segunda-feira, 31 de julho de 2006

Sonho (dormindo)

Estava num ônibus e poltronas à minha frente estava Heloísa Helena com algum assessor ou miquinho amestrado - não há muita diferença. E eu, só pensando, "que popular, que povão".

Depois, estávamos em um descampado e, por acaso, me deparei com ela. Não titubeei: "Helô, você acha que conseguirá passar desse limite de 10%?" E ela, à perfeição da personagem, talvez só com um ou outro detalhe incorporado da minha imaginação sonífera, subiu num monte de terra que apareceu logo atrás dela, puxou um cigarro, o acendeu e começou a falar com aquela voz de taquara rachada, mas que logo chamou a atenção de todos presentes (estava bem lotado), de maneira messiânica: "Se eu tiver 25 soldados e eles me perguntarem se vamos vencer a guerra, já estaremos perdidos. Mas se eu tiver 10 forminhas (1), poderemos ganhar a batalha". Nessa hora acordei. E percebi que estou com bruxismo.



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Minhas interpretações (se não quiser saber, pode parar de ler agora): Estive cara-a-cara com o Minc no sábado e fiquei com uma vontade danada de perguntá-lo por que ele não havia abandonado o PT, como a maioria dos militantes mais conhecidos do partido. Também queria inquiri-lo sobre a sua falta de ambição política: há anos ele só tenta - e consegue - se eleger para deputado estadual.

Domingo, conversei com dois amigos que são geniais. E eles estavam decepcionados com a política. Curiosamente, tendem a votar no Lula, mas um deles ainda cogita o voto de protesto na Heloísa Helena.

(1) Forminha, na minha cabeça sonífera, seria um reprodutor de informação - foi o que eu pensei no instante em que acordei. No contexto queria dizer, creio eu, aquele que passará adiante a minha palavra - para usar uma conotação apostólica, bem apropriada ao messianismo presente na fala.
Algumas recomendações:

Inagaki fazendo uma bela definição sobre o que é blog, aproveitando o gancho de ter sido eleito um dos mais importante blogueiros da blogosfera tupiniquim.

Cadeia de Palavras - basicamente Daniela Abade e Sérgio Rodrigues (e outros menos participativos) escrevendo uma novela com capítulos que só podem se iniciar com uma única letra do alfabeto, indo do "a" ao "z". Surreal. Divertido.

Aliás... para quem acha que essa "Mulheres Apaixonadas, versão III" é a melhor coisa que a TV já fez na vida, aprenda a escrever uma cena do Manoel Carlos (by Daniela Abade).

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Se o Kazan (ver post abaixo) é um moralista, John Ford é amoral. Em "No tempo das diligências", ele coloca na mesma carruagem um médico bêbado, uma prostituta, um foragido da justiça (John Wayne), um viciado em jogo, um banqueiro picareta, um quase pastor e a mulher de um soldado, sendo que os três primeiros são os protagonistas da história. Ford sempre retrata os negros e mexicanos em posições subalternas (ou seja, realistas para a época), mas com caráter irrepreensível. E sempre mata índios.

Isso me lembra aquela música do Bruce Dickinson, no "Balls do Picasso": "where's John Wayne / where's your sacred cowboy now / there's no indians on the hills / there's no indians more to kill".

terça-feira, 25 de julho de 2006

Visão nada distanciada

Em "Sindicato dos Ladrões", Marlon Brando faz um estivador que, depois da pressão da namorada e do padre, e da morte do irmão, denuncia um assassinato cometido pelo presidente do sindicato para uma comissão que investigava esses assuntos.

O fato seria "apenas" o resumo da trama de um dos maiores sucessos do cinema de todos os tempos se o filme não fosse dirigido por Elia Kazan. Kazan ficou famoso por, além de dirigir inúmeros sucessos da Broadway, delatar alguns homens do teatro / cinema / TV na famigerada comissão anti-comunista do senador McCarthy.

Ou seja, os paralelos são óbvios demais para passar em branco. O filme em si é bom, não excelente. O roteiro é bem construído, Marlon Brando está no auge da fama e deve muito do que o seu nome hoje representa a Kazan. Mas admito que não consegui me desvencilhar. Principalmente porque o filme tende a ser no mínimo maniqueísta.

Ao comparar a delação de Terry Malloy (Brando) com a sua, Kazan traça um paralelo entre criminosos e comunistas - no mínimo um absurdo. O que no primeiro caso é, além de defensável, a única maneira para sobreviver como indivíduo, no outro é uma vingança mesquinha e covarde que tinha o intuito (não único) de tirar o foco das atenções de sobre ele (Kazan havia sido comunista anos antes, mas desistira decepcionado com Stálin e todos os stalinistas - com toda a razão).

Sei que não é aconselhável avaliar uma obra através de uma lente que já nasce manchada, mas é difícil escapar desse viés quando percebemos um alto grau de puritanismo e moralismo na obra. Malloy se admite um vagabundo, sem muita inteligência e que tem na força física seu maior trunfo. Mas o estivador só muda de opinião quando influenciado pela família (a namorada) e pela igreja (o padre). Além disso, Edie (a namorada) insiste que o porto da cidade grande não seria o lugar certo para ele, depois da delação. Restando, apenas, o interior (country) do país. Ou seja, deveria se juntar aos seus, à América mais reacionária que há.

No todo, vale a pena e muito assistir a "Sindicato...". Como diz o site McCarthyism and the movies, só pelo diálogo entre os irmãos Malloy dentro do táxi (1) já valeria. O problema é que sempre fica com o gosto de defesa de tese, mal disfarçado na garganta. Roger Ebert que o diga (2).

