quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Entre Guarda Municipal e banhistas de Ipanema, o voto nulo

Com a briga generalizada entre Guarda Municipal e banhistas de Ipanema na terça-feira [veja vídeos diferentes aqui, aqui ou aí embaixo], a tentação de muita gente foi optar por ficar a favor dos banhistas e contra os guardas. Era fácil. Seria a truculência versus a informalidade, nossa marca registrada. Vi até gente colocando na conta do prefeito Eduardo Paes.


Os guardas têm histórico. Uma pesquisa rapidinha pelas internerds demonstra que muitas das menções é de abuso do poder por parte de um integrante da GM, ou descaso com o seu trabalho. É ambulante que é enforcado, skatista agredido, violência na praia que remete a esse episódio de terça. Parece ser o típico caso da síndrome dos pequenos poderes. O cara que nunca teve possibilidade de ter sua vontade satisfeita, usa da força, do conjunto, da desculpa da ordem para descontar anos de frustrações contra os mais fracos, os desprotegidos.

Mas algo nesse enredo não estava encaixando. Por que os guardas estavam lá em Ipanema, em primeiro lugar? De onde começou toda essa história? A origem é desencontrada: alguns dizem que foi porque alguém estava jogando altinho, na beira da praia - que é proibido - outros porque um banhista estava andando com um cachorro - igualmente ilegal. Além disso, há a possibilidade da confusão ter começado por parte dos banhistas.

Estava achando complicado tomar partido de um ou outro lado, quando, felizmente, encontrei a minha posição, num post do Facebook na página do escritor Marcelo Moutinho, reproduzindo o cineasta Eduardo Valente: "Entre a Guarda Municipal e a galera do 'Ipanema é nossa/ vocês são uns fudidos' posso declarar voto nulo?" e completa, com humor: "É tipo final de Libertadores entre Corinthians e Boca Juniors. a gente torce pelo juiz".

O post de Moutinho rendeu uma boa discussão. O ensaísta Francisco Bosco entrou na conversa, lembrando que o altinho é uma brincadeira exclusivista: quem não participa tem a chance de tomar uma bolada - assim como, aliás, o frescobol, com o agravante da raquetada.

"Há aí um debate amplo e estrutural sobre o valor do veneno-remédio da informalidade na sociedade brasileira. Depois, é preciso observar que, nesse caso, a informalidade se manifesta como forma, no fundo, antidemocrática, pois privilegia o interesse de poucos sobre o de muitos, no contexto de um espaço público", escreveu ele lembrando que também compartilha do "voto nulo", argumentando que houve truculência de ambos os lados. "O autoritarismo na sociedade brasileira costuma estar igualmente nas ações daqueles que os denunciam."

Valente completa discordando do argumento de quem se opõe à "ordem" no Rio sugerindo que a desordem seria um componente da nossa criatividade. "Na maior parte das vezes [a desordem] é tão daninha e integrante do que nós somos no nosso pior quanto o nosso arraigado autoritarismo desmedido", e lembra, igualmente, e dando o outro lado, que nós confundimos a "ordem" com a "civilidade". No fim, o papo descamba para o futebol, como um ótimo exemplo que podemos ser informais a ponto de discutir problemas estruturais da sociedade e, em seguida, falar sobre algo mais leve.

Toda essa discussão, me lembrou um outro texto, dessa vez do escritor Alex Castro, que falava sobre os privilégios de nós, da classe dominante. E do ônus ausente, mas que deveria existir, na elite. Ser elite - e você, que lê esse blog, provavelmente é, assim como os supracitados banhistas de Ipanema - tem que ter uma contrapartida.

"Ao não se admitir privilegiada, nossa elite-que-não-se-admite-elite sente-se livre pra utilizar seus muitos privilégios (que muitos acham sinceramente que não têm!) para conseguir ainda mais privilégios, num processo de retroalimentação contínua que começou quando o primeiro português, já no século XVI, chorou miséria da pobreza que o fez sair da Europa, reclamou das terras pobres do Novo Mundo, revoltou-se contra as caríssimas taxas alfandegárias da Metrópole… E prontamente escravizou negros e índios para trabalhar por ele!" - escreve Alex Castro, cujo textos vão para o lado do preconceito racial enraizado em nossa sociedade, que é o tema da pesquisa dele de doutorado, mas o mesmo se aplica em diversos casos.

A elite deve ser o exemplo do povo, deve guiar os demais - não no sentido do comunismo dos anos 1960/1970, em que se colocava numa posição superior ao povo ignorante, mas no sentido de estar na vanguarda. Deve abdicar em prol de todos, não em tom de culpa católica, mas com o estoicismo de quem quer uma sociedade mais justa. Não é nunca "escorregar", nunca cometer uma infração, porque isso é praticamente impossível, mas tentar ao menos tratar o ambiente público, como o nome diz, para todos, sem tentar impor suas vontades sobre as dos outros.

"Ontem [terça-feira]", escreve Valente lá no post do Facebook, "foi o Brasil se olhando olho no olho, e vendo que ele é feio."

ps. ontem, quarta-feira, houve mais confrontos, mas sem violência física. O argumento do banhista? Que a praia é um espaço "democrático". Acho que há um conceito errôneo do que é democracia para o rapaz [ou moça, já que ele não é identificado].

2 comentários:

Blog do Jorge disse...

Enfim, um texto sóbrio sobre essa babaquice toda. Pensei em me manifestar pelo Facebook, mas ia acabar atraindo uma polêmica desnecessária e prometi me afastar delas nas redes sociais desde a última eleição presidencial. Confesso que fiquei com uma certa vergonha de todo o episódio, mas especialmente pela reação dos frequentadores da praia e pelo apoio incondicional nas redes sociais por quem nem sabe o que aconteceu. Se foi altinho ou cachorro na praia, tá errado, a GM tem mesmo que reprimir. Quem discorda disso, é porque nunca foi com uma criança à praia. (Não tenho filhos, mas já levei meus sobrinhos e senti na pele a preocupação.) Se foi porque um playboy reincidente, pior ainda. A expulsão da GM da praia com a galera xingando me deu uma sensação muito ruim de uma elite (afinal, é Ipanema e numa terça-feira) que diz "aqui, não, não me venham com essa palhaçada de regras, de Estado, vocês são meros funcionários públicos e devem me servir, seus pobres" (tem gente falando quase isso nos vídeos). Achei medonho. Não vi nada até agora que me fizesse crer que a GM foi a agressora inicial. Pode ter sido, como foi em outros episódios, ela é mal preparada e truculenta, mas não posso julgar um episódio por outro, ou vou me juntar à galera simplista do FB.

Ronaldo Pelli disse...

"Enfim, um texto sóbrio..."

tem que ver quando eu bebo. :-)