segunda-feira, 1 de maio de 2017

Greve IV

O ato neste dia 1o foi tão pacífico que beirou o tédio - o que, por um lado, é ótimo. Basicamente nomes de grupos da sociedade civil fazendo um discurso na escadaria da Câmara. Clima de festa, bonito para quem estava lá. O que, aliás, parecia ser o caminho do da sexta feira. Cheguei tarde e não vi um policiamento ostensivo*, mas soube que os manifestantes chegaram a entregar flores no início para os que estavam aqui.
Por que a recepção foi tão diferente da de sexta, então?
Hipótese 1: as forças de segurança perceberam que atacar covardemente parte da sociedade organizada, principalmente da classe média, gera backlash. Hoje vi até publicitário mauricinho conhecido aqui. A polícia então recuou para que a manifestação perdesse força sozinha.
Hipótese 2: a paralisação de sexta incomodou porque interrompeu o fluxo cotidiano das cidades. Em outras palavras, exatamente porque atrapalhou o tal direito de ir e vir (quero ver o tal direito sendo exercido com passagem acima dos 5 reais, como estão reportando hoje).
Tanto a hipótese 1 como a 2 nos levam a pensar que: atos, mesmo os grandes, quando em feriados, sem criar um problema para a cidade, não tem tanta repercussão. Sem a voz amplificada, é necessário chamar atenção para as suas demandas, da forma como conseguir. As greves ainda funcionam e bem.
* no finalzinho do ato, a mestre de cerimônias pediu ajuda a advogados porque policiais tinham prendido três garotos injustificadamente. Uma multidão automaticamente saiu em direção das ruas de trás da Cinelândia e, depois de zanzar por cinco minutos, encontrou um grupo de robocops encurralando um rapaz vestido de preto. Para evitar que os policiais abusassem da força, a multidão sacou celulares para filmar o procedimento. Acho que temos alguma coisa aí.
Ps. Por uma dessas coincidências da vida, o ônibus que peguei para voltar para casa estava cheio de jovens e adolescentes cantando... hinos religiosos. Cantaram até uma versão em português de "Hallelujah", do Leonard Cohen. Curioso como uma geração de rapazes e moças gastam sua libido em agremiações religiosas, ainda hoje em dia. Também acho que tem alguma coisa aí.

domingo, 30 de abril de 2017

Greve 3

Algumas obviedades que merecem ser repetidas, novamente:

- política é força e força física, materialidade. Não é uma abstração, algo que acontece em gabinetes fechados, ou que está distante da realidade das pessoas comuns.

- não importa que você não goste do que você chama de política, seus atos mais cotidianos são políticos, tais como o seu comportamento diante de alguém mais fragilizado, ou sua ganância generalizada.

- política não é exatamente uma força única, com uma direção clara, que vai de um ponto a e chega necessariamente no b. Se não, todas as pessoas que foram à manifestação a favor do impeachment da Dilma seriam iguais, do apoiador do Bolsonaro, ao liberal individualista com toques progressistas no campo moral. 

- o mesmo aconteceu na greve e no protesto de sexta: nem todo mundo ali estava a mando das centrais sindicais, né? Adversários momentâneos contra um mal maior. Lembra do Churchill, para justificar sua aproximação com Stalin, falando que se aliaria até com o Diabo contra Hitler? Pois. 


- política é oportunidade. Se o adversário está nas cordas, não é a hora de recuar. Não há fair play nessa batalha. Não há vácuo na política, sempre alguém ocupa os espaços. Acho que 4% de aprovação é uma das metáforas mais consistentes de estar em baixa, não?


- política é incômodo. Eu preferia ficar em casa exercendo o meu prazer favorito de não fazer nada, mas não consigo me sentir bem com a destruição das pequenas conquistas por um governo totalmente antipopular (nos dois sentidos). Prefiro ir às ruas contra ele, mesmo sofrendo as consequências de lutar contra a máquina do Estado.


- política pela esquerda é uma proposta de mais igualdade entre as pessoas, portanto abrir mão de alguns privilégios. O quanto você está disposto a deixar de lado alguns confortos do seu cotidiano? Essa é uma pergunta crucial que devemos nos fazer sempre, nós, branquinhos, heteros, machos, moradores da Zona Sul carioca, se nos consideramos de esquerda.