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(1)
"Charlie: Look, kid, I - how much you weigh, son? When you weighed one hundred and sixty-eight pounds you were beautiful. You coulda been another Billy Conn, and that skunk we got you for a manager, he brought you along too fast.
Terry: It wasn't him, Charley, it was you. Remember that night in the Garden you came down to my dressing room and you said, "Kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson." You remember that? "This ain't your night"! My night! I coulda taken Wilson apart! So what happens? He gets the title shot outdoors on the ballpark and what do I get? A one-way ticket to Palooka-ville! You was my brother, Charley, you shoulda looked out for me a little bit. You shoulda taken care of me just a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money.
Charlie: Oh I had some bets down for you. You saw some money.
Terry: You don't understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let's face it. It was you, Charley."

(2)
"In the film, when a union boss shouts, `You ratted on us, Terry,' the Brando character shouts back: `I'm standing over here now. I was rattin' on myself all those years. I didn't even know it.' That reflects what some feel was Kazan's belief that communism was an evil that temporarily seduced him, and had to be opposed"

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Curiosidade: Eva Marie Saint, que faz Edie, a namorada de Malloy, é Martha Kent na versão 2006 de "Superman".

segunda-feira, 24 de julho de 2006

sexta-feira, 21 de julho de 2006

É pop e é ótimo

Já havia comentado anteriormente sobre o Gnarls Barkley, mas havia ouvido apenas uma ou outra música. Agora, completamente tomado pelo disco inteiro, cantarolando cada uma das melodias, TENHO que repetir.

Ao ouvir o CD, "St. Elsewhere" você fica com sentimentos ambíguos. Se por um lado é capaz de sair dançando nas ruas com "Crazy", "The Last time" e, a minha preferida, "Smiley Faces", por outro fica com raiva das rádios que só tocam jabás. Soube que "Crazy", pelo menos, toca em algumas estações. Ou seja, Gnarls Barkley é um lançamento parrudo. Mas, isso poderia ser estendido a outros grupos parecidos... Enfim, não choremos pelas desgraças do mundo, falemos de coisas mais amenas.

O duo (o raper de timbre encorpado e métrica diferenciada, Cee-lo, e o produtor de gente parruda como o Gorilaz, Danger Mouse) é classificado em várias oportunidades como hip-hop, mas a definição apenas pode ser utilizada se você encarar o todo, sem entrar nas particularidades. E que partes.

Talvez só "St. Elsewhere", a música, "Feng Shui" e "Necromancer" possam ser encaradas realmente como um rap, daqueles tradicionais. "Gone Daddy Gone" é quase um rock anos 1980. A própria "Crazy" parece saída do primeiro disco do Moby, lotada de soul e teclados. "Boogie Monster" tem uma levada sombria, mas sem perder o humor jamais. "Who Cares" parece um ska-reggae do Sublime; "Storming Coming" devolve a tradição do miami bass para os anglo-saxões (ok, forcei um pouco a barra). Isso só para ficar em exemplos genéricos.

O certo é que, como ouvi por aí, Gnarls Barkley é o irmão gêmeo do Outkast nessa segunda metade da primeira década de 2000. A melhor música pop que há no momento.
Ainda tenho esperança.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Clímax

Mandei o conto abaixo para duas amigas minhas lerem. Uma disse que ficou esperando algo acontecer, não que o texto em si fosse previsível. Apenas tudo estava dando certo demais para o protagonista. Percebi, então, que sou "clássico", quando se trata de escrever.

Ricardo Piglia teceu uma espécie de teoria para os contos em seu "Breves relatos". Segundo o argentino, nas histórias curtas, há sempre duas tramas: uma óbvia e outra, subterrânea, que só se revela ao fim. Tal paradigma teria sido criado por Edgar Allan Poe. A estrutura é óbvia: narra-se uma situação, aparentemente comum, ou que leva a crer numa normalidade e, antes do fim, há a reviravolta/ clímax, e é revelado a verdadeira história, que estava escondida.

Segundo ainda o autor de "Respiración Artificial", tal estrutura imperou até o século XX quando Joyce, Cortázar e outros trataram de ignorá-la. Em "Dublinenses", por exemplo, há recortes da vida das personagens, uma sucessão de acontecimentos incomuns de suas trajetórias. Não há história escondida, como também não há clímax. O fim chega quando o autor decide que aquela trama deve ser interrompida. Se deixassem, ela - a história - se transformaria em algo maior (em quantidade). Cortázar, por sua vez, fez narrativas completamente surreais - literalmente. Não há início-meio-fim, em (se eu não me engano) "Las puertas del cielo", do "Bestiário", mas uma espécie de história circular, sem muita razão, nem porquê.

Já eu... Eu gosto de clímax. Acho que a leitura deve levar para uma espécie de epifania. Mesmo que perca na imprevisibilidade. Não era Borges que dizia que sempre líamos os mesmos livros? Pois então.

Helô-Helê

Hoje me decidi em quem votar para presidente: Heloísa Helena. Já estava meio certo disso, mas nesta tarde, retirei as minhas últimas dúvidas.

Disse para os meus colegas de trabalho que a candidata do Psol é o Lula de 1989 - e causei polêmica. Mas claro que eu não estou comparando à exatidão os dois políticos. Mas como símbolo. Nesta eleição, Helô-Helê representa a esperança, o PT que não se entregou (nada de PSTU), a alternativa à disputa PTxPSDB, que se repete há quatro pleitos. Ou, de acordo com Tereza Cruvinel: "A senadora está capitalizando a insatisfação com a política, a decepção com o PT, o voto dos que não têm alternativa e o dos que optaram pelo voto nulo sofisticado, como diz o analista Jorge Rodini, da Engracia"

Não havia bipolaridade em 1989, muito pelo contrário, mas Lula saiu da mesmice que se apresentava de políticos consagrados, como Ulisses Guimarães, Maluf, Brizola, Afif Domingues, Mário Covas. Para ter uma idéia de como o povo estava saturado desses nomes batidos, outro sujeito desconhecido das grandes massas foi o vencedor daquela disputa.

