quinta-feira, 6 de julho de 2017

A casa [da mãe Joana] França-Brasil

D'accord, dou o braço a torcer. Agora, parece inegável que a relação Brasil-França (ou seria Rio-Paris?) é maior, ou pelo menos de outra natureza, mais íntima, mais profunda, que a do Brasil com outros países ricos. É claro que essa é uma percepção subjetiva, mas é a mesma impressão e método que usei para avaliar outros países. Como forma de contra-prova, ou prova dos 9, eu me defendo dizendo que estava até recentemente tentando evitar essa associação de todas as formas. Mas contra as coincidências quase cotidianas [a última foi a francesa que nasceu no Brasil, o pai é ex-diplomata no Rio e o irmão, produtor de cinema de "Cidade de Deus" e outros blockbusters nacionais] não há muitos argumentos.

Sempre me perguntei, para evitar uma aproximação exagerada entre Brasil e França, que falseasse o real: por que a França - e não outro país - teria essa ligação íntima com o Brasil? O que a França - ou Paris; ou Paris? - tem que outros lugares não têm? A questão é que não consegui fugir das questões com respostas satisfatórias e agora estou me esforçando para levantar alguns possibilidades de caminho.

Minha primeira tentativa é histórica. Os franceses tentaram, diversas vezes, colonizar não somente o Rio, como também outras áreas da costa do que veio a ser o Brasil. Discordando daqueles que reclamam do nosso passado português, imagino que para nós, que somos o resultado de uma colônia europeia com tráfico de escravos africanos tirados a força de suas casas dentro de um território manchado com o sangue do genocídio indígena, não haveria muita diferença. Vide o Haiti. Reze pelo Haiti. Todavia, para os franceses...

Para os franceses houve, suspeito, uma sentimento de perda, de queda de um espécie de paraíso na Terra. Uma terra em que, finalmente, eles cumpririam o destino deles: o de serem os donos da porra-toda. Em outras palavras, a Casa Grande numa terra grande.

[Pausa para dizer que se os jornais ainda poderiam ser usados como forma de entender uma parcela representativa da sociedade, o mais que insuspeito "Le Monde" demonstra como os franceses pensam sobre o restante do Monde. Todo e qualquer assunto internacional é, de uma maneira bem direta, parte das suas políticas internas. Eles devem, de alguma maneira, estar a par de todos os assuntos porque eles teriam, numa imaginação um pouco fantasiosa, influência direta nisso. Dias desses, por exemplo, a capa do site era sobre um drama na sucessão do trono na Arábia Saudita. Noves fora o peso estratégico do reino, o tema é, no mínimo, estranho para olhos brasileiros. Fim da pausa.]

Voltando à França, e à sua relação com o Brasil. Os gauleses, sem o Brasil para explorar, se sentiram naquela famosa relação de quem poderia ter sido e nunca foi. Uma promessa nunca cumprida. Um potencial não explorado, por motivos de: caminhos tomados estranhamente na vida - da vida. Seria possível, com pouco esforço, dizer o mesmo do Brasil, apelidado pelo Stefan Zweig de "O país do futuro". O mesmo Zweig, vale o comentário, que tem uma presença bem mais constante aqui em sebos e livrarias que em outros países que visitei [nunca fui à Áustria, no entanto].

Haveria, daí, uma segunda identificação entre o Brasil e França. Os dois se sentiriam parte do mesmo clube dos corações frustrados. França, como o irmão mais velho e rabugento, Brasil, como o mais novo e festivo. De onde nasce a terceira ligação.

Poder-se-ia [o presidente-intestino ficaria orgulhoso da mesóclise] supor que esse irmão mais velho e ranzinza quer, no fundo, cair na folia do mais novo. Haveria uma inveja... não, não: uma cobiça, uma vontade de ser desse modo descompromissado, desleixado, desse jeito de não se levar a sério, não conseguir se levar a sério - mesmo quando uma dose leve de seriedade seria indicada - do Brasil e dos brasileiros. [Esse modo que não é, claro, mais que uma caricatura em zoom out da maneira de ser que o Brasil exporta para si mesmo e para os outros.]

Isso lembra as maneiras atrapalhadas do franceses de não se deixarem ser tão desleixados, de não deixarem a cultura do jeitinho se espalhar indiscriminadamente: com uma mão pesada da burocracia. Não há ninguém que more aqui mais que um mês que não tenha ido aos correios, La Poste, aqui. Para ter um celular de conta, por exemplo, é necessário mandar uma carta de próprio punho assegurando que você não atrasará o pagamento. Sabe lidar com a sólida e inflexível estrutura de algumas instituições públicas brasileiras, que têm pouco ou nenhum jogo de cintura? Agora multiplique por três. Pronto.


Há, portanto, um aspecto cultural - no sentido mais amplo do termo - em comum entre Brasil e França e o território francês, com sua particularidade geográfica, só vem a confirmar isso. É banhado pelo Mediterrâneo, por baixo, e pelo golfo de Biscaia e pelo canal da Mancha, que é uma saída já do mar do Norte, por cima.

