domingo, 24 de setembro de 2017

Woody Allen e a crise do nosso tempo

Se for para ser direto: não, Crisis in six scenes não é uma boa série. Woody Allen não entendeu [ou não deve ter acompanhado] nada do que aconteceu nas produções para a TV, internet e - no caso dele - uma empresa que vende qualquer coisa na rede, nos últimos anos. Sua produção não pode ser caracterizada nem como tradicional ou conservadora, mas um engano do formato: ele simplesmente fez um longa-metragem, com qualidade de TV, deixou as gorduras, e o cortou em seis episódios de 20 minutos, com um facão. Portanto é possível ver tudo de uma só vez, sem muito esforço. Entretanto...



O octogenário diretor captou, do seu jeito neurótico e com a leveza que a idade lhe proporcionou, um dos traços fundamentais do que acontece hoje em dia não somente nos EUA, mas talvez em todo mundo Ocidental, incluindo aí sua periferia - isto é, nós aqui no Brazilquistão. Um dos espíritos do nosso tempo que pode ser resumida numa frase muito simples: o que é que nós podemos fazer?

O esqueleto da série é o mesmo de Manhattan murder mystery, filme de 1993, que Allen rodou com Diane Keaton, depois de toda a primeira - e mais dura - fase da separação com Mia Farrow. Diane Keaton, ex-mulher de Allen, estrela do clássico Annie Hall, aceitou voltar a trabalhar com ele em um dos momentos mais conturbados da vida do cineasta - o que pode colaborar para a ideia de que ele não é, assim, um monstro como se pinta.

No longa como na série, Allen interpreta um sujeito medroso que aceita passar por situações de perigo convencido pela esposa [na série, interpretada pela veterana Elaine May]. No filme, investigar um misterioso assassinato em Manhattan, como diz o título do filme; na série, passada na década de 1960, o escritor de segundo escalão que quer ser um J. D. Salinger tem que receber em casa uma guerrilheira americana interpretada por Miley Cyrus que luta por igualdade, justiça, e o fim do capitalismo.

É nesse momento que aparece a sutil e genial sacada do artista. Todos na série são esquerdistas para os padrões americanos. São contra a guerra do Vietnã, a favor da igualdade racial, votam nos democratas, acreditam na liberdade como bem supremo. Mesmo Alan Brockman, um rapaz que está se hospedando na mansão dos protagonistas, e que tem como meta uma vida bem burocraticamente burguesa [se casar, ter filhos, continuar os negócios do pai como banqueiro...] é um liberal, isto é, se coloca do lado certo da História. Entretanto no momento em que a pequena guerrilheira chega no recinto essas pessoas de bem são jogadas automaticamente para a defesa. Eles percebem que votar de quatro em quatro anos no candidato menos pior não é o suficiente.

Estamos fazendo o máximo que podemos para diminuir as mazelas de onde eu vivo - ou vivo meu cotidiano fechando os olhos para o que acontece ao meu redor, pensando apenas na minha vida e na da minha família, com a desculpa de que voto no candidato correto? Variações da mesma pergunta passam na cabeça de todos os principais personagens ao longo dos seis episódios, junto a tiradas cômicas sobre o comandante Mao, o barbudo Marx e aquele simpático Che. A série, sem muito esforço, levanta várias perguntas também para o espectador: o que é ser parte de uma democracia? Como diminuir as desigualdades sociais, acabar com a corrupção, minorar a violência? Em suma, a pergunta de um milhão de dólares que perpassa a cabeça de nove de dez pessoas preocupadas com a situação atual do Brasil e do mundo: O que é que nós podemos fazer?

Sem escorregar em um maniqueísmo das conclusões fáceis, Allen dá respostas diferentes para cada um dos personagens, a partir das suas próprias trajetórias e questões de vida. Mostrando que a mudança pode estar em gestos pequenos, como não se deixar ser capturado pela correnteza da manada fácil e obrigatória, ou apenas desobedecer as expectativas conservadoras dos pais para seguir a sua vontade, ou mesmo criar e participar de protestos pelos direitos civis, ou simplesmente se dedicar a escrever um livro que tanto desejou. Num mundo em que a euforia e o gozo fácil se infiltram nos poros do cotidiano e substituem alegrias mais substanciosas, talvez seguir o próprio desejo [sem ser egoísta por isso] seja a maior revolução que podemos cometer.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

'Quem me navega', por Viola Galera

Não me autoconstruo, lamentavelmente. Delírios de grandeza de um barquinho chinfrim. Dependo das más vontades e boas intenções de algum ser humano, geralmente do sexo masculino – infelizmente – para que eu exista. Ou seria o inverso? Boas vontades e más intenções? Ainda confundo esses dizeres humanos. O que foi? Não entende como um barco à vela – ainda sem a sua vela, entretanto – pode falar? Para começo de conversa, eu não falo. Você está me lendo, portanto eu escrevo – o que, considerando a sua atual cara de espanto, deve te colocar ainda mais atônito. Amigue, repare, é exatamente esse tipo de pergunta – inútil para muitos – que me faz estar aqui, quebrando o meu casco: a que será que se destina?

Não é possível prever nem mesmo o tempo, quiçá o clima. O mundo é banhado em mistérios abissais. Há mais meandros escondidos entre o infinito oceano e a delimitada terra do que a nossa dura razão instrumental pode elencar. Pois. Eu sinto a mesma coisa. Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta. E não estou falando da vela. É algo mais abstrato. É saber que não sou dono da minha própria fortuna.

Não escolhi ser criado, nem ter esse simples formato ligeiramente trapezoidal, revestido de fibra de vidro, com um falo enorme no meio, que me lembra um totem para quem os humanos parecem sempre prestar homenagens. Não consigo entender isso, eu, cuja sexualidade não passa por objetos tão grosseiros. Tive sorte, pode-se dizer, fui uma criação artesanal, de um curioso rapaz que recitava algumas frases exóticas em uma língua aveludada e redonda. “Ẹni bá ṣe oun tí ẹnìkan ò ṣe rí á rí ohun tí ẹnìkan ò rí ri”. Consegui gravar essa. Conversando com outros barcos no porto onde estou atracado – sim, quando sozinhos, nós fofocamos frivolamente como homens no churrasco após a pelada –, descobri que ela quer dizer algo como “quem faz o que ninguém fez, vai experimentar aquilo que ninguém experimentou”, e fiquei remoendo. Claro que há o incentivo para a coragem de enfrentar mares nunca antes navegados. É sempre bom saber que nunca somos originais, outras pessoas já enfrentaram tormentas ainda maiores que as suas – e sobreviveram. Fiquei pensando, entretanto: haveria mares absolutamente virgens? Ou, o inverso: é possível navegar a mesma rota duas vezes?

Não precisamos continuar com essas – exatamente essas – elucubrações. Provavelmente a resposta é mais que 1 e menos que 2; está entre os dois bordos, o que desafia o nosso princípio de não contradição. Fomos criados dentro de uma física – e mesmo uma metafísica – em que ou a gente é ou não é. Ou isto ou aquilo. Ao descobrir que o mundo também tem conjunções aditivas deveríamos ter ficado mais felizes. Não foi bem o que aconteceu. A tradição cobrou seu preço pelo conforto de tantos anos.

Não sou eu quem escreve o texto, é o próprio texto quem se escreve. Uma frase e outra e logo outra aparece e se intromete, interrompe o que eu queria dizer e pronto, já estou longe do meu porto seguro. Esse é o meu maior medo. Delírios de controle de um veleiro mixuruca. Saber que não adianta os nossos bons ou maus propósitos, o nosso fado está sempre em jogo, com múltiplas forças além da nossa própria. É descobrir que nos cada vez mais raros dias de calmaria, vamos navegar pouco, mesmo; enquanto nas posseidônicas tormentas podemos ser jogados, arremessados, até destroçados.

Não deveria ser assim, tão duro como o carvalho de um galeão.Temos que aceitar o acaso. E temos que reiterar que há margem para manobras, mesmo nas angras mais apertadas. Aceitar a sina não é, também, largar o timão ao sabor das marés. É saber que a própria vontade não passa de um vento que infla nossas velas. Um entre muitos. Jamais o mais forte, tampouco o mais tímido. A vontade deve nos proporcionar atalhos para os dias de vento de revés, nem que seja a paciência da criatividade. Peixe, quando o mar está para peixe. Velas vazias, para os dias de tempestade; velas cheias, para os de bonança. Lembrar que mar calmo não testa marinheiro. Nem mesmo veleiro. Ou, mais do que simplesmente aceitá-lo, amar o destino – qualquer que ele seja. Um barco seguro se sabe capaz de se readaptar às inesperadas mudanças de rumo e às intempéries das ausências.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

As consequências 'positivas' da proibição do Queermuseu

Sem querer alimentar a polêmica - e principalmente, sem querer alimentá-la pelo lado ~errado~...

