sábado, 27 de agosto de 2011

Profundidade rasa

Se me lembro bem - o que eu duvido - Verissimo em uma crônica sobre o Woody Allen da década de 1970 fala que o cineasta desvendou em suas produções artística que, no fundo, no fundo, só há raso. Talvez essa seja a maior característica do norte-americano, a mistura entre um assunto que se propõe complexo, elaborado, que afetaria a humanidade inteira como um todo, e algo frugal, banal, sem maiores consequências.

No livro de entrevista com o Eric Lax ["Conversas com Woody Allen"], há um momento em que o diretor se sai com uma frase que exemplifica esse raciocínio. Lax pergunta sobre o final não muito feliz de "A rosa púrpura do Cairo", e como ela refletiria a visão de vida de Allen. O cineasta responde que sim, ele acha que a vida é muito amarga, mas [e então começa a sorrir, segundo a rubrica do livro] que é o único lugar onde se pode comer comida chinesa. O sorriso de Allen demonstra que ele já imagina qual será o resultado de sua frase: como algo cômico. É nessa "assimetria" que ele se alimenta para produzir seu humor, nessa suposta antítese, nesse contraste absurdo, que beira o nonsense.

Além da questão cômica, porém, há nessa frase uma proposta de vida mais "humana", assim como propunha, talvez, sob a minha interpretação, Nietzsche. O filósofo bigodudo sempre implicou com o cristianismo por conta de sua transcendência, ou seja, pela proposta da religião cristã de que deveríamos viver uma vida asséptica na Terra para, após morrer, ter acesso ao paraíso, na verdadeira vida, a eterna. Claro que esse raciocínio ele ampliou - e foi ampliado pelos seus intérpretes - para diversos fatores. Não haveria, portanto, conteúdo, só forma. Não haveria nada além do aparente. Não haveria profundidade, só o raso.

Essa tese se torna complicada sem a sua devida contextualização nos dias de hoje, principalmente porque pode parecer ser uma defesa da "boa aparência", por exemplo, ou de uma produção em série de pessoas "bonitas". Mas a desconstrução desse argumento fica exatamente no fato de que o "belo" também é uma construção cultural e social. Correr atrás desse ideal, quando não é algo internalizado, mas importado de maneira pré-fabricada, é ter uma vida apenas reativa, que reage ante os outros, em vez de tomar as rédeas sozinho.

Voltando a Allen, e à sua frase, podemos perceber que a sua frase diz ainda muitas coisas. Ele admite que o mundo é complexo, cheio de problemas e completamente amoral. Não fecha os olhos para esses fatores, mas deixa claro a pergunta: o que ele pode fazer sobre isso? Praticamente nada. Somos bastante inofensivos dentro desses parâmetros. Não é uma proposta pessimista, como imagina os crentes e os que querem uma recompensa pelas suas boas ações. Mas de extrema realidade, que pode afetar os mais sensíveis, os que imaginam que devem agir de tal forma para alcançar algo no futuro. Ele apenas demonstra a nossa completa incapacidade de controlar o que nos arrodeia. Só isso.

O ideal é, portanto, viver os pequenos prazeres que nos é possível. É descobrir aquilo que nos agrada, e que não desagrada em demasia os demais - porque ainda vivemos em sociedade, não? -, e tentar, à medida do possível, praticá-lo. Como por exemplo, comer comida chinesa. Ou ler um texto do Verissimo, um livro do Nietzsche ou assistir a um filme do Woody Allen. Belo ideal de vida, não?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

'Só quero ser feliz'

Todo mundo só quer ser feliz, como dizem muito bem Cidinho e Doca no "Rap da felicidade" [autores também do "Rap das armas"]. Contudo, diferentemente dos dois rappers-funkeiros, que sabem muito bem como ["andar tranquilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem o seu lugar], o "mundo" não imagina exatamente o que é esse sentimento.

Para Cidinho e Doca, a felicidade é a sensação de segurança ["andar tranquilamente"] perto do lar ["onde eu nasci"]. É facílimo entender o raciocínio considerando o nível de violência em algumas regiões do Rio. A dupla chega a dizer "Com tanta violência eu tenho medo de viver", e completam: "moro na favela e sou muito desrespeitado", que remete aos segundo e terceiro versos da letra. Eles queriam ainda mostrar que o pobre não precisa ser excluído da sociedade; que não é sinônimo de bandido; e que só vive à margem porque não tem acesso, não é inserido a esses elementos que compõe o tecido social. No caso de Cidinho e Doca, a felicidade é participar dessas relações sociais sem censura, não estar a parte dela.

