sexta-feira, 21 de junho de 2024
quinta-feira, 11 de abril de 2024
"A queda do céu", excerto
Eles dormem sem sonhos, como machados largados no chão de uma casa. Enquanto isso, no silêncio da floresta, nós, xamãs, bebemos o pó das árvores yãkoana hi, que é o alimento dos xapiri. Estes então levam nossa imagem para o tempo do sonho. Por isso somos capazes de ouvir seus cantos e contemplar suas danças de apresentação enquanto dormimos. Essa é a nossa escola, onde aprendemos as coisas de verdade. (Kopenawa & Albert: 2015, e-book)
terça-feira, 9 de abril de 2024
Niilismo hoje - curso de filosofia
Na minha tese, brinco que o niilismo virou o último lugar de fala do homem-branco-hétero-cis. Seria apenas uma blague se o modo de pensar desse personagem, que se acha a maioria, não estivesse ainda no comando do mundo atual. Por isso que o niilismo ainda é contemporâneo.
Talvez não o niilismo da falta geral de sentido, que é o modo mais comum de entendê-lo – ou não apenas esse. Mas uma busca incessante para encontrar um fim para a vida, mesmo que seja o fim da vida. E estão aí religiões castradoras e trabalhos entediantes que não me deixam mentir.
Como não ter um sentido gera muita angústia, e podemos perceber isso em pessoas que sofrem de depressão, aqueles que acreditam nos paradigmas de sucesso do mundo contemporâneo precisam encontrar algo para dar um motivo para as suas vidas. Mesmo que seja um sentido asfixiante.
Nada contra saborear pequenas vitórias no cotidiano – e essa é provavelmente uma das formas de sobreviver nesse mundo –, nem contra certas concessões que devemos fazer para continuar funcionando enquanto a ~~revolução não vem e tudo mudará. Mas certas escolhas são derrotas dadas, antecipadas.
Quando optamos por uma vida em prol unicamente de reconhecimento externo, em vez de buscar realizar nossos desejos mais íntimos, estamos bem perto de cometer um longo e sofrido suicídio. E essa morte em vida é uma das formas mais simples de definir o que é esse niilismo hoje.
Por isso que é comum em diversos filmes bem populares que um personagem quando se descobre à beira da morte comece a, finalmente, viver tudo aquilo que ele sempre quis viver, mas nunca teve coragem para tal. Ironicamente, apenas ao fim da vida, que ele reconhece o seu valor.
Vamos falar sobre esses e outros temas correlacionados no meu curso Niilismo hoje, que será realizado na Acaso Cultural, uma casa de cultura que começou a funcionar numa construção histórica linda em Botafogo. Inscrições aqui.
quarta-feira, 3 de abril de 2024
Wordsworth, The Tintern Abbey Ode
… And I have felt
A presence that disturbs me with the joy
Of elevated thoughts; a sense sublime
Of something far more deeply interfused,
Whose dwelling is the light of setting suns,
And the round ocean and the living air,
And the blue sky, and in the mind of man:
A motion and a spirit, that impels
All thinking things, all objects of all thought,
And rolls through all things. Therefore am I still
A lover of the meadows and the woods and mountains.
….
Wordsworth: "The Tintern Abbey Ode"
quarta-feira, 20 de março de 2024
'Daquilo de que somos feitos', Ádamo da Veiga
Em geral, não gostamos de admitir para nós mesmos certos afetos, sentimentos, impulsos que consideramos ruins. O ressentimento é desses. O livro do Ádamo da Veiga, Daquilo de que somos feitos, mostra porém que independente da nossa vontade, essas paixões tristes nos compõem -- a todos.
| O livro pode ser comprado aqui |
A obra conta a história de um professor de Filosofia, gay e obeso, que vive remoendo as muitas possibilidades de vida que ele poderia ter tido e nunca encarou. Um dia, o fatídico dia em que toda a ação se passa, ele vai viver uma situação extrema que torna as coisas ainda piores.
Antes de continuar, um disclaimer: Ádamo é um grande amigo e a obra foi carinhosamente dedicada a mim. Então essa resenha não é exatamente isenta. Eu encaro essa dedicatória, contudo, não exatamente ou apenas como uma homenagem: mas porque eu sou "especialista" em ressentimento.