Existem diversas maneiras caricatas de dividir a Europa [ver ao lado], mas uma das mais comuns é entre o Norte [protestante, frio, funcional, moderno...] e o Sul [católico, caloroso, confuso, clássico...], que funciona "bem", até a página 3. No máximo. A França, como os mapas aí do lado mostram, carrega as cicatrizes dos dois lados da fronteira Norte-Sul. Há uma culpa por não ser tão eficiente, quanto os irmãos de cima, nem tão relaxados como os irmãos de baixo. Há sempre um sentimento de não estar confortável com o que se é. Um estar desalojado de si mesmo. Um sentido que o brasileiro e a brasileira de classe média levemente intelectualizada conhecem bem, apostaria.

Ao mesmo tempo, a França é ainda um país extremamente central na Europa, propagadora de vários dos elementos que compõem os alicerces das chamadas democracias liberais. Além disso, é uma das mais consolidadas metonímias da Europa, fruto de governos centralizadores, reis, imperadores e que tais. Essa sua posição histórica-geográfica obrigaria, nessa minha hipótese, a França a ter uma participação mais ativa na política internacional [vide as manchetes do "Le Monde"], quando, na verdade, ela só gostaria de estar relaxada numa praia tropical, tomando caipirinhas [onipresentes] ao som de samba [idem]. Voilá, uma contradição não-ambulante. Uma contradição bem brasileira.

Mas por que a França? Por que não outros países com mais vínculos com o Pa-tropi? Bem, porque Portugal ficou muito pequeno para o Brasil. Talvez eles tenham essa relação mais íntima com Angola e, quiçá, Moçambique, sabe-se lá. Espanha tem suas próprias ex-colônias para se preocupar - e invejar. A Inglaterra é fechada dentro da sua própria Commonwealth de influência, e muito cinza para se alegrar com sombra e água fresca. Alemanha tem a barreira da língua, quase intransponível num primeiro momento. Os EUA são abastecidos por tantos outros estrangeiros e influências externas, que a força brasileira se dilui completamente. A França reúne, talvez por coincidência, os elementos para adorar o Brasil, para ter esse diálogo quase paternalista. Não é responsável por suas mazelas, portanto não carrega uma culpa, e não recebe uma onda massiva de imigrantes. E, principalmente, valoriza os nossos clichês como a utopia a se alcançar. Vai entender.

É, ainda, na França que o emigrante brasileiro que não quer tentar a sorte nos EUA [por qualquer motivo que seja], e não sabe falar outra língua além do português-brasileiro com forte sotaque, se arrisca. É o irmão mais novo pedindo ajuda ao irmão mais velho. E tome bar baiano, restaurante com feijoada, roda de samba, forró misturado até com música dos balcãs [dizem que é divertido].

O La Fontaine é sempre citado nos cursinhos de francês com suas fábulas de moral nível He-Man explicando o episódio. Num de seus versinhos que não bebeu diretamente de Esopo, ele fala de uma formiguinha trabalhadora e acumuladora de capital, e de uma cigarra, que canta a vida, sem se preocupar muito com o dia de amanhã. Parece que de alguma maneira, Brasil e França são da mesma família: a das cigarras que são, no menor ou no maior grau, obrigadas a se comportarem como formigas. Talvez um dia consigamos simplesmente nos sentir bem em nossa própria pele.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O paradoxal exercício da escultura de Rodin

Almoço na casa de franceses. Dia quente, conversas variadas: política brasileira, agricultura familiar, Roland Garros. Ao fim, o dono da casa faz uma piada: agora vou mostrar a maior contribuição da França para o mundo. Sem muito pensar, sem saber exatamente o que estou fazendo, respondo: Rodin? Ele ri. Na verdade, era apenas um camembert.

Depois fui investigar essa minha resposta de supetão. Não falei nenhum dos impressionistas do século XIX, nenhum dos escritores românticos, nenhum dos realistas, não falei de Proust, nada. Citei Rodin. Por que Rodin? Talvez a exposição no Grand Palais que lembra os 100 anos de sua morte tenha me dado a resposta.

Talvez a escultura, entre todas as artes plásticas, seja a que consegue demonstrar com mais facilidade a materialidade da obra. É quase impossível não perceber que aquele busto brilhoso de Camille Claudel à sua frente não saiu de um pedaço de bronze. O toque do homem sobre o material bruto é muito claro. A mágica é evidente - sem que saibamos como ela é feita, claro. Alguns escultores, talvez os maiores nomes da escultura, perceberam a necessidade, ao longo da carreira, de demonstrar essa materialidade, de deixá-la à vista. Rodin, claro, não fugiu a essa tradição.

Ele era uma mestre dos materiais. Transitava bem entre o gesso, o mármore e o bronze - apesar de ser um craque, o maior de todos, no gesso, esse material renegado no século XX. De qualquer forma, quase não percebemos essa diferença. Porque a escultura carrega uma outra característica que é paradoxal com a primeira citada ali em cima: apesar de sua materialidade, nós esquecemos o seu material.

