domingo, 31 de março de 2013

Music like sunday morning

A educação pelo dinheiro

Usted ha escrito que «la cultura humanística, basada en el libro y en una educación monopolizada por el sacerdote y el maestro, ha perdido definitivamente su capacidad para moldear al hombre». ¿Cree que ha muerto el humanismo? ¿Qué lo sustituye? ¿Hemos entrado en una época acultural?
-No creo que pueda haber algo así como una época acultural, por la sencilla razón de que los hombres, de pies a cabeza, son criaturas de la civilización. Pero hay diferentes modos de civilización, y por ello podemos hablar de rotura de una época. El humanismo no está realmente muerto, puesto que, por ejemplo, hay unos últimos eruditos, que beben de las fuentes griegas y romanas. Pero, sobre todo, en la Europa Central, en la Europa del Norte, el poder educador del humanismo clásico ha terminado. En los años 50 y 60 del siglo pasado hubo en Alemania como un renacimiento del humanismo clásico, que reaccionó contra la época bárbara nazi. Después se impuso otra vez la modernización generalizada, que empezó tras la primera guerra mundial en todo el mundo occidental. Desde entonces, ni el libro ni la Iglesia gozan del poder como educadores. Ese lugar ahora lo ocupa el capitalismo. La pedagogía que formaba al hombre con lo escrito y por la palabra de Dios se ha sustituido por otra en la que impera la voz del mercado y del dinero. Los nuevos educadores han dejado ya su huella en los hombres de hoy día.
 Peter Sloterdijk, em uma entrevista bem antiga, cantando uma pedra já bem rouca.

ps. opa, opa opa:
-En la Ética clásica hay un concepto central, que es el de «vida lograda». ¿Qué es para usted la «vida lograda»? ¿Aspira a ella o se conforma con «sobrevivir», como tantas personas en nuestra sociedad contemporánea?
-Podría responder que después de una gran crisis social o política, el sobrevivir es ya la vida lograda. Si se está en una situación, por así decir, de paz, se puede pensar en algo superior, y entonces se intenta no sólo sobrevivir, sino que se tienen otras aspiraciones vitales. En esta sociedad de consumo, nolens volens, todos los hombres comparan entre ellos su felicidad. Por eso se ha hecho muy difícil decir cuándo se es feliz o por lo menos se está contento. Se piensa constantemente en que se podría ser más feliz de lo que se es. El concepto de la vida lograda es un concepto peligroso, porque es el concepto de la vida lograda de los otros.
O itálico é meu porque, óbvio, me lembrou isso aqui.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O deus-dinheiro

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.
Giorgio Agamben, em entrevista recente. [Aqui no original em italiano.] Gosto muito da ideia.

Academia rock'n'roll

[...] perguntei o que exatamente ele queria dizer com “antidisciplinar”. Seria algo mais formal, no sentido de que o conhecimento não se organiza mais em disciplinas específicas? A resposta surpreendeu. Joi disse: “Sim, é isso. Mas é também como ouvir rock’n’roll – a necessidade de questionar a autoridade, de pensar por si mesmo”.
Para ele, a academia precisa espelhar cada vez mais a estrutura da internet: aberta e descentralizada, com fronteiras porosas em que a distinção entre quem ensina e quem aprende perde o sentido.
[...]
Outro exemplo desse pensamento é a crítica sobre como a academia dissemina suas ideias, ainda presa à noção de “publicação” por meio de artigos em revistas acadêmicas, e livros técnicos, que no fim pouca gente lê.
[...]
'[...]Os velhos canais acadêmicos não são bons para gerar atenção, financiamento, pessoas ou impedir que você se torne obsoleto. Quando a academia é aberta, é mais provável que apareça alguém para trabalhar com você do que para competir com você'. 
[Itálicos meus]
Ronaldo Lemos escreveu há pouco tempo sobre o "radical, mas brilhante" Joi Ito e como a academia tem enormes dificuldades de dialogar com o restante da sociedade. Parece cada vez mais claro que repetir os procedimentos antigos, que sempre deram certo, hoje em dia é apenas criar novos erros.


Em época de Feliciano

quarta-feira, 27 de março de 2013

Infeliz Feliciano

É boa a campanha que diz que o pastor Marcos Feliciano não "me representa". Gosto de campanhas que são prioritariamente virtuais. Não acho que elas demonstram, num tom catastrófico, como ficamos preguiçosos ou despolitizados. Suspeito que sejam apenas o espelho de um tempo em que a internet - e as suas redes sociais - é [são] o(s) espaço[s] onde as pessoas se "encontram" e podem expor suas opiniões.

Além disso, é interessante ver como os assuntos ligados à intimidade são, aparentemente, mais complexos e motivam mais raiva que os, sei lá, ligados à causa verde. Basta lembrar que Blairo Maggi foi eleito motosserra de ouro e presidente da comissão de meio ambiente do mesmo congresso, que, aliás, tem como presidente do senado Renan Calheiros, que dispensa apresentações. Se Calheiros ainda recebeu um abaixo-assinado virtual, com mais de 1,6 milhão de assinaturas pedindo a sua saída, não vi nenhuma movimentação mais substanciosa contra Maggi, o cara considerado como o "rei da soja" e grande desmatador.

Já o infeliz Feliciano, que já se mostrou racista e homofóbico em cultos de sua igreja, além de aparentemente ser um explorador da fé alheia, recebe uma enxurrada de manifestações - a imensa maioria a que tenho acesso - contra ele. Ele conseguiu mobilizar até um protesto na vida real - coisa raríssima hoje em dia. Assim que ele foi confirmado, houve manifestações por várias cidades do Brasil - nas ruas! Recentemente artistas brasileiros até se beijaram em público para mostrar que são contrários à presença desse pastor que fundou sua própria igreja como o presidente da comissão que legisla, entre outros aspectos, sobre os direitos das chamadas minorias.

Porém há algo que me incomoda na frase: "Feliciano não me representa". A minha primeira reação é discordar profundamente. Infelizmente Feliciano - e todos os demais parlamentares, eleitos pelos mais recônditos recôncavos desse país - nos representam. Eles podem até não refletirem a opinião de um, dois ou 1,6 milhão de pessoas, mas se eles estão no Congresso Nacional, eles representam, sim, as vozes, as diversas vozes da nação.

Podemos discutir se as regras eleitorais são boas, válidas, ou verdadeiramente "representativas". Mas isso não muda o fato de, neste momento, os parlamentares serem os representantes diretos da sociedade civil na vida política. Podemos e devemos reclamar da maneira como a micropolítica de apadrinhamento e conchavos funciona, mas não dá para negar que aquelas pessoas lá no congresso foram escolhidas por eleitores que têm tanto poder quanto nós na hora da eleição: um voto.

O eleitor do Feliciano tem tanto direito de ser representado quanto o do Jean Wyllys. Desconsiderar um é acreditar que certos eleitores têm mais poderes porque estudaram até o mestrado, professam outro credo, são mais ricos, moram melhor. O voto não é qualitativo.

Ainda poderia ser aceito um outro argumento de até onde aceitar as diferenças: todos, talvez, concordemos que há, ou deveria haver, limites para o que se pode ou não propor. E esses limites estão expressos na Constituição. Portanto, não podemos ser pública e politicamente racistas e preconceituosos, por exemplo. Mas é a mesma constituição que impede o aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Carta não é fixa no tempo e deve se adaptar aos anseios da sociedade.

Mas o que mais me incomoda com o "não me representa" é a possibilidade de interpretá-la como: esse senhor não tem nada a ver comigo. Como se ao dizer isso, o sujeito lavasse as mãos, tal Pilatos, e mostrasse que ele não votou no pastor, logo, não deve fazer nada para que a questão se modifique. E, para mim, é exatamente o oposto: porque eu não concordo com o ponto de vista desse senhor, porque ele não ilustra, não reflete os meus ideais, eu não o quero como meu representante.

Claro que essa interpretação é um detalhe menor na campanha toda. Mas como este detalhe apareceu para mim talvez tenha também surgido para outras pessoas. E não custa nada deixar claro que Feliciano não reflete as minhas ideias.

domingo, 24 de março de 2013

'O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê'

As lições de R. Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem de suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.

Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo.
Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.

Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo [...]
Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por
Aí a desformar.
Até já imaginei mulher de 7 peitos para fazer vaginação comigo.

de Manuel de Barros

A metempsicose em 'Ulysses'

Um dos temas [é muito difícil dizer qual é o tema] de "Ulysses", ao menos um assunto bastante citado, é a metempsicose [como já vimos aqui] - termo genérico para a tal transmigração da alma. É um assunto complexo, muitas vezes tido como muito irracional, religioso, esotérico, em uma palavra. Por que então a questão seria abordada por um dos livros considerados mais complexos do século XX? Não seria uma contradição entre a robustez do livro e a quase infantilidade do tema? Não seria, nem é.

Harry Blamires, no livro "The new bloomsday book", faz uma sugestão interessante para explicar a utilização do tema por Joyce. Afirma que a fixação do personagem de Leopold Bloom pela metempsicose é uma antecipação do que vai acontecer no último capítulo da obra, quando a narrativa sai do ponto-de-vista de Bloom e vai para o de Molly, sua esposa. Ou seja, a "alma" da narrativa transmigra. As citações anteriores são como piscadelas que Joyce dá para o leitor, o avisando, o preparando para o que virá a seguir.

Apesar de bem interessante, essa explicação não é a única interpretação da quantidade de citações ao termo.

Peter Gay, em "Modernismo", fala sobre como Nietzsche havia previsto que a psicologia substituiria o papel que durante muito tempo foi da filosofia. A literatura, como qualquer outra representação, espelho do tempo, não ficou de fora dessa mudança de moda. O monologue intérieur é, provavelmente, o grande representante desse movimento. Em vez de, ou além de, se mostrar o que acontece fora do homem, se mergulha dentro do próprio personagem e descreve o que e como ele pensa, pulando de galho em galho dos links internos e pessoais.