Dito isso, podemos voltar ao livro, que é narrado em um fluxo de consciência paranoico, que emula o pensamento repetitivo desse professor que quer começar uma vida nova, se cuidando mais e valorizando suas relações, mas não consegue sair do lugar de reclamações constantes.
Apesar de começar com a mencionada cena extrema - um ex-aluno invade sua aula com uma arma, sequestra a classe e fala que vai matar todos -, "Daquilo..." fala mais sobre os ressentimentos do protagonista e das pessoas ao seu redor. Inclusive, claro, o tal ex-aluno.
| O lançamento oficial ocorre dia 13 de abril |
Não sobra para (quase) ninguém. A ex-namorada feminista do aluno-problema? Ressentida. Um tio malandro do protagonista? Ressentido. Os colegas professores? Todos ressentidos. Só não são ressentidos aqueles personagens sobre quem o protagonista fantasia.
O grande mérito do livro, assim, é mostrar a arapuca em que nos metemos quando queremos mais parecer justos do que ser justos. O ápice aliás é uma reunião dos professores para saber se expulsam ou não o então aluno. O resultado já sabemos desde a primeira página do livro. Mas...
As boas intenções dos personagens realmente bons não os livram de cometer injustiças em busca de uma vingança em formato de reparação histórica que, em vez de transformar estruturalmente a origem do problema, acaba por apenas desaguar o ódio acumulado por gerações.
Em vez de in dubio pro reo, devemos julgar aquele arquétipo como representante da sua estirpe. Aliás, esse é outro trunfo do livro: os personagens, salvo exceções importantes no livro, não têm nome: são padrões que conhecemos, apenas exagerados. Em uma palavra: são caricaturas.
"Daquilo de que somos feitos" mostra o quanto estamos afundados na lama do ressentimento, esse afeto reativo que nos torna fracos, e que essa lama, se não elaborada e transformada em um adubo, pode fermentar para um movimento que destrói nossas bases sociais. Como nós bem sabemos.
terça-feira, 19 de março de 2024
Nova Iguaçu, a Laranja mecânica
Como comentei com um amigo e ele não sabia, vim aqui fazer meu dever de iguaçuano nascido-e-criado na cidade e explicar por que o uniforme do Nova Iguaçu Futebol Clube é laranja - talvez sirva para alguém.
| [Killer Bill depois de marcar contra o Vasco] |
A explicação é simples: Nova Iguaçu, essa megacidade de quase 800 mil pessoas, a 24o mais populosa do país, a maior em extensão da Baixada, não é conhecida só por conta da Fani e o seu urru, mas por ter sido uma grande produtora de laranjas até o meio do século passado.
Minha mãe, nascida no Jardim Botânico mas que foi morar na cidade na década de 1950 por conta de tretas familiares, dizia que a cidade tinha um cheiro encantador de laranja que dava para sentir até da estação de trem.
Confirma o site da prefeitura da cidade:
"No século XX, a principal atividade... passa a ser o plantio de laranjas. Os pomares de Nova Iguaçu se estendiam por toda a Est. de Madureira, Cabuçu, Marapicu, alcançando também Itaguaí. Na época, Nova Iguaçu ficou conhecida como 'Cidade Perfume' por causa do cheiro das frutas"
De Nova Iguaçu saíram [quase] todos os outros municípios do que hoje é considerada a Baixada Fluminense: "Nova Iguaçu perdeu Duque de Caxias (1943), Nilópolis e São João de Meriti (1947). Nos anos 90, foi a vez de Belford Roxo e Queimados (1990), Japeri (1991) e Mesquita (1999)".
Do passado de laranjas, ficou pouca coisa, como um mural sobre o supermercado onde eu ia comprar sempre leite, pão ou farinha para a minha mãe. O supermercado mudou de lugar e um banco agora o ocupa o espaço. O mural continua.
| [peguei a imagem no google maps] |
E, claro, a camisa do time de futebol que está na final do Campeonato Carioca deste ano. Por essas e outras que eu posso dizer que nessas partidas contra o Flamengo, sou Fluminense e Nova Iguaçu desde criancinha.