É olhar para o jovem retratado no "L'age d'airain" [ao lado], que de tão natural, segurando sua cabeça, andando, foi quase impedido de participar de um salão de arte, sob a acusação de modelagem, e se perguntar: quando esse rapaz vai se mover? Mesmo que ele seja feito de bronze.

Seu São João Batista musculoso e caminhando. Sua efígie da República francesa, séria, como se fosse a mais importante e necessária figura do mundo. O pensador, a figura ícone de um século XX que se propunha científico, racional, após todo o positivismo do XIX, mas cuja utopia explodiu nas duas grandes guerras. O homem sentado refletindo. Sobre o quê?

Um momento tão diferente do nosso, de fluxo obrigatório da euforia, como forma de sobrevivência, que nos arrasta, nos leva, caso não paremos sobre uma pedra para pensar. Depois se descobre que tal estátua foi pensada para figurar sobre a monumental "Porta do inferno", que nunca foi completa, mas deixou várias obras para a posterioridade (como, por exemplo, "O beijo"). Primeiro, Rodin imaginou que o pensador representaria Minos, o rei do inferno. Depois, Dante, o autor da divina "Comédia". O homem por trás da criação. O homem substituindo o papel de criador que era divino. Deus, afinal, estava para morrer.

"Rodin reafirma sem cessar a presença da natureza no coração de sua obra", diz um trecho do texto de apresentação da seção dedicada ao que foi chamada sua fase expressionista, antes ainda de ele ser consagrado. Essa seria a parcela de materialidade que toda a escultura carrega. Em seguida, o texto aceita o paradoxo que toda obra de arte deve carregar em si, para ser digna desse nome. Rodin se liberta da posição de sujeito genial, de artista criador, e deixa a obra simplesmente acontecer - mas age, assim, contra a própria natureza do material. "O corpo é um modelo onde se imprime as paixões", diz o artista.

Ele não precisa respeitar os limites do "real". O corpo comanda a escultura - entendido aqui como o ato de esculpir. Pescoços longos demais, braços inexequíveis, movimentos improváveis. A intenção é fazer o material base dançar. É fazer ouvirmos a sua música. Artista e obra bailam junto num pas de deux quase invisível. É nesse "quase" morada da mágica.

N'"O beijo", há uma maciez na pele de Francesca, uma tranquilidade no rosto de Paolo, personagens românticos da "Comédia" dantesca que inspiraram Rodin. A sensualidade explode com ela se doando completamente e ele a recebendo. Pensamos em Camille Claudel e o relacionamento sempre desigual entre professor e aluna. A pedra de onde os corpos nascem é também o banco onde os amantes estão sentados para namorar. Há um romantismo, sim, mas um romantismo mais do século XX que do século XIX [a obra foi concebida entre 1881 e 1882]. Há uma abertura, uma possibilidade dos dois serem livres.

A sensualidade é presença forte nas obras de Rodin. Cresce com "Psyché e Printemps", e a ninfa surpresa de ser surpreendida, "Fauno e Ninfa", com um verdadeiro ataque do personagem meio bode, meio homem, mas principalmente com "Je suis belle", em que a mulher pula sobre o homem [ao lado].

Existe uma busca por uma expressão humana, no sentido do animalesco, do emotivo, do lado que não exibimos normalmente, mostrando os sentimentos que nem sempre consideramos os mais nobres. Ugolino, outro personagem dantesco, conhecido por devorar os próprios filhos no capolavoro do fiorentino, rasteja, sobre as quatro patas. A velhice, a vitória da criança prodígio. Ele mostra o que não podia ser mostrado. Mesmo "O pensador", e seu tema mais "racional". O que nos faz interromper o fluxo da vida, nos afastar e refletir? Sermos afetados. Afetos.

Curiosamente, além da série "O pensador", há também uma chamada "A meditação ou a voz interior" [abaixo]. Dessa vez, a personagem é claramente feminina, está em pé, em tamanho natural, com o corpo totalmente retorcido, o rosto um pouco caído, como se se perguntasse sobre algo e quisesse se escutar. Não há braços, apenas o movimento. Rodin queria se concentrar apenas no principal. Ela também foi afetada, mas diferente do homem que se imobiliza, a mulher não tem um destino inquebrantável, deve se adaptar durante o próprio percurso.

Há um enfoque nas figuras femininas nessa altura da vida, já mais maduro, após 1890, ou é impressão minha? "Íris mensageira dos deuses" é uma estátua de bronze sem cabeça com as pernas abertas e todo o seu sexo à mostra, por exemplo. Seria ele percebendo a importância feminina?

Após Rodin, foi possível liberar a nossa imaginação para completar a figura. É o fim, afinal, da figuração. Rodin, que bebeu tanto dos clássicos, como Dante, se transforma em um ícone, seguido pelas gerações que vieram após ele. Mira no passado e acerta o futuro. Abre caminhos, como toda arte mais revolucionária.