Ainda bem não temos esse tipo de personagem na atual eleição. Creio que a senadora ainda vá crescer, mas, infelizmente, não passar para o segundo turno. O lado bom dessa minha previsão é que nunca acerto nenhuma.
Estamos ficando velhos

Haley Joel Osment (lembra do "I see dead people"?) bateu o carro que dirigia.

Só para constar: "O Sexto Sentido" passou nos cinemas brasileiros em 1999.

terça-feira, 18 de julho de 2006

O país dos escritores

O país dos escritores divide-se em diversos feudos. Há aquele onde ficam os que buscam a glória literária, talvez a maior das benesses artísticas, uma espécie de certificado de inteligência dado por toda a sociedade, um comprovante de visão distanciada dos problemas terrenos e / ou uma opinião constante em todos os jornais sobre as agruras do dia-a-dia.

Há ainda aquela outra região, bem pequena, onde os que anseiam enriquecer com a labuta da escrita almejam entrar e montar seu reino. Poderíamos arriscar e dizer que funciona como a história de Fausto. Normalmente são execrados pelos outros iguais, mas o povo em geral o recebe de braços abertos, em qualquer lugar do mundo. São pouquíssimos simplesmente porque cada vez mais se lê menos. E tendem a restringir ainda mais a entrada no feudo, já que a renovação é menor.

Em outro canto, há uma outra localidade, mais distante do Centro, onde mora uma minoria que vislumbra apenas o simples ato de escrever. Esse é a única região onde a entrada é completamente liberada, sendo necessário apenas apresentar os textos redigidos pelo próprio punho. Não se exige qualidade, quiçá quantidade de manuscritos. Quem quiser morar nesta região, basta entrar e escolher um canto onde se instalar. Há diversos outros tipos de feudos, mas estes são os estados principais que compõem a nação dos escritores.

(Talvez um preâmbulo para o texto abaixo. Talvez não.)

Ato, Vendo e Amordaço

Robal de Almendre começou a escrever antes de se entender por gente. Talvez porque vivia sozinho e quisesse evitar a paranóia. Quando começou a escrever, não se transformou em best-seller, mas fez vários amigos no meio. A sua prosa não era revolucionária, mas moralista, uma espécie de classe-média literária. Possuía um domínio narrativo bom, suas histórias costumavam ser interessantes e os personagens profundos. Se isolássemos os seus elementos e os analisássemos em separado, Almendre poderia figurar entre os grandes escritores de sua geração. Mas, inexplicavelmente, faltava algo. Como se ele se esforçasse para escrever, fizesse pesquisas, experimentasse a linguagem, mas, não isso tudo não fosse o suficiente. Havia alguma coisa de inominável, que é impossível de ser identificada, que faltava a Almendre.

Após 20 anos de carreira, podia-se considerar inserido no cânone cultural da sua época. Freqüentava outros escritores, editores, jornalistas dos cadernos de cultura, cineastas, acadêmicos, críticos, diretores de teatro e atores do primeiro escalão. Até havia ganho um prêmio nacional, pela biografia de Otto Lara Resende, feita sob encomenda.

Filho de catalães que haviam migrado na época da Guerra Civil, ele tocava o Barça, um restaurante com a melhor paella da cidade e freguesia fiel que os pais haviam deixado de herança. Almendre sempre a comparava à feijoada. O Barça é o ponto de encontro da sua geração, brincava. Onde discutiam as novidades culturais do momento. Em seus debates, todavia, faziam questão de ignorar a política, ficando apenas com a estética. Pareciam que viviam num mundo à parte, onde a miséria e a desgraça não os alcançavam, ou, argumentavam, não viam solução para a melhora da vida pública além de não se sentirem aptos, quiçá, responsáveis pela melhora da sociedade em que estavam inseridos.

Independentemente dessas questões, do Barça saíram as maiores obras de arte da contemporaneidade. Quem não se lembra de “Incoerências”, de Oswaldinho Carvalho, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, longa que é uma espécie de colagem de absurdos que culmina naquela catarse final, já clássica? Ou de “Paranóia”, que rendeu a José Maria Frenkel reconhecimento internacional, sobre um sujeito preso dentro de um quarto que é inseguro até mesmo para abrir a porta? Ou ainda do best-seller instantâneo “Silêncio”, de Martha dos Anjos, uma obra inteira de mais de 500 páginas sem nenhuma palavra escrita? Todos amigos de Almendre, todos freqüentadores do Barça. Naquelas mesas espaçosas com vista privilegiada para o Joá foram discutidas todas as obras supracitadas e ainda outras mais.

Eles se sentiam como defensores da cultura – sem adjetivos. Eram chamados pelos seus detratores como os EmBarçados, porque simplesmente não se atentavam para o que acontecia nas ruas. Entretanto eles ignoravam as críticas deste tipo, simplesmente respondendo que a prioridade do grupo não era com aquele momento histórico, mas com a História. Como se pode ver, uma discussão que já houve em todos os lugares, em todas as épocas.

No meio disso tudo, ficava Robal de Almendre. Como todo moralista, gostava das discussões filosóficas e teológicas. Evitava tratar de estética, pois dizia que cada um tinha a sua idéia sobre o assunto e a tentativa de mudar o próximo era praticamente inútil. Almendre dizia que a preferência pelo grupo de amigos era simplesmente porque eles não se impunham regras. Eram livres para fazer o que quisessem. As obras de Almendre, no meio da falta de limites generalizada, contudo, não causavam nenhum estardalhaço. Era visto mais como o dono do restaurante que como autor da trilogia “Ato”, “Vendo”, “Amordaço”, este último o primeiro livro que recebeu proposta para ser traduzido no exterior. E isso o incomodava um pouco. Não que ele quisesse ser objeto ou protagonista de uma polêmica, mas se sentia inútil, efêmero. Claro que tal silêncio não o impedia de escrever – ele mantinha a média de um livro a cada dois anos – porque ele realmente gostava do processo da escrita. Mas, de vez em quando, ele ficava melancólico e se perguntava qual a importância de continuar.