[Se você não sabe de qual polêmica estamos falando, confira essa reportagem aqui.]

... eu quase [eu disse QUASE] fico feliz com essa ação fascista do MBL que censurou a exposição lá no Sul. Por alguns motivos:

Primeiro e o mais simples: para demonstrar que uma meia dúzia de bundas-mole fazendo barulho pode, sim, mudar o curso das coisas. Foi agora o MBL para um causa podre, mas táticas de agrupamento parecidas podem e deveriam ser usadas para pressionar parlamentar para votar propostas mais progressistas, sim. Por exemplo.

Segundo e o mais importante: por voltar a nos lembrar o poder que a arte tem. Parecia, para a imensa maioria dos simples mortais, que peças, filmes, exposições, enfim, produtos artísticos-culturais tinham se transformado em um inócuo programa familiar de fim de tarde de domingo, comparável a um Master Chef, Faustão ou qualquer outro programa de televisão de entretenimento mais básico.

Foi preciso um bando de fascistinhas, ligados aos partidos mais reacionários do país [psdb, dem, etc.], para nos lembrar o quanto a arte pode mudar a perspectiva das coisas. Foi necessário eles se incomodarem com obras que atingiam os valores fixos e de uma miopia extrema para saber que é exatamente para isso que a arte "serve". É especificamente por isso que a arte é arte.

Odeio a expressão que a arte tem que chocar [se fosse só isso, bastava colocar o dedo na tomada, ora], mas o ponto da frase de efeito clichê é, me parece, que a arte deve te trazer uma abertura do horizonte. Deve ser de difícil digestão, exatamente porque você precisa voltar a ela. Deve ser transformadora da maneira como você encara a vida.

Podemos voltar a acreditar que produzir arte - em todos os seus formatos - é importante, mesmo em tempos como agora, em que ela parece tão desvalorizada. Diria mais: talvez exatamente por isso, ela se torne cada vez mais importante.

Terceiro e o mais otimista [deixemos o pessimismo para tempos melhores]: para demonstrar que a nossa batalha cotidiana pode até parecer estar nos seus estertores, caminhando a passos largos para uma derrota [nossa] fragorosa. Mas o episódio fez com que várias forças do campo progressista se juntassem para berrar contra o absurdo. Podemos aproveitar essa união, momentânea, para lutar contra outros absurdos.

Quarto e o mais irônico: perceber que o problema de interpretação de texto - e todo o amplo campo que essa expressão abarca - não é uma exclusividade da esquerda. Que "todo mundo" confunde autor com eu-lírico. Que "todo mundo" faz uma leitura de sociologia de botequim de obras de arte. Que "todo mundo" quer respostas fáceis para dúvidas que precisam de tempo para serem digeridas.

Por fim, uma nota dissonante: Não adianta reclamar, nesse momento, e se perguntar onde foi que nós erramos. Nós erramos sempre, amigos, quando não valorizamos o ensino das humanidades nas escolas, quando não valorizamos a academia que pensa exatamente esses conceitos abstratos, em detrimento de um conhecimento mais técnico, quando valorizamos profissões que só visam o lucro, e cada vez maior, quando nos encastelamos dentro dos nossos mundos de conhecimento, cada vez mais profundo e sem nenhum debate com o lado de fora, quando acabamos com cadernos em jornais e revistas especializadas em nos fazer refletir sobre o nosso mundo, de uma maneira menos maniqueísta. Momento de voltar ao terceiro motivo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O pau

O que sobra do homem heterossexual sem o próprio pau?

Pensemos da maneira mais máscula: sexualmente. A mulher, a mulher tem vários botões, várias possibilidades, várias formas de encaixe. Seja heterossexual, seja homossexual, seja bi. O homem homossexual aumenta bastante a possibilidade de encontros, de agenciamentos. Mas o homem heterossexual só tem o seu próprio pau – e mais nada. Se o pau cai, se o pau some, desaparece, o homem some concomitantemente.

A tradição ocidental se ergueu, desde a Grécia, mais fortemente, ao redor do homem, e este, por sua vez, do seu falo. Mais que um patriarcado, era, foi e continua sendo, uma falocracia. O falo, como o símbolo máximo do homem, como o centro do homem, e o homem, subsequentemente, o centro do mundo. Foi assim que ele sempre se entendeu, sempre se colocou no mundo, sempre se defendeu.

O resto do mundo – animais, plantas, minerais, e também as abstrações, os sentimentos, e também a própria mulher, como também o negro, como também o homossexual, como também qualquer outro, tudo, enfim, que não era considerado o homem, tudo – só existia para e a partir do homem. Como ferramentas para que o homem completasse seu objetivo. Como alimento. Como objeto de investigação. Inspiração. Força de trabalho. Buraco a semear. Parideira. Escravo. Como, em suma, um objeto, de diversas complexidades, mas sempre sem qualquer dignidade de existência própria, independente desse esquema perverso e sádico, para que o homem o sujeitasse.

O caso brasileiro torna as coisas ainda piores. Por termos sido colonizados por uma potência europeia machista e católica que caiu em decadência e virou periférica, por termos sido escravocratas, por sermos genocidas, por termos reafirmado essa posição desde sempre e não conseguido modificar a lógica que impera desde a invasão europeia, a tendência de um centro, único, em que os demais astros apenas circundam, voam, circunscrevem, mas jamais atingem o falo, erguido, que se acha potente, imponente, que quer não se deixa atingir, mas que pode penetrar, pode invadir, tem a liberdade, autodoada, para fazer o que quiser.

Todo o poder que o homem considera possuir não passa de um fetiche sobre o próprio pau. Se o pau não existe, o próprio homem não existe mais, ele desaparece assim que o pau desaparece. Se o homem heterossexual perde o pau, ele não se transforma em mulher, nem em homem homossexual, ele some, ele perde sua única referência, a única maneira de ele se enxergar, de se identificar.

A mulher foi apelidada de sexo frágil, mas é o homem heterossexual que é de uma fragilidade ímpar. Ele apoia todo o poder que acha que tem, todo o poder que ele tenta exercer sobre os outros, em apenas um único ícone. É tanto peso sobre o falo que é claro que ele não aguenta. Por isso ele precisa submeter o outro, por meio da violência – em vários formatos.

No momento em que a mulher, ou qualquer outro, mas a mulher é o principal outro, tenta sair do centro de gravitação do homem, ele não apenas sente perdendo poder, o que já seria ridículo sozinho – já que o seu poder não deveria estar nessa relação que, além de todos os detalhes, já parte de origens desiguais – mas ele sente se perdido. Se ele não pode sujeitar o outro, o homem heterossexual não sabe fazer mais nada. A única forma de ele se relacionar com o mundo é a verticalidade, e desde que ele esteja no topo.

Não há relações igualitárias. Não há uma verdadeira troca. O homem já começa o jogo vencendo, e não quer perder jamais. Qualquer ato do outro para tentar ser também um sujeito é visto como destruição da sua própria maneira de ser – e como ele nunca precisou, nem tentou, ele não sabe ser de outra forma. Como as metrópoles enxergavam como atos de traição a tentativa das colônias de se tornarem independentes.

Há uma dependência, portanto, não do outro para com o homem, mas exatamente o inverso. O outro sempre precisou encontrar caminhos para sobreviver, para respirar, apesar do sufocamento do homem. Já o homem baseou toda a sua existência na sua capacidade de dominar o outro, de fazê-lo seu dependente. Ele não desenvolveu nenhuma outra tecnologia de sobrevivência. No momento em que essa relação ruir, a parte de baixo quase não será afetada, mas a de cima cairá no chão, numa batida seca no chão, e talvez não conseguirá se levantar – ou não, ao menos, sozinho. Ele sempre precisará do outro para se reerguer novamente. Porque o homem heterossexual só existe a partir do outro.
Se retornarmos todo o movimento, será o falo quem encontraremos no início. Ele é a base para todo esse processo. É a relação necessariamente ativa. De poder. De invasão. De dominação. É o pau que é o orgulho do pai, do avô, de toda a linhagem ascendente masculina. É o pau que quanto maior melhor. É o pau que tem todas as liberdades, que pode ser mostrado, que pode ser exibido, que parece só existir se for mostrado, como se gritasse para que reparassem nele. É o pau que é chamado de incontrolável. É o pau que coloca a culpa no outro, caso não corresponda à sua tarefa mitológica. É o pau, duro, inquebrantável, rijo – até que não é mais.