Mas, o que é ser feliz para as demais pessoas? Geralmente se confunde "felicidade" com "euforia", que é o estado em que estamos numa festa animada, por exemplo. Seria isso a felicidade ou, ao menos, um tipo de felicidade? Seria, aliás, possível viver em uma constante euforia, indefinidamente? Os movimentos de subida e descida não são necessários para equilibrar e, até mesmo, destacar um dos outros? Se vivemos sempre em euforia, como saberíamos que isso é algo... diferente? Não teríamos tédio com a constante euforia? Sinceramente, não tenho respostas para quase nenhuma dessas perguntas, mas eu teria bastante preguiça de viver numa 24 hours party.

Em outros momentos, há a utilização de critérios externos importados para definir a felicidade: uma família, um bom emprego [?!], uma casa confortável... Ou argumentos de cunho consumista, como um carro do ano, o último gadget lançado, ter roupas da moda. Esses casos são ainda mais clichês e já foram retratados por diversas obras ficcionais, que mostram o cara que tem tudo mas não tem nada.

Há outros mais saudosistas, nostálgicos: a realização de sonhos de criança. Ou morar numa casinha de sapê. Há os falsos-altruístas: ajudar os outros. Os religiosos: encontrar Deus, não cometer pecados, ter a vida eterna. Os dionisíacos: viver a vida ao máximo possível. Os artistas-vaidosos: produzir algo realmente memorável. Os que passam a responsabilidade adiante: ver os filhos tomar um rumo na vida. Os ideológicos: batalhar pelo que acredita. Os românticos que dizem que a "felicidade foi-se embora", com a saída do objeto amado. Os pessimistas que dizem que a "tristeza não tem fim, felicidade, sim". Os fatalistas, ou neo-hippies - dependendo do contexto -, que dizem que "felicidade é só questão de ser". Os indecisos, que não sabem direito o que é isso.

Na verdade, não há como se inventariar a felicidade. Uma lista deveria aplacar um desejo por pessoa. E novamente tocamos a mesma música. A pergunta não deve ser o que é a felicidade, mas onde ela está.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Onde mora a filosofia

Tive um professor na pós - não por acaso o meu orientador da monografia de conclusão - que afirmava que todos os aspectos poderiam e deveriam ser filosofados. Não é porque a cerveja ou o futebol são elementos mais banais que o ser e o nada que não podemos discorrer sobre esses temas. Ou mesmo não existe nenhuma razão para não utilizarmos objetos mais, digamos, frugais como exemplos ou pano-de-fundo para elucubrações, ou ainda para neles inserir raciocínios que têm interpretações em diversos graus.

Costumo dizer que a minha primeira aula de filosofia me foi dada pelo seriado "Família dinossauro" - aquele que tinha o Baby, que dizia "não é a mamãe". Claro que tinha elementos de comédia rasgada, e o próprio personagem do bebê dinossauro rosa que renega o pai, apenas para aporrinhá-lo, é uma demonstração clara disso. Mas é inegável que, em alguns episódios, eles tratavam de assuntos um pouco mais... incomuns [tentei fugir da expressão "densa" para não cair numa armadilha].

O exemplo que sempre dou é o do episódio em que Bob, o filho adolescente, ao completar certa idade deve uivar para a lua. O rapaz, intrigado, pergunta: por quê? O pai, sem saber muito bem como responder, repete a história que ouviu durante toda a vida: se não, a lua vai descer sobre nossas cabeças. Uma explicação - admitamos - para lá de religiosa.

A filosofia nasce nesse "por que" [e não no "porque"]. Quando alguém questiona uma atitude, uma ação, um pensamento, um conceito, a filosofia aparece. Quando criamos um pensamento crítico em relação ao que fazemos, ao nosso entorno, aos nossos costumes. A razão é o grande fio condutor para se indagar, mas ela não está ligada apenas a um pensamento matemático, mas também a impulsos, à criação.

Bob não uiva e a lua, claro, não cai. As pessoas percebem que não precisam mais acalmar a lua, que ela é completamente indiferente às nossas vidas. Mas, se fosse só isso, a série seria apenas uma defensora de um argumento ateísta, que não abarcaria uma visão mais aguçada sobre o homem que é, desde o início dos tempos, apegado às magias da religião.

