segunda-feira, 31 de março de 2014

Big data do cotidiano

Há uma expressão da informática que é, provavelmente, uma das melhores formas de se entender um dos mais assustadores aspectos do cotidiano no momento atual: big data. Se você não souber o que ela quer dizer, tudo bem, provavelmente só está sofrendo as consequências da própria expressão. Está soterrado com trocentas outras informações de algum outro assunto que, para você, é mais relevante. Mas qual assunto é o mais relevante para nos tomar a atenção?

Nos últimos dias, fomos informados, se a pesquisa está correta, que 65% dos brasileiros concordam ao menos parcialmente que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Quase ninguém reparou, entretanto, que a maioria das vítimas desse crime vive próximo dos criminosos, e 70% são crianças ou adolescentes. Nem que o número de estupros supera o de homicídios dolosos no Brasil. Só ficou discutindo o tamanho da saia da mulher, como se isso fosse o primordial.

Na semana anterior, tivemos nossa discussão sobre a votação na Câmara dos Deputados sobre o marco civil da internet, em que foram decididas, em primeira instância, as regras da rede. Nos últimos meses, o debate sobre os 50 anos do golpe militar foi pauta em todos os cantos. Coincidência, ou não, nesse fim de semana, militares voltaram a ocupar um espaço civil no Rio, com o argumento da segurança pública. Hoje, saiu o segundo capítulo do novo relatório do IPCC, sobre o aquecimento global, e as conclusões são - ainda mais - assustadoras.

Isso sem falar nos acidentes de carro, ônibus etc, que colocam o trânsito numa das principais causas de morte do Brasil. No problema de transportes públicos, em geral - sucateados e caros. No atraso das obras para a Copa. Na própria Copa. Na poluição das praias. Nos preços exorbitantes para a vida nas grandes cidades. No baixo crescimento da economia. No escândalo da compra da refinaria pela Petrobras. Nas próximas eleições. Na falta de bons candidatos... Na... Aaaaaaah.

Como sobreviver diante de tanta informação? Como saber quais são os assuntos realmente essenciais para que possamos prestar a atenção? Em que devemos nos aprofundar, para evitar tecer apenas platitudes? Como fazer uma hierarquia da coleção de desgraças que nos assolam?

Uma vez ouvi dizer que o Brasil vive pulando de crise em crise. Que não chegamos a resolver nenhum problema, apenas vamos mudando de preocupação, num exercício de ansiedade constante, que não deixa que passemos da superfície das questões. Não sei se é um problema nacional - mais um para a lista - ou do nosso tempo histórico. Certo é que nossa baixa confiança na representatividade oficial, que foi totalmente exposta nas jornadas de junho, piora nossa situação. Em quem confiar para resolver nossos problemas?

Também é certo que se eximir do debate público sobre esses e muitos outros assuntos só agrava a depressão em que nos metemos. Escondemos a realidade debaixo de uma fantasia de que não precisamos pensar sobre nada desses casos, até que a tsunami invade nosso condomínio fechado. Não vivemos fora do mundo. E é esse o mundo, cada vez mais complexo, que temos. Como lidar?