sexta-feira, 15 de março de 2024
Eudaimonia
Ninguém menos que Aristóteles, chamado na Idade Média apenas de “o filósofo”, diz que o objetivo da vida é a felicidade. Felicidade, para ele, como se sabe, era eudaimonia. Numa tradução literal, eudaimonia quer dizer algo como ter um bom “daimon”. Daimon é uma figura mística do panteão da antiguidade clássica, uma menos conhecida. Sua função, porém, aparece em outras civilizações e é até bastante popular, desde, ao menos, as Mil e uma noites – e os filmes da Disney. Seria parecido com o jinn da mitologia muçulmana, que são mais conhecidos em português brasileiro como gênios, aqueles que, em algumas versões mais conhecidas, ficam aprisionados em lamparinas. São figuras com poderes sobrenaturais, mas que não necessariamente atuam ao lado das pessoas com quem criam uma relação. No caso tradicional das lamparinas, ao ser libertado o gênio concede três desejos para o seu libertador e logo se sente livre para seguir adiante. Outra forma de entender esses daimons são os anjos da guarda. Porém, como é costume no pensamento cristão, o caráter de imprevisibilidade do personagem é totalmente apagado para que ele fique unidimensional. Cada pessoa tem o seu próprio daimon, como acontece com os anjos da guarda, mas os daimons são imprevisíveis como os jinns. Seria, então, um diabinho da guarda. Não o diabo da tradição a que estamos mais ligados, a encarnação do mal absoluto, mas alguém que poderia atuar de forma parecida com um trickster – para ficar ainda em figuras mitológicas. Um malandro, um embusteiro que nos acompanha e pode, sem que percebamos, nos pregar peças. Daí a fórmula de Aristóteles. O objetivo da vida é conseguir se dar bem com o próprio daimon, com esse ser imprevisível que está sempre ao nosso lado, nem sempre para nos ajudar. É estar preparado para qualquer número que cair dos dados jogados por ele, ter alternativas, saber saídas, inventar novos movimentos, tentar dançar conforme a sua – dele – música.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024
Nietzsche: GM3 §26, extrato
... não gosto desses túmulos caiados que parodiam a vida; não gosto desses fatigados e consumidos que se revestem de sabedoria e olham "objetivamente"; não gosto dos agitadores fantasiados de heróis que usam o capuz mágico do ideal em suas cabeças de palha; não gosto dos artistas ambiciosos que posam de sacerdotes e ascetas e no fundo não passam de trágicos bufões; tampouco me agradam esses novos especuladores em idealismo, os antissemitas, que hoje reviram os olhos de modo cristão-ariano-homem-de-bem, e, através do abuso exasperante do mais barato meio de agitação, a afetação moral, buscam incitar o gado de chifres que há no povo (– o fato de que toda espécie de charlatanismo espiritual obtenha sucesso na Alemanha de hoje tem relação com o inegável e já evidente definhamento do espírito alemão, cuja causa eu vejo em uma dieta demasiado exclusiva, composta de jornais, política, cerveja e música wagneriana, juntamente com o pressuposto para essa alimentação: a clausura e a vaidade nacionais, o forte, porém estreito, princípio de "Deutschland, Deutschland über alles", e também a paralysís agitans [paralisia que agita, isto é, doença de Parkinson] das "ideias modernas").
Nietzsche GM3 §26
quinta-feira, 11 de janeiro de 2024
'Memórias do subsolo', Dostoiévski [extrato]
Oh, dizei-me, quem foi o primeiro a declarar, a proclamar que o homem comete ignomínias unicamente por desconhecer os seus reais interesses, e que bastaria instruí-lo, abrir-lhe os olhos para os seus verdadeiros e normais interesses, para que ele imediatamente deixasse de cometer essas ignomínias e se tornasse, no mesmo instante, bondoso e nobre, porque, sendo instruído e compreendendo as suas reais vantagens, veria no bem o seu próprio interesse, e sabe-se que ninguém é capaz de agir conscientemente contra ele e, por conseguinte, por assim dizer, por necessidade, ele passaria a praticar o bem?
[Tradução Boris Schnaiderman]
quarta-feira, 3 de janeiro de 2024
'Les essais', Montaigne [extrato]
Ce qu'on nous dit de ceux du Brésil, qu'ils ne mouraient que de vieillesse, et qu'on attribue à la sérénité et tranquillité de leur air, je l'attribue plutôt à la tranquillité et sérénité de leur âme, déchargée de toute passion, et pensée, et occupation tendues ou déplaisantes, comme gens qui passaient leur vie en une admirable simplicité et ignorance, sans lettres, sans loi, sans roi, sans religion quelconque.
