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sábado, 8 de março de 2014

É possível viver sem acreditar?

Nessa semana, diversas pessoas diferentes - entre amigos próximos, distantes, colegas e gente que eu leio nos jornais - falaram sobre o mesmo assunto: "True detective". É a nova superprodução em forma de minissérie da HBO que tem Matthew McConaughey como o tal detetive verdadeiro e Woody Harrelson como seu parceiro. Todos as falas tinham algo em comum: Rust Cohle, o personagem de McConaughey. E não é para menos. É um desses protagonistas que sugam todas as atenções como se fosse um buraco negro.

McConaughey está magro e quase irreconhecível na série


Atormentado pela perda da filha de 2 anos, Cohle se torna um homem antissocial e amargo. Cético. Introspectivo. Não é fácil descrevê-lo. É como se as qualidades não se adequassem a ele, necessariamente. Ele é cético, mas não apenas isso. É amargo, mas não somente. É um personagem grande, dúbio, que foge de padrões fáceis de classificação. Vive marginalizado da sociedade, morando numa casa sem móveis, tentando arrancar forças de seu trabalho para sobreviver, porque não foi feito para o suicídio, como se defende logo no primeiro episódio.

Um aspecto que é mais fácil captar em Cohle é sua dificuldade de aceitar a individualidade humana. Para ele, somos desimportantes, enquanto seres únicos. Seríamos apenas uma máquina biológica, que caminha mesmo contra a vontade em direção a um destino certo: a morte. O caminho trilhado pode variar um pouco, mas não muito. Não somos especiais, não somos diferentes de nada do que nos envolve.

Personagens como o de Cohle são famosos nas artes narrativas, principalmente no gênero policial, ainda mais o noir. São homens durões, que não conseguem lidar facilmente com as suas perdas do passado e mergulham num isolamento misterioso da sociedade. Viram solitários, quietos, vistos como sábios por não quererem se intrometer na vida de ninguém.

Essa música de abertura do duo The handsome family é incrível

O que ele tem de diferente - e o que demonstra bem o nosso momento histórico - é um certo cacoete filosófico e ateu. É um homem que desistiu do homem, e que sugere que caminhemos em direção ao fim, de mãos dadas. Mas será que conseguimos viver realmente de maneira ateia? Quero dizer, e eu estou aqui me repetindo, será que é possível viver sem acreditar em nada?

Em uma determinada cena, Cohle e seu parceiro, o supertradicional homem do sul americano Martin Harris, vão a uma igreja itinerante. Enquanto ouvem o pastor, Cohle começa a também pregar para Harris, demonstrando como toda aquela encenação era falsa, não se atinha à realidade, científica, crua. Harris, pai de duas meninas, casado com uma mulher bonita, detetive sênior, tenta contrapor os argumentos de Cohle, mas não tem a erudição do parceiro. Ao fim, porém, dá uma cartada que fica sem resposta: para um pessimista completo, Cohle parecia se importar muito com a religião dos outros.

Os homens e mulheres - pobres, sem educação - que passavam a cestinha e depositavam dinheiro podem até estar comprando um pequeno sentido para as suas vidas - sentido que não se encaixa num mundo de pessoas que têm acesso a determinados conhecimentos - mas, ao fim, elas estavam, ali, agindo de acordo com os preceitos do próprio Cohle. Diminuindo suas próprias individualidades, vivendo em uma comunidade - como, aliás, Harris salienta - seguindo um caminho qualquer em direção ao fim comum.

Por que Cohle acredita que não acreditar em um Deus é melhor que acreditar? Porque hoje ser ateu, ser laico, ser secular, é visto como uma vantagem sobre quem segue uma religião em que um mundo é criado em seis dias para Ele descansar no sétimo. O provável - e o que eu acredito - é que apenas escolhemos no que acreditar. Não é verdadeiramente possível simplesmente não acreditar.

Os céticos geralmente argumentam usando a inteligência que os estudos lhe deram. O próprio Cohle faz isso, num exercício de superioridade. Pergunta de maneira esnobe qual seria o QI daqueles fiéis na igreja. Então há - e faço essa pergunta sem qualquer ironia - uma hierarquia entre quem é mais ou menos inteligente?

Como se acredita, os homens destituíram o Deus cristão, mas colocaram outros deuses em seu lugar - como é o caso da ciência, para ficar no exemplo mais comum. A mesma ciência que já cometeu, assim como as religiões, inúmeros absurdos, e que já justificou igualmente guerras. Não há deus sem pés de barro.