Pode-se suspeitar, então, quão surpreso ele ficou quando recebeu a notícia de que a versão para o catalão de “Amordaço” figurava entre os mais vendidos. Em sua primeira experiência internacional, conseguia um êxito inigualável. Num primeiro momento, não pôde segurar o orgulho. O pensamento ecoava na cabeça de Almendre: sou um escritor internacional. Nunca faria sucesso em seu país porque estava fadado à fama no mundo todo, era um cosmopolita de nascimento. Pouco tempo depois, chegou outra proposta para verter a obra para o espanhol, mas, para acabar com qualquer tipo de pretensão, a vendagem foi ínfima. Almendre não entendeu muito bem o motivo da baixa aceitação pelo espanhol, mas logo se esqueceu do desastre e se vangloriava de ser ao menos bem vendido na Catalunha, terra de seus pais. Inclusive, acreditou a partir daí que o motivo para esse sucesso era, realmente, a ascendência. Concluiu que conseguia despertar as emoções de gente com o mesmo sangue que ele. Era como se o tempo e a distância física não existissem nesse caso. Ele era um catalão e não podia negar isso.

Tal hipótese se mostrou ainda mais forte quando Jorge Punyol, o seu tradutor catalão, pediu para escrever as versões do restante da trilogia: “Ato” e “Vendo”. Almendre, óbvio, aceitou. E os resultados, logo depois, foram praticamente os mesmos. Chegou a ponto de ter os três livros na lista dos mais vendidos. Feito impensável há algum tempo. O fato é: Robal Almendre era um fenômeno na Catalunha.

Seus pares que freqüentavam o Barça se dividiram entre os que invejaram o sucesso de vendas de Almendre em outro país – coisa que absolutamente nenhum deles havia alcançado – e os que ficaram simplesmente felizes com a recepção às obras, dizendo que era merecido. Almendre, por sua vez, pediu para que Punyol enviasse algumas edições em catalão para que ele pudesse expor no seu restaurante. Punyol gostou da idéia e resolveu até trazê-las pessoalmente.

Foi o primeiro contato pessoal entre os dois. Em questão de minutos, haviam virado os melhores amigos. Faziam piadas internas que só os dois entendiam, conversavam em catalão, discutiam novos lançamentos. Punyol sugeriu uma nova receita para o Barça, de um peixe ao molho de castanhas árabes, Almendre mandou o cozinheiro aprender e fez um banquete num domingo. Era a consagração máxima de Robal Almendre entre os seus pares.

Pouco tempo depois, começaram a aparecer convites para visitar Barcelona, Gerona, Lérida e Tarragona. Almendre combinou com Punyol uma viagem à Catalunha na primavera deles para proferir palestras em centro culturais, universidades e livrarias. Punyol organizou tudo, mas infelizmente não poderia ficar no país para ciceroneá-lo, já que tinha que viajar urgentemente para encontrar com um outro escritor. Certamente a editora mandaria alguém para acompanhá-lo na peregrinação. Almendre lamentou, mas se resignou.

Na viagem, havia toda uma programação em detalhes a ser cumprida: os locais das palestras, a quantidade de perguntas liberadas, os restaurantes para as refeições, até as páginas dos livros que ele poderia ler. Tudo estava planejado em detalhes. Almendre se sentia uma celebridade. Foi capa dos cadernos culturais de toda cidade que passou. Conheceu políticos, escritores e todo o naipe de famosos da região.

Os eventos literários eram praticamente iguais: ele se sentava num grande balcão, em frente a um auditório sempre lotado, lia uma página ou duas de um de seus livros e abria-se para perguntas da platéia. As questões eram sempre as mesmas: dicas para escritores iniciantes, curiosidades sobre a profissão, anedotas sobre ser também dono de restaurante, falta de intercâmbio cultural entre as nações, desconhecimento dos autores, situação política da Catalunha, Barcelona, o time, etc.

No antepenúltimo dia, Almendre visitou uma pequena universidade em Lérida. Seu pai sempre falava de Lérida, porque vários amigos dele haviam travado combate com os franquistas por ali. Almendre, sem saber muito por que, acordou emocionado. Olhou pela janela do hotel e viu uma casa demolida com uma velha palmeira-anã na frente. Logo associou à Guerra Civil espanhola – mesmo sabendo da impossibilidade de terem mantido a construção em tal estado por tantos anos apenas para lembrar a população da guerra, como acontece em Dresden, na Alemanha. Ficou triste sem saber o motivo. Sentia uma apreensão estranha, algo inexplicável que lhe deixava casmurro. O telefone do quarto tocou avisando-o que o carro havia chegado. O escritor desceu pelo elevador com a garganta apertada e os olhos marejados.

Ao chegar na universidade, foi recebido por uma salva de palmas dos estudantes e não segurou a lágrima que brotou. Desculpou-se à platéia e explicou como estava se sentindo. Mais palmas. Em seguida, pediu licença para quebrar um pouco o protocolo. Resolveu abrir o livro “Ato” num trecho que ele gostava muito e que tinha paralelos com a Guerra Civil. Começou a procurar e, depois de um tempo, o achou. Leu-o em tom baixo para um auditório em silêncio. Ao fim, mais quietude. Depois de alguns instantes sem um pio no salão, o debatedor resolveu abrir às perguntas do público. As questões foram as mesmas de sempre. Até que, quase no fim, um rapaz com feições bem finas e cabelos grandes e desgrenhados pediu a palavra. Disse que se considerava um grande fã da obra de Almendre, havia lido tudo do escritor já publicado em catalão, mas que ele não lembrava do trecho lido pelo escritor. Pediu, apenas, que Almendre dissesse qual a página que estava para que ele pudesse acompanhar. Almendre não se opôs à proposta do rapaz. Contudo, ao apontar a página em questão, o estudante avisou-lhe que sua versão era completamente diferente da dele. Almendre explicou que eram edições diferenciadas e que após a palestra lhe mostraria exatamente onde estava o trecho. O garoto, com calças de seda e bata branca, concordou.

