segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O mais importante do ano

[Texto publicado na retrospectiva da "Revista de História"; para ler os demais, clique aqui]

As mais recentes edições dos Jogos Olímpicos geralmente são associadas ao legado ou à razão pelo qual foi escolhida tal e qual sede. Barcelona, em 1992, marcou o renascimento da cidade catalã. Atlanta, 1996, é a sede da Coca-Cola e da CNN. Sidney, 2000, colocava em evidência uma cidade pouco citada internacionalmente. Atenas, 2004, era uma homenagem à versão antiga da competição. Pequim, 2008, a confirmação da força chinesa. Mas e Londres 2012? O que vem à mente em primeiro lugar quando se lembra desses jogos? Qual foi o legado para a cidade, para o país, e para a história da competição?

Plural, Londres concentra algumas características dos jogos anteriores. É uma cidade que sabe renascer sempre. Vide as grandes catástrofes que já enfrentou ao longo de sua trajetória. É  rica, sede de várias empresas internacionais famosas, um dos principais polos mundiais do capitalismo financeiro. A metrópole que mais recebeu os jogos na era moderna - com a edição de 2012, era a terceira oportunidade. E uma cidade que nunca perde sua força - e jamais sai de evidência. Então, como ela se destacaria? Como acrescentar algo a uma cidade que parece já ter tudo?

Para completar, a uma semana das competições, as previsões generalizadas eram catastróficas. Caos no meio de transportes. Problemas com a venda de ingressos. Receios de ataques terroristas. Disputas nacionalistas, já que era a primeira vez que ingleses, escoceses, norte-irlandeses e galeses competiam em esportes coletivos sob pela mesma bandeira, a Union Jack. Além disso, havia o aparente desinteresse generalizado da população, que motivou até uma propaganda da empresa aérea patrocinadora pedindo aos britânicos para não viajarem e apoiarem o Team GB, como a equipe britânica foi chamada. Tudo comportamento pessimista padrão do humor britânico. Os jogos foram um sucesso.

As previsões se mostraram infundadas, principalmente a última. Conhecidos pela fleugma, pela figura do lord, os britânicos desceram do salto e se fantasiaram juntos de azul, vermelho e branco, e empurraram o time para a terceira colocação do quadro geral de medalhas. Posição que eles não ocupavam havia muitas olimpíadas. Além das competições, houve uma celebração da cidade, que vibrou durante os 14 dias, sem, por isso, mexer no cotidiano daqueles que não puderam ou não quiseram acompanhar a competição. Claro que isso não foi acaso, mas fruto de muita organização prévia.

Liberdade de escolha, sem que alguém saia prejudicado. União de uma nação cada vez mais múltipla. Incremento na economia, de um país fortemente afetado pela crise econômica mundial. Acender os holofotes ainda mais fortes sobre esse aglomerado de pessoas. Mostrar que, mesmo que Londres não seja mais a maior do mundo, ela pode ser a melhor das maiores. Ficou uma baita responsabilidade para quem vai sediar as próximas Olimpíadas.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O fim do progresso como fim

A felicidade não é nem mensurável, nem sempre desejável. Deve-se estar feliz quando e onde a felicidade é devida e infeliz quando as circunstâncias assim exigem. Fazer da felicidade um objetivo em si, especialmente um objetivo de governo, é a receita para a infantilização autoritária, memoravelmente descrita por Aldous Huxley em "O Admirável Mundo Novo", ou na versão futurista mais recente do filme "Matrix". Ou bem a felicidade é entendida no seu sentido pré-moderno, como uma condição existencial - e neste caso não é passível de ser medida por pesquisas - ou então é entendida no seu sentido moderno, de um estado de espírito circunstancial - e então não pode ser referência do desejável. Os Skidelskys sustentam que substituir a busca do crescimento pela busca da felicidade é passar de um falso ídolo a outro. Nosso objetivo, como pessoa e como cidadão, não é o de ser feliz, mas o de estar feliz quando há razão para estar feliz. E motivo para tristeza nunca há de faltar. É a arrogância do homem moderno que o faz crer que pode tudo controlar. Mais sábios, os clássicos subscreviam o ditado de Solon: "Ninguém pode ser considerado feliz até depois de sua morte".
O texto do André Lara Resende no "Valor" é extremamente interessante para se pensar que talvez não devemos pensar em sermos mais ricos, crescermos mais, comprar mais, ser mais. Ou, ao menos, não deveríamos tentar ser mais, sem pensarmos, refletirmos, ter uma convicção, mesmo que fraca, sobre se é isso mesmo que queremos. Abaixo alguns pensamentos que me ocorreram ao longo da leitura, à medida que lia.

