terça-feira, 5 de novembro de 2013

Eike, o homem que queríamos ser

No início do ano, antes de todo o derretimento, um jornalista do Wall Street Journal, amigo-de-amigo-de-amigo, veio conversar comigo sobre o que eu achava do Eike Batista. Melhor dizendo: ele queria saber por que as pessoas confiavam tanto nele. Fui pego completamente de surpresa, nunca tinha pensado nisso. Além disso, sou um completo ignorante no assunto economia, aquele que passa pelos cadernos lendo apenas as amenidades, e fugindo de qualquer assunto mais economês. Mas me veio uma resposta à ponta da língua e a deixei escapar: por causa da Luma.

Luma mostrou a quem pertencia em 1998, na Sapucaí
Assim que eu disse isso, uma história inteira se apresentou à minha cabeça, com início, meio e fim. Não sabia se fazia sentido na vida real, mas ela tinha uma lógica que praticamente me convenceu. Eike era o homem que nós brasileiros queríamos ser, e com quem as brasileiras queriam casar. Ele espelhava todas as nossas ambições, todos os nossos devaneios, nossas fantasias, anseios, desejos. É um homem bonito, que tinha enriquecido, segundo ele, às custas do próprio suor, um verdadeiro self-made-man brasileiro, e que, diferente do Lula, outro que se fez sozinho, fala até alemão - e com o cachorro. Lembre-se dos nomes dos filhos. Não poderiam ser Peri ou Macunaíma. Jamais. Era um deslumbre.

E Luma é um dos seus maiores símbolos. Durante anos, do fim dos anos 1980 até meio dos 2000, foi considerada a mulher mais desejada do Brasil. A rainha de bateria pelo qual as escolas duelariam, que os fotógrafos se matavam para pegar um ângulo mais inusitado. Qual não foi o impacto na psiquê coletiva quando ela, no auge de sua popularidade, apareceu de coleira com o nome de um razoável desconhecido chamado Eike? É alemão? Como se pronuncia isso? Áique? Na época, era mais fácil: ele se apresentava como "o marido de Luma de Oliveira". Para os brasileiros foi um recado claro: se ele conseguiu conquistar Luma, nada lhe é impossível. Muito deslumbre.

Claro que também ajudou a Eike o fato de ele ser filho de Eliezer Batista, o cara que foi o presidente da Vale em duas oportunidades, o que, para os brasileiros, dá uma outra garantia de ele não ser esse tipo de aventureiro que pede o nosso dinheiro e depois some. Tinha pedigree. É alguém que vai pedir "com licença", antes de sair. Ou seja, ele era um self-made-man, mas sem vandalismo. Nunca fora pobre. Tudo deslumbrante.

O implante do cabelo também deve ter pesado na sua imagem

Mas em todo conto de fadas há o momento em que o príncipe deve decidir entre si e um objetivo maior. É nessa hora que se percebe qual é a nacionalidade da história a se contar. Daí, a grande queda de Eike não teria começado nas bolsas, mas quando essa imagem de homem que todos nós queremos ser / ter (lembre-se de como os políticos, de Lula e Dilma, passando por Cabral até Paes, enchiam desavergonhadamente a sua bola!) ruiu. E, dentro dessa história da carochinha, esse marco também é claro: quando o filho atropela e mata um homem ao voltar de uma festa. Não adianta colocar a culpa na vítima, que estava bêbado, atravessando uma pista de alta velocidade fora da passarela. Thor estava acima da velocidade. É batom na coleira.

Para continuar com a confiança dos brasileiros, cabia ao homem mais rico do país, naquela hora, agir como um empresário, mas do tipo anglo-saxão, ético, distante, frio, progressista, que pensa no business acima de tudo - o que nos faz, nós, brasileiros, salivarmos de inveja. Mas ele desatinou. Se portou como um reles brasileiro pai de família, que tentou de todas as formas acobertar o crime e proteger o filho. A família é mais importante que a vida de outra pessoa? A família é mais importante que tudo? É isso, então? Se até podemos entender - e lá no íntimo aceitar - essa atitude pessoal de Áike, perdemos a confiança no empresário Eike.