O homem terá que descobrir outras formas de ser que não baseadas no próprio pau, ou será cada vez menos, menor, mesmo esperneando, como uma criança imatura que enfrenta a primeira grande dificuldade da vida. Até que não será mais.

sábado, 19 de agosto de 2017

As incertezas de Heisenberg

Werner Heisenberg é uma figura que levanta nossa sobrancelha e nos obriga a nos observar no espelho. Físico da geração de Bohr, Einstein e cia., sempre foi considerado um garoto-prodígio. Primeiro por ser um pouco mais novo que outros nomes famosos que revolucionaram completamente as ciências exatas, e por consequência o mundo todo, [ele é de 1901; Bohr, considerado o papa da quântica e, mais especificamente, uma espécie de "pai" para Heisenberg, era de 1885; Einstein, o "deus" da geração, de 1879]; mas também porque, além de ser extremamente talentoso em várias áreas, alcançou o teto muito rapidamente. Foi o mais novo professor titular da História da Alemanha, aos 26 anos. Foi o mais novo ganhador do Nobel, antes de completar 32 anos. Isso além de ser um exímio pianista e um grande conhecedor da filosofia e da literatura greco-romana.
Heisenberg, entretanto, não foi o ponta-de-lança do grupo, apesar de todo o talento para sê-lo, e a razão está além das questões puramente físicas, ou melhor, científicas, ou, por último: exatas. Como todos os cientistas da Física quântica desse período, ele também foi atravessado pelas aflições de ver suas descobertas serem transformadas em armas de destruição massiva. Sua trajetória, porém, não tem nenhum atenuante, por estar "do lado correto". Ele decidiu, livre e espontaneamente, ficar na Alemanha, mesmo com a ascensão do nazismo. Sua argumentação era nobre. Tinha a intenção de ajudar a reconstruir seu país, já que ele acreditava então que o país seria arrasado com a guerra iminente.
Consequentemente, mesmo não sendo partidário de Hitler, ele chefiou o projeto nuclear alemão, no período. Não passou incólume. No pós-guerra, se defendeu dizendo que sua intenção era sabotar, de dentro, a tentativa de construir a bomba. Não foi o suficiente para sofrer, até morrer, a antipatia dos seus pares - uma imensa maioria de judeus.
Não era uma coincidência essa afluência de judeus para a física teórica. Como os nazistas tinham um excesso de pragmatismo, um utilitarismo crônico em que as coisas só valiam se se encaixassem dentro dos seus próprios e rígidos padrões, a parte teórica da física foi relegada para o segundo escalão - lugar que eles reservavam aos judeus. Ironia do destino: foi essa teoria que criou as possibilidades da arma das armas, que tanto agradaria os alemães.
Segunda ironia do destino: foi esse grupo de fugitivos da desgraça nazista que produz a bomba que fecha a guerra. Grande parte do grupo ao redor de Oppenheimer, do italiano Fermi ao alemão Einstein, passando pelo dinamarquês Bohr, tinha uma relação direta com o judaísmo: ou era judeu [Einstein] ou era meio judeu [Bohr] ou era casado com uma judia [Fermi]. E só não jogaram a bomba em Berlim porque, segundo consta, ela não ficou pronta a tempo. Os alemães já tinham se rendido. Sobrou para os japoneses.
Há, porém, uma terceira ironia do destino, muito mais sutil, que pode ser também a mais complicada de se admitir em voz alta. Considerando a versão oficial de Heisenberg, mesmo que ele estivesse lutando do lado errado da História, ele teria conseguido impedir o avanço do inimigo. Mesmo que ele não se admitisse nem herói nem mesmo membro de qualquer resistência, ele teria, em resumo, conseguido salvar vidas. Já os físicos que foram para os EUA, mesmo que lutassem pela liberdade, mesmo que estivessem apenas se defendendo, mesmo que quisessem simplesmente terminar com o conflito, acabaram causando a destruição de duas cidades inteiras e a morte de muitos civis inocentes. Nem sempre é fácil distinguir o que é certo e o que é errado.

ps. A atitude de Heisenberg de ficar numa Alemanha que já começava a demonstrar seus traços de um regime baseado no horror completo nos devolve a questão, mesmo que a evitemos. Nós que moramos nesse Rio de eventos neopentecostais no sambódromo e nesse Brasil de juízes que mandam prender e libertar a seu bel prazer. Devemos abandonar o barco enquanto podemos, ou devemos afundar junto para, caso algo sobre, tentar reconstruir?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os melhores vinhos franceses

Os franceses, como todo mundo, gostam de falar sobre os assuntos mais pueris na falta de intimidade. Mas se você consegue - com muito esforço, ao menos com os parisienses - ultrapassar as primeiras barreiras de gelo, pode se arriscar a fazer a fatídica pergunta: Bordeaux ou Bourgogne, qual é o melhor vinho? As respostas são tão variadas quanto há estilos de vinho nas duas mais famosas regiões vinícolas do país que produz os mais famosos vinhos do mundo [que os italianos, espanhóis, portugueses etc. não leiam isso aqui].

Os châteux de Bordeaux são lindos
Como disse Roland Barthes em um despretensioso e saboroso texto sobre o tema no seu Mythologies: "o vinho é sentido pela nação francesa como um bem que lhe é próprio, do mesmo jeito que seus trezentos e sessenta espécies de queijo e sua cultura". Talvez o correspondente para o Brasil seja o futebol. E se o paralelo com o ludopédio [homenagem ao homenageado da Flip, Lima Barreto] funciona, a disputa entre Bordeaux e Bourgogne é o fla x flu deles. Fait divers, mes amis, fait divers.

Numa segunda olhada para essa disputa, porém, dá para ver além da borra da uva. Do alto da pretensão do turista que visitou em dois fins de semana seguidos cada principal cidade de ambas as áreas, vou tecer aqui alguns comentários aleatórios, que me ocorreram para explicar não somente os vinhos franceses, mas a própria França e, quem sabe, alumiar um pouco um certo país tropical.

A região bordelais - que abarca a cidade de Bordeaux e adjacências - fica perto da costa, numa área próxima ao Oceano Atlântico, posição estratégica do ponto de vista logístico. Seu vinho foi, desde mais ou menos a invasão das Américas por europeus, exportado para colônias deste ou do outro lado da grande poça atlântica. Até mesmo sua garrafa cilíndrica, que é o padrão mais comum em supermercados brasileiros, foi pensada para melhorar esse processo comercial - capaz de ser empilhada mais facilmente. Consequentemente, do ponto de vista capitalista, o vinho feito na área, chamado metonimicamente de Bordeaux, virou sinônimo de vinho de qualidade francês.

Os grandes empresários vinicultores bordelais fizeram muito dinheiro, construíram châteaux de boquiabrir até os menos impressionáveis, e criaram uma indústria do vinho que movimenta uma grana alta até hoje. Junto a isso, porém, eles também descuidaram da qualidade do produto com a certeza de que bastava se apresentar como um Bordeaux para que o vinho fosse aceito em qualquer mesa. Além disso, o negócio atraiu muitos aventureiros que também quiseram, para usar uma expressão bem marqueteira, surfar no sucesso da marca.

Para tentar regular um pouco o negócio, Napoleão III [aquele que Marx chamou de "farsa", aquele que veio depois da "tragédia" Napoleão Bonaparte] tratou de criar um selo para proteger os vinhos que já existiam na região em 1855. Isso só existiu por uma coincidência: ele queria exibir os vinhos num grande evento, a exposição mundial da capital francesa. Nascia assim o avô das denominações de origem controlada, exibidas hoje em todos produtos que necessitam provar seu terroir. Ao mesmo tempo, criou uma elite de vinhos que jamais pode ser mexida.

Pelo que se lê por aí, toda e qualquer tentativa de modificar esse ranking inicial não é bem aceita - e tudo por conta de questões que vão além da simples qualidade do vinho [que, aliás, de simples não tem nada; mas isso é uma outra questão]. Foram criadas outras tantas categorizações que hoje em dia, para os simples mortais, nós que não sabemos quase nada de vinho, é quase impossível saber qual é o vinho mais confiável apenas de olhar seu rótulo.

Dijon parece de mentira
Pode parecer um contrassenso para quem sempre escutou que não se deve comprar um livro pela capa, mas o rótulo, assim como o lacre da rolha, carregam trocentas informações que nos dariam pelo menos algum norte no meio do oceano de possibilidades. É o caso, por exemplo, de lacres que exibem "récoltant" ou apenas o "r", e/ou o rótulo que tem a frase "mise en bouteille au château (ou 'au domaine' ou 'à la propriété')", que confirmam que o vinho francês passou por todo o processo de engarrafamento na própria vinícola que ele foi fabricado, dando uma conotação mais artesanal a esse processo que se torna cada vez mais impessoal no mundo todo.

