segunda-feira, 17 de novembro de 2014

'Interstellar' e o desterro

Logo nas primeiras linhas de "Human condition" (1958), talvez seu livro mais famoso, Hannah Arendt descreve o lançamento do Sputnik, o satélite russo que foi conhecido como o primeiro objeto feito pelo homem a entrar propositalmente na órbita da Terra, em 1957. Argumenta que esse evento, que seria o mais importante da humanidade, mais importante até que a fissão atômica, não teria sido recebido com alegria por conta da disputa política da guerra fria, mas com uma ideia de salvação do planeta - no sentido de o homem se salvar deste planeta - como se, na verdade, estivéssemos aprisionados à Terra. E essa reação, diz ela, não respeitaria cores ideológicas, acontecendo tanto entre os americanos-capitalistas, como entre os soviéticos-comunistas.

Nove anos depois do livro de Arendt, seu principal mentor, o intragável Martin Heidegger, muito provavelmente sem lê-la, faz um comentário sobre o tema de maneira que lembra a sua ex-pupila - o "enraizamento" era um de seus principais temas - na famosa entrevista para Der Spiegel: "Eu não sei se não os assusta - seja como for, a mim assusta-me - ver agora as fotografias da Terra feitas da Lua. Não é preciso nenhuma bomba atômica: o desenraizamento do homem já está aí. Nós já só temos relações puramente técnicas. Já não é na Terra que o homem hoje vive".

O repórter, então, retruca: "E quem sabe se o homem está destinado a estar nesta Terra? Seria pensável que o homem não estivesse destinado mesmo a coisa nenhuma. E também se poderia ver sempre como uma possibilidade do homem o lançar-se a outros planetas, a partir desta Terra. Com certeza que já não estamos longe disso. Onde é que está escrito, afinal, que o sítio do homem seja este?"

Mas Heidegger, como sempre, não dá o braço a torcer: "Se estou bem informado, de acordo com a nossa experiência e história humanas, tudo o que é essencial, tudo o que é grandeza surgiu do homem ter uma pátria e estar enraizado numa tradição. A literatura contemporânea, por exemplo, é excessivamente destrutiva."

Há um componente claramente conservador nas palavras de Heidegger. Vide a crítica à literatura contemporânea, que não respeitaria exatamente essa ligação com uma nação. Um tom que pode ser interpretado como de quem quer interromper o caminho do progresso, e retornar a um mundo anterior a isso, não necessariamente idílico, mas que ao menos em que haja uma ligação maior com a terra e com a Terra.

Qual foi a minha surpresa, portanto, quando começaram a anunciar Interstellar, o novo filme de Christopher Nolan, com a frase dita pelo personagem de Matthew McConaughey, Cooper:“Humanity was born on earth, but it was never meant to die here”. Não poderia estar mais em desacordo com Heidegger.

Se o filme peca excessivamente por seu caráter meloso, com um final "feliz" totalmente irreal, não podemos tirar o valor de suas cenas de ação - aquela onda no planeta água é de impressionar. Mas a minha proposta aqui não é analisar o filme, em si, mas pensar além dele, a partir da premissa em que ele se baseia: o homem deveria sair da Terra? Devemos desistir deste planeta e procurar outro? Nosso instinto de sobrevivência nos leva a abandonar tudo e tentar recomeçar do zero?

Contrariando Heidegger, podemos imaginar que mesmo que o homem não tenha produzido nada de grandioso - aos olhos dele - sem ligação com as suas raízes, isso não assegura uma regra geral e irrestrita. Não há nada que nos garanta essa verdade, como mostra o repórter. E, mesmo se fosse o caso, poderíamos estabelecer raízes em outros destinos. Os escritores que escreveram em outras línguas que não as suas primeiras, Nabokov, Conrad, Beckett, etc., dão argumentos para se pensar assim - apesar de Heidegger juntar toda a literatura do seu tempo no mesmo saco da "destruição".

Portanto, isso daria respaldo para a pergunta do repórter e a resposta de Interstellar a Heidegger: precisamos sobreviver antes de viver. Se essa Terra não nos dá mais condições de nos enraizarmos, que procuremos outra terra para vivermos. O problema do filme, me parece, e aí se juntam Heidegger e Cooper, é propor uma saída em que o homem - e não qualquer homem, mas o americano médio ou o Dasein cotidiano - isoladamente está no centro do mundo, das decisões.

