção de que somos todos substituíveis, finitos. Há uma sugestão do nosso tempo atual em que as pessoas não idolatram obras de pintores. [Ou não. Porque há sempre um louco que quer quebrar a parede para levar um Banksy para casa...]

Ou ainda porque cada situação é mais rápida e as pessoas querem substituir e consumir uma nova obra, em que libere suas endorfinas reservadas para os trabalhos que dão prazer.

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O passado é quase uma exigência de nossa memória e uma coincidência de nossas ações. Por isso, talvez, queiramos tanto preservar nossos monumentos. É desafiador pensar uma outra pessoa, em outro tempo, vivendo dentro daquele mesmo espaço. Como se vê, é mexer na relação espaço-tempo.

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As obras de arte sofrem desse mesmo raciocínio. Todas as pessoas querem ver a "Monalisa" e a "Capela Sistina". Bem, é claro que por outros motivos além desse, mas também porque são antigas, são obras que nossos avôs, nossos pais e nós mesmos nos acostumamos a repetir que são belas, impressionantes. É a tradição da arte. Gostamos porque fomos acostumados a gostar.

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É errado destruir a obra de outrem para produzir a sua? Tão errado quanto desenhar pela primeira vez. Por que a primeira deveria ser a melhor, ou a protegida? Isso lembra o conceito de "aura" do Benjamin, que todo mundo que fez comunicação deve ter lido [não é o meu caso]. A "aura" me lembra algo parecido com a alma. O que não é de assustar considerando o misticismo de seu autor. Mas é de assustar as pessoas ainda acreditarem em coisas como essa. Parece que Nietzsche não passou por aqui.

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"Artista é o caralho", diz o Rubinho Jacobina [que eu conheci de "oi-oi", rapidamente, no lançamento do "Autoassassinato" - hoje em dia tenho uma vergonha desse livro... do segundo "grande" também tenho, mas menor. Desse... nossa. Acho tão banal....] E não tem como negá-lo. Por que o "artista" deveria ser diferente do restante das pessoas? Por que as pessoas deveriam pagar para elas cantarem, para elas escreverem, para elas desenharem? O que é isso?

Escuto: exatamente porque eles não são diferentes deveriam receber dinheiro pelos seus trabalhos. Mas quem disse que cantar, escrever e desenhar é algo que deveria ser pago? Ou ainda, ou melhor: por que isso deveria ser quantificado por outra pessoa além da pessoa que quiser pagar? Tabelar a arte é destruir um de seus principais e intransferíveis segmentos que dá ao espectador o fiel da balança. Ou, em outras chulas palavras: gosto, cada um tem o seu.