Rodin talvez seja uma das maiores referências francesas para o mundo contemporâneo porque atingiu o patamar desejado por todos os artistas, que merecem esse nome. O de sumir atrás do gigantismo de sua obra. "O pensador" é um símbolo de uma época. "O beijo", idem. O "Homem que marcha", uma escultura já do fim da vida, aparentemente banal, um exercício de desfiguração, vira um desses temas sempre revisitados por outros artistas. Talvez a maior influência de Giacometti, uma das grandes sombras sobre Picasso escultor. Na exposição do Grand Palais - só em Paris deve ser possível reunir tantas obras de tantos grandes nomes, no mesmo lugar ao mesmo tempo - é possível comparar as obras e enxergar uma das linhas de fuga inaugurada pelo escultor. Esse artista, como diz o texto inaugural da exposição, que queria encontrar a epiderme da matéria bruta. Parece ter conseguido.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comunas [cristãos] de Paris

A primeira vez que visitei a França, ou melhor, Paris, eu morava na Inglaterra, em 2012 [disclaimer: esse texto não é uma reclamação de Primeiro Mundo, nem uma tiração de onda, mas uma crônica de uma viajante, com cheiro de sociologia de botequim - não confundir com o carneiro montanhês francês].

A minha primeira impressão sobre a França, ou mais especificamente sobre Paris, se sustenta quase exatamente igual desde então. Se há alguma diferença, ela está apenas na profundidade do que eu senti nesse primeiro coup d'œil.

Percebi, em comparação, que os londrinos teriam a melhor-pior maneira de encarar o outro, o estrangeiro: ignorando-o; comportamento, na superfície, igual ao que ele pratica com qualquer outra sujeito, independentemente de sua origem. Já o parisiense faz questão de mostrar que há uma diferença entre ele e o outro.

Esse comportamento que ressalta a diferença não é - vendo agora - necessariamente pior que a inglesa. Nessa primeira visita, cheguei a apelidá-la de pior-pior maneira, mas hoje vejo que uma sociedade complexa como a parisiense cria diversos mecanismos para responder a esse primeiro impulso de segregação.

Autoestima: "Ainda um francês que se
faz inesquecível"

Já é um clichê dizer que Paris e Londres são nêmesis. Cidades-irmãs separadas por um estreito canal que muda de nome dependendo do lado que você o enxerga. Uma rivalidade parecida com a que acontece com Rio x São Paulo, Barcelona x Madri, Nova York x Los Angeles.

Essa disputa entre Londres e Paris, suspeito, nasce do fato de ambas terem sido capitais de países que, nós querendo ou não, justamente ou não, dominaram política, cultural, filosoficamente o mundo chamado Ocidental por séculos. Em suma, foram o berço do imperialismo clássico, de raiz, imperialismo moleque, daquele que escravizava sem meias palavras, sem qualquer tipo de desculpinha esfarrapada [sic] politicamente-correta [sic]. E, consequentemente, ainda hoje continuam exercendo uma influência inegável no xadrez mundial da atualidade. Pense no [combalido] Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.

Ao mesmo tempo e da mesma forma, ambos Estados também perderam consideravelmente suas áreas de exploração-colonização, direta ou indiretamente. Houve a ascensão dos EUA, houve o processo de independência, houve a formação da UE. Todo esse processo de perda de poder aconteceu há no máximo 50 anos, o que mostra como ele é recente. A produção intelectual apelidada de pós-colonial [talvez após Edward Said e o seu "Orientalismo"] floresce principalmente nesses dois países, não por coincidência [mas não apenas, vide Portugal e EUA, só para citar outros dois casos bem diferentes].

A diferença do tratamento ao outro, entretanto, não pode ser explicada nesse passado em comum. Aí que mora a distância entre as chips e as frites. Minha suspeita tem a ver com com a mentalidade religiosa em ambos os países.

Talvez um grande exemplo [há vários] de como a religião não é exatamente o centro da vida inglesa seja o fato de dentro da catedral de Westminster haver duas enormes homenagens a dois santos da ciência: Charles Darwin e Isaac Newton. Isso sem contar ainda com o canto dos poetas, onde vários dos principais escritores ingleses estão enterrados [aqui em Paris, eles estão no Panthéon, cuja principal atração, na minha humilíssima opinião, é o pêndulo de Foucault]. Além disso, podemos pensar que a chefe da igreja anglicana é... a rainha. Se isso ainda não serviu para mostrar a diferença entre um país e outro no quesito, último argumento: Na Inglaterra, todos os museus são gratuitos, enquanto as igrejas cobram ingressos para sua visita. Bem, acho que não é necessário lembrar que na França é exatamente o oposto, né? Notre Dame, Sacre Cœur e companhia têm livre acesso, enquanto o visitante comum tem que gastar uma grana para ver a fila de turistas tirando foto com a Gioconda.

