domingo, 22 de março de 2015

Epidemia de opinião

É quase uma contradição dizer que vivemos em uma epidemia de opinião. Melhor dizendo: é uma contradição. Mas alguém tem que incorrer nessa contradição na tentativa certamente vã de acender não mais uma luz amarela, mas algo ainda mais intenso que o vermelho. O sacrifício é por conta da casa.

O momento é de grande confusão de vozes, de um emaranhado de chiados como uma sobreposição de distorções. Todos falam e poucos se escutam. Todos opinam, poucos leem outras opiniões. Todos escrevem grandes tratados no Facebook, poucos frequentam ambientes contraditórios. Todos são autores, poucos são leitores. Todos têm certezas, poucos duvidam de si. Todos são portadores de alguma verdade, poucos são aqueles que desconfiam daquilo que sabem.

Temos que ter alguma solidez para cumprir nossas metas cotidianas, sem dúvida. Alguma coisa que nos faça levantar da cama e enfrentar oito horas de trabalho nem sempre recompensador, chefes às vezes pouco amigáveis, salários quase nunca abonados. Seja o lazer que o dinheiro suado proporciona das noites de sexta à música de abertura do "Fantástico", a compra de um apartamento de dois quartos, duas vagas na garagem e churrascaria na varanda, ou o futuro de engenheiro, advogado ou médico dos filhos. Também não cabe ficar, a todo momento, duvidando se estamos certos ou errados em relação às nossas decisões. Por que temos que pensar se votamos corretamente, se poluímos o planeta, se estamos ajudando o mundo, se só pensamos em nós mesmo, se o egoísmo é a única forma de convivência dentro de uma cidade caótica? Certezas são importantes para o cotidiano, sem dúvida. Mas não duvidar de si, em nenhum momento, nos torna pouco maleáveis, nos estabiliza, nos estaciona no tempo. O que pode ser um problema para um mundo que corre cada vez mais veloz.

Se a era moderna recebeu como epígrafe um trecho do famoso monólogo de "Hamlet", o tal "Ser ou não ser, eis a questão", que simbolizaria a dúvida existencial do ser humano frente à infinidade de possibilidades que a vida lhe traz, o momento atualíssimo nos parece trazer um outro temperamento, não mais baseado numa peça de teatro, mas em personagens de videogames: somos imaginados como personagens estanques, com três estrelinhas na característica de velocidade, meia estrelinha nas habilidades de lutas, duas estrelinhas na quantidade de força, quatro coraçõezinhos cheios de vida e três armas de calibres cada vez maiores. Diferentemente dos personagens dos games atuais, não temos "continues" infinitos nem podemos salvar uma fase para voltar depois.

Determinado nosso caráter, como uma escolha customizada num guarda-roupa virtual, a partir das nossas mais variadas formações e defesas, o próximo passo é bradar essa escolhas fixas. O facebook se transformou em um canal interessante para isso, principalmente por conta de seu algoritmo que vai, aos poucos, filtrando opiniões contrárias às suas. Quanto mais nos afirmamos, mais angariamos curtidas, que no linguajar atual quer dizer reconhecimento. O se expressar, podemos suspeitar a partir disso, está ligado diretamente à construção da nossa própria imagem. Pensamos ser o que escolhemos ser, o que pudemos escolher ser, e o espelho da internet só nos mostra o reflexo de Narciso.

É possível suspeitar, porém, que o mundo seja mais flexível, mais multifacetado, do que nos mostra a nossa própria vontade de ser. Não basta construir família, ser bem sucedido, viajar para lugares cada vez mais exóticos, fazer parte de um programa social que ajuda os menos afortunados no fim de ano, para sentir esse sentimento que o seu Aristóteles chamou de "eudaimonia", palavra complicada de traduzir, que recebeu versões bem diferentes no português que vão da simples felicidade, passando pelo "bem-estar" e chegando ao "desenvolvimento humano". É complicada porque "felicidade" não é um porto de chegada, não é uma linha final, não é a completude de uma caminhada. Se você acredita nisso, você pode se considerar devedor das religiões que acreditam em paraíso. Mas, pense: qualquer ambiente que não se modifica, que permanece o mesmo, é, em pouco tempo, absorvido, se torna sem vida, chocho, sem graça. Mesmo a melhor das festas não pode durar naturalmente para sempre. Ela tem que acabar. Todo o carnaval tem que ter o seu fim.