Gay sugere "Os loureiros estão cortados", do francês Edouard Dujardin, do fim do século XIX, como o marco inicial desse processo. Foi o próprio Dujardin, que era mais conhecido como editor que como escritor, inclusive, quem cunhou a tal expressão "monólogo interior". Pouco lido, Dujardin quase não é citado hoje em dia quando se pensa na grande história da literatura mundial. Mas, entre os seus poucos leitores, estava um de peso: Joyce, que, segundo Gay, chegou a escrever uma dedicatória em seu "Ulysses" para Dujardin, se chamando de "ladrão impenitente".

O monologue intérieur, que ficou mais conhecido com Joyce como fluxo de consciência [stream of consciousness], é o outro grande tema para a metempsicose. O que o autor irlandês quer, com a sua sucessão encadeada de pedaços de pensamentos, cacos de memórias, descrição imediata das situações do momento, tudo misturado sem muita explicação, com qualquer reflexo de contextualização sendo sorvido como se fosse a última gota d'água do deserto, ele quer não apenas que mergulhemos no consciente e no inconsciente do seu personagem judeu homem-comum, mas, mais que isso, ele quer que nós sejamos Bloom. Joyce propõe que nós incorporemos a alma de Leopold Bloom. Só assim, imagino, podemos acompanhar seus saltos de informação, aparentemente sem qualquer relação entre os assuntos.

ps. Adivinha quem aparece logo na primeira página do outro citado grande clássico do modernismo do século XX, inclusive por conta do fluxo de consciência, À la recherche du temps perdu, do Proust? Ela mesma: "Puis elle commençait à me devenir inintelligible, comme après la métempsycose les pensées d’une existence antérieure" [grifo meu] [na minha tradução de Fernando Py: "Depois, principiava a me parecer ininteligível, como após a metempsicose, as ideias de uma existência anterior"]. Coincidência?

sexta-feira, 22 de março de 2013

Guerrilheiros de ontem a hoje

[Reportagem publicada na RHBN desse mês de março]

Especial Guerrilheiros -- No dia 28 de agosto de 1979, o então presidente da República, João Batista de Oliveira Figueiredo, sancionou o que ficou conhecido como a “Lei da Anistia”. Ela concedia indulto a quem tinha cometido crimes “políticos ou conexos com estes” ou crimes “eleitorais” e também a quem tinha sido punido “com fundamento em Atos Institucionais e Complementares”. Eram beneficiados pela lei os brasileiros que abriram mão de sua juventude – conforme eles mesmos afirmam –, para lutar por uma sociedade mais igualitária, pela liberdade democrática, ou apenas aqueles que foram colocados na genérica categoria de subversivos. Além de devolver a cidadania a essas pessoas, a lei contém, segundo um dos envolvidos na luta, alguns artigos que não foram escritos. Trata-se de um código de comportamento que, mesmo implícito, foi respeitado por uma parcela significativa de homens e mulheres dessa geração. “O primeiro: ‘Não falarás da sua luta’. O segundo: ‘Poderás falar do seu sofrimento, mas nunca da luta’”, enumera Carlos Eugênio Paz, um dos últimos comandantes da Ação Libertadora Nacional, a ALN, responsável por organizar e participar de diversas “ações revolucionárias” como, por exemplo, o “justiçamento” (as mortes dos agentes da repressão) do empresário dinamarquês Henning Boilensen. Além de financiar a ditadura, de acordo com os relatos dos revolucionários, Boilensen fazia questão de assistir às sessões de tortura. Para eles, seu assassinato era uma questão de justiça. Justiça revolucionária.

“Guerrilheiro não é somente quando você está com a arma na mão. É quase como uma concepção de vida”, segundo Carlos Eugênio Paz

Paz acredita que a história de sofrimento, com prisões aumentando em escala exponencial ao longo da ditadura, e torturas cada vez mais “científicas”, que se “aperfeiçoavam” para retirar mais informações dos subversivos, é uma das prováveis explicações para a dificuldade de encontrar quem se autodenomine guerrilheiro hoje em dia. Para ele, entretanto, “Guerrilheiro não é somente quando você está com a arma na mão (...). É quase como uma concepção de vida”, argumenta Paz, que até hoje atende pelo nome de guerrilha, Clemente. Para mostrar o alcance da luta, ele afirma ter feito um censo da ALN, no final de 1971, em todo o Brasil. Desde a sua criação, em 1966, haviam passado pela organização 15 mil militantes – ou guerrilheiros? – incluindo sua própria mãe, que ele diz ter recrutado para a luta.

“Mao Tsé-Tung calculava que para cada pessoa que pegava em arma, você tinha que ter cinco pessoas no apoio. A luta mostrou que você deve ter de 15 a 20 pessoas, que vão ser o ponto de apoio dentro daquela corporação”, calculou ele, citando como exemplo o caso de guerrilheiros que trabalhavam como jornalistas nas seções policiais para trazer informações diretas do “inimigo”.

A história da transformação de Paz em Clemente data de quando ele era muito jovem. Quando o golpe aconteceu, ele tinha apenas 13 anos. Era um escoteiro, disciplinado, que quase ignorou o acontecido: apenas ficou feliz por não ter tido aula. Em seguida, com a reação dos politizados familiares, percebeu a catástrofe que tinha sido a derrubada do regime democrático. Aos 15 anos, conheceu Carlos Marighella, o criador da ALN, do qual virou um ídolo. O líder comunista o selecionou para a sua organização fazendo dois pedidos: não se envolver com o movimento estudantil e entrar no Exército para aprender a atirar e descobrir como os militares pensam.

“Não existem muitas pessoas que, por sua experiência direta, tenham conhecido o cotidiano e as entranhas da luta armada desde o seu começo até o fim”, escreveu o ex-ministro Franklin Martins sobre Clemente, no prefácio do livro Viagem à luta armada, de Carlos Eugênio Paz (1996), sobre o fato improvável de seu autor não ter sido preso, apesar da “repressão” o ter escolhido como um dos principais inimigos. Foi uma exceção.

A história de Clemente encontra curiosos paralelos na do professor de natação Rômulo Noronha, que atualmente trabalha na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Assim como Clemente, Noronha era um robusto nadador que foi escolhido por Marighella para atuar no Grupo Tático Armado, mais comumente chamado de “grupo de fogo”, que reunia quem realmente pegava nas armas. Coincidência ou não, Noronha é outro que admite ter sido guerrilheiro – e, bastante assertivo, os dois não escondem até mesmo os erros cometidos. O professor de natação também serviu ao Exército: foi paraquedista. E os dois pensam o mesmo sobre os tempos de luta. Se Paz acredita que houve uma “vitimização” desse passado, por conta da enorme violência que começou com o golpe, Noronha afirma que “não quis entrar nessa de coitadinho”.

“Participei, no Méier [Zona Norte do Rio], de uma 'expropriação' de banco para obter recursos que eram usados para manter guerrilheiros”, recorda ele, usando outro jargão usado pelos revolucionários. “Os guerrilheiros ganhavam pouco mais de um salário mínimo, viviam vida espartana. Essa história de que ‘nós assaltávamos banco para viver bem’... Porra nenhuma!”

Noronha “caiu” e ficou preso de 11 de março de 1970 até 6 de fevereiro de 1979 – sabe até hoje o número de dias que passou atrás das grades. Na hora do julgamento não escondeu que tinha participado da ação, mas não concordou com o processo porque as denúncias tinham sido obtidas por meio de tortura – jamais, segundo ele, falou segredos da organização. Quando perguntado, em juízo, sobre o motivo que o levou a se envolver na “expropriação”, usou como resposta a fala de um personagem de Bertold Brecht em “A ópera dos três vinténs”: “O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”. Conclusão: “Fui condenado por desacato. Éramos considerados jovens cultos e rebeldes”.

“Guerrilheiro pouca gente foi”, defende o ex-ministro José Dirceu. Para ele, o objetivo das organizações, como a que participou, era “a propaganda armada”

Além da prisão, o caso de Noronha se diferencia do de Paz por uma característica própria: Noronha tinha uma companheira, no outro sentido do termo. Foi por conta dela que ele, junto com outros presos políticos, lutou para mudar o sistema carcerário, permitindo a visita íntima na cela. “Greve de fome de 16 dias, eu fiz cinco. As de menos tempo, eu perdi a conta”, enumera.

Ilma Maria Horsth Noronha, a companheira, hoje tem 61 anos e trabalha como bibliotecária na Fiocruz, no Rio de Janeiro. Fala mais pausadamente que o marido, como se estivesse repetindo um amargo capítulo que aconteceu há tantos anos e que ela “começa a esquecer”. Revisitando essas duras memórias, contou que quando o marido, na época namorado, foi preso, ela estava grávida da primeira filha. Decidiu imediatamente ir para a clandestinidade. Saiu do Centro da cidade e após passar por diversos “aparelhos” (assim se chamavam as células destes movimentos armados), foi morar em uma casa pequena no bairro de Piedade, subúrbio do Rio, com “um menino de 23 anos” que era um dos dirigentes da ALN, Elson Pereira Fortes.
“Minha filha já tinha nascido e para a vizinhança nós éramos um casal recém-casado que tinha vindo morar no Rio, para não ter nenhuma possibilidade de se chegar à minha família, que era da cidade”, conta. Nunca chegou a participar de ações armadas porque era do setor de inteligência. “Fazia levantamento dos bancos a serem assaltados, digo, expropriados, e das pessoas de destaque para serem sequestradas”, explica.




Por uma questão de segurança, ninguém da própria organização conhecia o endereço desse “aparelho”, diz ela. Porém, quando os companheiros começaram a ser presos, eles tiveram que quebrar algumas regras de segurança para socorrê-los. Em fuga da polícia, um casal de São Paulo fez contato com a ALN, que o deslocou para o endereço de Piedade. E esse casal acabou “abrindo”, ou seja, informando sobre a localização do “aparelho”.