Interstellar deixa algumas questões que eles dão for granted, como se diz lá na terra deles, ou, em língua de cristão, dão como certo, óbvio, não são respondidas. A primeira e mais urgente: quem garante que todo mundo quer sair da Terra? Tal pergunta se desdobra em muitas outras: quem vai sair da Terra? Todo mundo? Qual é o critério para essa saída? E quem quiser ficar? Este vai ser abandonado ou terá ainda acesso a recursos? O personagem de Michael Caine chega a dizer em certo momento que eles deveriam esconder as pesquisas porque não seriam aprovadas pela opinião pública. Então, eles estariam acima da opinião pública - quem os colocou lá?

Neste mundo criado pelos irmãos Nolan, a única saída da crise ambiental é, literalmente, sair da Terra. Ou, pior, recomeçar do zero a civilização em outro lugar. E novamente me ficou a questão: Por quê? Por que recomeçar? O que nos faz tão imprescindíveis no universo que não podemos simplesmente desaparecer? O sentimento de preservação é o da espécie ou o do indivíduo?

Sabe-se que a pior forma de se criticar um filme é propor saídas que a obra não assumiu, fazer perguntas que o longa não se propõe a responder. O filme é - ou deveria ser - uma obra fechada que compramos com as suas qualidades e seus defeitos. Se quisermos algo diferente, deveríamos então arregaçarmos nossas mangas e fazermos nós mesmos a carpintaria. Portanto, ou eu aceitaria esse mundo de Nolan, com essas regras e suas lógicas, e isso não é garantia para gostar da obra, ou eu poderia também partir para a minha própria criação.

Mas fiquei com a impressão, e isso não é exatamente uma escolha, de que Interstellar dá bastante razão às preocupações de Hannah Arendt. O filme me está dizendo que, bem, o homem é maior que a Terra. Este lugar azul não conseguiu aguentar os grandes sonhos de sua mais famosa criação e pediu concordata. Temos que nos livrar daqui para poder continuar a sonhar, a viver como sempre vivemos, sem mudar nossos hábitos. E quando destruirmos outro planeta, mudamos novamente. É uma possibilidade moralmente inócua.

Ao fim, parece que Interstellar deixa clara sua proposta inicial: somos nômades. Sempre fomos. Sempre seremos. O mundo deve se adaptar a mim, não o inverso. Assim, joga fora toda a nossa História, desde que optamos por nos estabelecer em aldeias, povoados, cidades, países - o que novamente não é um problema em si. Mas deixa uma outra pergunta ao fim: é possível dar um boot na humanidade? É possível viver de outra forma? Esperemos pela continuação.

sábado, 15 de novembro de 2014

Alcançar o infinito

"Dizia o filósofo alemão Heidegger — Manoel o admirava — que, no mundo dominado pela ciência e pela técnica, estamos perdendo o chão. A falta de chão nos torna a cada dia mais dependentes das coisas técnicas (do carro ao Facebook). Precisamos, diz o filósofo, aprender a tratar essas coisas técnicas com indiferença, acompanhada de uma abertura para o mistério. Assim, poderemos criar novamente raízes no chão, para podermos alcançar o infinito"

Adalberto Müller, talvez o maior especialista em Manoel de Barros, consegue definir bem o que eu quero dizer, falando do poeta. O resto do texto, aqui:
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/artigo-eulogia-para-manoel-14555679

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O preto no branco e os muitos tons de várias cores

Existem dois tipos de pessoas: as que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e as que acham isso uma besteira. Eu faço parte do segundo grupo.

Durante um tempo, houve uma discussão muito grande sobre se seria possível a máquina, os robôs, a tecnologia enfim, substituir os humanos. Os defensores dos humanos pensavam que o homem e a mulher seriam impreteríveis porque não poderiam ser apreendidos, englobados, encapsulados. Como os humanos sempre tivéssemos algo que fugisse de uma relação de previsibilidade, que seria o modo de operar das máquinas - repetir para aperfeiçoar.

Por conta disso, a tecnologia sempre correria atrás, perseguiria esse caminho que foge da compreensão racional, do esperado, do planejado. Até conseguiria ser melhor que o homem e a mulher nesses processos, até mesmo tornando o humano algo ultrapassado, no processo do cotidiano reprisado. Não precisamos mais de Charlie Chaplins para apertar parafusos, algum Wall-e já faz isso por nós.