O cristianismo, principalmente o catolicismo, é central no pensamento francês. Mesmo que não seja óbvio, ele aparece subtefurgiamente. O inglês seguiu a cartilha weberiana antes mesmo de ela ser escrita.

Há, sugiro, por conta dessa diferença, uma culpa - que não dá para chamar de outra coisa que não "católica" - nos franceses. Como se eles soubessem, mesmo que inconscientemente, que dependem, sempre dependeram, do outro - do estrangeiro - para serem o que são: uma potência mundial. Não precisa ser versado nas artes psicanalíticas para sacar que qualquer dependência cria ódio tanto no dependente quanto no objeto de dependência.

Por outro lado, esse sentimento mais explosivo, mais emotivo, cria, como já mencionado, mecanismos de compensação. Pense no caso clássico de se pensar a diferença entre o racismo brasileiro, que tem vergonha de dizer o seu nome, em relação ao americano, em que ele é escancarado. De qualquer forma há uma maneira "melhor" de ser racista? [Essa pergunta, aliás, faz algum sentido?]

Um desses mecanismos é, claramente, a força da esquerda na França. Mesmo que do outro lado da poça se discuta seriamente o socialismo e suas origens (Marx e Engels - inglês em alemão - moraram lá) - a impressão é que do lado de cá, o pensamento mais libertário é bem mais forte e constante. Pense nas grandes revoluções ou revoltas: 1789, 1848, 1871, a resistência francesa na Segunda Guerra, 1968. Claro, houve revoltas e revoluções também do outro lado do canal, uma até em que o rei perdeu a coroa, e muito antes de se inventar a guilhotina. E, sim, a mais famosa das revoluções de cá não mudou, assim, muito as estruturas do estado das coisas. Mas é inegável a tentativa francesa de tentar, como dizem os anarquistas do Comitê invisible em seu livro "Maintenant", criar em terra o reino dos céus, prometido na bíblia. Mesmo com o Estado laico e tudo. Que estranho sentir saudade, mesmo que de maneira oblíqua, da santa igreja apostólica romana.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Maio de 1968, Junho de 2013

Ler um livrinho com uma entrevista do Dany, le Rouge [apelido de Daniel Cohn-Bendit, talvez o nome mais conhecido do Maio de 1968, mas como ele mesmo diz, "tout le monde me tutoie", todo mundo o trata com informalidade] concedida em 2008 tem um ou dois efeitos imediatos, ainda mais agora, no mês de junho: pensar como 40 anos depois se continuava a tentar entender a revolta que agitou, outra vez mais, as ruas parisienses - e perceber como os desdobramentos desse movimento reverberam até hoje.

Foi curioso começar a ler o pequenino livro junto às críticas ao já quase esquecido texto do ex-prefeito e ex-ministro Haddad - e seu míope, porém, quase seminal, para os padrões petistas, diagnóstico do nosso Junho de 2013 - e terminar com os primeiros textos sobre os quatro anos dos nossos maiores protestos da História recente [penso principalmente no do Torturra e no do Pablo Ortellado]. É difícil contornar os paralelos entre os dois momentos.

[Sou um leitor de zoom out, na imensa maioria das vezes: vejo sempre a grande figura e faço comparações dos traços mais brutos, ignorando os detalhes mais escondidos e os gostos mais sutis - portanto, é claro que há diferenças entre os dois momentos, mas o que eu quero ressaltar aqui é exatamente as suas semelhanças e o que podemos entender de nós mesmos ao olhar para o caso francês.]

Há inúmeras maneiras de fazer esses paralelos, mas há duas, intrinsecamente conectadas, a meu ver, que merecem ser destacadas e ressaltadas numa primeira canetada. O franco-alemão Cohn-Bendit faz coros com outros soixante-huitards [os que participaram do movimento em 68, soixante-huit, em francês] ao dizer como os protestos como aconteciam até então estavam totalmente ultrapassados, i.e., em desacordo com os desejos e anseios da sociedade de então e, principalmente, dos jovens. Lembrar que o jovem, e a cultura jovem, como nós a conhecemos, nasce no pós-guerra, e ganha força principalmente nos anos 1960.

Não haveria como mobilizar, dialogar, mover os outros com um tom antigo, diz ele. O que os estudantes demonstraram - talvez a arma mais desestabilizadora dos jovens - foi uma "joie de vivre", uma alegria de viver, que empolgava não somente outros jovens, mas dava esperança até mesmo gente mais calejada como Jean-Paul Sartre, veterano de outras resistências francesas.

O jornalista francês Stéphane Paoli, que conduz a entrevista [junto com o sociólogo Jean Viard], chega a tentar resumir todo o movimento de Maio de 1968 à "jouissif", uma alegria, do tipo de uma fruição. A foto da capa do livro, de Gilles Caron [que ilustra esse texto], é citada em vários momentos como um exemplo da força - a força sutil, alegre, gaia - do movimento. "Minha história é ainda mais viva com essa foto", diz Cohn-Bendit.