Sua imagem de homem perfeito, que queremos ser quando crescer, um exemplo para o país, ficou indelevelmente manchada. Os brasileiros achamos que ele era mais um, que apenas teve mais sorte que os demais. Um rei do camarote que conseguiu enlaçar Luma, e sabia vender bem seux produtox. Não merecia nosso dinheiro.

Agora, como em um prólogo, há uma catarse coletiva entre os brasileiros, como se quisessem tripudiar do homem que os tentou enganar durante tanto tempo. Como se houvesse um alívio, misturado com raiva, porque ele prometeu que era possível ser brasileiro e rico, ao mesmo tempo, e quando não conseguiu concluir essa promessa, acabou com as esperanças de quem confiava nele para também enriquecer. Junto a isso, porém, ele também demonstrou que ninguém é completamente incapaz por não conseguir enriquecer. Até o homem que pegou a Luma não consegue ficar rico por muito tempo. Deve ser problema da peruca.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

'Breaking Bad' e o [mais um] crepúsculo dos homens

Capitulei e assisti à série que todas as pessoas disseram ser a mais sensacional produção para a televisão, mais até que "Avenida Brasil", em muito tempo: "Breaking Bad". Vi todas as cinco temporadas. Terminei ontem com a sensação de dever comprido e cumprido. Não posso negar que há momentos verdadeiramente incríveis no seriado, mas que ficam concentrados na primeira, início da segunda, fim da quarta e praticamente toda quinta. Ou seja, o miolo da produção é meio modorrento. De toda forma, valeu verdadeiramente a pena assisti-la por completo.



Para quem não acompanhou os cerca de 70 capítulos, nem quis ver o vídeo aí de cima, um diminuto resumo: Walter White é um pacato professor de química de uma escola pública do estado do Novo México, nos EUA, que completa a renda de casa com um emprego de meio-período como caixa numa lava-jato. É casado com Skyler, que está grávida de seu segundo filho, a menina Holly, que nasce na segunda [ou terceira?] temporada, e cujo primogênito, Walter White Jr. tem uma leve paralisia cerebral, que dificulta sua locomoção e sua fala. A irmã de Skyler, Marie, é casada com Hank, um policial da D.E.A., uma agência americana de combate ao tráfico de drogas. Esse é o núcleo central e familiar da trama. Walt vive um cotidiano sem grandes sobressaltos - ou melhor, sem qualquer sobressalto - até que... descobre que tem câncer no pulmão. A partir daí, ele decide mudar de vida, tentar ganhar a maior quantidade de dinheiro possível para poder sustentar sua família depois que ele partisse. Sua proposta, porém, é um pouco ousada demais: ele começa a fabricar com um ex-aluno, Jesse, metanfetamina.

Pronto, essa é a trama, a coluna vertebral da série. Em cinco anos, muitos outros personagens aparecem, muitas situações paralelas se desenvolvem, mas esse núcleo se mantém, mais ou menos inalterado, até o último episódio. A mudança do original tom de humor negro, em que você se pega rindo de situações escabrosas, para uma tragédia shakespeariana, como bem demonstrou sir Anthony Hopkins, um dos seus muitos fãs, talvez seja a principal transformação nesse tempo. E a qualidade dos atores, principalmente de Bryan Cranston, Walter White, uma versão contemporânea do rei Lear, o seu ponto mais alto.

O conhecimento avançado de Walt sobre química, o que muitas vezes lhe dava quase poderes super-humanos sobre as outras pessoas, me fez lembrar um pouco o MacGyver, acrescido do fator de vivermos, agora, em um sociedade em que aparentemente apenas o conhecimento científico-matemático é valorizado nas camadas médias da sociedade. Mas a principal referência, e é uma referência que sem querer muita gente fez, sem demonstrar que sabia que fazia, é "Sopranos" [que eu só vi a primeira temporada].