Se você, ainda assim, se mantém muito seguro de suas certezas, de suas verdades, é bem provável que vai gritá-las para, inclusive, se convencer delas. O pensamento quando transformado em palavras e sons é mais poderoso que quando apenas isolado dentro da cabeça, onde fica matutando, maturando, batucando, indo de um lado a outro como um pinball. Ao se tornar expressão, o pensamento se cristaliza, se transforma, mesmo que momentaneamente, em uma verdade. Fixa, imutável. É possível se apoiar nela. Você, que quase duvidou de si mesmo, tem que se apoiar nela. É sua única jangada no meio de um oceano nada pacífico.

Há ainda os que acreditam que essa difusão de vozes cada vez mais violentas e em volume mais alto seria apenas a indicação de uma muito incipiente formação do novo tipo de praça pública, agora virtual. Um lugar onde estaríamos debatendo para chegar aos nossos melhores consensos possíveis. O problema é que ninguém quer abrir mão de suas convicções, porque elas não são apenas opiniões, elas são a Verdade - ditadas por deus, o diabo, o pastor, a globo, o colunista da veja, o site patrocinado pelo pt, o meme do facebook, o vídeo do whatsapp.

Inventamos uma nova forma de interação: em vez de diálogos, diversos monólogos. O "eu" vem sempre à frente do "tu", do "ele" e só não vem à frente do "nós", caso o "nós" envolva gente muito, mas muito próxima mesmo, porque o pirão deve ser servido para mim primeiramente, mesmo se a farinha estiver sobrando. Nesse tempo de epidemia de opinião, descobrimos o óbvio: não há forma de conversar quando todos só falam.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Rio 450 anos: o que temos para comemorar?

Em qualquer viagem, é inevitável fazer comparações com o seu país, seu estado, sua cidade. Você fica pensando, a cada curva no mapa, a cada estátua desvendada, o que é diferente da sua casa e o que é igual de todos endereços tão familiares. Tenta fazer uma brincadeira de espelho e encaixar a alameda da sua casa dentro da avenida do hotel. Colocar o boteco no pub. A Medina na favela. O Cristo na Torre. Lembra da dificuldade de tomar um ônibus na hora que enfrenta a dificuldade de tomar um trem. Percebe os tempos - longos, curtos, médios, ondulados. Os gostos. As temperaturas. Os cheiros que te remetem para as memórias mais longínquas, em cascatas. As pessoas andando nas ruas. Como se olham. Como se tocam. Como se vestem. Você compara, converte, mede com uma fita métrica do seu bairro, tenta falar com o mesmo alfabeto, léxico e gramática que você usa cotidianamente. É uma tentativa de tornar próximo aquilo que é, a cada momento, estrangeiro. Isso tudo acontece sempre, sempre que você toma um avião para sair do mesmo lugar de sempre. Mas uma viagem a Lisboa multiplica esse sentimento exponencialmente. São tantas familiaridades, tantos traços em comum, que às vezes o caminho é exatamente o oposto: o que temos de diferente?

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Quando Pessoa, travestido de Bernardo Soares - o heterônimo mais próximo do autor, segundo os entendidos -, diz que a sua "pátria é a língua portuguesa", percebo o quanto temos - portugueses e brasileiros - de diferente aí. O contexto da citação até pode não ser exatamente este, mas pode-se sugerir que há, aí, um elogio da literatura, da palavra escrita. Dessa tradição tão europeia de passar as suas histórias e a História ao longo do tempo por essa mídia chamada papel. Língua, literatura, cultura escrita, essa tradição tão vindo nas caravelas para o resto do mundo.