Chegamos a cogitar que a tecnologia poderia, inclusive, começar a prever nossas necessidades e criar artefatos inovadores que pudessem substituir até mesmo a capacidade do humano de ser imprevisível. Mas sempre percebemos que nossas demandas, mesmo em situações que se investe bastante em futurologia, como previsão do tempo ou diagnósticos médicos, são sempre inusitadas. A imprevisibilidade é parte integrante, quase essencial, do mundo. Até hoje, não se criou qualquer matriz [matrix?] matemática que enxergue o futuro de forma clara. Os chutes são cada vez mais precisos, mas os erros milimétricos ganham mais destaque igualmente.

O futuro é tão inesperado que jamais imaginaríamos o que está acontecendo agora. Ou melhor, que está acontecendo já há muito tempo, mas cuja velocidade de transformação vem se acentuando em uma aceleração exponencial. Em vez de achar que as máquinas conseguiriam, um dia, pensar como os humanos, acabou acontecendo o inverso: nós, humanos, estamos cada vez mais pensando como máquinas.

Com frequência assustadoramente crescente, estamos respondendo aos nossos problemas utilizando uma lógica que, na falta de nome melhor, poderíamos chamar de código binário. É sempre da ordem do "ou isto ou aquilo", ou Fla ou Flu, ou Dilma ou Aécio. Não se consegue ver - ou não se quer ver - que há muito mais coisas entre o céu e a terra do que imagina as vãs matemáticas utilitárias que usam o 0 e o 1 para tentar decifrar todos os nossos problemas. Não se consegue ver - ou não se quer ver - que há muito mais times, muitos outros esportes, muitas outras formas de se entreter que não assistindo a uma partida em que 11 homens de cada lado correm atrás de uma bola. O mundo não necessariamente é, mas pode ser mais complexo que isso.

Esse é o problema. Ao complexificar essas relações, ao colocar mais dúvidas que certezas (já que com o código binário é bem mais simples: uma resposta está certa enquanto a outra está errada) perdemos velocidade de reação. Temos que avaliar cada uma das possibilidades, pensar seus prós e seus contras, perceber que nenhuma opção está isolada no mundo, que já faz parte de uma outra teia de relações, que por sua vez também está inserida em um outro mundo completamente diferente, que interfere numa série de outras vidas que nós nem imaginávamos, e assim por diante. Não é uma equação do primeiro grau que vai resolver isso. É um pensar que envolve, muito e principalmente, a sensibilidade.


Não deve ser coincidência, portanto, que estamos menos e menos afeitos ao sensível, aquilo que mexe com nossas emoções, que nos faz sonhar - até mesmo falar sobre isso parece algo uncool. Vivemos num ritmo de acumulação, de lugares visitados, de mulheres e homens com quem transamos, de dinheiro que guardamos, de status que enchem o nosso ego, de cervejas diferentes e cada vez mais esdrúxulas tomadas, e cada vez menos num humor de contemplação, de sentimentos, de mergulhar em algo um pouco abaixo da superfície. Relaxamos no fim de semana ou temos nossas obrigatoriedades festivas? Viajamos nas férias ou tentamos apenas colecionar destinos? Trabalhamos porque gostamos, porque acreditamos, ou precisamos somente ganhar o salário no fim do mês para pagar os nossos remédios antimonotonia? Em que momentos nos escutamos?

Não dá para dizer que é certo ou errado agir assim ou assado: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, já dizia o Caê. Mas ao perdemos as nuances entre o preto e o branco, perdemos junto o caminho de qualquer tipo de diálogo - com quem quer que seja. Para qualquer diálogo, aquele em que se tenta construir algum tipo de ponte, para se chegar a outro lugar além de si, é necessário uma pequena recusa das suas próprias propostas. É preciso enxergar dentro de si uma cor que seja uma cor parecida com a do seu interlocutor. Só assim é possível escutá-lo, não para concordar com ele, nem mesmo para mudar de opinião, mas para saber que não somos os únicos no mundo, nem indivíduos solitários. Como disse dona Hannah Arendt, neste mundo, não há o homem, mas os homens. Somos, gostemos ou não, plurais.