A decisão por ignorar a individualidade humana, escolhido por Cohle para lidar com a sua dor, carrega em si, provavelmente, o mal de seu problema. Não é possível que alguém negue que é diferente do seu igual - nem mesmo Cohle. Basta ele enxergar como vive de maneira radicalmente distante dos seus pares. Mesmo que ele queira se anular, o que ele consegue é só fazer com que fiquem mais óbvias as diferenças.

Talvez a saída esteja em aceitar que não somos iguais aos nossos iguais, mas também não somos diferentes. Somos os dois, ou aproveitando as vantagens que a nossa língua nos dá [quem disse que não dá para filosofar em português?], estamos, à medida que caminhamos rumo ao tal destino comum, os dois, ora um, ora outro, ora ambos, em determinados e diferentes graus. Somos individuais, únicos, mas também pertencemos a algo maior que nós, que nos torna parte de um todo - seja esse algo a humanidade, o reino animal, o planeta Terra, o universo. Optar por um dos caminhos é ignorar uma parcela considerável de nossa natureza.

Mas isso tudo que eu escrevi, claro, faz parte apenas da minha crença.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

'Breaking Bad' e o [mais um] crepúsculo dos homens

Capitulei e assisti à série que todas as pessoas disseram ser a mais sensacional produção para a televisão, mais até que "Avenida Brasil", em muito tempo: "Breaking Bad". Vi todas as cinco temporadas. Terminei ontem com a sensação de dever comprido e cumprido. Não posso negar que há momentos verdadeiramente incríveis no seriado, mas que ficam concentrados na primeira, início da segunda, fim da quarta e praticamente toda quinta. Ou seja, o miolo da produção é meio modorrento. De toda forma, valeu verdadeiramente a pena assisti-la por completo.



Para quem não acompanhou os cerca de 70 capítulos, nem quis ver o vídeo aí de cima, um diminuto resumo: Walter White é um pacato professor de química de uma escola pública do estado do Novo México, nos EUA, que completa a renda de casa com um emprego de meio-período como caixa numa lava-jato. É casado com Skyler, que está grávida de seu segundo filho, a menina Holly, que nasce na segunda [ou terceira?] temporada, e cujo primogênito, Walter White Jr. tem uma leve paralisia cerebral, que dificulta sua locomoção e sua fala. A irmã de Skyler, Marie, é casada com Hank, um policial da D.E.A., uma agência americana de combate ao tráfico de drogas. Esse é o núcleo central e familiar da trama. Walt vive um cotidiano sem grandes sobressaltos - ou melhor, sem qualquer sobressalto - até que... descobre que tem câncer no pulmão. A partir daí, ele decide mudar de vida, tentar ganhar a maior quantidade de dinheiro possível para poder sustentar sua família depois que ele partisse. Sua proposta, porém, é um pouco ousada demais: ele começa a fabricar com um ex-aluno, Jesse, metanfetamina.

Pronto, essa é a trama, a coluna vertebral da série. Em cinco anos, muitos outros personagens aparecem, muitas situações paralelas se desenvolvem, mas esse núcleo se mantém, mais ou menos inalterado, até o último episódio. A mudança do original tom de humor negro, em que você se pega rindo de situações escabrosas, para uma tragédia shakespeariana, como bem demonstrou sir Anthony Hopkins, um dos seus muitos fãs, talvez seja a principal transformação nesse tempo. E a qualidade dos atores, principalmente de Bryan Cranston, Walter White, uma versão contemporânea do rei Lear, o seu ponto mais alto.

O conhecimento avançado de Walt sobre química, o que muitas vezes lhe dava quase poderes super-humanos sobre as outras pessoas, me fez lembrar um pouco o MacGyver, acrescido do fator de vivermos, agora, em um sociedade em que aparentemente apenas o conhecimento científico-matemático é valorizado nas camadas médias da sociedade. Mas a principal referência, e é uma referência que sem querer muita gente fez, sem demonstrar que sabia que fazia, é "Sopranos" [que eu só vi a primeira temporada].