“A polícia chegou lá de madrugada, cercou a casa”, diz ela. “Minha combinação com Elson era que ele tinha que chegar até às 21 horas, era o nosso código. Se não chegasse era porque alguma coisa muito grave tinha acontecido, e eu teria que sair até às 7 horas do dia seguinte. Não sairia de madrugada porque com o bebê chamaria mais atenção”, diz ela, um pouco confusa. “Fui esvaziando a casa, queimando documento, escondendo as armas. Quando eu abri a porta com a Tânia no colo, pronto.

Todos se levantaram de armas em punho... Foi algo que eu nem me lembro muito bem.” Ela foi presa com a filha Tânia. E foi levada para o quartel do Exército na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Ficou lá um tempo, não sabe dizer ao certo, enquanto entregavam a sua filha para a mãe de Noronha. Dias depois, Ilma foi liberada por falta de provas. Apesar da prisão, do sofrimento, do isolamento, da ausência, da memória fraca, ela diz que faria tudo outra vez. “O sentimento de que aquilo era importante é muito claro para mim.”

Como Che Guevara e outros ícones da década de 1960, o termo guerrilha foi ironicamente apropriado pelo mercado. Hoje em dia, talvez seja mais fácil encontrar quem se considere guerrilheiro entre os que praticam a moda do “marketing de guerrilha” do que entre aqueles que participaram de organizações de luta armada, buscando a volta da democracia.

“A gente deveria ter feito uma resistência política e popular à ditadura, combinada com a resistência armada”, argumenta Dirceu.

“Guerrilheiro pouca gente foi”, defende em entrevista à Revista de História, o ex-ministro José Dirceu, também ex-líder estudantil que foi preso no congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, no sul do estado de São Paulo, no ano de 1968 – um dos 15 nomes escolhidos para ser trocado pelo embaixador norte-americano sequestrado naquele mesmo ano. Após passagem rápida pelo México, ele acabou indo para Cuba, onde começou a participar do Movimento de Libertação Popular (Molipo). Para ele, o objetivo das organizações, como a que participou, era “a propaganda armada”. “Queríamos organizar, no interior, colunas guerrilheiras. E isso é outra discussão”, argumenta, explicando a sua atuação como “política”. Ele considera que “apoiou ou integrou uma organização que fazia luta armada”.

“Não tínhamos a postura de combate”, reitera, e explica o conceito segundo o seu ponto de vista: “Combater é tomar um quartel, tomar uma delegacia, cercar uma tropa, prender ou aniquilar aquela tropa. Tomar uma cidade, assaltar um trem. O que fazíamos era uma sobrevivência.”

Em Cuba, ele fez um treinamento militar básico, inicial para “qualquer outra tropa especial”. “É você aprender a sobreviver, marchar, conhecer emboscadas, defesas, retiradas, como organizar uma coluna, conhecer todo tipo de explosivo, armas sem recuo, metralhadoras .30, .50, todos os tipos de armamento, principalmente os que têm em seu país, como o fuzil FAL, que estava sendo introduzido.” Dirceu explicou que o aprendizado mais teórico sobre histórias de guerra, da América Latina e de Cuba, e a doutrina militar, são apenas a primeira fase do treinamento, que podia demorar até um ano e meio. Depois havia uma especialização, se aprendia diversos ofícios que podiam ser úteis para o guerrilheiro, como radiocomunicação, fotografia, falsificação de documentos, ou como viver na clandestinidade – que foi o caso dele.

José Dirceu voltou clandestino ao Brasil na metade de 1971. Ficou um tempo em São Paulo, no bairro do Brás, mas logo teve que fugir mais uma vez. Primeiro, Recife. Depois, Havana novamente, após passar por um périplo pela Europa. Sempre carregando uma mala com armas, dinheiro e documentação falsa.

“Nós transformamos a luta armada e a possibilidade de guerrilha rural numa prioridade”, diz ele. “Na verdade, a gente deveria ter feito uma resistência política e popular à ditadura, combinada com a resistência armada.”




Essa revisão do passado, às vezes, é feita com menos ideologia política e mais melancolia. Os anos de violência, repressão, censura e tortura marcaram profundamente a geração que viveu diretamente esses eventos. Quando começa a falar por que a guerrilha brasileira não funcionou no Brasil, o advogado pernambucano Francisco de Assis Rocha Filho, mais conhecido como Chico de Assis, dá um riso nervoso, de quem percebe como é duro falar do fim dos sonhos da juventude: “Porque [a ideia revolucionária] morreu no período inicial, bem primário de preparação, que seriam as ações urbanas, armadas, para fortalecer a parte rural”, explica replicando o manual guerrilheiro de Marighella.

Sua trajetória é a de muitos que optaram por lutar contra a ditadura. Estudante de classe média e militante da esquerda era preocupado com os problemas sociais da época. Empolgado com a política, em seu caso, com um exemplo prático no estado: o governo de Miguel Arraes, eleito em 1962, “o melhor entre os seus seis mandatos”. Com o golpe, opta por entrar em uma organização dissidente do PCB, o PCBR, com “R” de “revolucionário”, exatamente porque o partidão não tinha pegado em armas contra a “revolução” da direita de 1964. A diferença dos outros grupos, explica Chico, era que o PCBR ainda mantinha uma preocupação partidária. De resto, praticava os mesmos estratagemas, com “expropriações” de bancos para bancar uma futura guerrilha rural, que seria o germe da revolução, esta de esquerda.

“Dava impressão de que estávamos dominando o mundo, vivíamos o dia inteiro em reuniões, em pontos, mas estávamos, cada vez mais, nos resumindo às nossas forças”, conta ele sobre o turbilhão de emoções que era viver na clandestinidade, em “aparelhos”, como profissional do partido. “Nós fomos perdendo à medida que a repressão foi crescendo, que a violência foi se tornando algo real na sociedade, prendendo as ruas do Recife, e das capitais brasileiras, que se tornaram palco de arrastões permanentes, dentro dos quais se levava qualquer cara suspeito.”

“As lutas pelo aprofundamento da democracia ao longo da história sempre exigiram o alargamento de suas margens”, acredita Cid Benjamin

Foi preso em 1970, “ficando nove anos, quatro meses e 27 dias” em reclusão. Ao sair, por conta das amizades antigas, foi trabalhar como assessor de Roberto Freire, então do quadro político do PCB e atual deputado pelo PPS. A única exigência de Chico? Não ter qualquer vínculo com organizações revolucionárias. “O que ficou do comunismo para mim foi a sua a feição humanista.”

Mesmo com os sofrimentos generalizados, parece haver um sentimento em comum entre quem lutou contra a ditadura: valeu a pena. Uma sensação compartilhada, talvez um novo artigo não escrito na Lei da Anistia, por colocar do “lado certo” da disputa aqueles que, apesar dos arrependimentos e cuidado nas escolhas de palavras, não tem medo de falar abertamente sobre o período, inclusive desafiando o “outro lado” a fazer o mesmo.

“Tenho orgulho desse passado, pois ele significa que tivemos consciência dos crimes cometidos pelo estado ditatorial e demonstramos que sempre haverá quem lute pela liberdade e pelo bem comum”, resume o jornalista Andrei Bastos, que militou na Vanguarda Popular Revolucionária. Assim como Carlos Eugênio Paz e Rômulo Noronha, o jornalista também entrou no Exército para se preparar para a “linha de fogo”. O contato com leituras diversas e com militantes do PCB fizeram com que ele recuasse para a retaguarda da organização.

“A luta armada era inviável no Brasil, especialmente pela correlação de forças absurdamente desfavorável e pela evidência de que a população não seguiria uma vanguarda revolucionária, tanto pelo alto grau de alienação quanto pelo fato de que se vivia uma fase de abundância no chamado ‘Brasil Grande’”, diz ele enfatizando uma explicação meio comum para o fracasso da oposição à ditadura: a economia.

Quase meio século depois, as controversas memórias finalmente começam a aparecer. Uma mesma cena pode virar objeto de disputa sobre quem teve a ideia de tal ou qual ação. Ou ser narrada de diferentes pontos de vista, às vezes, contraditórios. Há também esquecimentos e lapsos como forma de proteção psicológica. Mas, talvez por conta do esquecimento público, também exista muita vontade de relembrar. Ao menos, para uma parcela que lutou contra a ditadura – e tudo o que ela representou. Filmes, livros, vídeos na internet, blogs, a Comissão da Verdade, esta edição da Revista de História mesmo. Não deixa de ser representativa a coleção de informações que apareceu recentemente. Uma onda de versões do que aconteceu.

“Malgrado os erros políticos que cometemos, temos o direito de bater no peito e afirmar que estivemos sempre do lado certo, o lado daqueles que lutaram para conquistar uma sociedade em que todas as pessoas fossem respeitadas igualmente e vivessem com dignidade”, escreve o jornalista e professor Cid Benjamin, um dos idealizadores do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, na apresentação de seu livro de memórias ainda inédito. “As lutas pelo aprofundamento da democracia ao longo da história sempre exigiram o alargamento de suas margens.”

Para que a luta – e a juventude – desses homens e mulheres não tenha sido em vão, parece que o artigo secreto da Lei da Anistia está começando a ser desrespeitado.

Leia também:
Especial Guerrilheiros
Saiba mais:
- DA-RIN, Silvio, Hércules 56 – O sequestro do embaixador americano em 1969. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
- FERREIRA, Jorge e REIS, Daniel Aarão (org.), As esquerdas no Brasil, Volume 3: Revolução e democracia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
- PAZ, Carlos Eugênio, Viagem à luta armada. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2008 (Record, 1996)

Filme:
- Hércules 56, Silvio Da-Rin, Brasil, 2006

quinta-feira, 21 de março de 2013

'Follow the map', by Mono

Guerrilheiros ou terroristas?