Não precisa ser um especialista em semiótica para conferir como o sorriso de satisfação do jovem estudante de 20 e poucos anos desconstrói o peso endurecido do soldado com o seu capacete brilhoso. Era o frescor do sorriso largo contra o velho, o encardido, o mofado da sisudez militar. Era alguém que desafiava a ordem, criando outra forma de ordem, mais leve, menos respeitadora das ordens pré-estabelecidas.

Cohn-Bendit lembra das inscrições nas paredes de Paris como uma das principais forças de mobilização da época*: "Jouir sans entraves" [fruição sem entraves], "Sous les pavés la plage" [sobre o asfalto, a praia], "La bourgeoise n'a qu'un plaisir, c'est de les détruire tous" [a burguesia não tem outro prazer senão destruir a todos], "À bas la société de consommation" [abaixo a sociedade de consumo], "Je suis marxiste, tendance Goucho" [Eu sou marxista, vertente Groucho - a minha favorita], "Soyez réalistes, demandez  l'impossible" [Sejam realistas, exijam o impossível], "Il est interdit d'interdire" [é proibido proibir]. Quase todas, se as minhas traduções estão corretas, têm um forte fundo humorístico, às vezes surrealista, até.

Os movimentos contraculturais não foram uma exclusividade francesa - e o próprio Cohn-Bendit faz questão de ressaltar isso logo de cara na conversa. Havia uma urgência de mais flexibilidade dos modos de ser era uma tendência mundial - ou em todo o mundo sobre influência do chamado Ocidente.

Para citar um exemplo mais conhecido nosso, basta pensar na Tropicália de Caetano, Gil e companhia - e como o comportamento deles fora da ordem vigente foi ambidestramente criticada, da direita mais conservadora até os comunistas mais tradicionais. Aliás, de uma maneira bem parecida [novamente: no zoom out], esse foi um desconforto muito parecido com o provocado pelo movimento de Paris.

Também podemos voltar ainda mais um pouco no tempo e chegar à Antropofagia de Oswald de Andrade e sua "alegria é a prova dos nove" para ver como o riso pode provocar fissuras no mais sisudos dos muros.

Se quisermos optar por um caminho não tão tradicional, podemos ainda retornar a Machado, ao casmurro Machado de Assis, que deixou claro logo no início de sua obra mais icônica que seu principal personagem, o defunto autor Brás Cubas, escrevia suas memórias póstumas com a escura tinta da melancolia, sim, mas certamente usava para tal empreitada uma leve e ridente pena da galhofa. É necessário ter sempre um sorriso de canto de boca, mesmo quando falamos sobre as coisas mais sérias e profundas.

Isso tudo me lembrou o último protesto que participei - há um mês, mais ou menos, logo após saírem os grampos do empresário da JBS com Temer. Havia dois grandes chamarizes para a multidão que lotou a Rio Branco: um do gênero empoeirado, sobre um carro de som, berrando slogans gastos contra os inimigos de sempre; e outro jovem, fresco, com estudantes - a maioria mulheres e negras - usando instrumentos de percussão, tocando ritmos populares com letras cheias de sacadinhas perspicazes que falavam sobre a urgência das pautas de gênero e de raça, entre outras temas, em um imaginário eixo x, sem se esquecer do eixo y, o econômico, que junta a outra das pontas dos excluídos.

Imagino que não seja necessário dizer qual dos dois discursos era mais potente e reunia mais gente empolgada, com fogo nos olhos.

Como diz Cohn-Bendit, ao comentar o simbolismo do sorriso da foto: a liberdade deve rimar com prazer.

A resistência será feminista, negra, trans, pobre, favelada, indígena, quilombola, e um imenso etc. de causas minoritárias, mas também será, terá que ser, ridente - ou não será.

ps. O livro, curiosamente para o início deste texto aqui, se chama "Forget 1968", assim mesmo, no inglês, a pedido do próprio Cohn-Bendit. O que mostra que mesmo os ícones dos grandes movimentos políticos se cansam do seu passado. Talvez um dia possamos dizer a mesma coisa sobre 2013. Acho que ainda não estamos em condição - ao contrário.

*  Outra das forças propulsoras citadas por Cohn-Bendit em 1968 é a rádio e outros meios independentes que transmitiam e cobriam os protestos quase como jogos de futebol. Impossível não pensar no paralelo com a Mídia Ninja - e como ter um monopólio de comunicação no Brasil nos atrapalha fortemente.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Des nouvelles françaises

Talvez o maior choque quando se chega em Paris para um temporada mais extensa, é a mesma que acontece do outro lado da poça ["A tale of two cities", sacou?]: vou ser soterrado tanta a quantidade de coisa para se fazer aqui. Me foi sugerido [obrigado Carla, obrigado Werneck] comprar o "Pariscope", um "Rio Show" avulso [olhaí a oportunidade] que sai às quartas-feiras e custa um euro para me situar sobre o que está rolando na cidade. Não o encontrei mais, mas achei "L'officiel des spectacles", que, parece, é tão incrível quanto.

