sexta-feira, 9 de março de 2012

A máquina de Florence

Não é só a vida que vem em ondas como o mar. A música pop também tem os seus altos e baixos, ou momentos em que o aspecto mais econômico, cru, é o valorizado, enquanto em outros, o esbanjamento é o tom da vez. O processo é mais ou menos o mesmo: começa-se devagar, com poucos elementos, e vai se incrementando, crescendo, encorpando, até que um momento esse formato fica insustentável e o castelo cai. E se começa de novo, devagar, com poucos elementos, e vai crescendo, tomando corpo etc. Pense em Beatles. Depois, pense na sequência rock progressivo-punk. Se quiser mais exemplos, lembre dos sintetizadores da década de 1980, que culminam... no grunge. Por fim, e é onde eu quero chegar, para começar, pense no que esse mesmo grunge tinha se transformado no fim dos anos 1990 para, em seguida, percebemos que a resposta foram os Strokes, e toda uma onda de bandas que se produzem ao extremo para parecerem nuas.

Passada mais de uma década [estamos ficando velhos, eu sei], o processo de complexidade já está em pleno funcionamento novamente. Um exemplo, fácil, é toda a produção, por exemplo, de bandas como Arcade Fire. E o aparecimento de uma cantora + banda que tem tudo para ser uma das mais conhecidas performers, limítrofe U2 [essa é a minha aposta*] nas próximas gerações/década: Florence + the Machine.

Ontem assistimos a um show, dela + banda, que nunca, repito, nunca tinha tido a oportunidade de presenciar. Digo isso pelo tamanho da produção. Além da tradicional harpa, que ela leva para onde vai tocar, da roupa esvoaçante, do telão hipnótico, ela colocou um coral de vozes negras no palco para acompanhá-la em todas as suas músicas. E uma pequena orquestra de cordas. Foi de arrepiar. E inédito, para mim. Raramente um artista europeu - eu não me lembro de nenhum - consegue bancar a produção de atravessar o Atlântico com essa galera toda [eram uns 35 no palco]. Raramente, podemos fazer o retrato de uma artista quando jovem [ela tem 25 anos, está no segundo disco], junto com a presença da família - ela dedicou duas músicas para a mãe [uma professora de arte]. Raramente temos a oportunidade de conferir um show dentro de um incrível palácio, no alto de um incomum morro londrino, criado em 1873 para abrigar shows da época vitoriana.

Florence Welsh e a sua máquina de produzir petardos sonoros não têm medo de parecerem épicas, barrocas, grandiosas - e essa é a grande vantagem dela. Dar um corpo à música, uma sustância, uma suntuosidade, que não são facilmente encontrados na insípida música pop que preza por ser exatamente rala. É também a desvantagem, dirão os seus detratores, porque o limite daí para se levar a sério demais é tênue. Como estamos no segundo disco, e ao vivo, só temos a agradecer à potência sonora**.



* Claro que ela pode passar pelo processo de sinead-o'connorização e sumir em seguida.
** Parece que ela +banda vão cair no golpe do acústico. Chegaram ao mainstream. 

2 comentários:

Susie disse...

Ela pode ser uma daquelas bandas das quais um dia, no futuro, vamos sentir vergonha por ter gostado tanto.
Mas por enquanto, acho que Shake It Out seguida de Dogs Days Are Over é foda.

Ronaldo Pelli disse...

por isso, comparei com o U2...