quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Cerveja ruim: o mal que entra pela boca

Amigos e conhecidos vieram me avisar na minha volta que havia uma "contra-reforma" em ação no Rio [não sei se em outros lugares]. Após o crescimento do interesse há uns anos por cervejas-cervejas, aquelas cujos ingredientes são decentes, não milho, no último ano, houve um processo inverso: a tentativa de "desburocratizar" o sagrado ato de tomar despreocupadamente a cervejinha.

"Deixe a frescura dos copos com os vinhos", me disse um. "Cuidado com o que você fala por aí", me falou outra. "Eu quero apenas tomar um chope", lembrou um terceiro.

Um dos fatores que sempre me interessou em cerveja foi exatamente essa aparente sem-cerimonice. Qualquer um pode tomar uma cerveja em qualquer lugar, de qualquer jeito, despreocupadamente. Havia uma informalidade brasileira nesse aspecto que era mais agradável que o esnobismo francês importado e associado ao vinho.

Todavia, a cerimônia existe, se você reparar bem. Até para uma questão de sobrevivência do tipo mais vendido desse refrigerante-alcoólico-sabor-cerveja. Há o boteco. A mesa de ferro. O copo-americano. A camisinha. E se alguém vender uma dessas marcas mais conhecidas a mais de dois graus centígrados, o bebedor reclama. Reclama porque está quente. Porque quente é ruim - o gosto das cervejas-água é horrível. Horrível porque os ingredientes usados são de péssima qualidade.

E isso é o que me choca. Reclama-se das músicas tocadas, dos filmes vistos, dos livros publicados, mas quando o assunto é o paladar, esse outro sentido, não se pode falar nada. Deve-se aceitar o gosto ruim das cervejas-águas sem nem pestanejar. E não conheço nenhum caso de alguém que tenha provado uma cerveja-cerveja e ficado incólume. A primeira reação é quase sempre a mesma. Admite que foi enganado até aquele momento.

Na Inglaterra, com uma oferta boa de cervejas-cervejas, raramente há uma discussão sobre o tema, apesar do crescimento do que eles chamam de "continental lagers" num país onde a tradição das "real ales" é quase uma obrigação. Ou seja, cada um toma o que quiser, sem qualquer pressão, sem qualquer intimação.

O que proponho não é "enfrescurar" o ato de beber cerveja. Beba-a do jeito que quiser, à temperatura que quiser, com o copo que quiser. Mas alocar uma preocupação semelhante dada a outros aspectos da vida àquilo que entra pela boca, que passa pelo "gosto". Em relação à cerveja eu sou radical.

3 comentários:

Claudia disse...

Ronaldo,

Você tem razão, aqui na Inglaterra (onde moro)não há patrulha. Cada um entra no pub e pede o que quiser, ninguém liga. Gosto muito do blog, aproveito para matar saudades do Rio. Tenho um blog também: www.porainainglaterra.blogspot.com.br - escrevo sobre cultura, comportamento, tradições da Inglaterra, e passeios que fiz e foram bacanas. Aguardo sua visita!

Claudia disse...

Ronaldo,

Você tem razão, aqui na Inglaterra (onde moro)não há patrulha. Cada um entra no pub e pede o que quiser, ninguém liga. Gosto muito do blog, aproveito para matar saudades do Rio. Tenho um blog também: www.porainainglaterra.blogspot.com.br - escrevo sobre cultura, comportamento, tradições da Inglaterra, e passeios que fiz e foram bacanas. Aguardo sua visita!

Ronaldo Pelli disse...

Opa, Cláudia, vou lá, depois, conferir o seu blog. Morei em Londres por um tempo e vai ser legal, no meu lado, para matar as minhas saudades daí. :-)