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Os brasileiros não podemos - no sentido de "deveríamos" - falar que compartilhamos a mesma pátria. Nossa pátria não é formada das mesmas letras, nem da mesma terra. Temos, sim, essa herança, o que é inegável  - e a capacidade de se emocionar ao ler o próprio Pessoa nos mostra o quanto deste passado está presente.

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Se pudesse sugerir onde fica nossa pátria, eu arriscaria: na música. É lá onde o povo-popular se encontra. Foi lá que o Brasil oficialmente desobedeceu os impostos ibéricos de maneira mais clara, e tal qual Édipo, começamos a caminhar, cegos e sozinhos (mas qual caminhar sozinho não é uma metáfora para a cegueira?).

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Não quer dizer que não tivemos Glauber, Machado [Machado!], Oiticica, todos grandes Macunaímas. Mas é na música que estabelecemos mais claramente nossas fronteiras sentimentais nacionais. E, de certa forma, é o que nos mantém unidos.

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Isso mostra como nós somos diferentes da tradição estritamente europeia. Todo país europeu tem o seu Cervantes, Goethe, Shakespeare. Nós, claro, temos Machado, temos Drummond, que as pessoas adoram tirar fotos e arrancar seus óculos, mas a representatividade da literatura em nosso cotidiano é irrisória. Pense, como um entre tantos exemplos, em nossas tiragens para lançamentos de um livro grande [sem ser um Paulo Coelho ou "50 tons de cinza" da vida] e compare com o que acontece em Portugal.

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Nossa tradição tem muito, mesmo que nós, brasileiros-preconceituosos, não queiramos, de índio e africano: somos muito mais corpo que alma. Muito mais rua que casa. Somos muito mais ginga, requebrado, rebolado. Samba, xaxado, afoxé. Mesmo o pessoal mais ao sul, mais ligado à Europa. [E, sim, estou generalizando para efeito de divagação.] Nosso pensamento não é cartesiano. Nosso tempo não respeita o horário. Nossas estações são diferentes. Não somos europeus em exílio, como disse Borges sobre sua Buenos Aires - e ele mesmo estava errado.

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Por isso não entendo a comemoração dos 450 anos do Rio. Quer dizer, entendo, mas não concordo. Comemorar o quê? Comemorar o início de uma cidade que tentava ser europeia? Comemorar o marco inicial da expulsão dos índios que aqui estavam? O genocídio? A destruição do sistema ecológico daqui? O maior porto de escravos das Américas? A elite que sempre governou para a própria elite?

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O pessoal do andar de baixo teve que se virar. A necessidade de sobrevivência fez com que eles criassem, inventassem, transformassem a massa que era entregue para eles em algo novo. Sem muito planejamento, sem muita visão do todo, sem pensar muito no amanhã. Era o que tinha para aquele hoje. Tinham que desviar das pedras e pedregulhos e montanhas no meio do caminho.

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O que ficou disso, o que é comemorado agora nos 450 anos? O folclórico, o vazio, o malandro sem malandragem, o sambista de panamá da Uruguaiana e camisa listrada azul pronto para se exibir para a câmera do turista gringo. Falta sangue nas veias. Mas não falta nas ruelas.

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Perto da minha casa, o filho do Andrei Bastos, que eu tive a honra de entrevistar certa vez, Alex Schomaker Bastos, foi assassinado por assaltantes. Os pais e amigos do menino fizeram uma homenagem a ele, com cartazes colados no ponto onde ele esperava o ônibus. Parece que os cartazes foram retirados, mas a família colou tudo de novo. Agora, há uma patrulhinha parada ao lado para dar mais "segurança" ao lugar. E o prefeito prometeu transformar o lugar e construir uma pracinha. No primeiro caso, uma medida paliativa que apenas empurra o problema da violência para alguns metros adiante ou para trás. No segundo caso, uma medida hipócrita.