Nesse livrinho de papel vagabundo, temos informações de cinema, teatro, música de todos os tipos, alguns restaurantes da semana e até mesmo palestras que acontecerão nos próximos sete dias. Nada mais parisiense, me parece. Dá para saber que nas próximas semanas vão tocar vários medalhões do rock e do jazz como de shows intimistas para poucas pessoas. A capa dessa semana é sobre um documentário franco-suíço sobre monges budistas birmaneses que perseguiam violentamente os muçulmanos da região chamado "Le vénérable W." e dirigido por Barbet Schroeder.

A sugestão pode parecer muito francesa, no sentido clichê de ser esnobe ou de se exibir como detentor da alta cultura, a ponto de se preocupar com o mundo inteiro, como se fizesse parte integrante das próprias fronteiras. Mas é curioso comparar a distância entre a intenção e o gesto, como diria Chico. Talvez a nova França seja aquela representada pelo fato de a maior estreia da semana passada ter sido "Piratas do Caribe 5" ou pela maior estreia do ano, "Velozes & furiosos 8".

Ou talvez seja as duas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Greve IV

O ato neste dia 1o foi tão pacífico que beirou o tédio - o que, por um lado, é ótimo. Basicamente nomes de grupos da sociedade civil fazendo um discurso na escadaria da Câmara. Clima de festa, bonito para quem estava lá. O que, aliás, parecia ser o caminho do da sexta feira. Cheguei tarde e não vi um policiamento ostensivo*, mas soube que os manifestantes chegaram a entregar flores no início para os que estavam aqui.
Por que a recepção foi tão diferente da de sexta, então?
Hipótese 1: as forças de segurança perceberam que atacar covardemente parte da sociedade organizada, principalmente da classe média, gera backlash. Hoje vi até publicitário mauricinho conhecido aqui. A polícia então recuou para que a manifestação perdesse força sozinha.
Hipótese 2: a paralisação de sexta incomodou porque interrompeu o fluxo cotidiano das cidades. Em outras palavras, exatamente porque atrapalhou o tal direito de ir e vir (quero ver o tal direito sendo exercido com passagem acima dos 5 reais, como estão reportando hoje).
Tanto a hipótese 1 como a 2 nos levam a pensar que: atos, mesmo os grandes, quando em feriados, sem criar um problema para a cidade, não tem tanta repercussão. Sem a voz amplificada, é necessário chamar atenção para as suas demandas, da forma como conseguir. As greves ainda funcionam e bem.
* no finalzinho do ato, a mestre de cerimônias pediu ajuda a advogados porque policiais tinham prendido três garotos injustificadamente. Uma multidão automaticamente saiu em direção das ruas de trás da Cinelândia e, depois de zanzar por cinco minutos, encontrou um grupo de robocops encurralando um rapaz vestido de preto. Para evitar que os policiais abusassem da força, a multidão sacou celulares para filmar o procedimento. Acho que temos alguma coisa aí.
Ps. Por uma dessas coincidências da vida, o ônibus que peguei para voltar para casa estava cheio de jovens e adolescentes cantando... hinos religiosos. Cantaram até uma versão em português de "Hallelujah", do Leonard Cohen. Curioso como uma geração de rapazes e moças gastam sua libido em agremiações religiosas, ainda hoje em dia. Também acho que tem alguma coisa aí.

domingo, 30 de abril de 2017

Greve 3

Algumas obviedades que merecem ser repetidas, novamente:

- política é força e força física, materialidade. Não é uma abstração, algo que acontece em gabinetes fechados, ou que está distante da realidade das pessoas comuns.

- não importa que você não goste do que você chama de política, seus atos mais cotidianos são políticos, tais como o seu comportamento diante de alguém mais fragilizado, ou sua ganância generalizada.

- política não é exatamente uma força única, com uma direção clara, que vai de um ponto a e chega necessariamente no b. Se não, todas as pessoas que foram à manifestação a favor do impeachment da Dilma seriam iguais, do apoiador do Bolsonaro, ao liberal individualista com toques progressistas no campo moral. 

- o mesmo aconteceu na greve e no protesto de sexta: nem todo mundo ali estava a mando das centrais sindicais, né? Adversários momentâneos contra um mal maior. Lembra do Churchill, para justificar sua aproximação com Stalin, falando que se aliaria até com o Diabo contra Hitler? Pois. 


- política é oportunidade. Se o adversário está nas cordas, não é a hora de recuar. Não há fair play nessa batalha. Não há vácuo na política, sempre alguém ocupa os espaços. Acho que 4% de aprovação é uma das metáforas mais consistentes de estar em baixa, não?


- política é incômodo. Eu preferia ficar em casa exercendo o meu prazer favorito de não fazer nada, mas não consigo me sentir bem com a destruição das pequenas conquistas por um governo totalmente antipopular (nos dois sentidos). Prefiro ir às ruas contra ele, mesmo sofrendo as consequências de lutar contra a máquina do Estado.