Considerada por muita gente boa a série que transformou as produções americanas para a TV em obras de arte, o seriado sobre o mafioso Tony Soprano, que vai para uma psicóloga porque não consegue cumprir suas funções criminosas, tem alguns pontos de encontro fundamentais com "Breaking Bad". O mais óbvio é a relação de um criminoso com sua família. O limite moral de uma pessoa é elástico? Se rompemos com as leis e os limites no âmbito público, também o faríamos na esfera privada? Ambas produções tentam dar respostas para isso.
Em cinco temporadas Bryan Cranston sai da esquerda para a direita

Porém, há uma segunda correlação mais sutil que me chamou mais a atenção: o tal crepúsculo do Homem. Em que momento um mafioso começou a ter dúvidas sobre o que fazer na condução do seu negócio? Como fazer um professor de escola pública não se sentir aviltado diante de uma vida sem qualquer tipo de desafio? Como aceitar um enfadonho cotidiano casa-trabalho-casa, sabendo que esse é o futuro que lhe foi reservado até sua morte? Como achar bom que o seu presente de aniversário de 50 anos é receber um handjob da mulher enquanto ela participa de um leilão pela internet de objetos sem valor algum?

O que "Breaking Bad" mostra é que vivemos em uma sociedade sem qualquer gosto verdadeiro. Não à toa há a piada do bacon vegetariano logo no início da primeira temporada. Ficamos tão cientificamente cuidadosos com a nossa sobrevivência que nos esquecemos que viver requer algum tipo de risco. BB exagera nessa dose para exatamente acentuar as características que mais marcariam nossa sociedade: o infinito tédio, o cinismo cotidiano, a ironia como forma de vida.

Se os dois casos têm papéis masculinos como protagonistas talvez seja porque nós, homens, sofremos mais essa queda do Olimpo. Porque nunca tivemos muito tempo para dúvidas e nossas cobranças eram de caráter muito mais claro. Agora, para efeito de comparação, assim como os homens sempre exigiram mulheres ao mesmo tempo lindas e inteligentes, chegou a vez das mulheres exigirem híbridos de poetas e pedreiros. O resultado são relações de alta expectativa e baixa segurança.

Quando finalmente Walter White assume uma voz de comando, típica da do homem-masculino-alfa, em que ele pode se identificar com um passado nem tão longínquo, em que ele tem dinheiro, carrão e todos os ícones que identificam o arquétipo batido dos portadores do cromossomo Y, ele percebe, porém, que ultrapassou um limite e que não é mais possível voltar. Mesmo que ele não quisesse, ele estaria para sempre conectado com o que ele criou. Como um animal primitivo, ele avançou sobre seu destino, aceitou seu instinto e seguiu em frente inconsequentemente. Como um animal primitivo, se esqueceu de uma das lições mais antigas que a ciência, via Newton, ensinou para a humanidade há quase 500 anos: a toda ação, há sempre uma reação de mesma direção, intensidade e sentido oposto. Mas isso não é exatamente um problema. Porque, às vezes, para viver é preciso também morrer.

sábado, 2 de novembro de 2013

Mercúrio retrógrado - ou o planeta que faz moonwalk

Mercúrio, fotografado pela Nasa, que agora está fazendo
o Moonwalk
Recentemente saiu uma notinha em uma coluna de jornal. Depois, comentários no Facebook. Papos virtuais e físicos. Todo mundo confirmando o mesmo sentimento: o momento está generalizadamente complicado. Sem exceções, todos estamos sofrendo bastante. E o culpado dessa catástrofe seria um único fenômeno: Mercúrio retrógrado.

Não, meu querido e sonhado leitor, este mui humilde escriba não capitulou e começou a acreditar em horóscopo quiçá em astrologia. Nada contra, só mesmo uma incapacidade física para a crença, de toda e qualquer natureza. Problema de hormônios, deve ser. Por que, então, falar sobre esse fenômeno relativamente comum, que nada mais é que uma simples ilusão de ótica, mas que, segundo as informações dos crentes, influenciaria negativamente todos os habitantes da Terra, principalmente no que condiz à comunicação?