Quando optamos por uma relação de preto no branco, estamos nos isolando e, pior, colocando o interlocutor do outro lado do tabuleiro, da praça de guerra, da vida. Quando você opta pelo código binário, eu certamente vou estar sempre do outro lado.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Manual para discussões na internet

Não ria. Temos que conter a vontade de gargalhar ao pensar que precisamos de um manual para comportamento, uma etiqueta pós-moderna. A verdade é que essa eleição está se mostrando um ambiente perfeito para que as discussões se acirrem muito fortemente. Há uma polarização imensa entre os dois candidatos ao governo federal, que é abastecida pelas suas torcidas, como se eles fossem times de futebol. E, como diz o seu Elio Gaspari hoje, essa eleição será plebiscitária: ambos pedem o voto com o único argumento de que o outro é pior que você [ver: Ressentimento].

Portanto, para tentar não convencer o outro - aquele diferente de você - de que o seu partido e candidato são os melhores, sugiro um procedimento para que consigamos conversar com o outro para conservar a amizade.

Seguindo uma dica da professora Déborah Danowski, que por sua vez cita Deleuze, poderíamos dizer que
O ser de direita é sempre perceber as coisas a partir de si mesmo, como num endereço postal. Assim: eu, aqui, neste lugar, na minha casa, na rua tal, na praia de Botafogo, Flamengo, Rio de Janeiro, América do Sul. E você pensa o mundo, ali, como uma extensão de si mesmo. E cada vez que você se afasta, vai perdendo interesse, a coisa vai decaindo de valor. E ser de esquerda é o contrário: vai do horizonte até a casa.
Daí, poderíamos pensar em algum lugar onde os dois se encontram. E é só a partir desse encontro que podemos dialogar. Somente quando temos algo em comum, quando dividimos alguma certeza, alguma verdade, quando estamos andando sobre o mesmo chão é que temos a capacidade da troca, que é o início - ou deveria ser - de uma discussão. Exemplo-mor: Se não falamos a mesma língua, como vamos conversar, quiçá debater? Mas a língua é a condição básica. É necessário um outro fundamento para funcionar como fiel da balança e para que o embate tenha algum proveito. Se não...

Outro exemplo: Uma vez, quando fiz uma brincadeira sobre esquerda e direita, fui xingado [dá para conferir nos comentários], e não consegui dialogar com as pessoas que me xingavam porque não dividíamos o mínimo de lugar-comum.

Quando escrevi que "A esquerda quer arte engajada. A direita acha que a arte deve mirar o sublime. A extrema esquerda não acredita em arte que não seja política. A extrema direita queima livros que não concordem com ela. O centro leu "O pêndulo de Foucault", mas prefere não opinar para não ferir suscetibilidades", a resposta que eu recebi foi: "quem queima livros é a extrema esquerda".

Para esse rapaz [ou moça, ele/a não se identifica], me pareceu, Hitler seria de extrema-esquerda. Temos um conflito cognitivo imenso aí. Eu o [Hitler] colocaria no outro lado do espectro político, por uma série de comportamentos e políticas, como a xenofobia e o preconceito generalizado, o ideal de desenvolvimento a qualquer custo, o parâmetro fixo e excludente. Dentro da definição da Déborah, o nazista é um narcisista elevado a enésima potência [narcizista?].

A questão, para o comentarista do outro post, porém, é outra, suspeito. Apesar de ele não se explicar, tento acompanhá-lo: como a política nacional-socialista tinha no nome "socialista", além de pensar num Estado poderosamente forte, que invade as privacidades, essa política só poderia ser de esquerda, extrema-esquerda. Para ele/a, a diferença entre esquerda x direita se atém principalmente ao papel do Estado. Quanto mais interferência na vida individual, no mercado, nas "liberdades", mais ligado à esquerda. O inverso também se aplicaria.

Curiosamente, nesse caso, a direita se liga ao "liberal". Liberal, no sentido clássico, inglês. Em outras palavras, Adam Smith. Porque é possível ser liberal, no comportamento, ou seja, querendo que o Estado interfira o mínimo nas minhas individualidades, seja em relação à chamada pauta moralista [drogas, aborto, LGBT], mas, ao mesmo tempo, querer que o Estado seja intervencionista na economia, se metendo nas regras do jogo do mercado, porque não se acredita na isonomia da mão-invisível. Nesse caso, não precisa ser comunista, socialista ou outra coloração avermelhada para não querer que a economia fique com os abutres. Pode ser keynesiano - que estava longe de ser um revolucionário. A paleta de cores é grande.