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O que temos para comemorar? A Baía de Guanabara e as praias constantemente poluídas? Os ônibus caríssimos e ineficientes? As contas dos donos das empresas de ônibus na Suíça? A violência em crescimento vertiginoso nas áreas menos privilegiadas? A crise de abastecimento de água? O futebol e as escolas de samba caídos em descrença? O custo de vida estratosférico e subindo? O prefeito mentindo sobre as obras para as Olimpíadas? A inexistente herança da passagem da Copa do Mundo? O que temos para comemorar?

quarta-feira, 4 de março de 2015

Para lá e para cá de Marrakesh

Andar pelas ruas da Medina de Marrakesh assusta às primeiras passadas de um turista acostumado com a organização das cidades europeias contemporâneas. A melhor e a mais simples definição é a de um labirinto, "maze" em inglês, que faz lembrar a origem da palavra "amazing". Um espanto. São ruelas, e ruelíssimas, que levam a lugar nenhum, ou a casas de pessoas que vivem suas vidas como viviam seus antepassados há dezenas de dezenas de anos. São pequenas vias onde passam burros, motonetas e até carros de pequeno porte. Onde os verdureiros dividem espaço com o senhor que só fala berber e vende arruda e alecrim murchos que parecem ter sido colhidos há dias em sua própria horta. São lojinhas de quinquilharias em que os atendentes não lembravam como se chamava fósforo em francês. Vendinhas de frutas onde pode-se encontrar uma criança de 9, 10 anos carregando uma faca com um papelão fazendo as vezes de punho, para cortar um cacho de bananas que será devida ou indevidamente, não se sabe, pesado numa balança antiga que ele mesmo segura. E há os souks, os mercados intrincados, em zigue-zague, com vários boxes, onde se encontra todos os produtos tradicionais do norte da África: chá, temperos, tecidos, couro, artesanatos, pinturas, açougue, etc. Perder-se na Medina é uma regra e, após o costume, uma regra bem-vinda.

A Medina é como um bairro histórico, preservada à maneira marroquina, dentro da grande cidade que é Marrakesh. Do lado de fora dos seus muros, parece uma urbe qualquer. Ocidentalizada, europeizada, americanizada. A Globalização é uma troca desigual de forças. Sair da Medina faz lembrar "A vila", o filme de Shyamalan. Pulamos alguns séculos de um instante para o outro.

Essa região cresceu em volta da Jemaa el-Fna, a praça central que por séculos reúne todo o tipo de gente do Marrocos e além. Sempre um lugar de concentração. O coração da cidade. No final do século XIX, parece, tentaram transformar o lugar para um estacionamento. Não deu certo e as pessoas continuaram a frequentá-la. De dia, vendedores de suco de laranja, frutas secas, encantadores de serpentes, malabaristas, videntes, poetas e contadores de história que repetem os relatos ouvidos há gerações. De noite, restaurantes que vendem os tradicionais tajine e cuscuz, mas também frituras de frutos do mar, espetos de todos os animais, cabeças inteiras de novilho - onde as famílias marroquinas se reúnem nos fins de semana para apreciar a iguaria, como se num estrela Michelin, e quase ninguém fala francês (uma exceção no lugar em que quase todos os atendentes conseguem arranhar ao menos algumas palavras em muitas línguas).

O preparo da cabeça do novilho, à vista de todos, é de espantar. Coloca-se inteira dentro de um panelão, onde será cozido, num caldo feito com os ossos de outras cabeças e especiarias. Após, corta-se ao meio, em sentido meridional, arranca o couro, e se retira todas as carnes moles: bochecha, língua, cérebro. Corta-se até o triturar e joga-se tudo dentro de uma panela com um caldo para refogar. Na versão "mixture", come-se com pão e sem talheres. Aconselha-se estar com a mão, direita, limpa. O guardanapo parece os papéis de refugo dos jornais que cobrem mesas dos bares mais tradicionais do Rio. Espalha em vez de absorver a gordura. O prato não surpreende: é excepcional.