Ele se chamava Hermano, era filho de espanhol, mas nascera em Gerona e se mudara para Lérida quando pequeno. Mostrou seu exemplar para Almendre que comprovou que eram de edições diferentes. Mas ao ler um pedaço aleatório do livro de Hermano, não reconheceu a passagem. Segurou o “Ato” em suas mãos, enquanto Hermano falava sobre como gostava do estilo violento e prático de Almendre, e tentava associar aquelas palavras lidas com as suas escritas originais. Parecia em vão. Qualquer folha que virasse, encontrava um texto completamente diferente daquilo que ele se recordava. Muito raramente, enxergava passagens inteiras que eram iguais ao que ele havia escrito. Almendre olhava para as letras e se sentia cada vez mais confuso. Durante este tempo, Hermano não parou de falar sobre o papel da violência nas sociedades pós-modernas, mas Almendre não conseguia escutá-lo direito. O som da sua voz parecia vir de um sonho ou de uma realidade paralela e só chegava aos ouvidos de Almendre abafado e distante. O escritor pegou o seu próprio livro e abriu nas páginas marcadas para a leitura. Num instante percebeu que os trechos que ele sentia familiaridade eram realmente muito parecidos com o seu original, mas o restante era outro livro.

Pediu para voltar para o hotel, não sem antes passar em uma livraria e comprar uma versão de cada uma de suas obras vertidas para o catalão. Já no quarto, comparou com os livros que havia recebido de Punyol e comprovou a sua suspeita: os textos eram diferentes. O que carregava desde sempre, era uma tradução fiel aos seus originais, mas o livro que ele havia acabado de comprar era diferente, mais exatamente o oposto. Como se Punyol houvesse subvertido todo o conceito original e transformado numa obra antagônica da original. Almendre tinha a característica de fazer fábulas morais, tentando atualizar arquétipos eternos, as versões de Punyol eram completamente amorais, tendendo ao chulo e à escatologia. Punyol caçoava da ingenuidade nas páginas que se seguiam aos trechos idênticos da obra de Almendre. Dizia que o homem não pode ser tão inocente, deve levantar bandeiras para lutar pelos seus ideais, independentemente das conseqüências que porventura venha ter. Almendre leu todos os três livros em apenas um dia e uma noite. Consumiu todas as palavras ininterruptamente como um viciado. Não foi ao último compromisso – jantar com um figurão da cidade – e decidiu voltar para casa silenciosamente.

Nunca comentou a história com ninguém, apesar dos insistentes pedidos de amigos para contar-lhes o que havia acontecido na terra de seus pais. Cortou por completo o contato com Punyol, e ele nunca mais o procurou. Entretanto, continua a receber os direitos autorais da versão catalã de sua trilogia: repassa todo o dinheiro para um ONG que ensina línguas na Catalunha. Entre elas o português e o catalão, claro.

(Um pouco de ficção para desenferrujar. Também publicado aqui.)

quinta-feira, 13 de julho de 2006

"Para Schopenhauer, o egoísmo, que faz do homem o inimigo do homem, advém da ilusão de vontades independentes que afirmam seus ímpetos individuais. A superação do egoísmo somente seria possível mediante o conhecimento da natureza única universal da Vontade. Como conseqüência moral do desaparecimento de sua individualidade, o homem pode tornar-se bom".

"Fundamentally, the Bhagavad Gita proposes that true enlightenment comes from growing beyond identification with the Ego, the little Self, and that one must identify with the Truth of the immortal Self, (the soul or Atman), the ultimate Divine Consciousness. Through detachment from the personal Ego, the Yogi, or follower of a particular path of Yoga, is able to transcend his mortality and attachment from the material world, and see the Infinite (the Brahman)."

Não é mera coincidência.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Un Buda

Não sou um espectador exigente. Basta que me apresente um filme com início-meio-fim, não necessariamente nesta ordem, como dito por Godard, que me dou por satisfeito. Por isso, não achei "O Buda", filme de estréia em longas de Diego Rafecas, ruim. Digamos que ele tem problemas, mas conta sua história direitinho.

História esta que pode ser resumida em poucas linhas: os filhos de um casal que morto pela ditadura argentina se separam quando adultos. O mais velho vira professor de filosofia na universidade, o outro se torna budista. Ou em outras palavras, um é a razão, outro a emoção. Um é a ciência, outro o empirismo. Um se inspira na mãe, o outro, no pai. Enfim, dicotomia bem nítidas é o que não falta.

Já os problemas são decorrentes claramente de uma falta de experiência em grandes histórias (no sentido de duração). Primeiro, a óbvia: o filme tem 110 minutos, mas poderia ter uma meia hora a menos. Toda a parte final, num retiro budista em Córdoba, é meio boba, quase desnecessária. Há também o tratamento moralista sobre música eletrônica e drogas, nitidamente para fazer mais sentido na história. Outra coisa que incomoda é a trilha sonora. Presença constate e enfadonha.

Mas falemos dos prós: há uma tomada de helicóptero de BsAs muito bonita logo no início do longa. E só. Não consigo lembrar de mais nada.

Entretanto, me recordo de mais um detalhe que achei péssimo. A personagem de Diego Rafecas (isso mesmo: além de dirigir, ele escreveu e interpretou o irmão-razão) é, como dito, professor de filosofia, mas parece desconhecer Schopenhauer, o sujeito que propôs a junção do Oriente com o Ocidente, em seu "O mundo como representação". Ataca a religião com argumentos-clichês, mas nem suspeita o que é fé. Uma caricatura, como a maior parte do filme.

ps. de três dias depois: lembrei de outro pró do filme: Julieta Cardinali.

terça-feira, 11 de julho de 2006

5 x 2

Continuando a maratona de cabines, hoje foi a vez de “O amor em cinco tempos”, do francês François Ozon, queridinho de alguns comparsas. Admito que vi quase nada dele, só “Oito mulheres” e achei divertido – nada além. Não conferi “Swimming Pool” nem “Sob Areia”, os mais famosos.