RH - O senhor acha que há alguma diferença entre os termos "guerrilheiros" e "terroristas"? Se sim, qual?
GA -Sim, há nítidas diferenças entre guerrilha e terrorismo, bem balizadas pelo Direito Internacional. Os guerrilheiros são amparados pela Convenção de Genebra e por organismos de direitos humanos de entidades internacionais, desde que atendam a algumas condicionantes, como a existência de uma zona liberada sob seu controle, a existência de uma causa, expressa em seu ideário, de chefes, de uniformes, de armamentos, de bandeira, etc, etc (diga-se que o terrorismo não é a sua finalidade, mas também, algumas vezes, fazem uso do mesmo). O exemplo atual é o das Farc, da Colômbia. Diga-se que no Araguaia, o bando do PCdoB que lá se instalou não pode ser considerado, jurídico-militarmente, como um movimento guerrilheiro: observe-se que não teve o reconhecimento nacional nem internacional, de órgãos jurídicos específicos, não merecendo, pois, o tratamento previsto na mencionada Convenção de Genebra.
RH- E o terrorismo?
GA - Já o terrorismo não possui nenhum apoio do Direito Internacional, a não ser de organizações de determinados países, sendo considerado como método criminoso hediondo, sendo as suas ações cruéis e sanguinárias, condenadas por todo o mundo democrata. O “guerrilheiro” pode ser visto como um civil que cooptado por uma causa luta contra o poder do Estado, que conta com os seus instrumentos para combatê-los, principalmente as suas forças militares. A opção pelo terrorismo é terrível, pois é executada por indivíduos incógnitos, evidentemente descaracterizados, que não possuem fardas ou qualquer meio que os identifiquem e o seu objetivo é causar pânico, levando o caos para a sociedade.
É a forma mais cruel e desumana de atuação. Seus seguidores desprezam as mínimas regras de humanidade e justificam a sua insanidade por algum propósito, ideológico ou não. Por isso, não estão preocupados que inocentes sejam atingidos, mesmo que o seu alvo seja a destruição de instalações ou de pessoas do governo. Nos dias de hoje, é politicamente incorreto lembrar que os guerrilheiros comunistas eram violentos. Quanto à repressão que os enfrentou e que os tinha como único alvo de sua ação, diferentemente deles próprios que, por atos de terrorismo, faziam vítimas indiscriminadamente entre a população brasileira. Os terroristas, hoje, posam de vítimas para dissimular o seu fanatismo, seus equívocos, sua violência e a sua intenção de transformar o Brasil em uma grande Cuba.
O general-presidente do grupo chamado Terrorismo Nunca Mais opina sobre a "guerra" que se combateu na época da ditadura civil-militar no Brasil. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nu Jazz

'Na guerra se aceita matar'

RH - O senhor citou os organismos de segurança, inclusive o DOI-Codi. Dentro desses órgãos havia tortura. Como o senhor vê a tortura nesse período?
GB - Eu acredito que tenha havido. Pelo background dos componentes. A nossa polícia sempre torturou, continua torturando nas delegacias. Não foi uma coisa inventada na hora. Já havia e continua havendo. Não é bonito. Mas que faz parte dos usos e costumes da nossa polícia, em todo o Brasil. A tortura que muitos alegam às vezes faz parte da propaganda. Muita gente foi presa e agora diz que na verdade não foi torturada, não.
RH -O general Leônidas fala em uma entrevista sobre o “Orvil”: “Estávamos em guerra e a única coisa bonita numa guerra é a vitória”. O senhor acha que vivíamos em guerra?
GB - Sim.
RH -E na guerra vale tudo?
GB - Na guerra, se aceita matar. Matar é um crime, nas condições normais de temperatura e pressão. A guerra é uma situação de exceção onde eu admito matar, arrombar, invadir outro país, obrigar a população a vir para um lado ou para o outro, se não fizer eu bombardeio.
RH -Mas existe algum limite?
GB - Existem coisas que a repressão não podia fazer, mas o guerrilheiro podia. Ele lutava pelo bem maior, ele podia matar, sequestrar, explodir.
RH -Mas houve mortes e, senão sequestros, prisões do lado da repressão.
GB - Sim.
RH -Então, de certa forma...
GB - Era uma guerra.
RH -O que, então, não pode ser feito?
GB - A convenção de Genebra. Ela se aplicou a alguma guerra, ou ela se aplica só depois da guerra para quem perdeu? Ao vencedor as batatas, e aos perdedores, um prêmio de guerra.
O resto da entrevista aqui.

terça-feira, 19 de março de 2013

Os bons e selvagens fósseis

Desde esse ponto de vista, compreende-se melhor o esforço retórico de Chagnon em degradar os ianomâmis, acentuando nas suas descrições uma animalidade que serve para relocar sua cultura na vizinhança da biologia. Ora, não há básica empírica nenhuma para afirmar que sociedades "primitivas" como a dos ianomâmis se mantiveram à margem da história, fósseis de um passado inaugural da espécie humana.
 Marcelo Leite, na Ilustríssima de domingo, demonstrando um erro comum e antigo entre o pessoal que pensa os povos fora do eixo ocidental de desenvolvimento como "atrasados".

A rainha da Inglaterra

Excepcional foto de Chris Levine [saiba mais aqui]
Normalmente se associa uma república, e não uma monarquia, a um estado mais democrático, em que todos são iguais perante a lei. Mas os fatos não são condizentes com essa afirmativa: basta pensar que a região onde há menos desigualdade social no mundo [um dos fatores que eu considero mais republicanos] é o Norte da Europa, que, se não me falhe a memória, são todos monarquias [a Finlândia é uma república, para comprovar a regra].

O ponto não é a defesa da monarquia - por favor, sou a favor da república parlamentarista! -, mas o papel que a monarquia tem em países como a Inglaterra, por exemplo, que conhecemos um pouquinho a mais do que, sei lá, Suécia, Holanda e Dinamarca.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que os monarcas da Inglaterra, desde há muito tempo, não são os absolutos enviados de deus, infalíveis nas sua atitudes. Era necessário negociar, argumentar, debater, enfim, viver em sociedade. Os ingleses se orgulham - e muito - da Magna Carta, lançada ainda nos 1200s. Isso, no século XIII. Comparada com as cartas magnas de hoje, ela será vista como algo extremamente antiquado e ultrapassado, mas imagine que há 800 anos um monarca teve que admitir em papel escrito direitos aos homens livres [como opostos aos servos].

Segundo consta, essa lei foi imposta ao rei que governava a Inglaterra pelos barões ingleses, como uma espécie de divisão dos poderes. Ainda há informação de que essa não foi a primeira vez que tiraram os poderes do rei. Parece, na minha interpretação, uma forma de negociação política interessante. Explico melhor:

As ilhas britânicas foram invadidas pela última vez na História por Guilherme, o conquistador [cada língua coloca o sotaque que quiser aí], no ano 1066. A data é lembrada de cor por todos os ingleses, com orgulho. Era um francês, mais especificamente um normando, o que explica freudianamente a relação que ingleses [filhos] e franceses [pais] têm até hoje, além da influência do francês no inglês.

Desde então, outros franceses, espanhóis, além de napoleônicos e hitleristas, para citar os mais famosos, tentaram entrar sem serem convidados nas ilhas, mas não lograram êxito. Guilherme unificou os povos, as aldeias, os clãs que viviam ali, erigiu diversos marcos arquitetônicos [como a Torre de Londres e, se não me engano, Westminster Abbey], negociou com quem encontrou e conseguiu criar um país, cerca de 300 anos antes dos seus vizinhos no continente. É uma vantagem e tanto.

Com a morte de Guilherme, que além de grande general, era um político, estadista e estrategistas, os chefes dos clãs, os tais barões, começaram a pressionar os seus sucessores que acabaram cedendo poder, por meio de instrumentos como a Magna Carta. Os barões podem ter perdido a guerra, mas não iriam perder seus poderes nem privilégios. O parlamento inglês, que começou a ser gestado na época de Guilherme, ganhou um belo e forte impulso.

De toda forma, é daí que nasce a ideia de que o rei não é absoluto, ou o enviado de deus, mas um representante do povo, que o mantém ali para o seu interesse. Nada mais democrático. Também é aí que está o germe da força do parlamento, a instituição que mais orgulha os ingleses, após apenas e provavelmente, a própria monarquia. Os primeiros-ministros e os demais ministros são todos MPs, ou "Members of the Parliament". O primeiro-ministro tem entre as suas atribuições prestar contas ao parlamento, à Câmara dos Comuns, sobre os seus atos.

Por que, então, manter uma rainha no poder? Os próprios ingleses se perguntam isso. Em uma pequena frase: porque eles gostam. Hoje em dia, há a preocupação de se justificar até mesmo financeiramente a existência da dona Elizabeth II. Dizem que o dinheiro deixado por turistas que visitam a Inglaterra para ver a monarquia compensa os gastos e as pompas com a família real. Deve ser. Mas não parece um pouco anacrônico ter uma monarquia hoje em dia? E uma monarquia que, em tese, pode influenciar o governo? Porque outra das atribuições do primeiro-ministro é se encontrar e ser aconselhado pela monarca - que subiu ao trono exatamente no segundo governo de ninguém menos Churchill. Aliás, é a monarca que, segundo a tradição - e os ingleses entendem de tradição - dá o poder para o primeiro-ministro.

Além de gostar, há uma outra informação importante que justifica os ingleses terem uma rainha. Ela cumpre um papel social, agregador, unificador. É um ícone de identidade, algo que todos têm em comum, mesmo que não concordem, mesmo que seja para criticar em uníssono. É uma chefe-de-estado, participa de eventos públicos, recebe autoridades, viaja para fazer relações públicas, é um exemplo para a nação. Fica com a pompa e deixa o trabalho duro para o prime-minister. Ela é o que os teóricos das relações internacionais chamam de soft power enquanto o chefe-do-governo é o hard power.