Marrakesh é a última cidade importante do Marrocos (é uma das cidades imperiais) antes da chegada ao Saara. Para lá de Marrakesh, o deserto-mor. Para lá de Marrakesh, a África negra, o coração das trevas. Os europeus, pode-se suspeitar, tinham receio de ultrapassar essa fronteira - mais um motivo para nos espantarmos com a coragem dos portugueses, que iniciaram a circunavegação da África nos primórdios do século XV, quase como uma continuação das guerras de reconquistas. Parece que se empolgaram.

Andar por esses becos e travessas é uma afronta ao pensamento único ocidental. Tão próximos da Europa, e ao mesmo tempo tão distantes. As ruas tortuosas que funcionam de um jeito menos organizado se os mirarmos pelos nossos olhos cartesianos, limpinhos e assépticos, são metáforas imperfeitas, como todas as metáforas. Lembram favelas. Lembram a área de Londres anterior ao incêndio de 1666, o que faz pensar o quanto esse grande fogo não teria sido proposital para fazer uma "higiene social". Lembram um mundo antes das revoluções, principalmente antes da revolução científica, que tudo calcula, tudo metrifica. É uma organização orgânica, que cresce à medida que a necessidade exige. Não há planejamento. Há sobrevivência. Há uma inteligência que se pode encontrar, em menor ou maior grau, em lugares pobres: ginga, malandragem, balanço. Um raciocínio mais intuitivo, mais ligado à corporalidade.

Isso não quer dizer que a Medina de Marrakesh é o melhor lugar para se morar - porque não é. Nem próximo. É, isso sim, um desafio a uma imposição de se comportar, e pensar, de uma única e exclusiva maneira ao redor de todo o globo. É um grito para dizer que não devemos seguir as mesmas regras, que não devemos respeitar o mesmo tempo, que o Ocidente, a Europa, os EUA não dão conta - nunca deram - de todo o mundo. É a tentativa de mostrar que outras formas de viver são mais que possíveis, são necessárias.

O projeto hegemônico ocidental-europeu-norte-americano chegou, ou, ao menos, deveria ter chegado, ao seu fim.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O deus Billy Wilder ou quando ficamos tão caretas?

Chamado ao palco para receber o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1994, o diretor espanhol Fernando Trueba pegou a estatueta das mãos de Anthony Hopkins e fez um discurso quase tradicional. Começou agradecendo as pessoas de sempre e terminou com uma frase que ficou famosa: "Eu gostaria de acreditar em deus para agradecê-lo, mas eu só acredito em Billy Wilder. Por isso, obrigado, senhor Wilder". Dizem que Wilder, que era um senhor de 88 anos à época, no dia seguinte ligou para Trueba e, quando o espanhol atendeu, falou: "Alô, aqui é deus". Não foi a única vez que ele foi confundido com o todo-poderoso.



Michel Hazanavicius, diretor de "O artista", também foi outro que, em vez de uma santíssima trindade mais tradicional, decidiu citar três pessoas em uma em seu discurso pelo Oscar de melhor filme em 2012: "Eu queria agradecer a Billy Wilder, eu queria agradecer a Billy Wilder e eu queria agradecer a Billy Wilder". Dessa vez, o diretor nascido numa pequena cidade no então império austro-húngaro já não estava mais neste plano, mas deve ter tentado fazer um interurbano de onde se encontra, à direita de si mesmo.



O que faz esse cineasta que não tem a obsessão e o perfeccionismo de um Hitchcock ou a grandiosidade de um Orson Welles, para citar dois outros cineastas que fizeram carreira prioritariamente nos EUA, um de uma década anterior e outro de uma posterior, ser assim tão reconhecido? É um dos mais premiados pela academia, seus filmes são todos razoavelmente perfeitinhos, corretos, nunca erra, nunca exagera, nunca faz algo que poderia ser visto como de mau gosto. É quase quadrado, se ele não desafiasse a moral vigente em todos os filmes - mesmo os mais banais - que ele escreveu, depois dirigiu e, por fim, produziu. O que faz dele, então, um deus?