LIVRE II, CHAPITRE 12: APOLOGIE DE RAYMOND SEBON, de Montaigne.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
"Le Horla" [Extrato] - Guy de Maupassant
Et voici, messieurs, pour finir, un fragment de journal qui m'est tombé sous la main et qui vient de Rio de Janeiro. Je lis : "Une sorte d'épidémie de folie semble sévir depuis quelques temps dans la province de San-Paulo. Les habitants de plusieurs villages se sont sauvés abandonnant leurs terres et leurs maisons et se prétendant poursuivis et mangés par des vampires invisibles qui se nourrissent de leur souffle pendant leur sommeil et qui ne boiraient, en outre, que de l'eau, et quelquefois du lait !"
J'ajoute : "Quelques jours avant la première atteinte du mal dont j'ai failli mourir, je me rappelle parfaitement avoir vu passer un grand trois-mâts brésilien avec son pavillon déployé... Je vous ai dit que ma maison est au bord de l'eau... toute blanche... Il était caché sur ce bateau sans doute..."
Je n'ai plus rien à ajouter, messieurs.
[todo aqui]
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
NIILISMO COMO LUGAR DE FALA DE BRANCO
Patrice O’Neal’s take on what “Creep” by Radiohead does to white people, specifically at 59 seconds into the song, continues to be the single greatest opinion anyone has ever had about music
— Dashiell Driscoll (@dashiell) February 2, 2023
pic.twitter.com/e138BmAq60
quinta-feira, 27 de julho de 2023
Mas o que diabos é o niilismo?
Está sofrendo de falta de perspectiva de vida? Não sabe bem o que é o certo e o errado? Acha que o mundo perdeu seus valores? Cuidado, você pode estar sofrendo de... niilismo.
Brincadeiras à parte, o niilismo foi visto – dentro e fora da universidade – como uma sensação generalizada da falta de um sentido que fosse compartilhado por todes ao mesmo tempo. Durante muito, muito tempo, essa função coube ao Deus cristão nessa parte do mundo ocidentalizada. Mas, com o fortalecimento da confiança na Ciência, com o relativo aperfeiçoamento de formas mais democráticas de organizar politicamente a sociedade, com a libertação de certos tabus de como poderíamos viver nossos desejos, a “hipótese Deus”, como escreveu Nietzsche, caiu por terra. E isso aconteceu “ontem”, no século XIX.
Sem esse parâmetro em comum, que servia como primeira e última instância a quem recorrer, muita gente caiu em desespero. Sabe aquela frase “se Deus não existe, tudo é possível”, que o pessoal jura que está em “Os irmãos Karamazov” (spoiler: não está)? Pois então: tal frase foi vista como a representação de um liberou geral, uma permissão para as pessoas saírem nas ruas se matando sem qualquer coibição (geralmente, é um certo tipo de pessoa a acreditar nisso: a que gosta de segurança e diz que o mundo está cada vez mais em perigo).
Outros tipos de pessoas viram nessa falta de um sentido compartilhado uma oportunidade de recriar os valores que dominam nossa sociedade em todos os seus aspectos. Ou seja, viram nesse niilismo uma libertação, uma possibilidade de um novo começo. O problema é que, sem um juiz divino, quem decide o que é o certo e o errado? Pensa como é difícil conversar com um sujeito que pertence a um espectro político diferente do seu e você vai entender bem o que estou dizendo.
Por esses e outros motivos, vejo o niilismo como um assunto extremamente atual. Um tema que faz refletir sobre como a construção de valores em comum é essencial para se viver em sociedade. E que essa tarefa não é das mais fáceis.
Para saber mais sobre o tema – e, quem sabe, pensar em formas melhores de se viver em sociedade –, inscreva-se no curso: https://is.gd/NietzscheNiilismo
E semana que vem há a Aula Zero do curso aqui.