Porque se o fenômeno não explica as contínuas desavenças que acontecem, ele, ao menos joga luz para o óbvio: houve um aumento da tensão. Não sei se na Terra, não sei nem se no Brasil, mas suporia com força no Rio. Aumento dos índices de violência são constatados, depois de anos de queda. Crimes de uma crueldade grande, como o fulano que teve a cabeça cortada, ou o garoto que foi baleado em frente ao Fórum. Fora os constantes assaltos, furtos, brigas, discussões desnecessárias, confusões que presenciamos diariamente.

Dias desse, depois de ver a disputa entre taxista e motorista de ônibus, e o lutador de MMA bater como por esporte em um trombadinha, fui acordado recentemente aos gritos de "vou te matar", proferidos pelo contido [pelos colegas] taxista que faz ponto na esquina em direção a um dos bêbados-semi-mendigo [não é exatamente morador de rua, mas vive na sarjeta] que habitam as redondezas. Não deu em nada o bate-boca, aparentemente, mas o clima ficou muito, muito nervoso.

Qual é a origem, qual é a razão, então, desse aumento de tensão - se ele se confirmar - já que não é o Mercúrio retrógrado? Seria o verão já apontando na esquina? Seria o calor esquentando também o sangue nas veias? Eu vou sugerir algo diferente: uma decepção e uma frustração coletiva. E, novamente, as manifestações que desde junho inflamam as ruas na tentativa de sacudir o restante da cidade são os principais exemplos disso.

Mas vou além. Aparentemente, houve uma decepção, uma frustração generalizada com a terra prometida. Quando falaram que teria havido uma diminuição na disparidade entre ricos e pobres, se pensou que isso seria um ótimo passo em relação a uma cidade mais justa. Mas não é assim que se sente. Com o policiamento reforçado em favelas, também acreditamos que a violência diminuiria. Igualmente, uma ideia que não encontra muitos adeptos, principalmente para quem mora fora da Zona Sul carioca. Pensamos que o policiamento de "pacificação" seria apenas uma pequena ponta do iceberg num projeto social muito maior, encabeçado pelo estado e apoiado pelo município - outro tiro n'água. Nos venderam que a Copa e a Olimpíada nos transformaria em uma cidade organizada, de primeiro mundo! - e até agora só sofremos as consequências dessa suposta arrumação, com o aumento de trânsito, os preços estratosféricos, a hoje famosa gentrificação. Parecia, enfim, que teríamos, após séculos de governantes que ignoravam as vontades populares, políticos sérios e justos no poder, e percebemos que, novamente e como sempre, as promessas eram vazias.

Essa decepção generalizada com a coisa pública gerou um sentimento imenso de frustração que as pessoas estão canalizando da maneira que conseguem: em direção ao outro. Já que ficou o clima de que não adianta mesmo reclamar dos políticos, porque eles nem se mexeram para fazer qualquer tipo de votação relativa aos pedidos mais gerais [como a reforma política, por exemplo, ou, no caso específico do Rio, a CPI dos Ônibus], a raiva está sendo jogada pelas janelas em direção a quem estiver passando. Como se fosse uma batata assando.

O Mercúrio deixa de ser retrógrado e volta a andar "para frente" em breve, no dia 10 de novembro, segundo os astrólogos. A decepção, não. Que essa raiva, pelo menos, seja direcionada para, senão outras manifestações gigantescas como as de junho, ao menos, a eleição do ano que vem. Que acontece daqui a 11 meses, quando Mercúrio estará fazendo seu moonwalk de novo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reflexões sobre Arcade Fire e 'Reflektor'

Agora que já se passaram alguns dias do lançamento extra-oficial do novo disco do Arcade Fire, "Reflektor", já é possível se chegar a uma conclusão direta e pouco surpreendente em se tratando da banda canadense: que disco, meus amigos, que disco!