- política pela esquerda é uma proposta de mais igualdade entre as pessoas, portanto abrir mão de alguns privilégios. O quanto você está disposto a deixar de lado alguns confortos do seu cotidiano? Essa é uma pergunta crucial que devemos nos fazer sempre, nós, branquinhos, heteros, machos, moradores da Zona Sul carioca, se nos consideramos de esquerda.


- política é escolher um lado. É claro que uma greve atrapalha a vida de muita gente. E principalmente de quem tem menos condições: mas em qual momento os pobres saem ganhando nessa atual disputa política? Em que momento esse governo sinalizou com alguma melhora na vida dos mais ferrados? Como o fato de você ser contra as manifestações, os protestos, a greve melhora a vida do pessoal do andar de baixo?


- amanhã, literalmente, vai ser maior. Todo mundo no ato do dia do trabalhador, na Cinelândia. E pode jogar bomba. Vamos voltar, maiores ainda.

sábado, 29 de abril de 2017

Greve II

Após a greve de ontem, e os atos em todo o país contra esse governo que tem o apoio de apenas 4% (curiosamente devem ser os 4% do topo da pirâmide), acho que cabe um balanço:

- apesar de sempre revoltante, a violência da polícia não é exatamente uma novidade. A novidade foi a violência começar antes do ato engrenar, com pouca ou nenhuma justificativa além do simples fato de acabar com a aglomeração de gente contrária ao governo.

- isso leva a pensar que o ato, a greve geral assustou e muito quem deveria assustar. Uma foto com uma multidão contra Temer seria muito impactante. Também corrobora essa tese o fato de a Globo não ter falado sobre os protestos de maneira, digamos, favorável* (o que é diferente, me parece, do tratamento das manifestações pelo impeachment de Dilma).
- a violência policial ter começado cedo e de maneira clara para acabar com a aglomeração fez muita gente experimentar pela primeira vez o cheiro de gás lacrimogêneo. Muita gente que em 2013 eu vi ser contra as ações e táticas de proteção que visam atingir símbolos do poder estabelecido (bancos e mobiliário urbano), ontem já estava achando que o combate de trincheira talvez seja a única forma de pressionar um governo autoritário e pouco democrático.

- não há protesto pacífico contra o governo - e principalmente este governo. Nunca. Eles sempre vão arranjar uma desculpa para jogar bombas, balas de borracha e fazer o terror. Como então combater o Estado que de democrático só tem o rito de ir às urnas (já que nem os resultados são respeitados e o atual governo se gaba de ser pouco popular para aplicar uma agenda que agrada tão e apenas os 4%)?

- hipótese genérica: criar rupturas do tecido social, usar a força e a pressão. E não desistir nunca. Amanhã vai ser maior.

*antes o texto dizia que a Globo não mencionava a expressão greve geral e que o fato de não anunciar o ato seria diferente de outras manifestações contra Dilma.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A greve I

Interrompendo o exílio por um motivo nobre, e não é meu aniversário amanhã.

Muita gente falando que é contra greve porque incomoda a vida, porque atrapalha principalmente os mais necessitados, porque é uma medida antiquada para os tempos atuais, porque o governo é insensível a esse tipo de ato.

Amigue, se você souber uma maneira de pressionar o governo que seja limpinha, higienizada, gourmet, isso tudo sem qualquer apoio dos veículos de comunicação mais tradicionais, pode sugerir que eu aceito dar minha atenção.

Por enquanto, o que a História mostrou é que os atos políticos contra o andar de cima têm que pressionar de algum jeito os donos do poder. Quanto maior pressão, melhor. Quanto mais corda no pescoço, mais eficiente. Isso para não falar em lâmina (adoro quando chamam a esquerda que se mantém à esquerda de jacobinos).


Ps. Todo mundo nos atos de hoje à tarde / noite!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

desencontráreis

   Mandei a palavra rimar,  ela não me obedeceu.      Falou em mar, em céu, em rosa,  em grego, em silêncio, em prosa.       Parecia fora de si,  a sílaba silenciosa.     Mandei a frase sonhar,  e ela se foi num labirinto.      Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.  Dar ordens a um exército,        para conquistar um império extinto. - Paulo Leminski

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Deus gramática

This centre, in controlling the structure, in making it cohere, must both be part of the structure and lie outside it. A structure, therefore, is “contradictorily coherent” and relies on an “invariable presence” to determine its existence. That presence, Derrida argued, has been given many different names throughout history – essence, being, transcendentality, consciousness, God, man and so on – but all have relied on this idea of there being something unchanging beneath it all. While structuralism (and, indeed, analytic philosophy) was able to function without God, it retained a fundamental belief in this “invariable presence”, call it what they will. To quote Nietzsche, “I am afraid we are not rid of God because we still have faith in grammar.”

From here:
https://newhumanist.org.uk/articles/5143/derrida-vs-the-rationalists