Para piorar o processo, escutei há alguns anos, uma anedota que, se non è vero, è ben trovato. Diz-se por aí que, com o crescimento econômico e a tentativa de os chineses se integrarem rapidamente às regras do mundo ocidental, eles estariam comprando quantidades chinesas de vinhos bordeaux, sem se importar muito com a qualidade do produto. A intenção é apenas exibir o vinho para os demais, como um apetrecho qualquer, como se fosse um celular Apple, uma calça Lee ou um carro Ferrari. O preço dos vinhos, assim, disparou. Pura lei da oferta e da procura. Para piorar a história, a anedota dizia ainda que, porque os chineses não estariam acostumados com o gosto do vinho ocidental, eles decidiram misturá-lo com outro produto tipicamente ocidental: a coca-cola. Como se diz ironia do destino em francês, mesmo?

De qualquer forma, se há uma consequência positiva dessa confusão toda nos bordelais é a mistura de cepas sem qualquer tipo de purismo. É extremamente comum que os vinhos dessa parte da França sejam feitos a partir de dois ou mais tipos uvas. O resultado é uma alquimia extremamente difícil de se acertar. Qual é, por exemplo, a quantidade exata de cabernet sauvignon e de merlot para se fazer um vinho bom? Por conta disso, em geral, os bons vinhos de Bordéus [como os portugueses chamam essa área] são encorpados, densos, licorosos, escuros, a ponto de aguentar acompanhar bem das carnes mais gordurosas aos queijos mais pesados - e fazer desaparecer os gostos mais sutis.

Já em Bourgogne... Bem, a Borgonha, como nós chamamos essa área do centro-oeste francês, é quase o oposto da confusão de Bordeaux. Se nas ruas da principal cidade da região rival, abundam turistas cafonas, restaurantes caça-níquel e pós-adolescentes de carro novo cantando pneu, Dijon, a capital da Borgonha, parece não se importar nem mesmo com aqueles grupos que seguem a guia de guarda-chuva em punho. É elegante e sóbria como o seu vinho. Opa, pera. É quase isso.

Uma área tão grande produz vinhos muito diferentes entre si, mas há, ao menos, três características que se mantêm praticamente inalteradas: 1/ as garrafas são mais arrendondadas, dando um aspecto mais, hum... charmoso. 2/ as cepas são únicas - e o pinot noir é o mais barato e comum de todos no norte [#cholamais]! 3/ há um controle fortíssimo da qualidade dos vinhos produzidos na região. Lá, antiguidade não é posto. É necessário o pessoal correr atrás do prejuízo a cada ano para manter suas denominações intactas. Se não...

Esses controles de qualidade não são uma certeza de que o vinho é bom ou ruim. Há infinitos motivos e outras infinitas razões para se gostar ou não de um vinho. Um vinho é uma líquido vivo [raramente se consegue, por exemplo, duas garrafas exatamente iguais] que foi influenciado por inúmeros fatores, como a condição do solo, a quantidade e a qualidade de sol no ano e, após as reticências e o et cætera, o grande e absurdo acaso. Saber como um vinho foi preparado não garante qualquer certeza sobre sua degustação, apenas que ele é o melhor que poderia ter sido preparado dentro de um mundo que não respeita qualquer CNTP.

Outro detalhe curioso é a presença mais marcante dos bourgognes na culinária. O boeuf bourguignon é onipresente em Dijon. Os ovos en sauce meurette, idem. O coq au vin não aparece sempre nos cardápios, mas também não é bem uma surpresa. É um vinho mais, hum, simples - no sentido de mais leve, mais tranquilo, que pode "compor" melhor, sem querer sobrepujar nada nem ninguém. É aqui que os adjetivos desaparecem para os só amadores do vinho.

O certo é que há um controle e uma organização na Borgonha para um vinho mais, hum, puro. Isso me leva a especular que o processo é uma boa metáfora para o capitalismo. Como se o processo de industrialização na área tivesse se desenvolvido ao custo de muito trabalho e investimento. Agora a intenção é aperfeiçoar o produto para se chegar no mais próximo da perfeição. Enquanto isso, na outra área - Bordeaux -, teria havido uma acumulação a partir da exploração do solo, com a criação de [praticamente] capitanias hereditárias, que se mantêm [praticamente] inalteradas depois de tantos anos. Bem, é isso, ou a minha vontade de ver sempre a nossa herança colonial em todos os lugares.

A "rivalidade" Bordeaux x Borgonha é, de alguma forma, a demonstração da divisão interna desse país que é atravessado por vontades tão conflitantes, tão opostas. São duas maneiras diferentes de produzir vinho, duas histórias quase opostas, e o resultado é claro: duas bebidas incomparáveis. Ou quase. Borgonha é Nova Inglaterra, Bordeaux, Sul dos EUA. Borgonha é Norte da Europa, Bordeaux, o Sul. Borgonha é Flu, Bordeaux, Fla. Apesar de minha preferência pelos gostos mais arrebatadores, não é surpresa, portanto, saber qual é o melhor vinho francês.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A casa [da mãe Joana] França-Brasil

D'accord, dou o braço a torcer. Agora, parece inegável que a relação Brasil-França (ou seria Rio-Paris?) é maior, ou pelo menos de outra natureza, mais íntima, mais profunda, que a do Brasil com outros países ricos. É claro que essa é uma percepção subjetiva, mas é a mesma impressão e método que usei para avaliar outros países. Como forma de contra-prova, ou prova dos 9, eu me defendo dizendo que estava até recentemente tentando evitar essa associação de todas as formas. Mas contra as coincidências quase cotidianas [a última foi a francesa que nasceu no Brasil, o pai é ex-diplomata no Rio e o irmão, produtor de cinema de "Cidade de Deus" e outros blockbusters nacionais] não há muitos argumentos.

Sempre me perguntei, para evitar uma aproximação exagerada entre Brasil e França, que falseasse o real: por que a França - e não outro país - teria essa ligação íntima com o Brasil? O que a França - ou Paris; ou Paris? - tem que outros lugares não têm? A questão é que não consegui fugir das questões com respostas satisfatórias e agora estou me esforçando para levantar alguns possibilidades de caminho.

Minha primeira tentativa é histórica. Os franceses tentaram, diversas vezes, colonizar não somente o Rio, como também outras áreas da costa do que veio a ser o Brasil. Discordando daqueles que reclamam do nosso passado português, imagino que para nós, que somos o resultado de uma colônia europeia com tráfico de escravos africanos tirados a força de suas casas dentro de um território manchado com o sangue do genocídio indígena, não haveria muita diferença. Vide o Haiti. Reze pelo Haiti. Todavia, para os franceses...

Para os franceses houve, suspeito, uma sentimento de perda, de queda de um espécie de paraíso na Terra. Uma terra em que, finalmente, eles cumpririam o destino deles: o de serem os donos da porra-toda. Em outras palavras, a Casa Grande numa terra grande.

[Pausa para dizer que se os jornais ainda poderiam ser usados como forma de entender uma parcela representativa da sociedade, o mais que insuspeito "Le Monde" demonstra como os franceses pensam sobre o restante do Monde. Todo e qualquer assunto internacional é, de uma maneira bem direta, parte das suas políticas internas. Eles devem, de alguma maneira, estar a par de todos os assuntos porque eles teriam, numa imaginação um pouco fantasiosa, influência direta nisso. Dias desses, por exemplo, a capa do site era sobre um drama na sucessão do trono na Arábia Saudita. Noves fora o peso estratégico do reino, o tema é, no mínimo, estranho para olhos brasileiros. Fim da pausa.]

Voltando à França, e à sua relação com o Brasil. Os gauleses, sem o Brasil para explorar, se sentiram naquela famosa relação de quem poderia ter sido e nunca foi. Uma promessa nunca cumprida. Um potencial não explorado, por motivos de: caminhos tomados estranhamente na vida - da vida. Seria possível, com pouco esforço, dizer o mesmo do Brasil, apelidado pelo Stefan Zweig de "O país do futuro". O mesmo Zweig, vale o comentário, que tem uma presença bem mais constante aqui em sebos e livrarias que em outros países que visitei [nunca fui à Áustria, no entanto].

Haveria, daí, uma segunda identificação entre o Brasil e França. Os dois se sentiriam parte do mesmo clube dos corações frustrados. França, como o irmão mais velho e rabugento, Brasil, como o mais novo e festivo. De onde nasce a terceira ligação.

Poder-se-ia [o presidente-intestino ficaria orgulhoso da mesóclise] supor que esse irmão mais velho e ranzinza quer, no fundo, cair na folia do mais novo. Haveria uma inveja... não, não: uma cobiça, uma vontade de ser desse modo descompromissado, desleixado, desse jeito de não se levar a sério, não conseguir se levar a sério - mesmo quando uma dose leve de seriedade seria indicada - do Brasil e dos brasileiros. [Esse modo que não é, claro, mais que uma caricatura em zoom out da maneira de ser que o Brasil exporta para si mesmo e para os outros.]