A história, como sugere o nome, é sobre os diferentes momentos do relacionamento de um casal, indo da ruptura até o momento que eles se conhecem – nesta direção, ou seja, do fim ao início. A montagem invertida, que poderia ser um artificialismo gratuito, funciona muito bem sob dois aspectos:

1) a mudança da maneira como encaramos as personagens. Inicialmente detestamos Gilles, por suas atitudes machistas e chauvinistas. Depois, os nossos sentimentos mudam, não porque as ações de Gilles se justificam, mas porque Marion age de maneira mais, digamos, egoísta;

2) a diversidade do humor do espectador durante a projeção. Por começar logo com o fim do relacionamento, sentimos a acidez entre os dois. As imagens são claustrofóbicas, frias, nervosas. Com o passar do tempo (inverso), voltamos a uma festa em casa, ao parto do filho do casal, ao casamento, ao primeiro encontro. As cenas ganham cores a cada fim de seqüência. O fim-início é quase bucólico. Tal sentimento, aliás, não é novidade nem no cinema francês. Lembrai de “Irreversível”, que lida exatamente com o mote de “o tempo apaga tudo”.

Mas Ozon faz bem o jogo de inversão. No início-fim, temos aversão física por Marion, porque ela está acima do peso. Percebemos também como Gilles está acabado físico-emocionalmente. Depois acompanhamos a melhoria das formas de ambos e, ao fim-início, vemos como os dois eram jovens e bonitos. Mesmo detalhes como o uso de músicas italianas ficam inexplicados até quase o fim. Mas tudo se encaixa como um jogo de quebra-cabeça. Só que emotivo. Talvez, quem sabe?, romântico. Definitivamente um bom filme.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Finalistas

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A Copa de 2006 me lembrou - e muito - a de 1990. Disse isso em voz alta anteontem e ninguém concordou comigo. Mas ainda acho que é isso mesmo. Média de gols ridícula, Alemanha vencendo na Itália, Itália vencendo na Alemanha. Times europeus mandando. Zagueiros e volantes como os craques do campeonato. Um ídolo em decadência, mas dando um caldo (Maradona lá, Zidane cá). Brasil fazendo muito feio. Enfim, similaridades.

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A final foi irônica. O pênalti - que não existiu - cobrado por Zidane na trave superior bateu no chão, dentro do gol. O pênalti perdido por Trezeguet bateu na trave superior e no chão, fora do gol. A penalidade para a França foi cometida pelo zagueiro Materazzi, o autor do gol de cabeça da Itália. Trezeguet é argentino de nascença - a nacionalidade do trio de arbitragem. E de Camaronesi, da Itália. A França precionou do início do segundo tempo ao fim da prorrogação. A Itália nunca havia ganho uma disputa de pênaltis na história das Copas. Zidane, autor de dois gols de cabeça na final de 1998 contra o Brasil, a usou para outro fim. Materazzi, aliás, foi quem recebeu a cabeçada não-futebolística. Enfim, ironias.

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Zidane é um craque. O melhor que passou pelos campos alemães. Mas, é inegável que ele é, digamos, cabeça-quente. Jogou a primeira partida e tomou um cartão-amarelo. Jogou a segunda e tomou o segundo, foi suspenso do terceiro jogo. Voltou no quarto, recebeu outro cartão-amarelo. Só não recebeu outro no quinto porque o jogo foi contra o Brasil. Aliás, a França só foi vice-campeã porque pegou a baba Brasil para empolgar.

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Nota mental para o próximo mundial: nunca aposte em zebras na Europa (na África, talvez). Principalmente quando a sua aposta é na eliminação na primeira fase da Itália.

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Curiosidade: 13 dos 23 jogadores da Itália podem disputar a segunda e a terceira divisão do campeonato italiano.

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Questões: Totti jogou ontem? Ribery tem só 22 anos? Ricardo tinha que frangar? Felipão volta?

Sangue e ossos

Hoje foi a cabine de "Consumido pelo ódio", filme coreano-japonês de Yoichi Sai cujo maior chamariz para os ocidentais médios é a presença do diretor-ator Takeshi Kitano no papel principal. Para os orientais, é a adaptação do livro "Chi to Hone" de Sogil Yan que, segundo o email da assessoria, foi disputado a tapa pelos produtores japoneses.

A história, entretanto, não é exatamente original - mesmo que esse conceito seja impossível de se alcançar. Se não, vejamos: homem violento e machista usa da força física para conseguir tudo o que quer, seja sexo, dinheiro ou, mais amplamente, poder. Vale ressaltar também que a obra original é uma versão da própria biografia de Sogil Yan. Poderíamos lembrar de algo parecido em, por exemplo, "A cor púrpura". Mudando, apenas, as características externas: se havia neste a dicotomia bracos x negros, naquele há japoneses x coreanos - com as mesmas características de preconceito e submissão de um lado para o outro.

Claro que isso não importa muito. O filme é um épico. Narra a história de Shunpei Kim, um coreano que emigra para Osaka na década de 1920 procurando melhores condições de vida e não deixa que nada o impeça de alcançar o seu objetivo: ser rico. É uma trama encorpada, com um protagonista do tipo durão-cruel, há tempos distante das telonas. Há cenas memoráveis, como a luta entre Kim e seu filho mais velho na chuva, o corte do porco, a alimentação "fortificantes" de Kim entre outras. A produção é impecável, vivemos o crescimento de uma pequena cidade japonesa ao longo do século XX. O pano de fundo é interessantíssimo, mostrando a relação entre os japoneses e os coreanos. Se não fosse pela música, ora exagerada, ora melosa demais, ora forçando uma emoção desnecessária, poderíamos dizer que é um grande filme.
"Sempre me interessei por política e agora que surgiu a possibilidade de interferir diretamente na cena, não vou recuar. Está oficializado a minha candidatura a Deputado Federal pelo PFL sob o número 2543. O PLF está alinhado com o PSDB, com Serra para o governo de São Paulo e Alckmim para a presidência, e apesar de seu passado conservador vem buscando uma renovação e tem sido um dos mais ferozes opositores do governo Lula. Há muito o fazer pelas artes no Brasil e este será meu principal foco. Vamos tomar o que é nosso! Agora é nossa vez!"