sábado, 29 de março de 2014

Protestos, Olimpíadas e violência... no México

De la misma manera que las epidemias medievales no respetaban ni las fronteras religiosas ni las jerarquías sociales, la rebelión juvenil anuló las clasificaciones ideológicas. A esta espontánea universalidad de la protesta correspondió una reacción no menos espontánea y universal: invariablemente los gobiernos atribuyeron los desórdenes a una conspiración del exterior. Aunque los supuestos y secretos inspiradores fueron casi los mismos en todas partes, en cada país se barajaron sus nombres de manera distinta.
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El sentido profundo de la protesta juvenil —sin ignorar ni sus razones ni sus objetivos inmediatos y circunstanciales— consiste en haber opuesto al fantasma implacable del futuro la realidad espontánea del ahora. La irrupción del ahora significa la aparición, en el centro de la vida contemporánea, de la palabra prohibida, la palabra maldita: placer, una palabra no menos explosiva y no menos hermosa que la palabra justicia. Cuando digo placer no pienso en la elaboración de un nuevo hedonismo ni en el regreso a la antigua sabiduría sensual —aunque lo primero no sea desdeñable y lo segundo sea deseable— sino en la revelación de esa mitad oscura del hombre que ha sido humillada y sepultada por las morales del progreso: esa mitad que se revela en las imágenes del arte y del amor. La definición del hombre como un ser que trabaja debe cambiarse por la del hombre como un ser que desea. Ésa es la tradición que va de Blake a los poetas surrealistas y que los jóvenes recogen: la tradición profética de la poesía de Occidente desde el romanticismo alemán.
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¿cuál es el verdadero tiempo del hombre, en dónde está su reino? Y si su reino es el presente, ¿cómo insertar el ahora, por naturaleza explosivo y orgiástico, en el tiempo histórico? La sociedad moderna ha de contestar a estas preguntas sobre el ahora —ahora mismo—.
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Desde hace cuarenta años, y especialmente en las dos últimas décadas, la economía del país ha hecho tales progresos que los economistas y sociólogos citan el caso de México como un ejemplo para los otros países subdesarrollados. En efecto, las estadísticas son impresionantes, sobre todo si se tiene en cuenta el estado en que se encontraba la nación en 1910 y las destrucciones materiales y humanas que sufrió durante cerca de veinte años de guerras civiles. Como una suerte de reconocimiento internacional a su transformación en un país moderno o semimoderno, México solicitó y obtuvo que su capital fuese la sede de los Juegos Olímpicos en 1968.
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Pero dentro del contexto de la rebelión juvenil y de la represión que la siguió, estas celebraciones parecieron gestos espectaculares con los que se quería ocultar la realidad de un país conmovido y aterrado por la  violencia gubernamental. Así, en el momento en que el gobierno tenía el reconocimiento internacional de cuarenta años de estabilidad política y de progreso económico, una mancha de sangre disipaba el optimismo oficial y provocaba en los espíritus una duda sobre el sentido de ese progreso.
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El movimiento estudiantil se inició como una querella callejera entre bandas rivales de adolescentes. La brutalidad policiaca unió a los muchachos. Después, a medida que aumentaban los rigores de la represión y hostilidad de la prensa, la radio y la televisión, en su totalidad entregadas al gobierno, el movimiento se robusteció, se extendió y adquirió conciencia de sí. En el transcurso de unas cuantas semanas apareció claramente que los estudiantes, sin habérselo propuesto expresamente, eran los voceros del pueblo. Subrayo: no los voceros de esta o aquella clase, sino de la conciencia general. Desde el principio se intentó aislar el movimiento tendiendo un cordón sanitario que lo aislase e impidiese el contagio ideológico.
Los dirigentes y funcionarios de los sindicatos obreros se apresuraron a condenar, en términos amenazadores, a los estudiantes; lo mismo hicieron, aunque con menos violencia, los partidos políticos de la izquierda y la derecha oficiales. No obstante la movilización de todos estos medios de propaganda y de coacción moral, para no hablar de la violencia física de la policía y el ejército, el pueblo engrosó espontáneamente las manifestaciones juveniles y una de ellas, la célebre “manifestación silenciosa”, agrupó a cerca de cuatrocientas mil personas, algo nunca visto en México.
O texto de Octavio Paz sobre o massacre na praça Tlatelolco, "Olimpíada e Tlatelolco", em que morreram - extraoficialmente - 325 pessoas, é tão bom que dá vontade de copiar todas as seis páginas. De uma atualidade às vezes desconcertante, como se não restasse nada para nós, para sermos um pouquinho originais. Principalmente se considerarmos as semelhanças entre a situação político-econômica do México em fins da década de 1960 e o Brasil do início dos 2000s. E que o México, assim como o Brasil, foi escolhido para sediar os dois principais eventos esportivos do mundo, em um intervalo de apenas dois anos. A diferença, talvez, fique no fato de que aqui as mortes policiais vêm no varejo, quase nunca no atacado.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O fim do senso comum