É complicadíssimo estabelecer um diálogo com alguém sem entender razoavelmente o que o outro quer falar. Algumas vezes, apenas falamos em dialetos diferentes. Em geral, porém, temos a tendência de lutar com o que for possível para vencer o diálogo, impor o que sabemos como única verdade existente, e nos desesperamos ante a qualquer argumento contrário, que não enxerga o "óbvio". Somos em geral arrogantes, detentores do certo, do ético, do correto, totalmente seguros de si, desmerecedores, em tom de ironia destrutiva e corrosiva, do outro. Ou simplesmente grosseiros - como foi o caso dos comentários do outro post. O raciocínio é simples: Ele é imbecil e pronto. Fim da discussão. Próxima polêmica, por favor, onde eu possa dar a minha visão superior.

Talvez, e finalmente, estejamos aprendendo o que é a opinião pública - mais de 200 anos depois do iluminismo francês, e quase 200 anos após a criação do Speaker Corner, no Hyde Park londrino. Porém, essa defasagem deixa muitas marcas, marcas que o tempo só acentua. A nossa opinião pública cada vez mais parece uma afonia de vozes surdas, um conjunto de opiniões privadas que não criam qualquer música, além do mero barulho. Uma sugestão sem querer criar uma regra: talvez fosse melhor escutarmos, e muito, antes de falarmos qualquer coisa.

domingo, 5 de outubro de 2014

Panorama das eleições - 1o turno

Por uma série de razões [incompetência, falta de tempo, polêmicas se atropelando...], não consegui dar qualquer pitaco sobre as eleições neste primeiro turno. Fiquei, então, com o cargo de observador-cronista-crítico das posições políticas que observei, o que me deu mais vontade de escrever do que sobre a eleição em si. Mais vontade porque, de certa forma, durante muito tempo, a eleição para a presidência não me preocupou: Dilma e Marina são candidatas equivalentes para ocupar o cargo [Aécio, não]. Equivalentes, não iguais.

Não são perfeitas, têm milhares de defeitos diferentes entre si, mas de algum modo perverso, funcionam como análogas, caso você afaste o microscópio. Nos detalhes, são quase opostas [uma ambientalista, outra desenvolvimentista; uma pretensa esquerdista pré-68, outra pretensa esquerdista pós-68; uma pragmática outra idealista, etc.], mas numa visão aérea, distante, sem pormenores, as duas seriam confundidas, suspeito. Os seus defeitos são intercambiáveis e no fim vira um grande "tanto-faz" sobre quem for eleita.

Novamente, e para deixar bem claro isso: Aécio, por sua vez, não é equivalente às duas candidatas mulheres. Ele claramente representa o reacionário [no sentido de manter políticas de privilégio] e liberal [no sentido de econômico de deixar o mercado nas mãos apenas dos tubarões].

O que sempre me espantou foi as eleições para o governo dos estados: Alckmin, sendo reeleito num estado que está sofrendo de falta d'água; Pezão, vice-governador de Cabral, liderando as pesquisas num estado onde se acampou na porta do então governador por semanas, em sinal de protesto contra a violentíssima política de segurança. Claro que dá para entender os motivos dessas votações [um sentimento forte anti-petista, no primeiro caso; uma tentativa de fazer "voto útil" logo no primeiro turno contra Garotinho, no segundo], mas não consigo entender.

Com isso, me restou acompanhar das trincheiras, como um espectador de novela, os comentários entre os partidários dessa guerra pseudo-ideológica que foi palco o faketruque. Foi difícil segurar o ímpeto de me intrometer [só opinei em um caso de mentira deslavada], foi complicado aguentar tanta artilharia pesada vinda de todos os lados que mais queria ferir que construir, mas eu sobrevivi, sobrevivi para contar. :-)

Não precisa ser um gênio para perceber os públicos ali envolvidos, mas quero deixar registrado, como forma de crônica de uma eleição anunciada: O Brasil está dividido ao meio. De um lado quem apoia o projeto que se chamou lulo-petista, do outro, os muito e muito diferentes entre si contra isso.