Considerada por muita gente boa a série que transformou as produções americanas para a TV em obras de arte, o seriado sobre o mafioso Tony Soprano, que vai para uma psicóloga porque não consegue cumprir suas funções criminosas, tem alguns pontos de encontro fundamentais com "Breaking Bad". O mais óbvio é a relação de um criminoso com sua família. O limite moral de uma pessoa é elástico? Se rompemos com as leis e os limites no âmbito público, também o faríamos na esfera privada? Ambas produções tentam dar respostas para isso.
Em cinco temporadas Bryan Cranston sai da esquerda para a direita

Porém, há uma segunda correlação mais sutil que me chamou mais a atenção: o tal crepúsculo do Homem. Em que momento um mafioso começou a ter dúvidas sobre o que fazer na condução do seu negócio? Como fazer um professor de escola pública não se sentir aviltado diante de uma vida sem qualquer tipo de desafio? Como aceitar um enfadonho cotidiano casa-trabalho-casa, sabendo que esse é o futuro que lhe foi reservado até sua morte? Como achar bom que o seu presente de aniversário de 50 anos é receber um handjob da mulher enquanto ela participa de um leilão pela internet de objetos sem valor algum?

O que "Breaking Bad" mostra é que vivemos em uma sociedade sem qualquer gosto verdadeiro. Não à toa há a piada do bacon vegetariano logo no início da primeira temporada. Ficamos tão cientificamente cuidadosos com a nossa sobrevivência que nos esquecemos que viver requer algum tipo de risco. BB exagera nessa dose para exatamente acentuar as características que mais marcariam nossa sociedade: o infinito tédio, o cinismo cotidiano, a ironia como forma de vida.

Se os dois casos têm papéis masculinos como protagonistas talvez seja porque nós, homens, sofremos mais essa queda do Olimpo. Porque nunca tivemos muito tempo para dúvidas e nossas cobranças eram de caráter muito mais claro. Agora, para efeito de comparação, assim como os homens sempre exigiram mulheres ao mesmo tempo lindas e inteligentes, chegou a vez das mulheres exigirem híbridos de poetas e pedreiros. O resultado são relações de alta expectativa e baixa segurança.

Quando finalmente Walter White assume uma voz de comando, típica da do homem-masculino-alfa, em que ele pode se identificar com um passado nem tão longínquo, em que ele tem dinheiro, carrão e todos os ícones que identificam o arquétipo batido dos portadores do cromossomo Y, ele percebe, porém, que ultrapassou um limite e que não é mais possível voltar. Mesmo que ele não quisesse, ele estaria para sempre conectado com o que ele criou. Como um animal primitivo, ele avançou sobre seu destino, aceitou seu instinto e seguiu em frente inconsequentemente. Como um animal primitivo, se esqueceu de uma das lições mais antigas que a ciência, via Newton, ensinou para a humanidade há quase 500 anos: a toda ação, há sempre uma reação de mesma direção, intensidade e sentido oposto. Mas isso não é exatamente um problema. Porque, às vezes, para viver é preciso também morrer.

quinta-feira, 4 de março de 2010

'Lost' é uma droga

Admito: sou viciado em "Lost". E estou há um dia sem ver.

Tudo começou na segunda temporada. Enquanto o mundo falava sobre o grupo de perdidos na selva, eu implicava com séries em geral. Até que seu Carlão, mancomunado com dona Cláudia Croitor, me emprestou o box da primeira temporada. Em pouquíssimas semanas, já era irreversível. A partir daí, e nos anos seguintes, o meu vício só se aprofundou.

Mas isso não quer dizer que o usuário não repara na qualidade do entorpecente que ele está consumindo. E a temporada desse ano - logo a final - está meio malhada. Nem digo pelas repetições de temas, pelas andadas na selva para encher linguiça, ou qualquer outro problema facilmente identificável. Já perdi há muito o limite dessas nuances.

Mas é que preciso de alguma coisa mais forte. Não dá para, agora, nos finalmente, colocar um good e um bad guy para fazer, cada um, sua turminha e no fim guerrearem, como se fossem quadrinhos para adolescente. O que era legal em "Lost" era exatamente a ambiguidade dos seus personagens e das suas situações. A surpresa em relação ao que era certo e ao que era errado. Mostrar seus vilões como sujeitos também capazes de coisas boas. Enfim, gente, como qualquer viciado.

Agora, tá tudo preto no branco. Lado A x Lado B. Menino ou menina. Uma divisão maniqueista que nem a Xuxa deve usar mais.