No livro "Entre o passado e o futuro", dona Hannah Arendt diz, lá no "A crise da educação", que a ausência do senso comum é uma das maiores provas da nossa crise atual - ou da época, fim da década de 1950. Isso fica fácil de enxergar quando vemos qualquer discussão sobre assuntos bipolares, como é o caso do golpe de 1964, para usar um exemplo exagerado, ou mesmo, para ficar no assunto educação, a liberdade ou segurança na hora de transmitir conteúdos para as crianças. Devemos falar o que e quando e como para os pequenos?

Como não há mais parâmetros óbvios, ficamos na dúvida em relação aos limites que podemos impor - em todos os aspectos. Será que devemos dar o máximo de liberdade para os cidadãos? Mas o máximo de liberdade não afeta ao outro, necessariamente? Se eu tenho, por exemplo, a liberdade de ouvir música alta até a hora que eu quiser, eu não atrapalho o meu camarada que gosta de dormir mais cedo? Qual é a solução - o limite - para isso? Qual é o sinal que se acende quando vou ultrapassar a fronteira da minha liberdade para a do outro?

Todas as vezes que eu vejo pessoas defendendo a "mão invisível do mercado", para falar mal do governo e defender o liberalismo extremo, eu penso no trânsito. Será que conseguiríamos sobreviver muito tempo sem o ente superior - no caso, representado pelos sinais de trânsito? Não é bastante óbvio que, neste exemplo, o ato de ignorar o Leviatã mais atrapalha que ajuda? E, se admitirmos que, neste caso,  precisamos de alguma regulação superior, de algum código de conduta, de algo que podemos determinar como o certo, o melhor para todos, como determinaríamos quais são os outros assuntos que precisamos de regulamentação e quais não?

Por outro lado... Se escolhermos sermos regulamentados a todo o momento, se tivermos todos os nossos passos legislados... isso resolveria os nossos problemas? Para começar, as pessoas são presas, no Brasil, a grosso modo, por meia dúzia de crimes. O restante da legislatura parece ser feita - o que já virou até cotidiano - para inglês, mesmo que nascido no Brasil, ver.

E não estou defendendo aplicar totalmente as leis: somos o quarto país que mais encarcera no mundo - mas não somos, nem de longe, o quarto mais seguro. Como se sabe, nossas prisões não ajudam na transformação dos homens e mulheres que lá entram - ao contrário. Além disso, você, você aí que está sentado na sua confortável cadeira / sofá, você conseguiria passar um dia sem quebrar alguma regra, alguma lei, algum tipo de regulamentação? Lembre-se que, no Rio, é passível de punição até quem portar mochila às costas nos elevadores. A verdade é que não temos noção do que é legal ou ilegal, no nosso cotidiano, e ficamos à mercê dos preconceitos dos homens que são a ponta do aparato jurídico: os poliça.

Além disso, mesmo que soubéssemos todos os nossos direitos e nossos deveres, todos, sem tirar nem pôr, isso seria o suficiente? Porque abundam na história casos em que os regimes de exceção, de terror, foram apoiados, ou melhor dizendo, se basearam em uma legislação vigente, ou que se construiu para dar-lhe suporte. Se quiserem um exemplo, podemos dar o regime militar - que foi apoiado por uma boa parte da sociedade, e principalmente da elite - instaurado em 1964.