Quem vai duvidar de você, Paulo Ricardo?

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Durante toda a Copa, torci para um time nos jogos. E agora? Para quem eu torço na final? Já vi milhares de motivos para torcer por um e/ou por outro. Mas, admito, estou confuso. Se fosse optar pela tradição de família, três dos meus quatro sobrenomes - Pelli, Gomez e Rosa - me fariam torcer, óbvio, pela Itália. Mas, sei não. Acho que um craque como Zinedine Zidane merece ser bicampeão mundial. Porém jogadores fora-de-série como Maradona, Romário e outros nunca alcançaram essa dádiva, seria, portanto, injusto. Entretanto, se a Itália vencer, ela se torna tetra... Enfim, estou dividido.
"Como diz o ex-líder do governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP): 'A verdade é que o mandato presidencial no Brasil é de 8 anos, com um referendo no meio. Um presidente só perde a eleição se seu primeiro mandato foi um desastre. O normal é ele receber um aval para continuar seu mandato por mais quatro anos'".

Concordo, Ilimar.

O fim da rede

A internet vai morrer. Ou melhor, acabar do jeito que nós a conhecemos. Hoje, navegar pela internet é quase um ritual. Seja ligando o computador, seja clicando no ícone do discador, seja mesmo sentando em um lugar específico da casa - estou desconsiderando a pequena parcela de pessoas que acessam de terminais remotos.

Mas é aí, exatamente, que mora a minha teoria. Não necessariamente nos terminais remotos - mas bastante neles -, porém na possibilidade de acessar a internet em qualquer eletrodoméstico, no futuro. O que eu escrevo neste exato momento é um clichê impressionante para os estudiosos do gênero. Mas, como tive o estalo, sozinho, num dia qualquer, resolvi registrar a idéia para melhor entendê-la.

Voltando. Imagine que poderemos acessar a web pela TV daqui a pouco. Para ser mais preciso, antes de sete anos. É o prazo para a instalação da TV digital no Brasil. No Japão já é realidade para 75% da população.

Isso fará com que ninguém mais entrará na internet para, sei lá, acessar o orkut. Se quiserem ver a página pessoal de alguém, eles pegarão o telefone e clicarão no link específico. Ou sacarão um palm, um blueberry, ou uma tela de cristal líquido com conexão wi-fi, ou qualquer coisa do gênero.

Os portais mudarão de cara. Ninguém mais vai querer saber na mesma página de CPI, Copa, Novela das oito se a sua única intenção é se informar sobre cinema. Os grandes sites serão personalizados.

Provavelmente não haverá material jornalístico produzido para a internet, porque tudo será a rede. Ou seja, a TV será a rede, o jornal, o rádio... Qualquer outro meio convergirá para a internet.

Aumentará o número de páginas pessoais e estas crescerão de importância - apesar de se diluírem pela web. A palavra escrita tende a escassear. Com a banda alargando, para que os internautas vão gastar tempo lendo se podem acessar o vídeo? Exemplo disso é o Youtube.

Aliás, o Youtube me faz raciocinar que ninguém mais vai precisar baixar qualquer arquivo da rede. Ela vai estar em algum lugar, basta encontrá-la e ver/ouvir/ler. Essa idéia eu já escutei de outra pessoa.

Enfim, poderia, eternamente, citar meus devaneios futurísticos. Mas teriam todos o mesmo raciocínio. A idéia é essa. Quem já tinha que compreender, já entendeu.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Branco, o nosso ex-lateral grosso:

''Não dá para deixar o Zidane dar dois chapéus em um jogo como aquele. Se fosse comigo, eu jogaria ele na placa de Coca-Cola"

terça-feira, 4 de julho de 2006

Momento umbilical

Origen: Germano
Significado: Gobernante glorioso
Personalidad: Sus sentimientos están coloreados por la fantasía y la imaginación. Apasionado por una persona o por un objeto no descansa hasta poseerlo. El fuerte sentido de justicia que posee le hace ver todos los lados de una cuestión, de tal manera que, es difícil que llegue a tomar una decisión. La autocrítica y un sentido del humor muy especial es utilizado con gran frecuencia en su ambiente cotidiano familiar.

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Significa o que governa com mistério e indica uma pessoa que faz tudo com muito capricho e inteligência.É muito elogiado por isso, embora não costume tomar conhecidas suas realizações. Aliás, ser discreto em tudo o que lhe diz respeito é outra das suas características

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Escolha o seu culpado:

(a) Kaká, que perdeu a bola como uma criança de dois anos na ponta-esquerda e tentou agarrar o seu marcador;

(b) Ronaldo, que tomou um balãozinho do Zidane que o deixou desorientado;

(c) Cafu, que fez uma falta bisonha e desnecessária;

(d) Roberto Carlos que, depois de correr duas vezes para o ataque, estava parado na entrada da área do Brasil "arrumando a meia" (ou simplesmente resgatando o fôlego).

(e) Dida, que deveria ter saído para socar a bola e não deixar que o Henry a chutasse;

(f) Parreira, que no intervalo disse para os seus jogadores: "tem que marcar o Zidane", sem reparar que o sujeito desta frase é inexistente;

(g) Todos as opções acima.