Ela é necessária? Não. Em várias épocas, houve a vontade de mudar o poder, a forma da Inglaterra seguir adiante, como na revolução de Cromwell, cuja estátua hoje fica em frente ao parlamento inglês. Mas logo perceberam que era trocar seis-por-meia-dúzia. Assim que Oliver Cromwell morreu, seu filho assumiu à frente do governo. Em outras, menos dramáticas, houve uma diminuição da aprovação - popular - da monarquia, como no recolhimento da rainha Vitória, após a morte do marido, ou no sumiço da Elizabeth II, quando morreu sua ex-nora, Diana. Em ambos os casos, reparem, foi o sumiço da vida pública, o desparecimento das suas presenças que as tornou supérfluas. Porque a imagem, e isso é o maior aprendizado não somente sobre monarquias, mas também sobre qualquer tipo de liderança, em qualquer nível, é o que se tem de mais importante.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ainda a sobrevivência e a vivência

OK, talvez eu tenha exagerado em colocar a "sobrevivência x vivência" na sua forma mais simples, no seu sentido mais puro. Talvez eu quisesse dar apenas uma outra conotação para o que eu já li com outros nomes. Explico:



A sobrevivência seria o ser humano [ainda me pergunto: "Dasein"?] no estágio que Nietzsche descrevia de "humano demasiadamente humano". O homem-mulher que, mesmo tendo a possibilidade de seguir os seus desejos, as suas vontades, os seus quereres, mesmo que isso seja possível, mesmo que a realização desses seus sonhos não lhe sejam vetadas, ele escolhe não escolher. Ele prefere, no dizer de Nietzsche, seguir a manada. Prefere manter-se dentro de uma sociedade, repetindo as ações que outros tiveram não para a realização de uma felicidade interna, mas para não desagradar o entorno, o outro, a alteridade. Se coloca numa posição passiva da sua decisão. Abstém-se da própria individualidade - novamente, não por desejo, mas - para não causar transtornos à sua volta. Teme o medo e fica paralisado.

Já a vivência, é o outro lado. É o homem-mulher que, ao ser dado a oportunidade de escolher, opta por seguir seu mais primordial instinto. Ouvir a voz que fala dentro do coração, que empurra para frente, que te traz coragem, que te coloca em pé, te faz seguro, dono de si, capaz de se erguer acima de si próprio. Que te faz senhor da própria vida. Que não precisa seguir convenções sociais, uma história, uma tradição. Que, mesmo cometendo uma ação que é vista por você próprio como um erro, não se arrepende, porque sabe que o erro é parte do acerto. Que quando quer fazer algo, e pode fazer esse algo, faz. Faz muito, e faz profundamente, e faz com vontade, rindo, um riso nervoso, de transe quase religioso. É o que Nietzsche, segundo as minhas interpretações, que já são baseadas em muitas outras, chama de "super-homem".

Esse "vivente" pode até fazer as coisas que ele faz no âmbito da "sobrevivência", mas, agora, ele as faz com atitude, com atividade, sem se colocar como passivo do "outro", da alteridade. Não é que ele sabe o que quer a cada instante, mas que ao ser colocado numa situação, ele opta por aquela que lhe é melhor ativamente. Age, nesse sentido, egoisticamente. Mesmo quando opta por ser altruísta, é de um altruísmo ligado à sua afirmação.

Vamos dar um exemplo banal já citado: o atravessar de rua. O que faz um homem-mulher atravessar a rua? Essa resposta tem que ser dada por quem atravessa a rua, não é possível outra pessoa opinar, além do homem-mulher que atravessa a rua. Ele atravessa a rua porque ele quer chegar em casa porque ele tem que chegar em casa? Ou porque ele quer chegar em casa? Porque ele quer evitar as aporrinhações que teria caso chegasse mais tarde em casa? Porque ele quer ver a mulher e o filho que estão em casa lhe esperando?   Porque ele está cansado? Porque ele quer dormir? Porque ele precisa dormir? Ou uma mistura de tudo isso?

O limite entre uma e outra atitude é extremamente tênue e totalmente individual - repito, totalmente individual. Apenas o próprio indivíduo tem a possibilidade de saber onde a sobrevivência acaba e a vivência começa. E mesmo ele não tem a garantia de descobrir essa diferença, de saber onde uma termina e outra se inicia. E se acaba mesmo para a outra começar. E nada, nem ninguém, fica estático em uma simples posição - balançamos para lá e para cá, ao sabor do devir, do destino, da ventura, ou do que quer que chamemos esse vir-a-ser.

Esses dois pontos são, ainda, extremos de uma régua. Comportamentos estanques que raramente acontecem sozinhos, sem serem contaminados pelo seu oposto. Não existe algo simplesmente "sobrevivência", ou "demasiadamente humano", ou o seu inverso, "vivência", "super-homem". Somos, ao mesmo tempo, sobreviventes-viventes, super-homens demasiadamente humanos.

A minha sugestão, a minha proposta, quase como um manual de auto-ajuda, é que tendamos para um dos lados. Que tenhamos as rédeas da própria vida na mão. Para o caso de enfrentar uma tranquila planície com solo agradável, poder galopar com o máximo de força. E não se acanhar.

domingo, 17 de março de 2013

Joyce's Saint Patrick's

In Saint Patrick's day, a Joyce homage to the Jesuits in "Grace", his short story in "Dubliners".
He took no part in the conversation for a long while, but listened, with an air of calm enmity, while his friends discussed the Jesuits.
"I haven't such a bad opinion of the Jesuits," he said, intervening at length. "They're an educated order. I believe they mean well, too."
"They're the grandest order in the Church, Tom," said Mr. Cunningham, with enthusiasm. "The General of the Jesuits stands next to the Pope."
"There's no mistake about it," said Mr. M'Coy, "if you want a thing well done and no flies about, you go to a Jesuit. They're the boyos have influence. I'll tell you a case in point...."
"The Jesuits are a fine body of men," said Mr. Power.
"It's a curious thing," said Mr. Cunningham, "about the Jesuit Order. Every other order of the Church had to be reformed at some time or other but the Jesuit Order was never once reformed. It never fell away."
"Is that so?" asked Mr. M'Coy.
"That's a fact," said Mr. Cunningham. "That's history."
"Look at their church, too," said Mr. Power. "Look at the congregation they have."
"The Jesuits cater for the upper classes," said Mr. M'Coy.
"Of course," said Mr. Power.
"Yes," said Mr. Kernan. "That's why I have a feeling for them. It's some of those secular priests, ignorant, bumptious——"

The mad scientist and the bikini model


How fiction can compete with this kind of real life story?

Ecology, the new opium of the people



Slavoj Zizek, with whom I have deep differences, talks about how ecology is substituting the religion, as we know it. How global warming is a kind of new "fall" from paradise, and how this discourse makes us feel guilty just for being born. More informations about this idea here [in Portuguese]. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Muito animada



"Minha filha, qual é o teu estilo?"
"Animação, pai."

Não precisamos saber tudo

Descobri recentemente a função social - essa necessidade que hoje em dia todas as instituições e pessoas precisam ter, uma espécie de "utilidade", ou, em outras palavras, a forma de ganhar dinheiro e não ser pobres ou "deficitárias" [palavrão dos palavrões] -, como dizia, descobri a função social da universidade: pensar. Isso, pensar. Esse hábito tão em desuso, que requer reflexão, isolamento, paciência, memória.

E para que precisamos pensar? Por que precisamos pagar algumas pessoas para pensar? E, como assim pensar? Bem, a resposta para todas essas questões é a libertadora frase que dá título a esse post: não precisamos saber tudo. E isso não precisa ser um desespero. Não precisamos ter opinião sobre tudo. Podemos relaxar e ver apenas a banda passar, cantando coisas de amor.

Isso pode soar estranho em um período em que há sommeliers - como diria, numa ótima sacada, um amigo no Facebook - de qualquer assunto em voga. Ou uma série de cínicos que, numa atitude superiora, de saber o que é ou não importante, desconsideram qualquer assunto em voga. Ou isto ou aquilo. Acho que estamos repetitivos. De toda forma, todo mundo sabe de tudo. Para exaltar, fazer piada, ou destruir. Parafraseando um certo grego, pelo meu lado, eu só sei que nada sei.

Reparem nesse blog: é uma série de contradições, sem tomada de posição clara, uma coleção de platitudes. Nada muito profundo, nada radical, sempre tentando encontrar um meio termo, um outro lado da opinião preponderante.

Mas, voltando ao fator "pensar": por que vamos pagar impostos para um fulano pensar, se podemos, todos, pensar como ele? O cara fica lá, apenas repetindo a posição do Rodin, para repentinamente gritar eureca, e dizer uma frase que ninguém consegue entender, além dos bajuladores de plantão [eu disse "plantão"!]? É isso? Mais ou menos.

A verdade é que a universidade deveria estar ligada direta ou indiretamente à sociedade em que vivemos. Podemos - e devemos - investir em ciência teórica, ou em filosofia. Porque sabemos que esses assuntos não estão descolados da nossa realidade, estão apenas anos-luz das nossas questões atuais, e eles nos preparam para o futuro que virá, para um presente que nem sabíamos que existia.

Fiquemos, contudo, com um exemplo mais mundano. Uma questão em que não há certos nem errados óbvios [como é o caso, por exemplo, desse pastor na comissão dos direitos humanos no Congresso: usar chapinha é errado!]. Como a história da retirada de árvores centenárias de regiões que passam por obras de reurbanização.

