segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Escolas de Nordeste a Sul

Estive, por conta de um frila, em dois colégios na semana passada, finalistas do prêmio de Gestão escolar. Um fica na periferia da periferia da periferia, ou seja, em um bairro pobre e distante do centro da cidade de Russas, a pouco mais de cem quilômetros de Fortaleza, no Ceará. A outra fica em Blumenau, uma espécie de filial da Alemanha, mas com tempero brasileiro, como comprova o horário de início de sua Oktoberfest.

Fora essas generalizações, há uma outra que me chamou bastante a atenção. E que, acredito, merece ser compartilhado. Ambas as escolas têm turmas em tempo integral. Na primeira, no calor do Ceará, próximo de uma grande área de plantação de cajus, um dos momentos mais importantes para as crianças é a hora do banho. Em Blumenau, não há banho, e olha que dizem que chega a fazer 40 graus no verão no município.

Isso não quer dizer, claro, que um povo é mais limpo que o outro. Não há qualquer ligação com isso. Só achei curioso como, de certa forma, ainda está instituído no dna comportamental - chamemo-no assim - alguns traços dos nossos formadores, sejamos índios ou europeus.

Em Blumenau, perguntaram se eu não tinha vontade de ir a Oktoberfest, evento que realmente atrai muitos locais. Em Russas, as coordenadoras, todas muito simpáticas, perguntaram se eu não queria tomar um banho antes de pegar a estrada em direção a Fortaleza. Declinei por vergonha, e fiquei pensando em seguida se elas estavam me achando um sujeito sujinho, desses que não gostam de água. Ah, as tradições misturadas do Rio de Janeiro...

sábado, 23 de outubro de 2010

Diferenças e semelhanças entre as Oktoberfests

Estive, por coincidência, em Blumenau, durante a época em que acontece a Oktoberfest brasileira. Como já estive – dessa vez, sem qualquer coincidência – em Munique [doravante München], durante a mais famosa festa alemã para a cerveja, resolvi fazer um texto comparativo entre as duas experiências, mostrando suas diferenças e semelhanças.