Seguindo uma tradição recente de fazer um grande suspense para o lançamento, que talvez tenha atingido o seu perigoso ápice com Daft Punk e o "Random access memories", lançado no já longínquo 21 de maio, os não mais tão meninos e nem tão meninas do Arcade Fire também foram divulgando as músicas em conta-gotas, nas últimas semanas.

Daí veio a faixa título, num vídeo dirigido pelo craque Anton Corbijn [que criou a estética de muita banda da década de 1980, de U2 a The Cure] e a excelente "Afterlife", que faz uma homenagem ao Orfeu de Camus, inspirado na peça de Vinicius, entre tantas outras músicas. Mas, de alguma maneira, apesar dessas duas músicas citadas terem clipes interessantes [o de "Afterlife" é lindo], parecia que alguma coisa ali "atrapalhava" a fruição da música. Agora, sem a imagem para "competir", podemos ver que, sim,  Win Butler, Régine Chassagne e cia. acertaram. De novo.



Se colocassem um arma na cabeça para me obrigar a dizer qual é a maior banda da atualidade, diria que é o Radiohead. Mas o Radiohead não é exatamente da minha geração - quero dizer, teria idade para acompanhá-los desde o início, mas eu não tinha idade mental para percebê-los lá pela metade da década de 1990. Já o Arcade Fire é a banda que eu acompanhei desde o primeiro disco. Vi crescer, por assim dizer.

O grupo da francófila Quebec [o que, por si só, já dá um caráter mais global às outras bandas de sua geração] apareceu no meu radar numa segunda onda de bandas independentes do século XXI, após a primeira enxurrada que trouxe, entre outros, Strokes e White Stripes. Eles chegaram a mim com uma outra banda que, para demonstrar como funciona essa questão do hype, eu nem me lembro mais qual era. Não quer dizer que esta segunda banda era ruim, [Foi o Bloc Party? Acho que não, acho que o Bloc Party veio depois, ainda.] mas que o Arcade Fire conseguiu se manter num auge contínuo, como se fosse possível, se renovando sempre, mas sem perder à conexão com eles mesmos. Eu até lembro que eu preferia a outra banda na época, por ser mais rock 'n' roll que o Arcade Fire, mas tudo mudou com um show a que eu assisti deles.

Era o saudoso Tim Festival, por sua vez, já uma mutação do Free Jazz. Eram também as minhas primeiras férias na vida. Para piorar, coincidiam também com um casamento de amigos próximos. Apesar disso tudo, não pestanejei: iria voltar das férias e assistir ao septeto [atualmente; na época, não sei], mesmo que precisasse ir de terno. E assim foi. E não me arrependi. Foi um dos melhores shows da minha vida. Logo de cara, já me fez pensar: "como assim eu ainda preferia a outra banda?". Eles subiram todos ao palco e ficaram em silêncio encarando a plateia por alguns míseros segundos, suficientes para hipnotizar quem estivesse embaixo. Começaram a entrada da música, ainda no escuro, baixinho, calminho, sem nervosismo, mas quando vem o momento "Oooooh, ooooh, oooooh, oooooooh, ooooooh...", as luzes se acenderam numa explosão e, aí, meu amigo, eles já tinham ganham completamente o jogo. Momento arrepio imediato, que só de assistir de novo arrepia novamente. A partir disso, o que fizessem ali - e eles fizeram muito, os caras chegaram a escalar a estrutura do palco! - era extra. O vídeo abaixo não dá nem um triscado do que realmente foi. Mas já dá para sacar:



Desde então, não consegui evitar acompanhar tudo o que eles fizeram. Quando reclamaram da soberba por terem gravado em igrejas, por conta da acústica, seu segundo disco "Neon bible", pensei, após ouvir o resultado, que o mundo, então, precisava de mais soberba - deste tipo de soberba que entrega o que promete. Quando lançaram "The suburbs" não precisei defendê-los de nada porque era um álbum intocável.