quarta-feira, 21 de junho de 2023
A buzina do vendedor
Todos os dias, um pouco antes das 5 da tarde, eu escuto uma buzina bem específica, não uma buzina de carro que é praticamente onipresente nessa rua que parece um aluvião de automóveis vindos de Copacabana, mas uma buzina como aquelas que os palhaços usam nos seus números em circos, aquelas bem tradicionais, com fole -- eu escuto a buzina e automaticamente me vejo com uns cinco anos -- mas pode ser mais tarde com dez, 12 até --, o céu avermelhado do fim do dia, provavelmente era a mesma hora, só que em Nova Iguaçu, eu, por algum acaso, não estava na natação, mas em casa, no pátio do prédio em que eu cresci, e escutava aquela buzina e sabia que o vendedor de biscoito doce enroladinho e chupeta de açúcar estava passando. As crianças todas da rua corriam para comprar com ele aquele biscoito que era só uma fina folha de farinha de trigo açucarada enrolada em formato de canudo e o pirulito sui generis e eu sentia algo como uma comunidade, e me dava um quentinho, me sentia pertencendo a algum lugar, e agora sinto quase a mesma coisa, embora nostalgicamente, quando escuto a buzina e sempre me lembro de quando eu era criança, mas sempre também me esqueço de me preparar para ver o vendedor, porque, né, quem vai estar ali naquela hora, parado -- até que um dia eu o vi, e não, ele não vende mais o biscoito e a chupeta artesanais, mas açaí, um açaí deveras industrializado, mas a buzina, ao menos a buzina, é a mesma. eu quase quero comprar o açaí por conta disso.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
A rejeição de Pelé
É bastante conhecido o hábito do Edson se referir a Pelé na terceira pessoa do singular, como se fossem dois sujeitos separados, independentes. Mas um detalhe que surgiu em diversos lugares, agora que o rei morreu, sublinha esse comportamento bifurcado de uma forma que vai além do folclórico recurso do distanciamento: Edson não gostava do apelido Pelé.
| Pelé, em 1960 |
Como explicou inúmeras vezes, esse seu segundo nome veio de um amigo goleiro do pai Dondinho, (que também era jogador de futebol) e que se chamava Bilé. Quando muito pequeno, Edson -- mais conhecido pela família como Dico -- gostava de se aventurar também agarrando e, ao fazer uma defesa mais difícil, evocava Bilé, como se fosse o próprio goleiro do Vasco de São Lourenço (MG) (ex-time de Dondinho, que havia se mudado recentemente para Bauru), igual a qualquer garoto empolgado com um ídolo.
Os garotos que jogavam com Edson começaram a chamá-lo do que eles entendiam que era o nome, Pilé, e logo o termo se metamorfoseou em Pelé. Segundo os relatos, Edson não gostou nada desse apelido dado pelos amigos, e foi exatamente por isso que Pelé nasceu. Qualquer garoto sabe que reclamar de um nome recebido é a certeza de que você será chamado dessa forma.
Essa implicância com o apelido poderia ser um questão infantil que teria sido superada com o passar do tempo. Pelé era já Pelé quando apareceu no futebol, quando foi chamado de rei por Nelson Rodrigues, quando ganhou a primeira Copa do Mundo com 17 anos, e nunca mais deixou de ser. Virou um nome maior que o próprio personagem, a maior referência de uma possível identidade brasileira, um patrimônio do futebol, um adjetivo. Michael Jordan é o Pelé do basquete, Muhammad Ali, o Pelé do boxe. Nas entrevistas em que foi perguntado porque se referia ao Pelé na terceira pessoa, justificava que se o Edson era um ser humano falho, como qualquer outro, o Pelé era um imortal incapaz do erro.
Havia contudo uma implicância com esse segundo nome que perpassou toda a sua vida. Em uma entrevista em 2006 para o jornal Bild, da Alemanha, o Edson já com 65 anos ressaltou o quanto desprezava o apelido, por parecer infantil e bobo. Gostava mesmo de Edson, que seu pai pegou do empresário e inventor Thomas Edison. Mas ele já não podia fazer muito. Pelé era uma figura incomparavelmente maior que o Edson Arantes do Nascimento. Maior talvez até que Thomas Edison.
O que me chamou a atenção foi esse movimento de aceitação do destino, mesmo que fosse contra a sua vontade mais externa. Embora não gostasse do nome, era assim que era chamado, foi desse jeito que ficou internacionalmente famoso. Não havia espaço para lutar contra, ele só poderia se resignar, na pior das hipóteses. Ou criar um personagem além do Edson.
O chocante para mim -- na minha infinita capacidade de me surpreender com o óbvio -- foi perceber que nem as grandes estrelas, as figuras mais incontestes, ficam inteiramente satisfeitas com o que o destino lhe reserva. É preciso fazer uma torção entre expectativa e realidade, entre a autoimagem e como se é visto pelos outros -- isso para ficar no exemplo do Pelé.