                       
München
Blumenau
Chegue cedo. Mesmo que a abertura da festa esteja marcada para o meio-dia, os alemães vão para os pavilhões às 7h, para conseguir um lugar onde se sentar. Chegamos às 11h, pensando que estávamos bem, que arranjaríamos um espaço, mas penamos por duas horas até que um grupo de alemães adolescentes se sensibilizaram conosco e nos deixaram dividir o mesão com eles.
Chegue tarde. Vacinado pela festa alemã, corri para os pavilhões assim que aportei na cidade e adentrei o local às 18h. Não tinha ninguém. Todos os três pavilhões estavam completamente vazios e algumas barraquinhas se davam ao luxo de estarem fechadas. Ao conversar com moradores, eles até riram, quando disse a hora que cheguei. A organização da cidade me fez esquecer que estava no Brasil. 
Cerveja, só sentado: a razão por que os alemães chegam cedo à festa é que só se serve cerveja para quem está sentado a uma das mesonas. Isso quer dizer que, mesmo nos pavilhões, você pode passar horas de bico seco. Não quer dizer, porém, que não exista o “jeitinho alemão”: quando alguém se levanta para ir ao banheiro, há sempre um esperto que se senta só para pedir a cerveja e depois se levanta. Como se diz “malandragem” em alemão?
Cerveja em qualquer lugar: o esquema é igual a de qualquer outra grande festa brasileira a que eu já fui: você compra um tíquete nos caixas e escolhe entre as possibilidades a que você tem direito. Como estava vazio na hora que cheguei, a tranquilidade imperava. Mas, ao sair, já comecei a perceber certas filas se formando para comprar os tíquetes. E, dizem, à noite, quando a festa fica realmente cheia, fica insuportável. É fila para tudo.
Uma cerveja e várias cervejarias: É tradição entre os alemães produzirem um tipo de cerveja apenas para a Oktoberfest. Elas são mais alcoólicas [em torno de 8%, uma porrada para quem não está acostumado] e são servidas naquelas canecas enormes de um litro, chamadas Maß, que também é a maneira como se chama o tipo de cerveja, um lager mais encorpada que a tradicional german pilsen. Você pode escolher beber nos pavilhões das cervejarias locais de München, como Späten, Lowenbrau, Paulaner, etc. Nada mal, hein?
Várias cervejas e algumas cervejarias: a festa é geralmente patrocinada por uma grande marca, como a Brahma, este ano [eca], que banca toda a programação de dois dos três pavilhões. Já no terceiro, maravilha das maravilhas: encontramos as marcas menores, locais, de cervejas artesanais. São tão pequenas que, comparativamente, a Eisenbahn, que é de Blumenau, parece uma gigante. Há ainda a Wunder, também da cidade, e a Opa, de Joinville, entre diversas. Eles levam muitos tipos de chopes, como o Pale Ale, Porter e um Brown ale que tomei, excelente. Não fazemos nada feio em comparação.
Não pague para entrar, reze para beber: A festa bávara acontece em um campo aberto, com todo mundo tendo direito à entrada e à circulação. Se você for um abstêmio – pecado dos pecados – é capaz de voltar sem gastar um centavo. O problema é o preço das Maß: algo em torno de 8 euros. OK, é um litrão, ou seja, bem servido, e ainda mais alcoólico que o normal, portanto, é capaz de você não beber tanto. Mas, se você se atrever a converter, vai pensar duas vezes. Eu nem gosto de me lembrar de quanto gastei...
Entradas caras, bebidas, ok: Em Blumenau, se paga para entrar no parque onde ficam os pavilhões. Em dia de semana, o meu caso, nem é um acinte: paga-se R$ 6. Mas na sexta, o preço já sobe para R$ 15. No fim de semana, o valor da entrada sobe para exorbitantes R$ 30. Para melhorar, aceita-se carteirinha de estudante – há muito campo de estudo – e quem for vestido com as roupas típicas dos bávaros não paga a entrada. Mas o melhor é o preço dos chopes: todos saem por R$ 4,25. Quem comprar Brahma não sabe o que está perdendo...
Comes: Se eu já tinha gasto os tubos com a cerveja, economizei na comida. A única coisa que comi lá foi um lanche junto com os adolescentes alemães –  eles foram extremamente simpáticos – que consistia numa espécie de pretzel feito em casa e mais com cara de pão e uma pasta com mostarda e um tipo de embutido, que não me lembro – foram MUITAS Maß, posso assegurar.
Além do “bebes”: Cheguei faminto e aproveitei que o lugar estava vazio para comer uns pratos exóticos. Ou alguém já comeu codorna recheada assada? O recheio era – novamente – um tipo de embutido e a codorna era pequena o suficiente para não matar quem me matava. Por isso, recorri ao x-alemão. Um sanduíche, sem queijo – a mania de colocar “x” na frente dos sanduíches é gaúcha, como o tradicional x-coração – em que se mistura frango, linguíça, carne de boi e molho vinagrete, na chapa e coloca tudo num pão. Excelente.
Turistas: fuja do fim de semana dos italianos, o primeiro das duas semanas da festa. Os adolescentes alemães disseram que eles arrumam muita confusão e não são sociáveis com os demais. Posso acreditar. Eles me pediram, em certo momento, para pedir a um grupo esporrento ao nosso lado para fazer menos barulho. Fiquei numa situação...
Locais: indo numa quinta-feira, e mais cedo que o normal, não encontrei ninguém que não fosse de Blumenau. Mas dizem que há também uma enxurrada de cariocas, gaúchos, paulistas nos fins de semana, principalmente o primeiro, que também é, normalmente, o do feriado de 12 de outubro.
Fora do tempo: por mais incrível que possa parecer, a Oktoberfest de München acontece em... setembro. Há uma explicação, mas, bem, esqueci. Foram muitas Maß...
Outubro. A data varia, mas geralmente são três semanas. Neste ano, termina neste domingo. Se você não for multimilionário para poder viajar para Blumenau, vai ficar para o ano que vem sua primeira participação.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pela defesa das Katilenes e dos Lucivaldos

Eu quero defender as Katilenes, as Claudenices, as Josemaras, as Junderlinas, os Gleydsons, os Lucivaldos. Não por pena - claro que não -, mas porque acho que estamos formando uma tradição de nomes tipicamente nacionais. Assim como a língua falada no Brasil é totalmente diferente do português de outros países, inclusive de Portugal, tendo até mais importância, de certa forma, que todos os outros  países lusófonos juntos, acho que estamos criando uma nova forma de nomear as pessoas que não respeita a herança europeia.