(h) Achar culpados agora não adianta nada. O Brasil já é favorito ao hexa em 2010. E, se tivesse o Felipão no banco, já poderiam enviar a taça pelo correiro. Os jogos seriam apenas para cumprir tabela.
Ontem, o Fantástico exibiu uma matéria de gaveta do Ernesto Paglia sobre o consumo de café na Alemanha. É tão de gaveta que não digitalizaram o vídeo, nem transcreveram o texto no site. Logo, não há link. Mas o que foi mostrado é interessante. Não novidade, porque provavelmente todo mundo sabe das informações relatadas. Mas vale como dados concretos para comprovar como somos um país subdesenvolvido e não deixaremos de sê-lo tão breve.

Dizia a matéria que a bebida mais consumida pelos alemães é o café - não a cerveja (ooooh). Paglia, entretanto, dizia que, nos mais de 6 mil km percorridos pelo país, não vira um único pé da planta. Mesmo assim, os alemãs faturam dez vezes mais com o produto que o Brasil, maior produtor e exportador do mundo. Tudo porque eles industrializam a matéria-prima e a distribuem por toda a Europa. Se os cafeicultores brasileiros fossem mais, digamos, empreendedores, teriam ficados mordidos - e se sentindo desafiados - para incrementar seus lucros. Mas, como diz o Gaspari, nós ainda não somos nem capitalistas.
Depois da derrocada da seleção, começa o bla-bla-blá esperado: quem vai substituir Carlos Alberto Parreira - porque, alguém duvida que ele cairá?

Aliás, Parreira deveria ter feito que nem o Pekerman: entregue o cargo assim que o seu time fosse eliminado. Mas quer ainda conversar com Ricardo Teixeira. Sabe-se lá o quê. Deve ter ainda alguns atrasados para receber, só pode. Inclusive é válido dizer que o presidente da CBF é, provavelmente, o homem mais poderoso do país. É o sujeito que, sozinho, escolhe quem vai comandar a maior máquina nacionalista do Brasil. Uma Copa do Mundo faz mais pelo patritotismo tupiniquim que qualquer outro evento, seja de caráter político, esportivo, social, etc., etc., etc.

Por enquanto, o nome mais forte para comandar o "escrete canarinho" é o de Luxemburgo. Provavelmente é o melhor treinador em atividade no país e só foi demitido na única oportunidade que lhe foi dada por causa de distúrbios extra-campo. Por enquanto, continuo na torcida pelo improvável. Mas há quem vá mais longe. Há quem defenda que a seleção pentacampeã mundial deve lutar pelo hexa na África do Sul com um técnico novato e inexperiente no comando de times, que não tenha os cacoetes e vícios do cargo, que consiga injetar ânimo e vontade nos jogadores novamente. Uma ousadia, como ele mesmo admite.

domingo, 2 de julho de 2006

Possíveis reações ante a derrota

- o otimista consciente:

o time jogou mal sim, mas há muitos jogadores que estarão aptos para encarar a Copa de 2010, na África do Sul e só o Brasil já ganhou fora do seu continente. Logo, já somos os favoritos.

- o decepcionado rancoroso:

eu acreditava, eu tinha a certeza que iríamos ganhar. Se não fosse o cabeça-dura do Parreira ter demorado tanto para colocar o Robinho em campo. Se ele não tivesse insistido naqueles laterais que parecem de museu. Se o Roberto Carlos não tivesse ajeitado a meia na hora do cruzamento. Se...

- o pessimista crônico:
Ó vida, ó azar.

- o irônico saudosita:
Nunca torci pela Seleção, porque os jogadores são todos estrangeiros. Ronaldo até disse que não volta a morar aqui. Para mim, Felipão é o Brasil na Alemanha.

- o depressivo lacônico:
humpf...

Apatia

Não sei se podemos culpar o Parreira pela derrota da Seleção. Ou antes, deveríamos estar preparado para o fiasco desde que o contrataram. De certa forma, o (ex?) técnico da seleção (em minúsculo porque merece) fez tudo o que o povo em geral pediu. Queriam o quadrado mágico? Tiveram. Queriam uma chance com Juninho em campo, colocando o Ronaldinho como atacante? Tiveram. Queriam que substituísse o Cicinho pelo Cafu? Também. O Robinho como opção no ataque? Positivo. Claro que generalizo. Juninho nunca treinou na função que desempenhou ontem. Cicinho jogou metade do segundo tempo. E Robinho entrou numa espécie de "se vira nos 15 (minutos)". O caso não é esse.

Parece que se tivesse colocado qualquer formação, o time não renderia. Faltava algo que Parreira não tinha, como não tem e provavelmente nunca vai ter: capacidade de empolgar os jogadores. Principalmente se a maioria dos jogadores já se consagrou outrora. Os jogadores brasileiros são os melhores do mundo, sim, mas esqueceram de combinar com o adversário. Poderíamos até escalar dois times para competir, para tentar uma final tupiniquim, mas quando era de verdade, valendo, esquecemos de colocar alguém em campo. Os jogadores pareciam fantasmas esperando que a fama jogasse sozinha. Ou que o Nome amendrontasse os adversários.

Ou seja, deveríamos saber desde o início que Parreira seria capaz de rever todos os seus conceitos, até escalando um time ofensivo, mas nunca conseguiria injetar ânimo em Roberto Carlos, Cafu, Ronaldo e cia.

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Enquanto isso... Felipão era o retrato da empolgação no comando dos portugueses. Na cobrança de pênaltis, meus olhos se encheram de lágrimas algumas vezes. No final, quando Ricardo agarrou a última cobrança, quase chorei. Fica claro para quem vamos torcer a partir de agora. Aliás, não deixará de ser irônico o encontro Portugal x França na semifinal.

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Zidane dando um lençol em Ronaldo foi mais que humilhante: foi o retrato de uma partida e de uma Copa do Mundo para o Brasil.

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Com isso chega ao fim o momento mais nacionalista que o Brasil consegue produzir. Infelizmente só acontece de quatro em quatro anos. Somente por esse aspecto, sou a favor da proposta da Fifa de colocar o mundial a cada dois anos. Só para incentivar o patriotismo dos brasileiros.