Essa história me lembrou outros casos não exatamente iguais, mas em que alguns artistas disseram, muitas vezes, quererem ser reconhecidos em outro campo, e não naquele em que foram projetados. Luis Fernando Verissimo e Woody Allen, para ficar em dois exemplos próximos, sempre afirmaram que, quando novos, sonhavam em ser músicos. Tiveram que se contentar em ser escritor (e desenhista, quadrinista, roteirista) e cineasta (e escritor e...). Quando já reconhecidos em suas profissões, até integraram bandas de jazz, mas nunca foram especialmente associados a esse talento. Ou o caminho contrário do Caetano, que queria ser cineasta, mas foi sendo empurrado para a música e deu no que deu. Os exemplos são vários. Não sou eu quem me navega etc. e tal, como diz a música do Paulinho da Viola, marceneiro nas horas vagas.
O episódio Edson x Pelé também me lembrou uma frase da atriz Rita Hayworth, famosa pelo personagem título em Gilda, noir de 1946 dirigido por Charles Vidor, que a projetou como sex symbol: "Os homens sempre vão para a cama sonhando com Gilda e se decepcionam ao acordar ao lado de Rita". Há, sempre, um descompasso entre a imagem pública e a privada. Rita, como Edson, era uma mortal cheia de defeitos; Gilda, não.
Mesmo que Edson não quisesse ser Pelé, ele estava fadado a ser. Poderia desistir desse caminho, ficar recluso e abandonar o futebol, mas sua fome de bola aparentemente era maior que esse entrevero. Porque, suspeito, os desejos, esses atravessamentos que nos empurram adiante, sempre nos dão a coragem para aceitar os obstáculos que aparecem no caminho.
Além disso, só quando aceitamos todos os nossos lados, não no sentido de nos imobilizar dentro de uma identidade fixa e rabugenta que poderia resvalar num conservadorismo, mas sabendo que somos feitos de luz e sombras, que temos ângulos de que não gostamos, ou que não temos muita gerência sobre o nosso destino e nossas decisões são apenas interferências relativamente pequenas no processo geral, podemos, finalmente, nos tornar quem nós somos.
Essa conhecida frase do Nietzsche ("como tornar-se quem tu és"), que aparece em vários dos seus livros, e é o subtítulo de sua autobiografia, Ecce homo, sempre me soou estranha, por pura incapacidade minha de interpretação. Mesmo que eu suspeitasse fortemente que o autor não tivesse essa intenção, tinha uma abertura grande para ser lida como um manual de autoajuda. O tornar-se seria um movimento secundário, depois de se ter a ideia de quem nós somos. Idealizaríamos um modo de ser no mundo e deveríamos nos moldar para atingir esse objetivo, como se a conclusão da vida fosse um objeto único da nossa vontade mais consciente. Se isso fosse verdade, Edson jamais seria Pelé, Rita jamais Gilda.
Na verdade, e esse episódio do Pelé x Edson me ajudou a entender isso, o tornar-se é, sim, um movimento secundário, mas um movimento de aceitação daquilo que já se é. Não uma aceitação passiva, que demonstrasse nossa fraqueza diante do mundo que nos envolve, mas um posicionamento ativo, de se enxergar por inteiro, com todas as nossas nuances.
Mesmo que quando olhemos para esse ser que já somos, não gostemos de uns cantos obscuros, precisamos nos reconhecer neles, aceitarmo-nos. Porque sem reconhecer nossos defeitos, eles viverão escondidos e aparecerão todas as vezes que a guarda estiver baixa, todas as vezes que a luz da consciência der uma piscadela.
Isso também não quer dizer que somos condenados a ser o que já se é. Já se é agora, mas não quer dizer que seremos isso eternamente. Nada é fixo, e tudo pode ser, de alguma forma, modificado. Talvez não por inteiro, mas alguma coisa é possível influir, certamente. A aceitação é só um primeiro passo para conseguirmos nos enxergarmos. Nos reconhecer. Só assim, talvez, só talvez, teremos a possibilidade de influir nesse lado menos "bonito".