Só aceito essa divisão se, daqui a pouco, me mostrarem que, na verdade, o Locke-do-mal é, na verdade, o cara por quem torcer, a.k.a., o herói. E o Jacob, bem, o Jacob é um mala que só fez besteira a vida inteira. Aí teremos alguma adrenalina. Por enquanto, estou ficando chapado.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Animação em um trem que tromba, mas não cai




Trailer do Tromba Trem, do meu camarada Zé, do Copa Studio, que concorre a série de animação lá na TV Brasil. Mais informações aqui e aqui.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tiro certeiro

Digam o que quiserem sobre "Capitu". Mas é inegável a beleza de "Elephant gun", essa música do Beirut, a.k.a. Zach Condon, um rapaz do Novo México que resolveu conhecer o mundo com a sua música.



A direção, nos conta Inagaki, é de Alma Har'el.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O português capitulou

O primeiro episódio da "Capitu" não surpreendeu: entregou aquilo que estávamos esperando. Dramaturgia de alta qualidade, com experimentações estéticas. Maquiagens exageradas, roupas espalhafatosas e músicas de Hendrix, Johnny Rotten e cia. e Beirut para dar o verniz pop para o livro mais famoso de Machadão.

Há passagens bem interessantes e o Melamed segura bem a onda de Bentinho. Dá gosto de ver. Entretanto...

Poisé sempre há "poréns" e nesse caso há dois: um leve e um gravíssimo, principalmente em se tratando do fundador da Academia Brasileira de Letras. Comecemos por retirar os devidos três pontos na carteira de Luiz Fernando Carvalho. O narrador escolhido para ler as cartelas de episódios é risível. Talvez tenha até sido a intenção, já que o Machadão era um sujeito que gostava da ironia, principalmente a de viés humorística. Mas fica estranho quando uma cena é tensa e o sujeito faz voz de palhaço.

Agora, o problema maior, que merece nota zero nessas colunas de TV e até em qualquer coluna é o erro de português em uma das intercessões do texto em si de "Dom Casmurro". Explico. Um dos recursos pós-modernísticos de Carvalho foi escrever, com fonte de 1900, trechos da obra, enquanto o narrador-protagonista está falando sobre algo impossível de ser ilustrado. Ou apenas para dar uma bossa. A questão é que não pode errar o português. Não pode, não dá, fica feio, feíssimo. Horroroso. E eles erraram. Copio a prova abaixo.

"Voltou dali há duas semanas", Carvalho? O português capitulou.

ps. Agora, vendo o site da série, percebo que o erro de português é contagioso. Escreveram como eu escrevia há muito tempo, sem a devida preposição: "assista todos os vídeos". Ou seja, "ajude todos os vídeos".

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mamma mia

Em "Concorrência desleal", Ettore Scola faz uma piada sobre o modo como os italianos emigraram para outros países. Diz que há mais italianos fora da bota que dentro. Não tenho estatísticas, mas só nos EUA são 20 milhões de descendentes, segundo "Os Sopranos".

A série americana que coloca a máfia no divã, de maneira dramática, tenta fazer um inventário desse personagem imortalizado por, além dos poderosos chefões e dos bons companheiros, pizza e... o que mais? O que é ser italiano hoje em dia? Vale a pena, aliás, ser considerado italiano, ainda hoje, após quase cem anos de imigração?

Entretanto, um dos detalhes da série é mostrar como os ítalo-americanos, para usar uma expressão politicamente correta, são mal vistos, de maneira em geral, pelos norte-americanos - seja lá quem essa minoria represente hoje. Não pertencendo à WASP como a conhecemos, o grupo entra no caldeirão dos excluídos. Durante toda a temporada, eles brincam que nunca haverá um presidente italiano nos EUA. O posto acabou com outra minoria - mas esse é um papo para outro pôr-do-sol.

Por outro lado, o nosso lado, os italianos são extremamente bem-vistos, como os europeus que vieram nos salvar e gentilmente deixaram os seus genes. É incrível a quantidade de sobrenomes com letras duplicadas entre os de classe-média.

De certa forma, para os americanos do norte, isso já é uma forma de identificar os italianos. Basta que o seu sobrenome termine em uma vogal - diz Tony Soprano, o cappo que também chora. Aqui, nem isso.

Aqui, num país que era separado entre casas-grande e senzalas, os italianos vieram para ser a classe-média. Lá, eles formaram o povo americano, ou seja aquela grande classe-média, em que todos tentam se diferenciar uns dos outros vestindo meias de cores diferentes compradas na mesma loja.