É claro que todos são contra a retirada de árvores, num primeiro momento. Ninguém, em sã consciência e razoavelmente centrado, é a favor de deixar a cidade menos verde. Mas qual é a possibilidade real disso acontecer? Os defensores das árvores dizem que o planejamento não leva em conta as árvores, o que seria um problema grave. Já o governo afirma que não há dinheiro para refazer o planejamento. E a obra é mais importante, para mais gente, que as árvores. E aí: como resolver esse impasse? Vamos às universidades, perguntar gente de urbanismo, história, botânica, pessoas que são pagas para pensar para chegar a uma conclusão que seja boa para, senão todos, a maioria das pessoas afetadas por essa mudança.

As discussões bancada verde x bancada progressista-a-qualquer-custo sempre, a meu ver, escondem uma outra questão subjacente. Vejamos o exemplo-mor: Belo Monte. Os verdes sacam a bola: a usina afeta milhares de pessoas. Milhares. Na maioria índios. Desmata. Acaba com equilíbrios ecológicos. O governo rebate: sem Belo Monte, corremos o risco de apagão. A bola volta para os ecologistas, que cortam: podemos substituir por outras fontes de energia. O governo se defende atacando: não há energia totalmente limpa e o custo/benefício da hidrelétrica é o melhor. A bola respinga para um pensador, um acadêmico, um sujeito da universidade que segura a pelota, para o jogo, e diz: a questão não é maior produção de energia, mas para que precisamos dessa energia. Antes de devolver a bola, ele lembra que os maiores consumidores de energia no Brasil são indústrias produtoras de alumínio, que, além de depender de uma outra indústria de extração, portanto destrutiva, nos traz poucas divisas, e incentiva uma industrialização que não passa de secundária, na melhor das opções. [Isso, claro, resumindo muito o resumo da história.]

Ou seja, a questão geralmente não é um tira ou não retira as árvores. Faz ou não faz usina. Mas para que precisamos de árvores, metrôs, usinas, índios. Precisamos de pessoas que consigam fugir do fla x flu da disputa apaixonada por um dos lados. Alguém que, como Guimarães Rosa, pense a terceira margem do rio.

terça-feira, 12 de março de 2013

Que país é este?

Ler-o-jornal, hoje, em 2013, é uma experiência curiosa. ["Ler-o-jornal" é uma expressão, não necessariamente tem a ver com o ato de abrir, passar os olhos, reter informações e virar as páginas de um diário em papel, mas o costume de se informar, por qualquer meio que se queira, das redes sociais a esse objeto arcaico que chega na casa das pessoas todos os dias, bem cedinho.]

Por quê? Porque dependendo da página em que você está, estamos diante de um Brasil corrupto, com dificuldade de crescer, atrasado, conservador, que elegeu um bispo homofóbico e racista para a comissão dos direitos humanos, e um vencedor do prêmio motosserra de ouro para a comissão do meio ambiente, ambas da Câmara [para ficar apenas nos exemplos mais famosos.]

Por outro, somos a bola da vez internacional, que conseguiu passar quase incólume pela crise norte-americana-europeia, palco de eventos internacionais cada vez mais importantes, cuja imagem vem se modificando, tendo até um cardeal forte candidato a papa [segurem os ufanistas!]. Um país cuja periferia começa a ser vista como uma fonte cultural importante - seja localmente, como as favelas, como nacionalmente, no caso de Belém do Pará, para lembrar do caso do tecnobrega.

Em que país vivemos?

Se há algo que o Brasil nunca gostou foi de sutileza. Ou melhor, sutileza, tradicionalmente é o nosso traço mais característico - vide a ideia de homem cordial do Sérgio Buarque de Holanda -, mas uma sutileza da porta para dentro, na "casa" do Roberto DaMatta. Do lado de fora, na rua, ou no trabalho, já fomos os campeões mundiais de desigualdade social, palco de duas ditaduras sangrentas só no século XX, e um dos últimos países a abolir a escravidão de negros. Será que falta autocrítica? Ou sobra?

Somos o rico, chamada eufemisticamente por aqui de "classe-média", ou o pobre. Somos de direita ou de esquerda, mesmo que ninguém no Brasil seja verdadeiramente de direita, apenas querem que as coisas mudem para continuar como estão. Somos o preto ou o branco - mesmo que pudéssemos ser o mulato inzoneiro.

Parecemos a menina do poema de Cecília Meireles que fica se perguntando "Ou isto ou aquilo":
Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

A menina, que no caso retrata um drama infantil de descobrir que a vida adulta é feita de escolhas que tendem a negar o seu inverso, ficaria muito feliz ao saber que, no caso do Brasil, não precisaria optar. Ao escolher isto ou aquilo, estamos excluindo a nossa diversidade. Limitando o outro. Ignorando opiniões diversas. Não escutando o diferente. Diminuindo o nosso problema. Simplificando a nossa questão. Talvez fosse melhor trocar os "ou", que requer uma escolha, na minha visão, desnecessária, por outro termo, mais simpático aos nossos ouvidos: "e".

segunda-feira, 11 de março de 2013

Residência do Sr. Borges


Madame Artois

"[...] Stella was the one with the reputation for quality and worth in the UK which the others could only dream of. Because of its consistency, if was seen as the most genuine brand, exactly what new premium draught lager drinker was looking for." [page 327.]

"At the dawn of the new millennium Stella was in double digit growth and was having its cake, eating it, and keeping the money it bought the cake with into the bargain. It was seen as a discerning, individualistic choice by millions of drinker, each of whom thought they were being classier than the other millions around them who were drinking exactly the same thing. It walked a brilliant tightrope between ubiquity and specialness. And then it fell off, headfirst, into a particularly deep and smelly pool of ubiquity.

"The bran's owners, Interbrew, went on a global buying spree and became Inbev, a massive brewing conglomerate that was desperate for cash and thought this would be an excellent time to star cutting costs on the brand. The recipe was cut with maize, a cheaper grain than barley, which produces less flavour, and what had once been seen as a challenging, full-flavoured beer became strong, but bland. By 2008, this 'quality' lager had either watered down or completely thrown out every single one of the product or the process points discussed in a beautifully written 1980s press ad about what made it so special. The ABV was reduced. The beautiful embossed can was replaced by a bog-standard can. The supermarket bottle quietly shrunk in size. And the supermarket price war became frenzied. Inbev would later protest that other brands were price cutting way more than Stella did, which was true - but not one of those other brands had built their popularity on the back of a long-running 'Reassuringly Expensive' message.

"Stella's higher alcohol strength, coupled with its ubiquity, started to earn it the unpleasant nickname 'wifebeater', and it became seen as the drink of choice by people who wearing as much Burberry tartan as possible was a really good idea. Double-digit growth promptly flipped into equally dizzying decline. New variants were launched and quickly withdrawn. The advertising stopped being subtle and rewarding in favour of simple and browbeating. In a final attempt to shake Stella's headbanging image, Inbev launched a 4 per cent version - a curious move given that they had also just  launched a 4 per cent version of Becks [which by now had, bizarrely, more flavour than the full 5 per cent Stella] and used the success of the lower strength version to mask the continuing decline of its once-great parent. At the time of writing, Stella's owners have announced brewery closures and swingeing job cuts, claiming no one is drinking beer any more.

"Stella is still market leader in premium lager, but where lager itself had once seemed cool and stylish, it increasingly became dull, bland and commoditised." [page 340, BROWN, Pete, Man walks into a pub, Essex: Pan Books, 2004]

sábado, 9 de março de 2013

Especialista e escritor de literatura



[Para quem, como eu, prefere ler a assistir a vídeos, tentei escrever a primeira participação do Juliano Garcia Pessanha no debate a seguir. Mesmo que eu não concorde com tudo, principalmente na questão da romantização da criação, acho várias questões dele imprescindíveis.]


Quem habita esse espaço literário já necessariamente se move no interior de um fracasso. a razão para isso é: quando o mundo e a experiência guardam alguma opacidade, o escritor tem amplas zonas para mover sua experiência e o seu dizer. Quando o processo de objetivação e explicação submete e domina cada vez mais regiões da experiência, mais o dizer vai migrando para o especialista, e mais diminui o espaço da província literária. 

Nos últimos cem anos, não só novas realidades saíram da clausura e da latência para entrar no mundo, os átomos, os quarks, o DNA, o sistema imunológico, como realidades que se encontravam fora do regime explicativo, foram objetivadas e colonizadas pelo saber explicitante. A sexualidade, com Freud, os sonhos, Jung e Freud, a relação mãe-bebê, Winnicott, o mundo do outro, da outra cultura, com Lévi-Strauss, o mundo do trabalho, Marx, o mundo da moralidade, do Nietzsche e Freud. Quando alguma coisa, qualquer coisa, sai do estado da latência, desse estado da não-explicação, e adentra no regime moderno de coisa explicada, muda completamente a nossa relação com essa coisa.

Um dos resultados desse processo é que o dizer de uma certa realidade fica colonizado pelo saber que a explicou e a conduziu à luz. Chancelado pela rubrica da verdade, da operatividade, pois a realidade uma vez explicada, é passível de controle e intervenção, pense, por exemplo, no ombro e no joelho, antes e depois da ressonância magnética, ou uma intervenção clínica para tirar uma criança do autismo, imagine a força que o dizer desse especialista vai ganhando. Todo dizer vai sendo arregimentado e calibrado pela linguagem que doravante abre o acesso mesmo àquele setor da experiência. 

Esse processo que pode ser chamado filosoficamente da "lebenwelt", do mundo da vida, [isso eu estudei em um autor que Antonio Cícero foi um dos primeiros a trazer para o Brasil em 1988, Peter Sloterdijk, estou citando um pouco do "Esferas 3", em que ele coloca a modernidade a partir da potência explicativa] leva o escritor a ficar cada vez mais acuado e sem ter o que dizer. O especialista vai tomando conta. A própria experiência do narrar e da leitura como atividades de reconhecimento e de reconfiguração da experiência cede lugar e é transferido em grande parte para outras disciplinas, as chamadas humanidades. Simultaneamente a isso, o que acontece, que eu vejo, os psicanalistas, os etnólogos e filósofos, começam a narrar melhor, e coisas mais interessantes que os escritores. 

