terça-feira, 14 de maio de 2013

Deus está vivo para Heidegger


A interpretação do tema da morte de deus é uma constante na obra de Heidegger. Aparece, pelo menos, já em “Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis)”, escrito entre 1936 e 1938, e publicado em 1989. Ou ainda antes, nos seus cursos sobre Hölderlin de 1934/35. Mas há um momento específico que ele toca diretamente no assunto para opinar sobre a interpretação de seu conterrâneo Friedrich Nietzsche (1844-1900) sobre o caso. É o texto “Nietzsches Wort ‘Gott ist tot’”, de 1943 (numa tradução livre: “A palavra de Nietzsche: ‘Deus está morto’”)1.

Esse é um texto em que Heidegger tenta mostrar como sua própria obra é, de certa forma, uma continuidade da de Nietzsche. Como as respostas para os problemas apresentados ou identificados por Nietzsche podem ser encontradas em sua filosofia. Heidegger, inclusive, consegue, por meio de uma grande reviravolta argumentativa, encaixar o próprio Nietzsche dentro da tradição da metafísica, que o filósofo do martelo dizia sempre ter combatido. Para isso, Heidegger argumenta, com o seu vocabulário tradicional, recheado de conceitos próprios a cada linha, que a metafísica é a verdade do que é em sua inteireza, sem ausências. A metafísica não é a divisão, não é a separação, não é um embate. A metafísica é o inteiro, o todo. E - na interpretação de Heidegger - para Nietzsche, a metafísica coincide com a sua ideia de niilismo, que poderia ser resumida na frase "deus está morto", mas que cabe e contém muitos desdobramentos 

Antes de prosseguir, é preciso tentar deixar um pouco mais claro  que seria metafísica para Heidegger, um dos seus termos mais caros. Para ele, na tradição filosófica, o termo que provavelmente apareceu pela primeira vez na obra de Aristóteles costuma ser explicado como um todo dividido entre um mundo sensorial, ou seja táctil, factível, físico até, e um mundo suprassensorial. Além disso, Heidegger também mostra como a decadência da essência do suprassensorial criou um vazio. Entre esses dois termos, o mais elevado, ou “o de maior valor” perde, exatamente, o seu valor. Ele chama esse processo de Verwesung, que é traduzido para o inglês como "disenssentializing", mas que em nota o tradutor explica que o substantivo tem o sentido de "decomposição".

Metafísica é o espaço aberto da história em que se transforma um destino, que o mundo suprassensorial, como as Ideias, Deus, a lei moral, a autoridade da razão, o progresso, a felicidade do maior número, a cultura, civilização, sofre a perda da sua força construtiva e se transforma em vazio. Nós denominamos essa decadência na essência do suprassensorial sua decomposição [Verwesung]. Descrença no sentido de uma diminuição da doutrina cristã da fé é, portanto, nunca a essência e o chão, porém sempre apenas a consequência do niilismo; por isso pode ser que o cristianismo sozinho represente uma consequência e o encorpamento do niilismo.2

Seria bom para uma melhor compreensão do que é metafísica que, à vista dessa explicação, tentar entender o que seria o niilismo, sob o ponto-de-vista de Nietzsche. Ou melhor, tentar entender o que é a compreensão de Heidegger sobre o que seria niilismo para Nietzsche. Por um lado, diz Heidegger, o termo lembra o sentido usual, tradicional, como se fosse a perda dos valores dos termos suprassensíveis. Em “Nietzsche, volume IV: Nihilism”, Heidegger diz frases como: o “niilismo é aquele processo histórico pelo qual o domínio do 'transcendental' se torna nulo e vazio, assim todos os seres perdem suas validades e seus sentidos”3. Por outro lado, porém, niilismo, na interpretação heideggeriana do termo em Nietzsche, quer dizer quase o seu inverso: a sua substituição por termos conexos, parecidos, com valores semelhantes. Uma revalorização - no sentido de transformação, de remarcar, de reavaliação. Ao liberar-se dos ícones, anteriores, esse vácuo seria preenchido por outros termos. Mas esse processo de substituição também apresenta problema.

O problema da substituição de um valor por outro, o que Nietzsche, segundo Heidegger explica, chama de "niilismo incompleto", é ainda colocar os termos anteriores numa posição antiga de de autoridade que é mantida "gratuitamente" num campo ideal suprassensível. Já o "niilismo completo" para Nietzsche, Heidegger explica, "deve abolir até com o lugar do valor mesmo, com o suprasensível como domínio, e, de acordo com isso, deve posicionar e reavaliar valores diferentemente"4.

Heidegger lembra que esse projeto de reavaliação, ou revalorização, se liga ao clássico niilismo, mas ele faz questão de dizer que esse ponto não é central. A proposta é a mudança na forma de avaliação. Para Heidegger, "O princípio não pode mais ser o mundo em que o suprasensível se torna sem vida". E o niilismo, visto sob essa ótica, vai procurar o que é mais "vivo", assim niilismo é transformado, nas palavras de Nietzsche "no ideal da vida superabundante". Mas o que é "vida" para Nietzsche? E ainda: o que é valor para Nietzsche?

Em "Vontade de potência", Nietzsche escreve: "o ponto-de-vista de 'valor' é o ponto-de-vista constituindo as condições de intensificação-preservação com respeito às complexas formas de relativa duração da vida dentro [enquanto] do tornar-se [ou se constitui ou, provavelmente, "está se transformando", no sentido de modificação, ou como explica Heidegger: da vontade de potência]".


Valor, portanto, seria as condições que intensificam ao mesmo tempo que preservam a vida, em sua mais complexa forma de existência [ou em sua forma de existência, que é complexa], durante o ato de viver em si [e - importante - causando uma transformação, ou se transformando].

Heidegger ainda ressalta um detalhe curioso: que a grande definição está no fato de valor ser apenas um "ponto-de-vista" [Gesichtspunkt]. Para ele, o valor não é algo em "si", ganhando sua importância pelo ponto-de-vista, ou seja, pela maneira como é vista, enxergada, interpretada. "Valor é valor contanto que some [ou "acrescente": a palavra é "gilt", do verbo "gelten", que é traduzido como "counts"]. E conta contanto que colocado como aquilo que importa."

Essa liberdade, essa não-determinação do que seria um valor a priori, não quer dizer que não haja formas, regras a se respeitarem para entender o que seria um valor, dentro do raciocínio apresentado. Apenas que essas regras, essas formas são mais sutis, interpretativas, não-fixas e relativas. Heidegger explica que é necessário para que algo [um ente?] seja um valor pertencer a um Ser, sendo o que ele chama de "nisus", que seria o ímpeto "de vir à frente" [se mostrar, aparecer, "tornar-se", talvez]. "O objetivo", em uma tradução livre, "providencia a perspectiva em que é conformado. O objetivo na visão é valor." [idem]

1A versão utilizada neste ensaio é a tradução para o inglês do texto de Heidegger publicado em The question concerning technology and other essays, Garland Publishing, New York & London: 1977.
2Heidegger, 1977 / 65, em tradução livre.
3HEIDEGGER, Martin, Nietzsche, volume IV: Nihilism. Harper & Row, New York: 1982, p. 12 [tradução livre].
4Heidegger, 1977 / 69, em tradução livre

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