Somos, sim, filhos do Velho Continente, com tempero africano e um passado indígena, mas assim como aconteceu com outros aspectos culturais, acredito que a maneira de nomear as pessoas está se transformando para algo único, brasileiro, nosso, herdeiro dessa mistura tão cantada, e muitas vezes – infelizmente – desprezada.

Claro que pode parecer fácil a outrem que um sujeito que teve um primo chamado Mayko – isso, com “y” e “k” - e uma mãe Wanya - “w” e “y” -, além de irmãs Thabata e outra Andressa... Emília, e cujo nome, caso fosse menina, seria Marjorie [mesmo Ronaldo - o nome de meu pai, porque nasci no dia do aniversário dele - não é lá uma joia comumente elogiada pela sua “nobreza”] defender a causa. Mas a minha intenção é defender a nossa forma de criar nomes.

Mesmo Mayko, Wanya, Thabata e Ronaldo têm uma correlação com nomes europeus – Andressa, eu não sei – a saber, respectivamente, inglesa [o que o Michael Jackson fez com o mundo], russa [vide o “Tio Vania”, diminutivo de Ivan], inglesa [minha mãe via série americana] e alemã [vá entender...], . No caso das Katilenes e Gleydsons, não. Ou melhor, não à primeira vista. Eles são junções, adaptações, incrementos, e até invenções de outros nomes. Sim, há misturas de alguns europeus, outros sem origem facilmente identificável, e ainda os que são simplesmente transliterações fonéticas [o caso do meu primo Mayko, o mesmo do lateral da seleção, Maico, ou do famosíssimo candidato a qualquer coisa Uóshton, no Rio].

Há os que dirão que são “feios” os nomes assim, que dói no ouvido falar essas palavras. E aí entra aquela impressionante resposta que se repete sobre o gosto – cada um tem o seu. Fora esse argumento lugar-comum, podemos dizer que há um costume – no sentido de se acostumar, ou de estarmos acostumado – a termos nomes portugueses e os valorizarmos, como se isso desse uma espécie de nobreza automática ao seu portador. Na “pior” das hipóteses, queremos um nome europeu, caso de Tatianas [russo] e Guilhermes [alemão], por exemplo. O diferente choca o ouvido, sempre. O diferente, se for pobre, é pior, é brega – pior dos xingamentos nos tempos modernos.

Mesmo raciocínio, penso agora, do que acontece com a música – não aleatoriamente dois sinais sonoros captados pela audição. O que é feito fora do eixo, fora da normalidade, tende a ser visto com preconceito. Sempre é ruim, até que um erudito vá lá nos cafundós do Pará e “descubra” a guitarrada para o “Brasil”. Em seguida vira moda, hype – o oposto do brega. O processo é conhecido.

Isso não quer dizer que vamos ter um boom de Katiuscia e Astrogildos nascidos nas melhores casas do ramo no Rio e em São Paulo. O nome é deveras pessoal e estamos muito entranhados nesse preconceito. Mas que seria bom se ninguém julgasse pessoas pelos seus nomes. E se julgasse, que vislumbrasse um ato de inovação por parte dos pais, que estão criando uma nomenclatura tipicamente nossa.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

'A tortura do silêncio' de Hitchcock

Eu confesso, Alfred Hitchcock é um escroto. Desses que hipnotizam quem quer que assista a qualquer um de seus filmes. Aconteceu comigo ontem, domingão, após almoço farto, o sofá convidativo, liguei a televisão só para constar e peguei o jornal para ver as mentiras do dia contra a Dilma e a favor do Serra. Eis que me deparo com "A tortura do silêncio" ["I confess", no original], do inglês no TCM e resolvi deixar, apenas para fazer um barulho. Resultado: não consegui mais ler jornal nem fazer nada além de assistir até o fim o filme, com Montgomery Clift e Anne Baxter, de 1953.