Por mais curioso que possa parecer para quem se lembra da mesma crítica levantada ao outro espectro político, o projeto lulo-petista, que é, em tese, ou que se vende como tal, de esquerda, é bem mais coeso que o adversário. A chamada oposição está esfacelada - muito provavelmente por culpa dela mesma. Não há oposição porque e/ou não se sabe, e/ou não se conseguiu, e/ou não se quis fazer oposição nos últimos anos.

Entre os oposicionistas, há claramente de três a quatro grandes divisões: anti-petistas, claramente reacionários; os marinistas, ligados às causas mais atuais, verdes, tecnológicas; e os esquerdistas, que querem puxar o debate mais para a esquerda - grupo que ainda se divide entre os anarquistas e os mais pragmáticos [nomes todos meus, claro]. Vou tentar traçar o perfil de cada um desses grupos aqui, mas se há algo que os une, em linhas muito gerais, e o que é muito curioso, é a lógica do ressentimento. Não se vota a favor do próprio candidato, na maioria das vezes, mas contra o outro. Aponta-se o indicador para o outro e se esquece dos outros quatro dedos que miram o próprio.

Ou, do lado exatamente oposto, há um sentimento de grande desesperança coletiva porque não haveria nenhum político "bom". Sentimento este muito parecido com a descoberta de que deus não existe, nem mesmo existe o papai noel ou o coelhinho da páscoa. Puxa-vida.

Mas como ser extremamente coerente para governar um país de 200 milhões de diferentes almas? Como agradar a gregos, troianos, espartanos, cretenses, efésios, e tantas e tantas outras populações? [Daí algumas pessoas falarem sobre a importância dos governos menores, como prefeituras e centros comunitários. Mas isso é papo para outro dia.] Aos eleitores, pois:

Lulo-petistas
Por conta do tamanho do eleitorado, há muitas divergências entre esses, mas há algo que os une: Percebe-se que houve avanços sociais inegáveis nos últimos 12 anos. Inegáveis até para os adversários, que mantêm seus discursos sobre a manutenção dessas mesmas políticas [Bolsa família, Pro-Uni, Minha casa, Mais médicos...]. Esses eleitores nem sempre concordam com tudo o que o projeto lulo-petista pratica, mas o prefere, claramente, contra os adversários. Provavelmente por isso, há uma demonização dos principais adversários.

Os ataques a Aécio antes da morte do Eduardo Campos [aliás, que eleição foi essa, hein?], e depois, mais fortemente contra Marina são prova disso. Marina, claro, não se ajudou, voltando atrás de políticas mais liberais, mas os partidários do projeto lulo-petista pegaram essas fraquezas da Marina e fizeram troça. Chafurdaram. Sambaram na cara.

Se ela recuou sobre o casamento entre homossexuais, é porque é evangélica e obedece ao Silas Malafaia. Se tem o Giannetti e o Lara Resende na equipe econômica, é porque é neoliberal. Se muda sobre a lei da anistia, é porque é ligada aos militares torturadores da ditadura. Todas associações muito rápidas que nem sempre se comprovam na realidade.

Porém e o principal: todas essas são posições que o lulo-petismo não só defendeu como praticou. Ou Lula ou Dilma tocaram nas causas ditas moralistas [aborto, drogas, LGBT etc.], cortaram os lucros dos grandes bancos ou revisaram a lei da anistia? No fundo, os dilmistas criticavam na Marina algo que a candidata deles fazia exatamente igual.

Marinistas
Esses, para mim, são os mais interessantes. Marina nunca ganhou uma eleição majoritária, sempre participou do legislativo, e quando foi para o executivo, como ministra, se sentiu sufocada e pediu para sair. Isso talvez seja a explicação dos diversos erros que ela cometeu nessa candidatura.

Com a morte de Eduardo Campos [novamente: que eleição!], Marina ganhou todos os votos e mais um pouco dos dedicados ao seu antecessor. Ela virou um sinônimo de uma política que poderia ser de esquerda, verdadeiramente de esquerda, mas que se importaria com causas que o governo lulo-petismo parecia não se importar, como as verdes ou a de proteção de populações minoritárias fora do eixo urbano. Era alguém que encarnava uma esquerda que não pensa em crescer o bolo para dividir, que não divide a sociedade em apenas classes sociais, que sai do âmbito da política quadrada, de dentro de gabinete e protocolar. Em suma, parecia a personagem perfeita para incorporar a vontade das ruas do ano passado. Parecia. Com a ajuda dos dilmistas e dos aecistas, ela se auto-implodiu.