Samuel "Billy" Wilder é primeiro um escritor. Começou como jornalista, depois passou para os roteiros, ainda na animadíssima Berlim de Brecht, de Schönberg e da Bauhaus, onde viveu depois de ter crescido em Viena, a então capital do império da casa dos Habsburgo. Com a subida de Hitler ao poder, foge, primeiro para Paris, depois para os EUA, onde vai procurar emprego em Hollywood. Trabalha numa espécie de indústria de roteiros e se identifica com o único diretor de grande nome a se tornar também chefão de um estúdio, Ernst Lubitsch, que vai se transformar em seu deus particular. É com Lubitsch que faz seu primeiro roteiro de grande sucesso: "Ninotchka". É neste filme que Greta Garbo não apenas deixa de lado o drama como abertamente gargalha numa gag de comédia pastelão.

Ninotchka from laregoladelgioco on Vimeo.


Nesse filme de 1939, aparentemente bobo, Wilder já mostrava alguns dos seus milagres. Primeiro, essa falsa impressão de puerilidade. Filmada em uma Paris resplandecente de antes da Segunda Guerra, o longa mostra um cômico trio de russos enviados numa missão oficial para a França para vender joias da aristocracia apreendidas pelo governo socialista. O empreendimento não dá muito certo e Garbo, uma funcionária burocrática muito séria, chega para resolver os problemas. Ela se encontra com um playboy galanteador francês que vai mover o mundo - quase literalmente -, quebrar algumas regras diplomáticas, e usar todo o seu charme para conseguir amaciar o coração de Ninotchka. Durante o processo, as irônicas farpas cômicas atingem todos os lados: a frivolidade da aristocracia falida, a censura e a rigidez do socialismo real, o esbanjamento e a desproporção social do capitalismo liberal. Todos os lados são atingidos. O objetivo é caçoar da caretice e fazer graça de todo mundo.

O cineasta vai repetir alguns desses elementos em "One, two, three", filme que mostra a tensão entre a Berlim Oriental e a Ocidental, logo no momento em que o muro foi construído. O trio de russos está de volta. As piadas tanto à esquerda quanto à direita, idem. O personagem sério que vai se afrouxando, igualmente. Esse tipo, aliás, Wilder já tinha usado ainda em "A foreign affair", de 1948, com Jean Arthur como a senadora tradicional, conservadora e republicana americana. Filmado em uma Berlim completamente destruída, essa é a sua primeira produção com Marlene Dietrich, com quem ele iria ainda filmar, na Inglaterra, "Witness for the prossecution", que tem a participação estupenda de Charles Laughton, como o advogado de defesa.



Era um cineasta que gostava de mulheres lindas. Era um cineasta da chamada "era de ouro de Hollywood", uma época recheada de grandes estrelas. E ele as aproveitou como ninguém. As principais atrizes femininas de sua época filmaram com ele. Wilder colocou a aristocrática Audrey Hepburn primeiro como uma empregada de uma mansão de milionários capitalistas em "Sabrina" [numa dobradinha com Humphrey Bogart] e depois como uma adolescente parisiense que finge ter diversos amantes em "Love in the afternoon" [dessa vez, fazendo par com Gary Cooper]. A adorável Shirley Maclaine é a amante enganada em "The apartment" - talvez o principal sucesso de Wilder, em termos de premiação, tornando o primeiro cineasta a ganhar as três principais estatuetas da festa pelo mesmo filme -; e uma prostituta de sucesso que defende eticamente sua profissão em "Irma la douce". E, claro, Marilyn Monroe, a voluptuosa vizinha de "Seven year itch", com a famosa cena da saia levantada, um dos maiores ícones do cinema de todos os tempos; e "Some like it hot", considerada nada menos que a melhor comédia já feita. Isso sem contar com a mignon Ginger Rogers, a estupenda Gloria Swanson ou a exuberante Kim Novak, entre tantas.