Isso lembra as maneiras atrapalhadas do franceses de não se deixarem ser tão desleixados, de não deixarem a cultura do jeitinho se espalhar indiscriminadamente: com uma mão pesada da burocracia. Não há ninguém que more aqui mais que um mês que não tenha ido aos correios, La Poste, aqui. Para ter um celular de conta, por exemplo, é necessário mandar uma carta de próprio punho assegurando que você não atrasará o pagamento. Sabe lidar com a sólida e inflexível estrutura de algumas instituições públicas brasileiras, que têm pouco ou nenhum jogo de cintura? Agora multiplique por três. Pronto.


Há, portanto, um aspecto cultural - no sentido mais amplo do termo - em comum entre Brasil e França e o território francês, com sua particularidade geográfica, só vem a confirmar isso. É banhado pelo Mediterrâneo, por baixo, e pelo golfo de Biscaia e pelo canal da Mancha, que é uma saída já do mar do Norte, por cima.

Existem diversas maneiras caricatas de dividir a Europa [ver ao lado], mas uma das mais comuns é entre o Norte [protestante, frio, funcional, moderno...] e o Sul [católico, caloroso, confuso, clássico...], que funciona "bem", até a página 3. No máximo. A França, como os mapas aí do lado mostram, carrega as cicatrizes dos dois lados da fronteira Norte-Sul. Há uma culpa por não ser tão eficiente, quanto os irmãos de cima, nem tão relaxados como os irmãos de baixo. Há sempre um sentimento de não estar confortável com o que se é. Um estar desalojado de si mesmo. Um sentido que o brasileiro e a brasileira de classe média levemente intelectualizada conhecem bem, apostaria.

Ao mesmo tempo, a França é ainda um país extremamente central na Europa, propagadora de vários dos elementos que compõem os alicerces das chamadas democracias liberais. Além disso, é uma das mais consolidadas metonímias da Europa, fruto de governos centralizadores, reis, imperadores e que tais. Essa sua posição histórica-geográfica obrigaria, nessa minha hipótese, a França a ter uma participação mais ativa na política internacional [vide as manchetes do "Le Monde"], quando, na verdade, ela só gostaria de estar relaxada numa praia tropical, tomando caipirinhas [onipresentes] ao som de samba [idem]. Voilá, uma contradição não-ambulante. Uma contradição bem brasileira.

Mas por que a França? Por que não outros países com mais vínculos com o Pa-tropi? Bem, porque Portugal ficou muito pequeno para o Brasil. Talvez eles tenham essa relação mais íntima com Angola e, quiçá, Moçambique, sabe-se lá. Espanha tem suas próprias ex-colônias para se preocupar - e invejar. A Inglaterra é fechada dentro da sua própria Commonwealth de influência, e muito cinza para se alegrar com sombra e água fresca. Alemanha tem a barreira da língua, quase intransponível num primeiro momento. Os EUA são abastecidos por tantos outros estrangeiros e influências externas, que a força brasileira se dilui completamente. A França reúne, talvez por coincidência, os elementos para adorar o Brasil, para ter esse diálogo quase paternalista. Não é responsável por suas mazelas, portanto não carrega uma culpa, e não recebe uma onda massiva de imigrantes. E, principalmente, valoriza os nossos clichês como a utopia a se alcançar. Vai entender.

É, ainda, na França que o emigrante brasileiro que não quer tentar a sorte nos EUA [por qualquer motivo que seja], e não sabe falar outra língua além do português-brasileiro com forte sotaque, se arrisca. É o irmão mais novo pedindo ajuda ao irmão mais velho. E tome bar baiano, restaurante com feijoada, roda de samba, forró misturado até com música dos balcãs [dizem que é divertido].

O La Fontaine é sempre citado nos cursinhos de francês com suas fábulas de moral nível He-Man explicando o episódio. Num de seus versinhos que não bebeu diretamente de Esopo, ele fala de uma formiguinha trabalhadora e acumuladora de capital, e de uma cigarra, que canta a vida, sem se preocupar muito com o dia de amanhã. Parece que de alguma maneira, Brasil e França são da mesma família: a das cigarras que são, no menor ou no maior grau, obrigadas a se comportarem como formigas. Talvez um dia consigamos simplesmente nos sentir bem em nossa própria pele.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O paradoxal exercício da escultura de Rodin

Almoço na casa de franceses. Dia quente, conversas variadas: política brasileira, agricultura familiar, Roland Garros. Ao fim, o dono da casa faz uma piada: agora vou mostrar a maior contribuição da França para o mundo. Sem muito pensar, sem saber exatamente o que estou fazendo, respondo: Rodin? Ele ri. Na verdade, era apenas um camembert.

Depois fui investigar essa minha resposta de supetão. Não falei nenhum dos impressionistas do século XIX, nenhum dos escritores românticos, nenhum dos realistas, não falei de Proust, nada. Citei Rodin. Por que Rodin? Talvez a exposição no Grand Palais que lembra os 100 anos de sua morte tenha me dado a resposta.

Talvez a escultura, entre todas as artes plásticas, seja a que consegue demonstrar com mais facilidade a materialidade da obra. É quase impossível não perceber que aquele busto brilhoso de Camille Claudel à sua frente não saiu de um pedaço de bronze. O toque do homem sobre o material bruto é muito claro. A mágica é evidente - sem que saibamos como ela é feita, claro. Alguns escultores, talvez os maiores nomes da escultura, perceberam a necessidade, ao longo da carreira, de demonstrar essa materialidade, de deixá-la à vista. Rodin, claro, não fugiu a essa tradição.

Ele era uma mestre dos materiais. Transitava bem entre o gesso, o mármore e o bronze - apesar de ser um craque, o maior de todos, no gesso, esse material renegado no século XX. De qualquer forma, quase não percebemos essa diferença. Porque a escultura carrega uma outra característica que é paradoxal com a primeira citada ali em cima: apesar de sua materialidade, nós esquecemos o seu material.

É olhar para o jovem retratado no "L'age d'airain" [ao lado], que de tão natural, segurando sua cabeça, andando, foi quase impedido de participar de um salão de arte, sob a acusação de modelagem, e se perguntar: quando esse rapaz vai se mover? Mesmo que ele seja feito de bronze.

Seu São João Batista musculoso e caminhando. Sua efígie da República francesa, séria, como se fosse a mais importante e necessária figura do mundo. O pensador, a figura ícone de um século XX que se propunha científico, racional, após todo o positivismo do XIX, mas cuja utopia explodiu nas duas grandes guerras. O homem sentado refletindo. Sobre o quê?

Um momento tão diferente do nosso, de fluxo obrigatório da euforia, como forma de sobrevivência, que nos arrasta, nos leva, caso não paremos sobre uma pedra para pensar. Depois se descobre que tal estátua foi pensada para figurar sobre a monumental "Porta do inferno", que nunca foi completa, mas deixou várias obras para a posterioridade (como, por exemplo, "O beijo"). Primeiro, Rodin imaginou que o pensador representaria Minos, o rei do inferno. Depois, Dante, o autor da divina "Comédia". O homem por trás da criação. O homem substituindo o papel de criador que era divino. Deus, afinal, estava para morrer.

"Rodin reafirma sem cessar a presença da natureza no coração de sua obra", diz um trecho do texto de apresentação da seção dedicada ao que foi chamada sua fase expressionista, antes ainda de ele ser consagrado. Essa seria a parcela de materialidade que toda a escultura carrega. Em seguida, o texto aceita o paradoxo que toda obra de arte deve carregar em si, para ser digna desse nome. Rodin se liberta da posição de sujeito genial, de artista criador, e deixa a obra simplesmente acontecer - mas age, assim, contra a própria natureza do material. "O corpo é um modelo onde se imprime as paixões", diz o artista.

Ele não precisa respeitar os limites do "real". O corpo comanda a escultura - entendido aqui como o ato de esculpir. Pescoços longos demais, braços inexequíveis, movimentos improváveis. A intenção é fazer o material base dançar. É fazer ouvirmos a sua música. Artista e obra bailam junto num pas de deux quase invisível. É nesse "quase" morada da mágica.

N'"O beijo", há uma maciez na pele de Francesca, uma tranquilidade no rosto de Paolo, personagens românticos da "Comédia" dantesca que inspiraram Rodin. A sensualidade explode com ela se doando completamente e ele a recebendo. Pensamos em Camille Claudel e o relacionamento sempre desigual entre professor e aluna. A pedra de onde os corpos nascem é também o banco onde os amantes estão sentados para namorar. Há um romantismo, sim, mas um romantismo mais do século XX que do século XIX [a obra foi concebida entre 1881 e 1882]. Há uma abertura, uma possibilidade dos dois serem livres.