Pelé era incontornável para Edson, caso quisesse seguir no futebol. Edson precisava se tornar também Pelé. Pelé não deixava de ser Edson, em alguns casos. O que me lembra outro gigante, dessa vez argentino (não, não é Maradona), mas de um campo correlato, a literatura: "Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas", escreve Jorge Luis Borges no sugestivo textinho "Borges e eu", "Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica".
terça-feira, 29 de novembro de 2022
O fim da literatura
Quando o escritor chileno Benjamin Labatut, durante sua apresentação na Flip que acabou de acabar, fez um comentário esnobando a literatura, a primeira reação de todas as pessoas foi revirar os olhos. Parecia apenas um personagem criado para se mostrar superior a essas banalidades mundanas que fazem com que pessoas se desloquem para uma cidade para assistir aos seus escritores e escritoras favoritas, enquanto ele enxergaria mais longe. O problema era mais o tom, a (im)postura, o ar blasé -- não necessariamente o que ele falou. De alguma forma estranha, ele tocou numa ferida que continua a borbulhar em quem -- suspeito -- se propõe a escrever com algum grau de profissionalismo.
Recentemente, quando me perguntaram o que seria essencial para mim, o que eu usaria de todas as minhas forças para salvar, eu não titubeei: a água. Depois, imaginei que era uma resposta "correta", e não algo que eu que eu me importava mesmo. Não que eu ache a água desimportante - verdadeiramente é o que há de mais importante, sem dúvida - mas por algumas razões que a própria razão etc., a água, esse ser tão abstrato, tão amplo, tão gigantesco, não me motiva a me mexer. Pensei de novo e falei: comida. Gostaria que todo mundo tivesse comida boa e saudável em casa. É uma área em que eu já faço algumas (pouquíssimas) ações, o que já demonstra como me parece mais "importante", nesse aspecto. Curiosamente, eu não pensei em nenhum momento em literatura.
Mesmo que, certamente, literatura seja aquilo que mais me move, hoje, e há mais de 20 anos. É o meu trabalho, apesar de nunca ter ganhado um centavo até hoje com [segundo o contrato, o primeiro pagamento de direitos autorais de Maquinação sai só ano que vem...]. É daquilo que eu quero viver para, e de. Por que, então, não passou pela minha cabeça falar que eu queria salvar a literatura?
Fiquei pensando sobre isso e cheguei a conclusão de que há uma certa vergonha em defende algo que é tão pouco importante para o mundo. Aqui eu não estou fazendo o gesto do Labatut de cuspir no prato que eu como - mesmo porque eu não como desse prato. Minha intenção é mostrar que, mesmo que ainda haja uma cultura que valorize a leitura e a literatura, outras muitas formas de transmissão de cultura, de informação, de entretenimento até, já ultrapassaram em muito a importância geral dos livros, físicos, mais tradicionais. Mesmo que Bradbury tenha escrito Fahrenheit 451 há menos de 50 anos [foi publicado em 1953], mesmo que as vendagens de grandes autores em países ricos se mantenham em padrões elevados, o posto de destaque na sociedade do livro foi suplantado, já há um tempinho.
Defender o livro impresso parece ser anacrônico, num tempo em que algoritmos decidem a qual tipo de conteúdo de menos de um minuto você vai assistir, em sequências que dão descargas elétricas e soltam serotonina em quantidades viciantes no corpo. O tempo do livro passou. A paciência para o livro esgotou.
Claro que eu fiz uma confusão de propósito entre livro e literatura: não são a mesma coisa. Enquanto o primeiro é um objeto físico, o segundo pode ser visto como uma forma mais ampla de narrativa, e aí sim poderíamos imaginar que não há qualquer chance de esse tipo de comunicação acabar. Aliás, ao contrário: parece que todas as outras formas de comunicação bebem, atualmente, da mesma água da literatura. O popular termo storytelling está aí que não me deixa mentir.
O problema é que aquele tipo de literatura que necessita de imersão, de um mergulho, de estar atento durante muito tempo para receber uma recompensa só de vez em quando -- bem diferente do jogo de cassino que todas as redes sociais se transformaram -- essa parece também fadada a acabar, ou virar um nicho. Por um lado, isso é uma tremenda vantagem: corta-se o supérfluo dos textos, a enrolação, a encheção de linguiça, que é o que todo escritor fazia quando precisava assinar mais um folhetim para pagar as contas do mês.