Eu cito o exemplo caro para mim do Masud Khan, de "Quando a primavera chegar". Eu mesmo escrevi muito a partir de caso clínicos, ia na casa do meu pai, que era analista, e ia direto no ponto nevrálgico, só que muitos trabalhos eram mal escritos. Quando descobri Masud Khan, fiquei encantado com ele. E o exemplo do romance filosófico "Esferas", do Peter Sloterdijk, de 2,4 mil páginas luminosas, de uma história cujo protagonista é o espaço. Eu considero hoje em dia Peter Sloterdijk o maior escritor vivo, e ele nem é escritor. No caso do campo "psi", é muito claro que ele toma grande parte do terreno outrora da literatura. É nos consultórios que muitas histórias são hoje contadas e recontadas cotidianamente. E é também lá, junto a um especialista, um outro especialista, que a dor e a pergunta buscam um lugar mais acompanhado que o diário, a escrita e a leitura. 

Tive muitos alunos em casa e muitos me relataram que escreviam diário, mas foram fazer terapia e pararam de escrever. Isso foi um tema que o Ricardo Piglia levantou uma vez no Brasil, quando ele veio em 1991. 

O interessante é que nessas condições de perda de terreno para os especialistas, o escritor tentou imitá-los, e se converteu ele próprio num especialista e num profissional da literatura. Essa reação contrafóbica ao fracasso, uma reação maníaca, levou a um fracasso cada vez maior da literatura, na minha opinião. Ao invés de ruminar o fracasso, e deter-se na dificuldade cada vez maior de dizer algo, ou menos de num grito, indignar-se com a situação na qual nos encontramos, isto é, em que o homem não consegue acessar a si mesmo, a não ser pela mediação dos saberes, e o dizer dos especialistas. Dito filosoficamente, se me perdoarem, a situação na qual o processo de objetivação já englobou e engoliu o objetivante, que é o sujeito, e o objetivado - estou falando heideggerianamente. Ambos estão nivelados. O próprio sujeito foi engolido nesse processo.

Uma indignação à altura de quem sabe que perdeu o orvalho e sofre com isso. Uma espécie de dor de exílio. Uma espécie de não poder dizer a não ser pela mediatização desses saberes. 

Ao invés de ruminar o acontecimento e adensar o silêncio, e uma outra relação com a linguagem, o escritor atual tentou imitar o vigor do dizer dos especialistas, saiu por aí doido, atrás de ideias e de ter o que dizer, como Harrison Ford, atrás da arca perdida, procurando assunto. O escritor atual tornou-se o camaradinha criativo, atrás de ideias, de histórias, um caçador de gírias. Ele, na sua fuga contra o fracasso, parece ter se esquecido, de que quem tem milhares de ideias e de projetos é o publicitário. O escritor real tem muitas vezes apenas uma ferida, cujo nome ele desconhece. Mas que ele concede [?] silêncio, uma palavra gaga e balbuciante. A palavra da arte é coisa de recém-nascido ou de moribundo. De quem não está acostumado com o mundo, mas mais tocado pela sua emergência e sua desaparição, do que envolvido em sua estabilidade. Tanto aquele que acaba de nascer, quanto aquele que está para morrer, sabem que a linguagem acontece em nossa boca, quando, desabados dela, e desintoxicados dela, estamos tensos, no surto, susto do mundo. Sabem que "antes que a palavra invada fácil, um olho arde" [esse é um verso de uma amiga minha, Márcia].  "Antes que a palavra invada fácil, um olho arde, um corpo treme."

Já o escritor de meia-idade [uma questão topológica], estabilizado no mundo, vive na precedência da palavra e das referências culturais. Ele é um produto cultural e um malabarista, daí sua falta de vigor. Seus livros não nascem, mas são produzidos, já chegam com crítica e editora. A exemplo do colega [não identificado], que explica tintim por tintim o que fará ao papai [não identificado], o escritor profissional também ajusta o seu dizer ao âmbito da compreensão do seu financiador e do mercado, e nesta calibragem mútua, garante-se a tautologia, a duplicação mesmo, a agonia do totalmente já pensado, totalmente já sabido. 

É óbvio que há também escritores de meia-idade, diferentemente dos nascidos há pouco e dos moribundos, que não são mera dublagem do mesmo, cujo dizer está marcado por experiências reais, mas o acontecimento, hoje, hegemônico é que a literatura, e a palavra literária, que supostamente constituíam a última zona de imunidade, contra a invasão do dizer objetivante dos especialistas, tornou-se ela própria uma zona objetivada e colonizada por especialistas [inaudível].

Catadores de discursos e caçadores de vivência têm hoje à disposição de sua produção estética muito mais assunto. O cardápio estendeu-se muito, pois a própria zona do recém-nascido e do moribundo, esquadrinhada e esclarecida pela filosofia do século XX, tornou-se mais assunto para saques discursivos. 

Para concluir, cito uma poeta que é muito cara, na briga contra essa questão do roubo cíclico sem o afeto da experiência. Sobre o estetismo, é de Maria Tsvetaeva, descobri o livro dela ano passado e fiquei encantado. 

"O estetismo é insensibilidade
A essência substituída por indícios
O esteta se esquiva do matagal da vida, mas nutre-se dele numa gravura
O estetismo é um cálculo, pegar tudo sem dor
Transformar a dor em delícia
Todos têm o seu lugar ao sol, o traidor, o velador, até mesmo o assassino. Mas não o esteta.
Ele não conta, está excluído dos elementos da natureza. Ele é um nada
Meu jovem amigo, não seja um esteta.
Não ame as cores com os olhos. Os sons com os ouvidos. Os lábios com os lábios. Ame tudo com a alma. 
O esteta é um hedonista cerebral. Uma criatura desprezível.
Seus cinco sentidos são fios que não conduzem à alma, mas ao vazio.
Afinidade de gostos? Não se está longe da gastronomia."

Para concluir, outra frase dela: "Você naturalmente será um artista. Não há outros caminhos. Toda vida no espaço mais amplo e no tempo mais livre é estreita demais."

sexta-feira, 8 de março de 2013

Sobrevivência, o vazio e vivência

[O que se verá a seguir não é nenhuma novidade para a humanidade.]

Isle of Skye, Scotland
O ser humano [ou deveríamos chamá-lo de Dasein, como Heidegger?] tem necessidades próprias, obrigações, situações que não podem ser contornadas de jeito algum [com a exceção de relatos, nem sempre confiáveis, de personagens extremistas, como faquires, sadus, monges etc.]. Alimentação, por exemplo. Sem comer ou beber morremos. E, como já vimos, há algo que nos empurra à frente, que nos faz viver. Por isso, sugiro, a fome dói tanto. Porque é essa força, em seu estado mais puro, gritando, exigindo que seja atendida.  A isso eu chamo de sobrevivência.

Mas e quando a sobrevivência é suprida, quando temos tudo o que precisamos para viver? Não estou falando de uma questão hipotética, antiga, que existe apenas no mundo controlado da memória, mas atual: quando temos uma vida razoavelmente construída, não temos grandes dramas, nossas necessidades são atendidas e ainda sobra um dinheirinho no fim do mês para tomar uma cerveja com os amigos? A sobrevivência, essa nossa necessidade, essa nossa única e verdadeira obrigação, não é mais uma preocupação, o que acontece?

Encontramos um buraco. Uma falta de noção, de sentido, de caminho claro para ser seguido. Um "e agora?". Um "para onde ir?" O que devemos fazer? A essas perguntas eu chamo de vazio.

Esse é um processo comum, que provavelmente atinge a todos que já passaram da situação de "sobrevivência". Talvez nem todos percebam. Talvez o processo de muitos seja apenas continuar, sem qualquer reflexão. Nesse caso, seguem os passos já estabelecidos pela tradição, pelas relações de família, por um senso comum enviesado pelo ângulo de quem vê. E continuam, repetindo os erros e os acertos anteriores, sem mudar o traçado, sendo um eco de palavras anteriores.

Mas há os que param, respiram, e percebem à sua frente o nada, o "absurdo", a falta de um motivo pelo qual se deve continuar a sobreviver. [São poucos ou muitos? Não sei.]

Estes começam a se perguntar: devemos seguir um cotidiano pendular, de idas e vindas do trabalho? Construir uma família parecida com as de comercial de margarina? Entrar numa seita religiosa e deixar nosso destino nas mãos de outrem, para que não precisemos nos preocupar em decidir nada? Devemos nos engatar numa luta pela melhora das condições de vida no mundo? Salvar os pandas? Ganhar mais dinheiro para poder ganhar mais dinheiro? Pegar todas as mulheres do mundo? Estudar em todos os tempos livres para ser o mais culto? Inventar um hobby? Torcer por um time de futebol? Virar um cinéfilo? Plantar uma árvore?

Alguns capitulam. Fazem o mais fácil. Chegam a esse processo e resolvem retroceder. Mesmo que tenham encarado o vazio, voltam e optam por um caminho já traçado. Escolhem não escolher. Deixam suas decisões na mão de um outro, seja pai, mãe, chefe, pastor, padre, presidente, técnico. [São poucos ou muitos, estes? Novamente, não sei.]

Nesse momento, essas atitudes além-da-sobrevivência se tornam, igualmente, parte da sobrevivência. Como se, sem elas, estes homens e mulheres não conseguissem seguir adiante. Como se trocassem suas vidas pelo pouco de prazer que essas atitudes fornecem. Usam essas atividades como produtoras de prazer, serotonina, como um droga, para aguentar o resto da vida. São, normalmente, tristes. Profundamente tristes [no sentido de serem, apesar de aparentemente felizes, lá no fundo, tristes].