Ao longo dos dias que se passam, as pessoas - sem uivar - começam a se engalfinhar, a brigar entre si, discutir sem razão, arranjar confusões exageradamente. Bob começa a desconfiar que um aspecto tinha ligação com o outro e incentiva, novamente, seu pai e o seu melhor amigo, Roy, que estavam sem se falar há dias, a uivarem. Os dois uivam e voltam a ser amigos. Bob percebe a importância do uivo, não para segurar a lua, mas como forma de coesão social.

Claro que a explicação é simplista - pode-se encarar o uivo como uma metáfora da religião e esta seria, nessa exposição, o "ópio do povo", no sentido de ser um relaxante social [mais marxista, impossível]. A questão não é a simplicidade do argumento, mas a exposição da sociedade como ela é, sem, por isso, renegar uma visão crítica sobre ela. Bob, que tinha se recusado a uivar, alonga o gogó e solta a voz para a lua, ao fim do capítulo.

Há vários outros episódios que tratam de temas mais complexos que os normalmente encontrados. Como o hoje épico "Dia do arremesso". Mas acho que vale colocar aqui o final da última temporada, que acabei de ver, para demonstrar que "Família Dinossauro" não era um seriado como os outros.



[Tirei esse episódio daqui.]

domingo, 21 de agosto de 2011

Design inteligente da cerveja

Relutei muito em começar a escrever sobre design inteligente. Primeiro porque não sou um especialista no caso, segundo porque, bem, dá preguiça argumentar contra a fé. O que me levou a mudar de ideia foi uma série de textos lidos em diferentes lugares, sob diferentes formatos, concomitantemente falando sobre o mesmo assunto: como há uma espécie de arquiteto maior [são todos da maçonaria?] que criou a possibilidade de vida e planejou nossas evoluções até o nosso formato atual.

Aparentemente o "design inteligente" e o argumento do "ajuste fino" servem de consolo para quem está cansado da ciência, e ainda procura respostas às questões que não contêm respostas. Tipo: "ok, aceito o big bang, mas e antes? O que havia?"

É um argumento muito mais inteligente que o simplesmente "criacionista" - que, por mais absurdo que se possa imaginar, continua a florescer grandemente em organizações como o Tea Party americano -, mas ainda assim peca por um excesso de "humanização", ou, em outros termos, de "vaidade".

Primeiro porque não aceita o aleatório. O aleatório talvez nem exista, como já disse. Talvez seja apenas a ponta de um grande sistema que nós não conseguimos ver absolutamente nada e por isso não entendemos. Mas mesmo esse raciocínio se baseia numa... crença vaidosa: acredita-se que poderemos - nós, humanos, inteligentes, dotados do polegar opositor, etc. - desvendar, um dia, esse misterioso componente aleatório.

De qualquer forma, agora, nesse momento, o aleatório continua a existir [na minha humilíssima opinião, sempre existirá o "aleatório", o "não-explicado", o "absurdo", que é para onde nossa curiosidade - científica ou banal - se moverá]. E, se não podemos entendê-lo, podemos: 1/ aceitar nossa ignorância, nossa pequeneza, nossa completa insignificância e dizer simplesmente: não sei. Não sei o que havia antes do big bang. Ou 2/ podemos dizer que, já que não temos uma explicação sobre a origem da vida, e que é tudo tão perfeito, não pode ser à toa. Isso, claro, foi obra de uma mente, ou de um ser superior, que vive no caráter do eterno [portanto mito?], que manipulou, que criou as coisas como se fossem parte integrante de um jogo de tabuleiro em que cada dado tivesse sua função devidamente inventada e aceita.

Um dos argumentos mais bizarros - não pelo exemplo em si, como se verá - que eu li foi em um livro chamado "Cerveja & filosofia". O professor assistente de filosofia da Universidade de Mississipi Neil Manson, que já escreveu sobre teologia filosófica - como aponta seu perfil no livro - afirma que nós não poderíamos apreciar a cerveja fora do esquema do "design inteligente" + "ajuste fino", porque, se formos criados - nós, Homo sapiens sapiens - há centenas de milhares de anos, a capacidade de apreciação de cerveja não teria resistido à evolução da humanidade tanto tempo até pouco mais de 8 mil anos, quando há os primeiros relatos da fabricação de cerveja, porque ela não teria razão de ser/existir até então.