Por isso, é importante, para eles, tentarem identificar do que são feitos. Para nós, o melhor é esquecer a pronúncia correta dos nossos nomes. Antes de sermos italianos, ainda temos que aprender a ser brasileiros. Ou, sendo mais radical, esquecermos qualquer limite geográfico.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Delação e tortura

Delação, tortura, interrogatórios estão na moda. Está nos jornais de hoje (ou nos sites de ontem, o que dá no mesmo). Dois filmes que ou está em cartaz ou vai entrar dia 25, tratam de assuntos completamente diversos, mas que apresentam dois momentos em que o ser humano infligiu dor a seu semelhante com fim de obter uma "confissão" ou uma "informação relevante".

"Sombras de Goya", do consagrado diretor Milos Forman fala, entre outras muitas coisas, sobre como se era tirada as confissões dos hereges pelos padres inquisidores. Pode-se concluir, com uma lógica quase infantil, que não é nada confiável uma declaração dada por um sujeito que está pendurado pelos braços, quase quebrando-os, e de cabeça para baixo.

Já no "A vida dos outros", do estreiante Florian Henckel von Donnersmarck, o cenário é a RDA, na década de 1980. O objetivo é conseguir dados sobre desertores ou sobre vazamento de informações sobre os métodos pouco ortodoxos de manter a liberdade dos seus cidadãos. A tortura é menos física, mais psicológica: deixa o sujeito 40 horas sem dormir, em um interrogatório ininterrupto. Ou prende o "traidor" em solitária por meses até que se transforme num sujeito anódino.

Na chamada Alemanha Oriental, a técnica se desenvolve a ponto de adaptar os interrogatórios de acordo com a personalidade de cada um dos "suspeitos" e com o objetivo da missão. Na Inquisição espanhola, a delicadeza é colocada de lado em nome de Deus. O acusado respondia a um processo de, por exemplo 1, judaísmo por, por exemplo 2, não gostar de carne de porco e, se fosse inocente, de acordo com o pensamento da Igreja Católica, conseguiria passar por todas as provações - leia-se torturas - ainda adorando Cristo e renegando Moisés e todos os seus outros predecessores.

Em San Giminiano, cidadela de inúmeras torres e pouquíssima população a 40 minutos de Siena, na Toscana, visitei, rapidamente, um dos três museus da tortura do vilarejo que ainda mantém as casas e todo o seu perímetro como na Idade Média. Cadeiras com lâminas, Damas de ferro, pequenas pêras para dilatar os orifícios femininos e outros diversos aparelhos me deixaram mais certo sobre ser contra qualquer tipo de tortura, seja qual for o motivo e a razão - se é que há razão.

Por mim, Los Angeles não mais existiria e nenhum terrorista teria sido torturado por Jack Bauer. Não há diferença, em essência, entre praticar um ato cruel contra um homem, quem quer que seja, e matar outro, ou outros. As ações se anulam. A maldade, na sua origem de significado, é até pior no primeiro caso.

domingo, 4 de novembro de 2007

Médicos

Vi, até hoje, três episódios de "House", a série americana do médico manco que detesta atender pacientes e trata a doença. Generalizando, o seriado usa uma fórmula que deu certo: aparece um sujeito no hospital com algo que ninguém sabe o que é. A equipe do doutor House começa a elocubrar quais possibilidades de males o enfermo pode ter. Erram algumas vezes, o doente quase morre, até que, num estalo, House, que odeia conversar com os acamados, vai ter com o dito-cujo para contar-lhe qual é a maneira de resolver o embróglio.

É curioso e faz sucesso porque mostra um médico cínico, desumano (no sentido de preterir a convivência com os iguais) e que acerta sempre os seus diagnósticos. Os diálogos são, realmente, muito bem formulados.

Contudo, vislumbro outra possibilidade: é a maneira de vermos, verdadeiramente, os médicos, como eles são - sem as máscaras, sem os sorrisos e sem a mise en scène.

Não tenho boa convivência com os doutores. Raros são os com quem consigo travar qualquer diálogo. Geralmente porque sinto um ar de superioridade emanando do sujeito de branco atrás da mesa - que nunca se levanta. Claro que estou generalizando. Mas, ao ver "House", me senti, de certa forma, vingado.