Aliás, se há algo que se repete a cada disco com o Arcade Fire é que eles não fazem, quase que como um milagre, música ruim. Não conseguem. Ao ouvir e assistir aos vídeos deste novo "Reflektor" pensei que, finalmente, tinham errado. Não era um alívio, nem uma decepção, era uma aceitação de que ninguém acerta sempre. Nem mesmo o Radiohead.

Mas aí que, talvez, more a grande diferença entre as bandas - além de todas as outras. Enquanto o Radiohead quer sempre experimentar, o Arcade Fire quer fazer canções bonitas. O nível de boniteza em suas músicas é muito, muito alto. Sempre é de uma beleza tão impactante, envolvente, quente, gostosa, feliz. Daí, talvez, a crítica pela soberba em "Neon bible". Pareciam estetas, sem sangue nas veias. Mas se para fazer músicas bonitas assim é preciso ser um pouco divino, e menos humano, eu, um simples ouvinte, autorizo. Que assim seja, então.

Às primeiras audições de "Reflektor", já sem as imagens para desviar meu foco, meu pensamento, minha percepção oscilou entre achar que era o disco mais rock 'n' roll deles, com direito até a riffs de guitarra, e o disco mais de pista, para dançar, com batidas mais retas, linhas de baixo mais evidentes. Como se fossem o elo perdido entre Joy Division e New Order, mas sem as nuvens pretas que cobriam o céu dos ingleses de Manchester. Como poderiam? A resposta para as minhas dúvidas, então, apareceu no nome do imenso [no talento] James Murphy. Ele, o homem por trás de nada menos que LCD Soundsystem, foi o produtor do disco. Tudo agora se explica. Eles são rock E também são dançantes. E também continuam produzindo músicas lindas, lindas, lindas que você não vai acreditar que são possíveis.

O que faz essa beleza toda, na minha humilíssima opinião, é a utilização, sem medo de parecerem grandiosos - e aí, novamente vamos nos aproximando de uma outra característica do Radiohead, que também não tem medo da grandeza - de inúmeros e diferentes instrumentos. Cordas são presença garantida em todos os álbuns, mesmo nesse, mais rock, mais dançante.

Outra vantagem dos canadenses logo de cara é a mistura das vozes masculina inglesa do californiano que cresceu no Texas Win Butler e da feminina francesa quebequense Régine Chassagne. É um contrabalanço entre alto e baixo. Grande e pequeno. Grave e agudo. Força e delicadeza. E as metáforas poderiam continuar. Na música título deste último disco, por exemplo, ela canta em francês um pedaço, e faz o backing vocal para ele. É uma camada perfeita para ele se exercitar.

Na segunda faixa, "We exist", além de barulhinhos eletrônicos, guitarra econômica, um baixo que parece saído de uma música do Michael Jackson, você encontra os violinos, ali. É como se eles juntassem o pueril, do entretenimento, do querer se divertir numa pista, sem se importar com o dia de amanhã, com uma necessidade de tocar mais fundo, com a vontade de emocionar. O final dele, em crescendo, com os violinos sustentando toda a música, é capaz de emocionar e fazer dançar - ao mesmo tempo - o mais duro das pedras.

Mas se você ainda tem espaço para se emocionar um pouco a mais, eles emendam com "Afterlife". Tecladinhos saídos de uma música disco da década de 1990. Bateria seca, simples, nada demais. Entra Win Butler: "Afterlife / oh my god, what awful word". Parece uma música simples, até que, ao fim da primeira estrofe, ele pergunta: "I've gotta know" - e aí começa de verdade. Percebemos que a simplicidade inicial é apenas a cama para a música, o tecladinho jamais vai sumir, mas ele vai ficar embaixo de uma camada de guitarras, de um coro simples, que tornam a música imensa, enorme. "But you say / Oh / When love is gone / Where does it go? /  And you say / Oh / When love is gone/ Where does it go? / And where do we go?  / Where do we go? / Where do we go? / Where do we go?"