Como disse, o exemplo em si não importa. Pode-se pegar qualquer outro argumento, qualquer outro caso, e ele dá um ainda mais esdrúxulo. Mas pensemos nessa questão. Pelo ponto de vista de Manson, que, no caso, representa, ou diz representar, o raciocínio do "design inteligente", a evolução eliminaria todas as nossas capacidades não utilizadas. E determinadas características seriam imanentes do homem, ou no homem.

Bem, é melhor ele dizer isso para os meus sisos, que insistiram em nascer, mesmo gerações e gerações após o fim do seu uso. Ou para as milhares de pessoas que fazem operação de apendicite. Ou para o meu dedo mindinho, que já me deu tanta dor.

Um raciocínio interessante é imaginar como a natureza [que, coincidentemente, é um dos nomes de Deus para  Spinoza, que, também coincidentemente, é um dos filósofos favoritos de Einstein] exagera em vários de seus atos. O que sempre uso de exemplo é a questão da semente. De árvores a humanos, há um "desperdício" de sementes para a tentativa de procriação. Joga-se muitas para que uma, quase em caráter aleatório, germine. A quantidade exagerada é para a probabilidade aumentar. E probabilidade é apenas uma tentativa de enquadrar o aleatório.

sábado, 20 de agosto de 2011

De memória

Schopenhauer [foi ele? foi] disse que temos uma "vontade" [ele adorava essa palavra] de viver - algo, para ele, inexplicável [foi assim que ele escreveu? Não lembro...]. A partir daí, todos os nossos movimentos são pela preservação. E como viver não basta [por quê?], procura-se a felicidade.

Mas voltando à existência. A minha tríade preferida [ou de quem fui escolhido, escolhido para empurrar suas pedras morro acima] , filosofia, história e arte, tenta, de diversas maneiras, preservar a vida. Pensei, recentemente, na questão da memória, nesse aspecto: em como ela é indispensável para nos sentirmos vivos, seguros, confortáveis. E história e arte nada mais são que formas de registro da memória, mesmo que a inventada. O historiador Fernando Novais afirmou em uma entrevista que a diferença entre história e mito não é que uma se atém à verdade, enquanto outra não. Mas que uma está presa à temporalidade e a outra à eternidade. [Escrevi essa frase de memória, depois, fui lá conferir. A frase original é: "O que distingue a narrativa histórica da narrativa mítica não é o fato da primeira ser verdadeira e a segunda falsa, mas sim, de que a primeira se ancora na temporalidade e a segunda se situa na eternidade" - nada mal, né?] [Agora, se eu me lembro ainda do que li na pós-graduação, Hannah Arendt é outra que também faz a comparação entre história e arte.]

A memória nos traz o conforto de sabermos - razoavelmente - quem somos, onde estamos, para onde vamos - as tais perguntas fundadoras da filosofia. Se não as respondemos com profundidade talvez seja porque não haja nada abaixo da superfície.

Esses processos memorialísticos são a nossa âncora, o que nos prende à "realidade", nos dá a segurança para viver e agir conforme desejarmos - ou como a "vontade" schopenhauriana quiser.

A memória nos livra de sustos diários, ou eternos - no sentido de se repetirem ininterruptamente - de não sabermos quem nós somos. Ter consciência e, ao mesmo tempo ignorar sobre a própria identidade, por exemplo, deve dar a mesma sensação de desespero que se tem quando se acorda em um lugar esquisito e diferente de sua casa e você não se lembra onde é.

A memória é condição da existência.

ps. estava escrevendo isso, num caderninho, e me veio à memória uma frase que Borges gostava de dizer sobre o italiano, o idioma: seria o primeiro a estabelecer a distinção entre o circunstancial e o existencial. Porque sabemos que o verbo "to be" tanto pode querer dizer "ser" como "estar". Imagino que temos mais liberdade para nos modificarmos durante a nossa vivência, enquanto haja mais dureza por parte dos que não sabem a diferença entre ser e estar.

pps. ao escrever a primeira versão desse texto, lembrei de uma música que acho incrível, descoberta recentemente: "Shampoo suicide", do Broken Social Scene. Incrível como o belo, às vezes, brota em lugares onde não se espera...

ppps. ela toca neste momento.