- política é escolher um lado. É claro que uma greve atrapalha a vida de muita gente. E principalmente de quem tem menos condições: mas em qual momento os pobres saem ganhando nessa atual disputa política? Em que momento esse governo sinalizou com alguma melhora na vida dos mais ferrados? Como o fato de você ser contra as manifestações, os protestos, a greve melhora a vida do pessoal do andar de baixo?


- amanhã, literalmente, vai ser maior. Todo mundo no ato do dia do trabalhador, na Cinelândia. E pode jogar bomba. Vamos voltar, maiores ainda.

sábado, 29 de abril de 2017

Greve II

Após a greve de ontem, e os atos em todo o país contra esse governo que tem o apoio de apenas 4% (curiosamente devem ser os 4% do topo da pirâmide), acho que cabe um balanço:

- apesar de sempre revoltante, a violência da polícia não é exatamente uma novidade. A novidade foi a violência começar antes do ato engrenar, com pouca ou nenhuma justificativa além do simples fato de acabar com a aglomeração de gente contrária ao governo.

- isso leva a pensar que o ato, a greve geral assustou e muito quem deveria assustar. Uma foto com uma multidão contra Temer seria muito impactante. Também corrobora essa tese o fato de a Globo não ter falado sobre os protestos de maneira, digamos, favorável* (o que é diferente, me parece, do tratamento das manifestações pelo impeachment de Dilma).
- a violência policial ter começado cedo e de maneira clara para acabar com a aglomeração fez muita gente experimentar pela primeira vez o cheiro de gás lacrimogêneo. Muita gente que em 2013 eu vi ser contra as ações e táticas de proteção que visam atingir símbolos do poder estabelecido (bancos e mobiliário urbano), ontem já estava achando que o combate de trincheira talvez seja a única forma de pressionar um governo autoritário e pouco democrático.

- não há protesto pacífico contra o governo - e principalmente este governo. Nunca. Eles sempre vão arranjar uma desculpa para jogar bombas, balas de borracha e fazer o terror. Como então combater o Estado que de democrático só tem o rito de ir às urnas (já que nem os resultados são respeitados e o atual governo se gaba de ser pouco popular para aplicar uma agenda que agrada tão e apenas os 4%)?

- hipótese genérica: criar rupturas do tecido social, usar a força e a pressão. E não desistir nunca. Amanhã vai ser maior.

*antes o texto dizia que a Globo não mencionava a expressão greve geral e que o fato de não anunciar o ato seria diferente de outras manifestações contra Dilma.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A greve I

Interrompendo o exílio por um motivo nobre, e não é meu aniversário amanhã.

Muita gente falando que é contra greve porque incomoda a vida, porque atrapalha principalmente os mais necessitados, porque é uma medida antiquada para os tempos atuais, porque o governo é insensível a esse tipo de ato.

Amigue, se você souber uma maneira de pressionar o governo que seja limpinha, higienizada, gourmet, isso tudo sem qualquer apoio dos veículos de comunicação mais tradicionais, pode sugerir que eu aceito dar minha atenção.

Por enquanto, o que a História mostrou é que os atos políticos contra o andar de cima têm que pressionar de algum jeito os donos do poder. Quanto maior pressão, melhor. Quanto mais corda no pescoço, mais eficiente. Isso para não falar em lâmina (adoro quando chamam a esquerda que se mantém à esquerda de jacobinos).


Ps. Todo mundo nos atos de hoje à tarde / noite!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

desencontráreis

   Mandei a palavra rimar,  ela não me obedeceu.      Falou em mar, em céu, em rosa,  em grego, em silêncio, em prosa.       Parecia fora de si,  a sílaba silenciosa.     Mandei a frase sonhar,  e ela se foi num labirinto.      Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.  Dar ordens a um exército,        para conquistar um império extinto. - Paulo Leminski

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Deus gramática

This centre, in controlling the structure, in making it cohere, must both be part of the structure and lie outside it. A structure, therefore, is “contradictorily coherent” and relies on an “invariable presence” to determine its existence. That presence, Derrida argued, has been given many different names throughout history – essence, being, transcendentality, consciousness, God, man and so on – but all have relied on this idea of there being something unchanging beneath it all. While structuralism (and, indeed, analytic philosophy) was able to function without God, it retained a fundamental belief in this “invariable presence”, call it what they will. To quote Nietzsche, “I am afraid we are not rid of God because we still have faith in grammar.”

From here:
https://newhumanist.org.uk/articles/5143/derrida-vs-the-rationalists