Autor de grandes clássicos do cinema ["Double indemnity" - que fez Hitchcock dizer que a partir de então as duas principais palavras do cinema eram "Billy" e "Wilder" -, "Sunset Boulevard", "Lost weekend", para ficar em apenas alguns], se pode enxergar sua capacidade de desconstruir a moral vigente mesmo em um filme "menor", menos conhecido. Em "Kiss me, stupid", por exemplo. Nele, um famoso cantor americano está indo de carro de Las Vegas para Los Angeles e tem que pegar uma estrada alternativa, por conta de uma obra na rodovia principal. No caminho novo, ele passa numa pequeníssima cidade de Nevada, onde dois compositores querem ter a oportunidade de vender suas músicas e fazer sucesso. Um deles o recebe em casa e o outro, percebendo a tara do cantor famoso por qualquer mulher, decide fazer uma troca e oferecer uma prostituta à guisa da esposa do parceiro. O que poderia ser um filme extremamente sexista, machista, retrógrado, retratando novamente as mulheres em uma posição de completa passividade e inferioridade, sai totalmente do esperado. Com a troca feita, o dono da casa se divide entre oferecer a "mulher" - nada menos que Novak, arrasadora - e vender suas músicas. Até que ele se enfeza com a atitude considerada desrespeitosa do cantor e assume Novak como sua esposa legítima, mesmo que por uma noite, apenas. A prostituta, com baixíssima estima, se sente acolhida e tenta manter uma relação de igual com o compositor. Já a esposa do compositor sem querer assume o lugar da prostituta no bar onde ela trabalhava e recebe coincidentemente o próprio cantor - por quem ela sempre teve uma paixonite. Ninguém é de ninguém.

O filme foi um dos que mais recebeu críticas por atentar contra a moral e os bons costumes. Além de todo o tema ser bastante "avançado" para a época [1964], ou mesmo para hoje, as cenas eram bem sensuais. Os puritanos americanos se incomodaram e muito. Wilder, um remanescente de um período aristocrático, se divertiu com a polêmica.



Talvez seja essa a explicação do sucesso do cineasta nascido austríaco. Ele era de uma Europa que não seguia muito as regras comportamentais, principalmente quando o assunto era sexo. Defendia uma elite intelectual, quase do mesmo jeito que Nietzsche fazia, mostrando que não era necessário respeitar qualquer código de conduta. Raymond Chandler, um dos principais escritores do noir americano, chamado para escrever "Double idemnity" com Wilder, reclamou dos frequentes telefonemas que o companheiro recebia de mulheres. Wilder, novamente, se divertiu.

Mas não era só com mulheres que demonstrava sua vontade de viver livremente. Ele queria fazer com que todo mundo se divertisse mais, fosse mais leve, independente, menos chato e quadrado. Em uma cena de "A foreign affair", de 1948, o capitão interpretado por John Lund, numa postura policialesca, recebe um pai com o filho pestinha que tinha pichado suásticas pela vizinhança. Após a repreensão do militar, o pai promete colocar o filho de castigo num quarto fechado. O capitão responde que os alemães já tinham usado o campo de concentração e não tinha dado certo. Que era melhor ele dar menos disciplina e mais brincadeira para o menino. O pai, ainda acostumado a receber ordens, sai batendo os calcanhares. Ao se virar, vemos que ele também tinha sido alvo das pichações do filho. O judeu Wilder, com a guerra ainda no retrovisor da História, teve a coragem de fazer piada com as piores e mais duras memórias das atrocidades cometidas pelos nazistas.

Quando ficamos tão caretas? Ou melhor: por que ficamos tão caretas?