A sensualidade é presença forte nas obras de Rodin. Cresce com "Psyché e Printemps", e a ninfa surpresa de ser surpreendida, "Fauno e Ninfa", com um verdadeiro ataque do personagem meio bode, meio homem, mas principalmente com "Je suis belle", em que a mulher pula sobre o homem [ao lado].

Existe uma busca por uma expressão humana, no sentido do animalesco, do emotivo, do lado que não exibimos normalmente, mostrando os sentimentos que nem sempre consideramos os mais nobres. Ugolino, outro personagem dantesco, conhecido por devorar os próprios filhos no capolavoro do fiorentino, rasteja, sobre as quatro patas. A velhice, a vitória da criança prodígio. Ele mostra o que não podia ser mostrado. Mesmo "O pensador", e seu tema mais "racional". O que nos faz interromper o fluxo da vida, nos afastar e refletir? Sermos afetados. Afetos.

Curiosamente, além da série "O pensador", há também uma chamada "A meditação ou a voz interior" [abaixo]. Dessa vez, a personagem é claramente feminina, está em pé, em tamanho natural, com o corpo totalmente retorcido, o rosto um pouco caído, como se se perguntasse sobre algo e quisesse se escutar. Não há braços, apenas o movimento. Rodin queria se concentrar apenas no principal. Ela também foi afetada, mas diferente do homem que se imobiliza, a mulher não tem um destino inquebrantável, deve se adaptar durante o próprio percurso.

Há um enfoque nas figuras femininas nessa altura da vida, já mais maduro, após 1890, ou é impressão minha? "Íris mensageira dos deuses" é uma estátua de bronze sem cabeça com as pernas abertas e todo o seu sexo à mostra, por exemplo. Seria ele percebendo a importância feminina?

Após Rodin, foi possível liberar a nossa imaginação para completar a figura. É o fim, afinal, da figuração. Rodin, que bebeu tanto dos clássicos, como Dante, se transforma em um ícone, seguido pelas gerações que vieram após ele. Mira no passado e acerta o futuro. Abre caminhos, como toda arte mais revolucionária.

Rodin talvez seja uma das maiores referências francesas para o mundo contemporâneo porque atingiu o patamar desejado por todos os artistas, que merecem esse nome. O de sumir atrás do gigantismo de sua obra. "O pensador" é um símbolo de uma época. "O beijo", idem. O "Homem que marcha", uma escultura já do fim da vida, aparentemente banal, um exercício de desfiguração, vira um desses temas sempre revisitados por outros artistas. Talvez a maior influência de Giacometti, uma das grandes sombras sobre Picasso escultor. Na exposição do Grand Palais - só em Paris deve ser possível reunir tantas obras de tantos grandes nomes, no mesmo lugar ao mesmo tempo - é possível comparar as obras e enxergar uma das linhas de fuga inaugurada pelo escultor. Esse artista, como diz o texto inaugural da exposição, que queria encontrar a epiderme da matéria bruta. Parece ter conseguido.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comunas [cristãos] de Paris

A primeira vez que visitei a França, ou melhor, Paris, eu morava na Inglaterra, em 2012 [disclaimer: esse texto não é uma reclamação de Primeiro Mundo, nem uma tiração de onda, mas uma crônica de uma viajante, com cheiro de sociologia de botequim - não confundir com o carneiro montanhês francês].

A minha primeira impressão sobre a França, ou mais especificamente sobre Paris, se sustenta quase exatamente igual desde então. Se há alguma diferença, ela está apenas na profundidade do que eu senti nesse primeiro coup d'œil.

Percebi, em comparação, que os londrinos teriam a melhor-pior maneira de encarar o outro, o estrangeiro: ignorando-o; comportamento, na superfície, igual ao que ele pratica com qualquer outra sujeito, independentemente de sua origem. Já o parisiense faz questão de mostrar que há uma diferença entre ele e o outro.

Esse comportamento que ressalta a diferença não é - vendo agora - necessariamente pior que a inglesa. Nessa primeira visita, cheguei a apelidá-la de pior-pior maneira, mas hoje vejo que uma sociedade complexa como a parisiense cria diversos mecanismos para responder a esse primeiro impulso de segregação.

Autoestima: "Ainda um francês que se
faz inesquecível"

Já é um clichê dizer que Paris e Londres são nêmesis. Cidades-irmãs separadas por um estreito canal que muda de nome dependendo do lado que você o enxerga. Uma rivalidade parecida com a que acontece com Rio x São Paulo, Barcelona x Madri, Nova York x Los Angeles.

Essa disputa entre Londres e Paris, suspeito, nasce do fato de ambas terem sido capitais de países que, nós querendo ou não, justamente ou não, dominaram política, cultural, filosoficamente o mundo chamado Ocidental por séculos. Em suma, foram o berço do imperialismo clássico, de raiz, imperialismo moleque, daquele que escravizava sem meias palavras, sem qualquer tipo de desculpinha esfarrapada [sic] politicamente-correta [sic]. E, consequentemente, ainda hoje continuam exercendo uma influência inegável no xadrez mundial da atualidade. Pense no [combalido] Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.

Ao mesmo tempo e da mesma forma, ambos Estados também perderam consideravelmente suas áreas de exploração-colonização, direta ou indiretamente. Houve a ascensão dos EUA, houve o processo de independência, houve a formação da UE. Todo esse processo de perda de poder aconteceu há no máximo 50 anos, o que mostra como ele é recente. A produção intelectual apelidada de pós-colonial [talvez após Edward Said e o seu "Orientalismo"] floresce principalmente nesses dois países, não por coincidência [mas não apenas, vide Portugal e EUA, só para citar outros dois casos bem diferentes].

A diferença do tratamento ao outro, entretanto, não pode ser explicada nesse passado em comum. Aí que mora a distância entre as chips e as frites. Minha suspeita tem a ver com com a mentalidade religiosa em ambos os países.

Talvez um grande exemplo [há vários] de como a religião não é exatamente o centro da vida inglesa seja o fato de dentro da catedral de Westminster haver duas enormes homenagens a dois santos da ciência: Charles Darwin e Isaac Newton. Isso sem contar ainda com o canto dos poetas, onde vários dos principais escritores ingleses estão enterrados [aqui em Paris, eles estão no Panthéon, cuja principal atração, na minha humilíssima opinião, é o pêndulo de Foucault]. Além disso, podemos pensar que a chefe da igreja anglicana é... a rainha. Se isso ainda não serviu para mostrar a diferença entre um país e outro no quesito, último argumento: Na Inglaterra, todos os museus são gratuitos, enquanto as igrejas cobram ingressos para sua visita. Bem, acho que não é necessário lembrar que na França é exatamente o oposto, né? Notre Dame, Sacre Cœur e companhia têm livre acesso, enquanto o visitante comum tem que gastar uma grana para ver a fila de turistas tirando foto com a Gioconda.

O cristianismo, principalmente o catolicismo, é central no pensamento francês. Mesmo que não seja óbvio, ele aparece subtefurgiamente. O inglês seguiu a cartilha weberiana antes mesmo de ela ser escrita.

Há, sugiro, por conta dessa diferença, uma culpa - que não dá para chamar de outra coisa que não "católica" - nos franceses. Como se eles soubessem, mesmo que inconscientemente, que dependem, sempre dependeram, do outro - do estrangeiro - para serem o que são: uma potência mundial. Não precisa ser versado nas artes psicanalíticas para sacar que qualquer dependência cria ódio tanto no dependente quanto no objeto de dependência.

Por outro lado, esse sentimento mais explosivo, mais emotivo, cria, como já mencionado, mecanismos de compensação. Pense no caso clássico de se pensar a diferença entre o racismo brasileiro, que tem vergonha de dizer o seu nome, em relação ao americano, em que ele é escancarado. De qualquer forma há uma maneira "melhor" de ser racista? [Essa pergunta, aliás, faz algum sentido?]

Um desses mecanismos é, claramente, a força da esquerda na França. Mesmo que do outro lado da poça se discuta seriamente o socialismo e suas origens (Marx e Engels - inglês em alemão - moraram lá) - a impressão é que do lado de cá, o pensamento mais libertário é bem mais forte e constante. Pense nas grandes revoluções ou revoltas: 1789, 1848, 1871, a resistência francesa na Segunda Guerra, 1968. Claro, houve revoltas e revoluções também do outro lado do canal, uma até em que o rei perdeu a coroa, e muito antes de se inventar a guilhotina. E, sim, a mais famosa das revoluções de cá não mudou, assim, muito as estruturas do estado das coisas. Mas é inegável a tentativa francesa de tentar, como dizem os anarquistas do Comitê invisible em seu livro "Maintenant", criar em terra o reino dos céus, prometido na bíblia. Mesmo com o Estado laico e tudo. Que estranho sentir saudade, mesmo que de maneira oblíqua, da santa igreja apostólica romana.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Maio de 1968, Junho de 2013

Ler um livrinho com uma entrevista do Dany, le Rouge [apelido de Daniel Cohn-Bendit, talvez o nome mais conhecido do Maio de 1968, mas como ele mesmo diz, "tout le monde me tutoie", todo mundo o trata com informalidade] concedida em 2008 tem um ou dois efeitos imediatos, ainda mais agora, no mês de junho: pensar como 40 anos depois se continuava a tentar entender a revolta que agitou, outra vez mais, as ruas parisienses - e perceber como os desdobramentos desse movimento reverberam até hoje.