"Afterlife" não é exatamente sobre a vida após a morte - ou não apenas. Mas sobre aquele momento em que estamos saindo de um amor e perguntamos: e agora? Como recomeçar? O clipe mostra isso bem.



Bem, poderia falar coisas bonitas de cada uma das canções desse disco, que virou uma pequena obsessão desde que o escutei pela primeira vez. Mas talvez possa resumir dizendo que estou cogitando mudar a resposta para o suposto homem atrás da arma, lá de cima, quando ele me perguntar "qual é a maior banda da atualidade?"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Questão de signo

Ele é um engenheiro. Trabalha em uma empresa de telecomunicação.
Ela é jornalista, faz, por falta de pessoal, o horóscopo, além da parte da TV.
Os dois têm pouco mais de 20 anos. Recém-formados. Ele um pouco mais velho. Ela, mais bonita.

***

Quando se olharam, quando as suas visões, os seus olhares, quando os os seus olhos, as miradas, se entrecruzaram pela primera vez, fez fogo, viu uma labareda cruzando o glóbulo ocular dela, subiu um arrepio pela espinha dele, que o fez balançar. Ficou sem ar e confuso. Encheu o ar de pulmões. Com sede, queria beber da saliva dela.

***

Ele frequentava a igreja. Lia o horóscopo. Queria acreditar. Tinha explicação para todas as suas dúvidas. Mas as dúvidas continuavam a aparecer. Não cessavam. Arranjava outras explicações. Ela não sabia o que escrevia. Apenas escrevia. Tinha feito, no máximo, um mapa astral. Tinha gostado. Mas, de um modo curioso, até para ela mesma, ela sempre, sempre, lia o que tinha escrito. No dia seguinte, fingia algo, disfarçava, e lia, como se fosse a primeira vez que ela tinha contato com aquelas palavras. E, de certa forma ainda mais estranha, era.

***

Pernas que brilham, pernas, coxas, que não são as mais grossas, são até finas, para os padrões, mas a pele brilha, como se fosse seda – essa metáfora batida, mas que funciona perfeitamente – a textura convida ao toque, os dedos querem afundar, como em uma colcha felpuda nos frios invernos da infância. Coxas que combinavam com o resto do corpo, se encaixavam perfeitamente ao quadril e aos joelhos, mostrando que o todo não sobreviveria sem suas partes.

***

“Momento de balanço na sua vida. Tente não se expor muito” – dizia o seu horóscopo. Libra, ele era de libra. Ela, escorpião. O que ela queria dizer para ele? Qual era o recado que ela estava colocando no horóscopo? O que é “não se expor muito”? Será que ele estaria...

“Hora de grandes transformações em sua vida. Prepare-se para a luta” – dizia o de escorpião. Era obviamente uma mensagem. Ela não estava bem com o relacionamento.

***

“Como assim, você não sabe o que escreveu?”
“Eu apenas escrevo qualquer coisa. Não fico reparando em qual signo isso vai cair. Você sabe que eu não acredito nisso...”
“Mas eu acredito!”

***

Terminaram o relacionamento, que nem tinha começado direito. O que o incomodava não era ela dar recados para ele via a coluna, não era fingir que não sabia de nada, mas a exposição. Como ele iria falar que acreditava em horóscopo e desconsiderar a coluna dela, a principal coluna de horóscopo da cidade? Era muita contradição. Não conseguiu lidar com isso. E cancelou a assinatura do jornal.

***

Ela pediu para mudar de seção, mas a chefe não deixou, alegando que havia recebido muitas cartas de leitores que disseram que a coluna atual era a melhor que o jornal já tinha tido. Para convencê-la, a chefe ainda sugeriu que ela assinasse a coluna. Nada de aumento, porém.

Ela pensou bem e aceitou, com a condição de que ela assinasse a coluna com um pseudônimo. E que fosse um segredo do jornal a identidade de Madame Solobugiavitch.