Ao fim da década de 1970, Luis Fernando Verissimo disse que Woody Allen "sabe que Nova York, como ele, consome cultura de segunda mão: o cinema – que não é feito lá – e o alto pensamento europeu", daí sua opção pela paródia, que era a arte de segunda mão por excelência. Quando Wilder morreu, em 2002, aos 95 anos, ele se referiu ao cineasta como o homem que trouxe para os EUA exatamente esse alto pensamento europeu: "É o melhor exemplo da grande mistura que deu a mentalidade 'mittel' europeia com o dinheiro e as possibilidades de Hollywood". Como se Wilder fosse uma espécie de antecessor de Allen - de quem diz gostar de seus filmes. Assim como o neurótico nova-iorquino, um homem que fez filmes populares e inteligentes, com os melhores roteiros já escritos nos EUA.

Billy Wilder sobrevive sozinho, entretanto. Não precisa se apoiar em outros diretores para mostrar sua importância. Mesmo que ele negue que seja o seu objetivo, seus filmes desafiam o establishment forçando-nos a repensar sempre onde fica a linha que separa o que é certo do errado. Uma característica, como se sabe, divina.


Ps. Apesar de não ser um grande nome entre as estrelas do cinema de Hollywood, Cliff Osmond é um dos atores de estimação de Billy Wilder. Fez três longas com o cineasta, mesmo número de filmes de figuras carimbadas como Walther Mathau ou William Holden. Só Jack Lemmon, com seis filmes, participou de mais produções de Wilder.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma questão técnica


O fato de o mundo se basear na técnica não nos obriga a segui-la, assim como, na História do ocidente, já houve momentos em que o mundo ocidental, de influência eurocêntrica, era basicamente cristão e isso não “obrigava” os homens e mulheres a serem cristãos – apesar de ser uma “obrigação” formal de todos serem cristãos, não era possível garantir essa ligação pela fé. A técnica é uma resposta que não-responde muito para as perguntas que os homens se fazem. É uma certeza, um dogma, algo que determina um modo de ser entre infinitos possíveis – mas ainda assim um modo de ser. “A técnica é, então, finalmente, o cunho da época na qual termina, plenamente cumprida, a metafísica ocidental imposta à escala planetária”[1]. Um modo de ser perigoso de nosso tempo. Que pode colocar o homem como um mero apertador de botão, que age irrefletidamente, de maneira automática, para cumprir as metas no prazo recorde, tal qual o personagem de Chaplin em Tempos modernos. Mas em vez de apenas o trabalhador de chão de fábrica se alienar do processo total, e ser mastigado pelas engrenagens da máquina em que trabalha, toda a humanidade seguiria nesse caminho único, rumo a ausência de pensamento. O homem age, já, então, maquinalmente, seguindo as regras estabelecidas pela com-posição, que o encaixa em determinado quadrado de sua estante existencial. A com-posição não “escuta” nem “enxerga” o ser dos entes; ao contrário, força de dentro dos entes a pro-dução de outros entes, que se tornam dis-poníveis – estoque para regular o humor dos mercados. Dis-pensáveis. “O destino enviado na dis-posição é, pois, o perigo extremo”, argumenta Heidegger. O problema não é a técnica, em si, não é o maquinário, o mundo dominado por máquinas – mas o homem abdicar de sua própria capacidade de pensamento em prol de um pensamento técnico, de ciência dura, matemática simples de causa-e-efeito, pouco meditativo ou imaginativo, em que só existe algo para que outro algo exista, numa relação que impede as possibilidades várias de ser. “O que há é o mistério de sua essência. Sendo um envio de desencobrimento, a essência a técnica é o perigo. Talvez a alteração de significado do termo ‘com-posição’ torne-se agora mais familiar, quando pensado no sentido de destino e perigo”[2]


[1] BORGES-DUARTE, Irene. Arte e técnica em Heidegger. Documenta (Lisboa): 2014, p. 172.
[2] HEIDEGGER, Martin. “A questão da técnica”, in: Ensaios e conferências. Ed. Vozes e ed. Universitária São Francisco: Petrópolis e Bragança Paulista (s.d), tradução de Emmanuel Carneiro Leão, p. 30-31.