Foi curioso começar a ler o pequenino livro junto às críticas ao já quase esquecido texto do ex-prefeito e ex-ministro Haddad - e seu míope, porém, quase seminal, para os padrões petistas, diagnóstico do nosso Junho de 2013 - e terminar com os primeiros textos sobre os quatro anos dos nossos maiores protestos da História recente [penso principalmente no do Torturra e no do Pablo Ortellado]. É difícil contornar os paralelos entre os dois momentos.

[Sou um leitor de zoom out, na imensa maioria das vezes: vejo sempre a grande figura e faço comparações dos traços mais brutos, ignorando os detalhes mais escondidos e os gostos mais sutis - portanto, é claro que há diferenças entre os dois momentos, mas o que eu quero ressaltar aqui é exatamente as suas semelhanças e o que podemos entender de nós mesmos ao olhar para o caso francês.]

Há inúmeras maneiras de fazer esses paralelos, mas há duas, intrinsecamente conectadas, a meu ver, que merecem ser destacadas e ressaltadas numa primeira canetada. O franco-alemão Cohn-Bendit faz coros com outros soixante-huitards [os que participaram do movimento em 68, soixante-huit, em francês] ao dizer como os protestos como aconteciam até então estavam totalmente ultrapassados, i.e., em desacordo com os desejos e anseios da sociedade de então e, principalmente, dos jovens. Lembrar que o jovem, e a cultura jovem, como nós a conhecemos, nasce no pós-guerra, e ganha força principalmente nos anos 1960.

Não haveria como mobilizar, dialogar, mover os outros com um tom antigo, diz ele. O que os estudantes demonstraram - talvez a arma mais desestabilizadora dos jovens - foi uma "joie de vivre", uma alegria de viver, que empolgava não somente outros jovens, mas dava esperança até mesmo gente mais calejada como Jean-Paul Sartre, veterano de outras resistências francesas.

O jornalista francês Stéphane Paoli, que conduz a entrevista [junto com o sociólogo Jean Viard], chega a tentar resumir todo o movimento de Maio de 1968 à "jouissif", uma alegria, do tipo de uma fruição. A foto da capa do livro, de Gilles Caron [que ilustra esse texto], é citada em vários momentos como um exemplo da força - a força sutil, alegre, gaia - do movimento. "Minha história é ainda mais viva com essa foto", diz Cohn-Bendit.

Não precisa ser um especialista em semiótica para conferir como o sorriso de satisfação do jovem estudante de 20 e poucos anos desconstrói o peso endurecido do soldado com o seu capacete brilhoso. Era o frescor do sorriso largo contra o velho, o encardido, o mofado da sisudez militar. Era alguém que desafiava a ordem, criando outra forma de ordem, mais leve, menos respeitadora das ordens pré-estabelecidas.

Cohn-Bendit lembra das inscrições nas paredes de Paris como uma das principais forças de mobilização da época*: "Jouir sans entraves" [fruição sem entraves], "Sous les pavés la plage" [sobre o asfalto, a praia], "La bourgeoise n'a qu'un plaisir, c'est de les détruire tous" [a burguesia não tem outro prazer senão destruir a todos], "À bas la société de consommation" [abaixo a sociedade de consumo], "Je suis marxiste, tendance Goucho" [Eu sou marxista, vertente Groucho - a minha favorita], "Soyez réalistes, demandez  l'impossible" [Sejam realistas, exijam o impossível], "Il est interdit d'interdire" [é proibido proibir]. Quase todas, se as minhas traduções estão corretas, têm um forte fundo humorístico, às vezes surrealista, até.

Os movimentos contraculturais não foram uma exclusividade francesa - e o próprio Cohn-Bendit faz questão de ressaltar isso logo de cara na conversa. Havia uma urgência de mais flexibilidade dos modos de ser era uma tendência mundial - ou em todo o mundo sobre influência do chamado Ocidente.

Para citar um exemplo mais conhecido nosso, basta pensar na Tropicália de Caetano, Gil e companhia - e como o comportamento deles fora da ordem vigente foi ambidestramente criticada, da direita mais conservadora até os comunistas mais tradicionais. Aliás, de uma maneira bem parecida [novamente: no zoom out], esse foi um desconforto muito parecido com o provocado pelo movimento de Paris.

Também podemos voltar ainda mais um pouco no tempo e chegar à Antropofagia de Oswald de Andrade e sua "alegria é a prova dos nove" para ver como o riso pode provocar fissuras no mais sisudos dos muros.

Se quisermos optar por um caminho não tão tradicional, podemos ainda retornar a Machado, ao casmurro Machado de Assis, que deixou claro logo no início de sua obra mais icônica que seu principal personagem, o defunto autor Brás Cubas, escrevia suas memórias póstumas com a escura tinta da melancolia, sim, mas certamente usava para tal empreitada uma leve e ridente pena da galhofa. É necessário ter sempre um sorriso de canto de boca, mesmo quando falamos sobre as coisas mais sérias e profundas.

Isso tudo me lembrou o último protesto que participei - há um mês, mais ou menos, logo após saírem os grampos do empresário da JBS com Temer. Havia dois grandes chamarizes para a multidão que lotou a Rio Branco: um do gênero empoeirado, sobre um carro de som, berrando slogans gastos contra os inimigos de sempre; e outro jovem, fresco, com estudantes - a maioria mulheres e negras - usando instrumentos de percussão, tocando ritmos populares com letras cheias de sacadinhas perspicazes que falavam sobre a urgência das pautas de gênero e de raça, entre outras temas, em um imaginário eixo x, sem se esquecer do eixo y, o econômico, que junta a outra das pontas dos excluídos.

Imagino que não seja necessário dizer qual dos dois discursos era mais potente e reunia mais gente empolgada, com fogo nos olhos.

Como diz Cohn-Bendit, ao comentar o simbolismo do sorriso da foto: a liberdade deve rimar com prazer.

A resistência será feminista, negra, trans, pobre, favelada, indígena, quilombola, e um imenso etc. de causas minoritárias, mas também será, terá que ser, ridente - ou não será.

ps. O livro, curiosamente para o início deste texto aqui, se chama "Forget 1968", assim mesmo, no inglês, a pedido do próprio Cohn-Bendit. O que mostra que mesmo os ícones dos grandes movimentos políticos se cansam do seu passado. Talvez um dia possamos dizer a mesma coisa sobre 2013. Acho que ainda não estamos em condição - ao contrário.

*  Outra das forças propulsoras citadas por Cohn-Bendit em 1968 é a rádio e outros meios independentes que transmitiam e cobriam os protestos quase como jogos de futebol. Impossível não pensar no paralelo com a Mídia Ninja - e como ter um monopólio de comunicação no Brasil nos atrapalha fortemente.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Des nouvelles françaises

Talvez o maior choque quando se chega em Paris para um temporada mais extensa, é a mesma que acontece do outro lado da poça ["A tale of two cities", sacou?]: vou ser soterrado tanta a quantidade de coisa para se fazer aqui. Me foi sugerido [obrigado Carla, obrigado Werneck] comprar o "Pariscope", um "Rio Show" avulso [olhaí a oportunidade] que sai às quartas-feiras e custa um euro para me situar sobre o que está rolando na cidade. Não o encontrei mais, mas achei "L'officiel des spectacles", que, parece, é tão incrível quanto.

Nesse livrinho de papel vagabundo, temos informações de cinema, teatro, música de todos os tipos, alguns restaurantes da semana e até mesmo palestras que acontecerão nos próximos sete dias. Nada mais parisiense, me parece. Dá para saber que nas próximas semanas vão tocar vários medalhões do rock e do jazz como de shows intimistas para poucas pessoas. A capa dessa semana é sobre um documentário franco-suíço sobre monges budistas birmaneses que perseguiam violentamente os muçulmanos da região chamado "Le vénérable W." e dirigido por Barbet Schroeder.

A sugestão pode parecer muito francesa, no sentido clichê de ser esnobe ou de se exibir como detentor da alta cultura, a ponto de se preocupar com o mundo inteiro, como se fizesse parte integrante das próprias fronteiras. Mas é curioso comparar a distância entre a intenção e o gesto, como diria Chico. Talvez a nova França seja aquela representada pelo fato de a maior estreia da semana passada ter sido "Piratas do Caribe 5" ou pela maior estreia do ano, "Velozes & furiosos 8".