Os marinistas não conseguem mais declarar seu voto em altos brados, como foi no início da sua campanha. Há uma vergonha atravessada na garganta, como uma espinha de peixe. Há uma dificuldade de se aceitar a posição dela ambígua em relação aos ruralistas, por exemplo. Como uma verde negocia com gente assim? É uma contradição que não consegue se sustentar, porque ataca seu eixo principal.

Entre os que votam em Marina, há ainda aqueles que querem apenas votar contra o PT. O que nos leva ao próximo grupo de eleitores.


O anti-petismo
Entre esses, não importa quem vença a eleição, desde que não seja Dilma. O sentimento é de nojo contra o PT e Lula, muito parecido com o que havia quando eu era moleque contra Brizola. A piada, então, era "Brizola? Isola". Me parece uma posição reacionária, no sentido clássico, de querer voltar a ser o que era, antes de Lula.

A principal bandeira desse grupo é a da moralidade no sentido da lisura com a coisa pública. Muito parecida, aliás, com a levantada por Collor em 1989, quando se anunciou como "o caçador de marajás". Apregoam o voto contra Dilma como se a compra de votos de parlamentares para a processo de privatização da Vale ou para a emenda constitucional para a reeleição em cargos executivos, ambos no governo tucano de FHC, não tivessem existido. Ou que o mensalão não tivesse aparecido no governo do Azeredo, do PSDB, em Minas Gerais. Ou que o governo eterno do PSDB de São Paulo não estivesse sendo investigado por corrupção nas obras de expansão do metrô. Marina, claro, sai na vantagem com esse argumento da lisura, mas sua fraqueza em outros aspectos detonam sua imagem aqui.

Além do argumento da propensa honestidade, se usam de argumentos elitistas e de manutenção de privilégios - às vezes nem se dando conta disso. Os símbolos aqui são outros, não necessariamente diretos porque, bem, ninguém no Brasil é machista, racista ou tem qualquer preconceito. Mas não se vota no PT porque o Lula é analfabeto, Dilma é mulher [Marina entra no balaio igualmente], pobre agora frequenta os mesmos lugares que eu, tem muito preto na faculdade, gente que não sabe se comportar em ambientes públicos. O melhor-pior argumento que eu cheguei a presenciar foi: a inflação cresceu [o que já é uma falácia] com os serviços caros porque se paga muito pelos empregados, que não são qualificados para receber tanto.

Esquerdistas
Por fim, há esse pequeno, porém barulhento, grupo que quer puxar a discussão mais para a esquerda: Quer introduzir a discussão sobre as pautas morais [aborto, drogas, LGBT...], quer pensar outro modelo econômico para o país, diminuir a grande desigualdade social que ainda existe, planejar um futuro mais igualitário para todo mundo.

Nesse grupo, há os pragmáticos, que conseguem enxergar em algum candidato alguém que represente esses anseios. Entre os pragmáticos, ainda há os: pragmatíssimos, que votam nos principais nomes [principalmente Dilma] abrindo mão de alguma dessas bandeiras para focar em outras, que acham mais importantes [como o caso da desigualdade social à custa da destruição ambiental, por exemplo]; e os pragmatinhos, que votam em candidatos menos expressivos [Luciana Genro, mas também Eduardo Jorge], porque são os únicos que falam sobre esses temas de maneira aberta, mas que não tem qualquer chance [eleição não é só para vencer, minha gente!].

E há os anarquistas, que querem outra forma de política, e sugerem não votar.

Estes sugerem que pensar que a participação na democracia deve acontecer apenas de dois em dois anos é se abster dos destinos do país pelos outros dois anos e se achar o super-importante quando vai a uma urna eletrônica. Pensar que a democracia representativa é a única forma de se mudar o país é ter uma visão antiquada e, muito pior, covarde.

Falta água em São Paulo não apenas porque os governos foram gananciosos e acabaram com o ambiente do estado, mas porque nós, paulistas, consumimos muito, muito mais que o estado consegue produzir. Mata-se muito no Rio porque nós, fluminenses, queremos que se mate muito os pobres nas favelas, e assim podemos nos sentir seguro. Nós somos o problema.

Enquanto acharmos que o problema político é dos outros e não nosso - meu! - só ouviremos reclamações e acusações contra o outro lado. É a lógica do ressentimento.