Começa o longa bem no estilo de Hitchcock. Mostrando onde estamos [Quebec] e o que está acontecendo [um assassinato]. Em seguida, sem saber quem é o assassino, o vemos descer um rua escura. A primeira impressão é que será um filme sobre "quem matou?", mas aí não seria um Hitchcock. Ele já disse que, para criar suspense em cenas, gostava de mostrar os dois atos acontecendo ao mesmo tempo e alongando a duração da tomada. Foi o que fez. Logo em seguida vemos o rosto do assassino se confessando a um padre [Clift] - daí o título original - e percebemos a natureza do filme. Será um embate entre a Justiça dos homens versus a Justiça divina.

Mas, eis que, quando você está já se aclimatando a essa nova moral da história, e quase voltando a ler o jornal, Hitchcock te dá outra rasteira. O padre já teve uma namorada [Baxter], com quem se reencontrou recentemente. E ela, por sua vez, era chantageada exatamente pelo fulano assassinado. [Nova] Moral da história: o padre se torna o principal acusado.

Que o Hitchcock tem essa capacidade de mudar o ritmo das histórias, no meio do caminho, já é sabido por qualquer um que assistiu a "Psicose". Mas ainda não deixa de causar muita surpresa a quantidade de reviravoltas que ele dá em tão curto espaço de tempo. Percebemos o padre se afundando, se complicando, e nos perguntamos se ele conseguirá aguentar toda a pressão ou vai quebrar os votos religiosos de confissão para... confessar quem é o verdadeiro assassino, acabando assim com a própria pena. Conforme vamos avançando na história, vamos descobrindo mais informações sobre os personagens, que mudam a forma de encará-los, para concluir num final apoteótico e, como não poderia deixar de ser, surpreendente.

Mesmo que a obra seja baseada em um a peça, não tiro o mérito de Hitchcock por - antes de mais nada - ter escolhido esse tipo de argumento original. E por não tê-lo transformado em um filme sobre, simplesmente, um assassinato.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Air no ar

Toda geração tem o folk que merece. E não estou me referindo ao formato voz-e-violão, tão tradicional, ou mesmo à origem da expressão, que vem de folclore, mas à percepção de uma música mais calma, sem tanto gigantismo. Não é uma balada, simplesmente, tem mais punch, aquela característica tão comum a boxeadores e músicas cujo grave faz qualquer quadril mais duro requebrar, ou pelo menos obriga as pernas a se mexer.

A dupla virou trio com o batera (veja mais fotos aqui) [foto: Lucíola Villela / G1]
O Air, o "folk" da nossa geração, tocou ontem no Circo Voador, na Lapa, num formato com Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, a dupla de franceses vestidos como se estivessem num embalo de quinta à noite, à frente e um batera - ah, a bateria acústica, aquela que dá organicidade a qualquer música eletrônica mais fria - atrás. Os dois se dividiram para tocar os inúmeros teclados e, surpresa, Godin ficou no baixo e... violão.

Recorreram pouco às bases pré-gravadas, optando por interpretações mais cruas de diversos hits, de toda a carreira. O primeiro e mais conhecido disco, "Moon safari", fez o sucesso do público, que chegou a cantar as melodias de músicas como "La femme d'argent", ou toda a letra de "Kelly watch the stars" e, já no bis, "Sexy boy" - o que, convenhamos, não é nada difícil.

Os franceses, apesar de aparentar estarem se divertindo - principalmente Godin -, se mantiveram naquela posição blasé, tão caro aos conterrâneos de Prost e Proust, e às meninas de todos os lugares. Mas as projeções do telão, que passavam por cima das camisas brancas da dupla, esquentavam a galera, que parecia num pôr-do-sol à beira da praia.

Ao fim do show curto, mas intenso, pequeno, mas do tamanho certo, com uma plateia empolgada, ninguém queria ir embora e desfazer a sensação de bem-estar, de tranquilidade, de eteridade.