E há os que escolhem, que optam, que têm a coragem para seguir com o que querem e tem vontade -  e aguentam as consequências de seus atos. Obedecem o impulso que, parecido com o de sobrevivência, existe e joga para frente. [São muitos ou poucos? Duvido que sejam muitos. São melhores ou piores? São apenas diferentes.] Podem escolher qualquer um dos caminhos que eu citei, mas escolhem ativamente, sabendo o que estão fazendo, não como defesa, passiva, para o mundo. Entram de cabeça, mergulham, tem orgulho dos próprios defeitos, dos erros que porventura vierem a cometer. Porque sabem que estão fazendo o melhor que pode. A estes, eu considero que saíram da categoria de sobrevivência e entram na que eu chamo de vivência. Supervivem.

quarta-feira, 6 de março de 2013

¿Por qué no te callás?

Ainda bem que temos humor na internet - onde iríamos parar
sem isso? [Foto roubada do FB de Claudia Croitor]
Fiquei assombrado - a palavra é assombrado - com as reações à morte do presidente venezuelano Hugo Chávez. Todas eram de grande alívio, travestido de revolta, ou de um pesar imenso, como se um líder de nossos tempos tivesse morrido. Todas eram excessivamente emotivas, fossem raivosas ou tristes. Um amigo posta que um câncer levou o outro. Outro mostra uma imagem em que o presidente entra num livro cuja capa está escrito "História". Nada razoável, nada comedido, nada centrado. As piadas, tão comuns nesses casos de mortes entre os humoristas de plantão das redes sociais, se resumiram a uma ou outra referência à série "Cháves", do Roberto Bolaños - portanto, o ator, não o escritor.
Sentiam o mesmo que, em outras plagas, sentem em relação a Evo Morales, a Lula. Um sentimento que está quase aquém, ou além da ideologia, da política -quando entendidas, tais expressões, no seu sentido apenas usual, pedestre. Asco, nojo, porque um sentimento que nasce da rejeição étnica, antes de tudo. Uma questão de pele.
Comenta Bob Fernandes, que diz tê-lo entrevistado várias vezes, sobre os inimigos de Chávez, em comparação com outros líderes, em um texto exatamente sobre esses extremos de emoções..

Para mim foi curioso - e assustador. Principalmente porque eu não tenho qualquer opinião sobre a Venezuela mais concreta. Nenhuma informação mais profunda, que fuja do fla x flu. Conheci, uma vez, um casal venezuelano. Ela, jornalista, ele, engenheiro, mas que queria fazer cinema. Ela, ferrenhamente contra Chávez. Ele, apaixonadamente a favor do líder da revolução bolivariana. Ela, reclamando do aumento de preços, do sumiço de produtos básicos, da extrema violência de Caracas [o Rio parece um lugar paradisíaco se compararmos os relatos]; ele falando sobre a distribuição de renda, a preocupação com as classes mais pobres, com a aceitação popular ao governo, o movimento nacionalista. Ela, representando a classe média. Ele, a mais baixa. Não me surpreendeu quando soube - por uma dessas coincidências incríveis: ela estudou com amigos na Espanha! - que não são mais um casal. Representavam esse desnível de comunicação, os polos extremistas.

Tentei ver ontem sites de jornais venezuelanos. "El Universal" saiu do ar [parece que não fui o único]. "El Nacional" se posicionou entre os revoltados. Não me pareceram, assim, bastante isentos de emoções fortes também. Também pudera. Uma das grandes acusações que chega para nós, aqui do outro lado da América do Sul, é exatamente a luta contra a imprensa. O curioso é que conseguimos ver essa imprensa ainda aqui.

Comentei isso ontem, em voz alta, e recebi de volta que Chávez era um homem a que não se podia ficar indiferente. Fiquei me sentindo um estranho no ninho.

Claro que esse debate público durou até a chuva cair no Rio. Aí, novamente voltamos nossas energias e emoções a outra efeméride. E hoje, com a morte de outro ícone de nossos tempos, vamos ter assunto para mais um dia. E assim vamos em frente.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Utilidade e desvantagem da história

[Ainda algumas anotações ao ler o texto "Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida", de Nietzsche.]

- Logo no início, Nietzsche diz que a história corre o risco de ser "instrução sem vivificação". Parece que ele fala sobre tornar o saber algo prático, ou, ao menos, vivo. Acumular história é acumular dados, informação, sem qualquer ligação com a realidade. Mesmo que de maneira teórica, não é válido, produtivo, ou, na terminologia do filósofo alemão, afirmativo.

Se não houver processamento da informação, ou reflexão, os dados são completamente inúteis - enciclopédicos. Daí que o fato de hoje a memória ser universal ser algo que pode ser visto como positivo. Como diria a crítica argentina Beatriz Sarlo, desde a invenção da internet, acabou a erudição ["Después de

Google, no hay erudición sino links. Las teorías salvajes vive desesperadamente esta situación y quizá por eso Pola Oloixarac acumula referencias", daqui].
- "[...] o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto."

- "[...] aquele conhecimento de que a existência é apenas um ininterrupto ter sido [...]."

- "Se uma felicidade, um anseio por uma nova felicidade é, em certo sentido, o que mantém o vivente preso à vida e continua impelindo-o para ela, então talvez nenhum filósofo tenha mais razão do que o cínico: pois a felicidade do animal, como a do cínico perfeito, é a prova viva da razão do cinismo. A mínima felicidade, contanto que seja ininterrupta e faça feliz, é incomparavelmente maior do que a maior felicidade que só venha episodicamente., como capricho, como um incidente desvairado, entre puro desprazer, desejo e privação."

- Nietzsche fala sobre como o ser a-histórico é o homem apaixonado, completamente prenhe de potência. Talvez peque pela falta de detalhamento, mas é seguramente arrebatador.

- "Quem perguntar a seus conhecidos se eles desejariam atravessar uma vez mais os últimos dez ou vinte anos de suas vidas perceberá, com facilidade, qual deles está preparado para aquele ponto de vista supra-histórico: com certeza, todos responderão "não!", mas eles irão fundamentar diversamente este "não!". [...] Nós os denominaremos os homens históricos;"

Nietzsche associa o tema proposto com um dos seus tópicos preferidos: o eterno retorno. 

Curiosamente a ideia do eterno retorno é pouco associada à história, é mais uma argumentação moral: defende uma atitude afirmativa no presente - daí, o que Nietzsche chama de supra-histórico - em relação ao passado e ao futuro.

- Sobre as utilidades da história: "nosso tempo é tão ruim que o poeta não encontra mais na vida humana à sua volta nenhuma natureza utilizável." Nietzsche mostra um dos lados mais controversos da história para quem ele chamou de "homem de ação": ele deve olhar para trás para não sentir "nojo" do presente. "ele foge da resignação e utiliza a história como um meio contra a resignação." E qual é a recompensa para essa atitude? "Na maioria das vezes  não há o aceno de nenhum pagamento a não ser a fama ou seja, a candidatura a urn lugar de honra no templo da história onde ele mesmo pode ser uma vez mais mestre, consolador e admoestado".

- O homem de ação é o homem supra-histórico, e que também já foi chamado de super-homem: " apenas 
o que é grande sobrevive!"

- Fama = "continuidade do que há de grandioso em  todos os tempos, ela é um protesto contra a mudança das gerações e a perecibilidade."

- Eterno retorno, sob ponto-de-vista histórico:
se os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes também se deveria repetir, igualmente, sobre a terra, e isto até os eventos singulares e diminutos: de modo que sempre e de novo, quando as estreias estivessem em uma certa posição umas em relação às outras, um estoico se ligaria a um epicurista para matar César e novamente em uma outra relação Colombo descobriria a América. Somente se a terra sempre começasse a cada vez de novo sua peça teatral a partir do quinto ato, somente se estivesse assegurado que o mesmo complexo de motivos, o mesmo deus ex machina, a mesma catástrofe se repetiria em determinados intervalos, o poderoso teria o direito de cobiçar a história monumental em sua plena veracidade icônica, isto é, cada fato em sua peculiaridade e unicidade exatamente formada: provavelmente, portanto, não antes de os astrônomos terem se tornado uma vez mais astrólogos. Até aí a história monumental não precisará utilizar aquela plena veracidade: ela sempre aproximará o desigual, generalizando-o e, por fim, equiparando-o; ela sempre enfraquecerá novamente a diversidade dos motivos e ensejos a fim de apresentar o effectus monumental como modelo e digno de imitação, à custa das causae: de maneira que se poderia denominar este efeito, uma vez que ele abstrai o máximo possível das causas, com um pouco de exagero, como urna coletânea dos "efeitos em si", como acontecimentos que se
tornam efeito para todos os tempos.
- "os  juízes são conhecedores de arte porque gostariam de pôr  de lado a arte em geral." Uma crítica ao saudosismo, à nostalgia exagerada - a ideia de que o passado é sempre melhor que o presente.

Para Nietzsche, o passado deve servir de inspiração, não de imobilização.

domingo, 3 de março de 2013

Proust's Madeleine

Visitors lining up to see the word “madeleine” as it appeared in Proust’s handwriting for the first time are in for a shock. What appears in a 1910 draft of Swann’s Way is the banal word “biscottes,” easy to spot in the manuscript. Soon Proust will find that this word will yield to another word that will open many doors for him in his narrative. But not yet. It is as though a draft of The Great Gatsby had, at first, a hero called Jones and Daisy was originally called Anne. Or the first draft of The Old Man and the Sea had the old man merely fishing for mackerel. Or that Molly Bloom, at one point in the composition of Ulysses, ended her soliloquy by saying “Maybe.”
 Colm Tóibín writing about a Proust manuscripts exhibition for The New York Review of Books. Worth the visit.