Agora é necessário ter tramas mais bem arquitetadas e surpreendentes desde o início do jogo. O cinema, com o seu tempo fechado, raramente passando das duas horas, virou umas das principais influências -- e não o inverso [e isso não é, nem próximo disso, uma crítica]. Na primeira meia hora de projeção, já devemos ter noção do argumento do livro.
Há ainda livros que experimentam com os limites do livro, que aproveitam a liberdade maior que o papel dá para criar tramas em cima, há uma série de exceções que mostram que o meu argumento pode soar mais como um medo conservador da transformação. Não é de todo errado. Mas o ponto não é exatamente esse, ao menos não tinha isso em mente.
Se o livro acabar, da forma como nós o conhecemos, eu com certeza ficarei arrasado. É improvável que eu veja esse movimento ainda em vida. De qualquer forma, a contação de histórias, que acompanha a humanidade desde que duas pessoas dotadas de linguagem se sentaram em volta de uma fogueira, essa vai continuar. É sempre bom lembrar Borges quando ele dizia que não via futuro para o romance, já para o cuento, esse termo em espanhol que abarca desde a narrativa ficcional curta até algo mais próximo da anedota, ele dizia que era eterno.
Talvez o desejo, esse termo tão utilizado e tão pouco entendido nos dias de hoje, seja, em vez de simplesmente seguir toda e qualquer intuição que nos atravessa, insistir nas pistas que insistem em permanecer, mesmo contra todas as expectativas, against all odds, como dizem os anglófilos. Lutar para alguma coisa permanecer, mesmo que ela seja desimportante, do ponto de vista da necessidade. Porque não é mesmo uma necessidade. É algo de outra natureza.
terça-feira, 25 de outubro de 2022
"Aprendei a rir de vós mesmos"
Quanto mais elevada sua espécie, tanto mais raramente logra uma coisa. Vós, homens superiores aqui presentes, não sois todos — malogrados?
Não desanimeis! Que importa? Quanta coisa é ainda possível! Aprendei a rir de vós mesmos, tal como se deve rir!
Não surpreende que malograstes e meio que lograstes, ó meio-destroçados!
Dentro de vós não empurra e abre caminho o — futuro do homem? [ZA, 4ª parte: “Do homem superior”, 15; P. 350d]
terça-feira, 18 de outubro de 2022
Nietzsche contra os "jamais contentes"
“Para que viver? Tudo é vão! Viver — é debulhar palha; viver — é queimar e, contudo, não se aquecer.” —
Esse palavrório antigo ainda é considerado “sabedoria”; embora seja velho e embolorado, por isso é ainda mais respeitado. Também o mofo enobrece. —
Crianças poderiam falar assim: elas receiam o fogo, porque as queimou! Há muita criancice nos velhos livros de sabedoria.
E aqueles que sempre “debulham palha”, como teriam o direito de blasfemar contra a debulha? Deveríamos amordaçar a boca desses loucos!
Eles se sentam à mesa e nada trazem consigo, nem mesmo uma boa fome; e agora blasfemam: “Tudo é vão!”.
Mas bem comer e bem beber, ó meus irmãos, não é verdadeiramente uma arte vã! Destroçai, destroçai as tábuas dos jamais contentes!
[ZA, 3ª parte: “Das velha e novas tábuas”, 13]
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
Caetano Zaratustra
Há muito tempo tiveram fim os velhos deuses — e, em verdade, foi um bom fim, alegre, de deuses!
Eles não tiveram um “crepúsculo ”: — isso é mentira! O que houve, isto sim, foi que um dia morreram de — rir!
Isso ocorreu quando as mais ímpias palavras saíram da própria boca de um deus: “Existe apenas um só Deus! Não deves ter nenhum outro deus além de mim!” —
— um velho deus barbudo e raivoso, bastante ciumento, excedeu-se a esse ponto.
E todos os deuses caíram então na risada, mexeram-se nas suas cadeiras e exclamaram: “Justamente isso não é divino, que haja deuses, mas nenhum Deus ?”.
Quem tem ouvidos, que ouça. — [Nietzsche, em ... Zaratustra, 3ª parte: “Dos apóstatas”, 2]
Que me lembrou na hora do:
Quem é ateu e viu milagres como eu
sabem que os deuses sem Deus
não cessam de brotar nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória
E paira para além da história - [Caetano, "Milagres do povo"]