Ou talvez seja as duas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Greve IV

O ato neste dia 1o foi tão pacífico que beirou o tédio - o que, por um lado, é ótimo. Basicamente nomes de grupos da sociedade civil fazendo um discurso na escadaria da Câmara. Clima de festa, bonito para quem estava lá. O que, aliás, parecia ser o caminho do da sexta feira. Cheguei tarde e não vi um policiamento ostensivo*, mas soube que os manifestantes chegaram a entregar flores no início para os que estavam aqui.
Por que a recepção foi tão diferente da de sexta, então?
Hipótese 1: as forças de segurança perceberam que atacar covardemente parte da sociedade organizada, principalmente da classe média, gera backlash. Hoje vi até publicitário mauricinho conhecido aqui. A polícia então recuou para que a manifestação perdesse força sozinha.
Hipótese 2: a paralisação de sexta incomodou porque interrompeu o fluxo cotidiano das cidades. Em outras palavras, exatamente porque atrapalhou o tal direito de ir e vir (quero ver o tal direito sendo exercido com passagem acima dos 5 reais, como estão reportando hoje).
Tanto a hipótese 1 como a 2 nos levam a pensar que: atos, mesmo os grandes, quando em feriados, sem criar um problema para a cidade, não tem tanta repercussão. Sem a voz amplificada, é necessário chamar atenção para as suas demandas, da forma como conseguir. As greves ainda funcionam e bem.
* no finalzinho do ato, a mestre de cerimônias pediu ajuda a advogados porque policiais tinham prendido três garotos injustificadamente. Uma multidão automaticamente saiu em direção das ruas de trás da Cinelândia e, depois de zanzar por cinco minutos, encontrou um grupo de robocops encurralando um rapaz vestido de preto. Para evitar que os policiais abusassem da força, a multidão sacou celulares para filmar o procedimento. Acho que temos alguma coisa aí.
Ps. Por uma dessas coincidências da vida, o ônibus que peguei para voltar para casa estava cheio de jovens e adolescentes cantando... hinos religiosos. Cantaram até uma versão em português de "Hallelujah", do Leonard Cohen. Curioso como uma geração de rapazes e moças gastam sua libido em agremiações religiosas, ainda hoje em dia. Também acho que tem alguma coisa aí.

domingo, 30 de abril de 2017

Greve 3

Algumas obviedades que merecem ser repetidas, novamente:

- política é força e força física, materialidade. Não é uma abstração, algo que acontece em gabinetes fechados, ou que está distante da realidade das pessoas comuns.

- não importa que você não goste do que você chama de política, seus atos mais cotidianos são políticos, tais como o seu comportamento diante de alguém mais fragilizado, ou sua ganância generalizada.

- política não é exatamente uma força única, com uma direção clara, que vai de um ponto a e chega necessariamente no b. Se não, todas as pessoas que foram à manifestação a favor do impeachment da Dilma seriam iguais, do apoiador do Bolsonaro, ao liberal individualista com toques progressistas no campo moral. 

- o mesmo aconteceu na greve e no protesto de sexta: nem todo mundo ali estava a mando das centrais sindicais, né? Adversários momentâneos contra um mal maior. Lembra do Churchill, para justificar sua aproximação com Stalin, falando que se aliaria até com o Diabo contra Hitler? Pois. 


- política é oportunidade. Se o adversário está nas cordas, não é a hora de recuar. Não há fair play nessa batalha. Não há vácuo na política, sempre alguém ocupa os espaços. Acho que 4% de aprovação é uma das metáforas mais consistentes de estar em baixa, não?


- política é incômodo. Eu preferia ficar em casa exercendo o meu prazer favorito de não fazer nada, mas não consigo me sentir bem com a destruição das pequenas conquistas por um governo totalmente antipopular (nos dois sentidos). Prefiro ir às ruas contra ele, mesmo sofrendo as consequências de lutar contra a máquina do Estado.


- política pela esquerda é uma proposta de mais igualdade entre as pessoas, portanto abrir mão de alguns privilégios. O quanto você está disposto a deixar de lado alguns confortos do seu cotidiano? Essa é uma pergunta crucial que devemos nos fazer sempre, nós, branquinhos, heteros, machos, moradores da Zona Sul carioca, se nos consideramos de esquerda.


- política é escolher um lado. É claro que uma greve atrapalha a vida de muita gente. E principalmente de quem tem menos condições: mas em qual momento os pobres saem ganhando nessa atual disputa política? Em que momento esse governo sinalizou com alguma melhora na vida dos mais ferrados? Como o fato de você ser contra as manifestações, os protestos, a greve melhora a vida do pessoal do andar de baixo?


- amanhã, literalmente, vai ser maior. Todo mundo no ato do dia do trabalhador, na Cinelândia. E pode jogar bomba. Vamos voltar, maiores ainda.

sábado, 29 de abril de 2017

Greve II

Após a greve de ontem, e os atos em todo o país contra esse governo que tem o apoio de apenas 4% (curiosamente devem ser os 4% do topo da pirâmide), acho que cabe um balanço:

- apesar de sempre revoltante, a violência da polícia não é exatamente uma novidade. A novidade foi a violência começar antes do ato engrenar, com pouca ou nenhuma justificativa além do simples fato de acabar com a aglomeração de gente contrária ao governo.

- isso leva a pensar que o ato, a greve geral assustou e muito quem deveria assustar. Uma foto com uma multidão contra Temer seria muito impactante. Também corrobora essa tese o fato de a Globo não ter falado sobre os protestos de maneira, digamos, favorável* (o que é diferente, me parece, do tratamento das manifestações pelo impeachment de Dilma).
- a violência policial ter começado cedo e de maneira clara para acabar com a aglomeração fez muita gente experimentar pela primeira vez o cheiro de gás lacrimogêneo. Muita gente que em 2013 eu vi ser contra as ações e táticas de proteção que visam atingir símbolos do poder estabelecido (bancos e mobiliário urbano), ontem já estava achando que o combate de trincheira talvez seja a única forma de pressionar um governo autoritário e pouco democrático.

- não há protesto pacífico contra o governo - e principalmente este governo. Nunca. Eles sempre vão arranjar uma desculpa para jogar bombas, balas de borracha e fazer o terror. Como então combater o Estado que de democrático só tem o rito de ir às urnas (já que nem os resultados são respeitados e o atual governo se gaba de ser pouco popular para aplicar uma agenda que agrada tão e apenas os 4%)?

- hipótese genérica: criar rupturas do tecido social, usar a força e a pressão. E não desistir nunca. Amanhã vai ser maior.

*antes o texto dizia que a Globo não mencionava a expressão greve geral e que o fato de não anunciar o ato seria diferente de outras manifestações contra Dilma.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A greve I

Interrompendo o exílio por um motivo nobre, e não é meu aniversário amanhã.

Muita gente falando que é contra greve porque incomoda a vida, porque atrapalha principalmente os mais necessitados, porque é uma medida antiquada para os tempos atuais, porque o governo é insensível a esse tipo de ato.

Amigue, se você souber uma maneira de pressionar o governo que seja limpinha, higienizada, gourmet, isso tudo sem qualquer apoio dos veículos de comunicação mais tradicionais, pode sugerir que eu aceito dar minha atenção.

Por enquanto, o que a História mostrou é que os atos políticos contra o andar de cima têm que pressionar de algum jeito os donos do poder. Quanto maior pressão, melhor. Quanto mais corda no pescoço, mais eficiente. Isso para não falar em lâmina (adoro quando chamam a esquerda que se mantém à esquerda de jacobinos).


Ps. Todo mundo nos atos de hoje à tarde / noite!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

desencontráreis

   Mandei a palavra rimar,  ela não me obedeceu.      Falou em mar, em céu, em rosa,  em grego, em silêncio, em prosa.       Parecia fora de si,  a sílaba silenciosa.     Mandei a frase sonhar,  e ela se foi num labirinto.      Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.  Dar ordens a um exército,        para conquistar um império extinto. - Paulo Leminski

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Deus gramática

This centre, in controlling the structure, in making it cohere, must both be part of the structure and lie outside it. A structure, therefore, is “contradictorily coherent” and relies on an “invariable presence” to determine its existence. That presence, Derrida argued, has been given many different names throughout history – essence, being, transcendentality, consciousness, God, man and so on – but all have relied on this idea of there being something unchanging beneath it all. While structuralism (and, indeed, analytic philosophy) was able to function without God, it retained a fundamental belief in this “invariable presence”, call it what they will. To quote Nietzsche, “I am afraid we are not rid of God because we still have faith in grammar.”

From here:
https://newhumanist.org.uk/articles/5143/derrida-vs-the-rationalists