Devemos ainda nos lembrar que há casos em que há um arcabouço teórico onde os donos do poder buscam auxílio para respaldar suas atitudes. Ou se cria algo para dar o apoio. Ou muda-se a interpretação - caso clássico de Nietzsche e o nazismo. Não é a letra fria da lei - ou da teoria - que devemos levar em consideração. Ela pode envelhecer, perder importância, ou ser criada, modificada, reapropriada apenas com o fim de legitimar algo que pareceria ilegítimo.

Mas se não podemos confiar no indivíduo, isolado, fora da sociedade, que nos diz que a liberdade é o fim de todos, homens-e-mulheres, já que é difícil saber onde a liberdade de um acaba para a do outro começar, nem na presença de um ente superior - que foi Deus, depois [sem ordem] a ciência, o Estado, a Justiça, etc. - o que nos sobra? O senso comum. Mas o que seria isso? E, como apontou Hannah Arendt, como sobreviver sem ele?

Em primeiro lugar, seria interessante levantar a hipótese: será que já houve em algum momento da História algo como o senso comum? Ou seja, será que houve um tempo em que homens-e-mulheres dividiram um conjunto de códigos e regras que não precisavam ser ditas, mas que eram compartilhadas por todos-todas? Bem provavelmente não. Mas já houve regras não escritas em que a grandiosa maioria respeitava. Pense na moda, por exemplo, e somente para dar um exemplo colateral, que conseguimos enxergar isso. Como a moda era uníssona há 100, 150 anos, e como ela se transforma, cada vez mais, em algo difuso, difícil de ser apreendido dentro de uma única explicação. A própria moral cristã era uma regra que não precisava ser imposta - apesar de ser imposta - para as pessoas [hipocritamente] respeitarem - ou arranjarem um jeitinho de burlarem.

Hum. Pensando melhor, talvez a ideia de senso comum não se aplique ao Brasil. Nunca tivemos uma ideia do pertencer a algo maior que nós mesmos, a uma ideia de comum, de comunidade. O Estado sempre foi visto como aquele que atrapalha, pelos ricos, ou que persegue, pelos pobres. Estamos há 200, 300, 500 anos tentando descobrir uma forma de lidar com o outro, desde que o outro não não invada nossa individualidade. Aqui, parece que sempre foi um cada um por si. E deus contra todos.

Talvez devêssemos alçar aquela música do Chico a nosso verdadeiro hino nacional: "Mesmo com o todavia, com todo dia / Com todo ia, todo não ia / A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando / A gente vai levando essa guia".

Ou descobrir que nem só a liberdade, nem só a segurança resolveriam nossos problemas. Mas atitudes que fossem permeadas pelos dois parâmetros, à medida da necessidade, do possível. Ou melhor, do bom senso comum.

terça-feira, 25 de março de 2014

Foucault, Manet e os espelhos

Foucault deu uma série de palestras sobre a pintura de Manet, na segunda metade de 1960, o apontando, talvez conscientemente, talvez instintivamente, como uma resposta ao Velázquez, ou melhor dizendo, como se fossem artistas gêmeos, perdidos no tempo, e nascidos em outro espaço - se eu entendi bem [o que eu duvido]. Para Foucault, o que Manet faz é aceitar o quadro como um objeto que existe, não um ente que quase milagrosamente está em determinado lugar, reproduzindo determinada imagem. Foucault levanta dois [ou três] aspectos para comprovar esse argumento.

"Manet réinvente, ou peut-être invente-t-il, le  tableau-objet, le tableau comme matérialité, comme chose colorée que vient éclairer une lumière extérieure et devant lequel ou autour duquel vient tourner le spectateur."

O primeiro é a tentativa de inserir em seus quadros linhas verticais e horizontais, em elementos pictóricos, para representar, ou ecoar as próprias dimensões da tela. Como se ele apontasse, com esses elementos, os limites entre o pintado e o não pintado, como se mostrasse consciência sobre ser este um quadro, portanto criado por alguém, com algum tipo de intenção, e não um objeto que simplesmente apareceu completamente sem referência anterior.

O segundo tem a ver com a luz, e o primeiro exemplo que Foucault dá é o quadro intitulado "Le fifre", o pífano. A iluminação - que desde o quattrocento italiano sempre seria, segundo o francês, indicada dentro da própria tela - aparece do lado de fora do quadro, na posição em que o espectador está, como se apontasse para a continuação, ou o início da pintura ainda fora dela.

Em "Le déjeuner sur l'herbe", há ainda a posição da mão do personagem central, que indica as direções de onde viriam os dois pontos de luz. Há uma artificialidade, para reforçar o caráter de produção, não de mero acaso, ou de algo "natural", da arte. A pintura, assim, se distancia de uma tentativa de cópia do mundo para uma tentativa de re-produção.

Além disso, Foucault também faz questão de lembrar da posição de determinados personagens nos quadros de Manet, que observam sempre o lado de fora da tela, mas em ambos os lados, seja na direção do espectador, seja para trás do quadro. É o caso, por exemplo, de "La serveuse de bocks".

Mas o principal ponto de Foucault é sobre a posição do espectador nos quadros de Manet. O exemplo principal para ilustrar isso seria "Un bar aux Folies-Bergère" [abaixo], em que o pintor convida o espectador a ocupar dois lugares diferentes - logo em frente à garçonete, ou tentado enquadrar seu reflexo. Foucault sugere que há uma necessidade de o espectador tomar uma decisão de onde vai ver a tela, já que não haveria uma posição "correta" para isso. Isso força o espectador a um atitude mais ativa em relação ao quadro, percebendo o engenho do pintor. E adiantando uma das questões mais importantes da arte no século seguinte, a interação, cada vez mais próxima, entre o produtor e o espectador, a ponto de essas fronteiras, hoje em dia, estarem embaçadas.


Curiosa a presença de um espelho nesta obra de Manet - elemento que também aparece em "Las meninas" e que, de certa forma, pode ser uma metáfora, por si só, para a natureza da pintura. Também é curioso que o livro que aparece sua interpretação sobre o quadro de Velázquez comece com uma citação de Borges, que é conhecidamente um homem que tinha com os espelhos uma relação quase mitológica. Borges, um homem literato, com pouca participação em outras áreas - escreveu roteiros com Bioy Casares, gostava de milongas, raramente citava pintores - tinha um pavor seminal dos reflexos. Não dá para passar despercebido o fato de o argentino, entretanto, ter ficado cego muito novo. E que as pinturas são produções artísticas essencialmente visuais, como ressalta outro francês, Merleau-Ponty. Acho que deve ter alguma relação aí escondida.

sexta-feira, 21 de março de 2014

As causas das violências

Este tipo de manipulação [política] que implicou na reabertura do campo de possibilidade para o passado, impede que a História desempenhe a sua função, pois o repertório de opções é o campo do futuro e o papel da História é registrar os feitos e acontecimentos decorrentes da política a partir dos quais se entreabre a estabilidade do possível agir futuro. Esta situação gera ao ceticismo, pois a persuasão e a violência podem destruir a verdade factual, mas não a substituem, pode que os seus fluxos carreiam uma instabilidade permanente. Daí a importância de alguns mecanismos de defesa da verdade factual, criados pelas sociedades modernas, fora dos seu sistema político, mas indispensáveis para a sua sobrevivência, como a universidade autônoma e o judiciário independente. Daí também o fenômeno da violência contemporânea, sobretudo no momento atual norte-americano [1972] ou na Europa de 1968, em cuja raiz se encontra, como aponta Hannah Arendt em On Violence (1970), uma reação contra a hipocrisia da manipulação de opinião e um apetite pela ação que recoloca o problema da liberdade.
Celso Lafer, no prefácio de Entre o passado e o futuro, de Hannah Arendt. Foi escrito em 1972, como se vê acima, mas poderia ter sido ontem.