- No início, o economês atrapalha muito a leitura. Além disso, achei curioso o André Lara Resende, que, se eu não me engano, foi ligado ao governo tucano, ser o autor desse texto, antiprogresso, ou contra a ideia de que o progresso é o caminho natural das coisas. Suspeito que pensar em progresso de forma matemática é não considerar o fator mais importante da vida humana: o aleatório. Não vejo o pessoal tucano com essa posição mais relaxada ante o inevitável.

- O artigo também me lembrou a época que eu trabalhava na Johnson e tentava discutir com as pessoas de que não deveríamos sempre pensar que iríamos crescer, ano a ano, porque o mundo não era infinito. havia uma sentimento de competição praticamente inútil, na minha opinião. o crescer pelo crescer, parecido com o comprar pelo comprar, sem qualquer reflexão sobre se é aquilo mesmo que queremos fazer. autômatos, querem nos transformar em autômatos.

- Claro, há uma crítica velada ao governo atual quando ele diz que "Infelizmente, numa atitude míope, em vez de aumentar a taxa de poupança e de investimentos públicos, optou-se por aumentar os gastos correntes do governo, por dar estímulos ao consumo privado, toda vez que o crescimento de curto prazo dava sinais de perder o fôlego." Tenho um pouco de problema com quem diz que sabe resolver o problema. principalmente se esse alguém já teve poder para resolver o problema - e não o fez.

- Ele também é bastante repetitivo, não? A ideia de que "O crescimento dos últimos séculos pode ter sido uma exceção" é repetida algumas vezes. acho que faltou o editor aí. :-)

- "No mundo contemporâneo, independentemente do nível de renda e riqueza, nunca se considerou tão fundamental trabalhar, nunca se considerou tão humilhante a ideia de não trabalhar e ..." - Não é estranho isso, isso da sociedade ainda achar que o "trabalho dignifica o homem"? Essa ideia aparece como imperativa, uma obrigação, não acha? Suspeito que as pessoas têm medo de ficar sem fazer nada, consigo mesmas. E logo vejo que o texto vai para esse lado também. Olhaí.

- Concordo muito com essa discussão - e com essa entonação do artigo - do utilitarismo x ética.

- Agora, acho que entendemos [eu e o autor do texto] a ética de maneira diferente [e essa diferença é mais comum do que eu imaginava]. Para mim, ética é pessoal e intransferível; a moral é "coletiva", do tempo histórico.

- "Não nos basta ser apenas ricos, mas, sim, mais ricos do que nossos pares." - ou seja, o cerumano é um bicho invejoso. :-)

- No fim, gostei do artigo, mas acho que faltou uma interpretação mais... pessoal. Naquele "Entreatos", o filme do JM Salles sobre a eleição do Lula em 2002, há uma cena logo no início que me fez ver como, apesar de todos os pesares, o Lula era uma versão aprimorada do FHC. Em uma entrevista, durante a ida ao barbeiro, Lula diz que seus ministros devem sempre lembrar que o país, e a sua economia, são feitos por pessoas. tratá-los como argumentos filosóficos ou números cria um abismo enorme entre a boa intenção teórica e o cotidiano de monte de gente. como se diz, a teoria na prática é outra.

Mas, sim, sim, acho que vivemos um tempo em que somos completamente fascinados pelo curto prazo - e isso não só no âmbito da economia. poderia passar um tempo falando sobre isso, mas prefiro não alongar ainda mais esse texto. Só suspeito que Nietzsche, que também foi a favor do viver intensamente o agora, hoje em dia seria favorável à temperança.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Nazismo no Brasil


Esse teaser antecipa um pouco da super-reportagem feita por Alice Melo para a "Revista de História", que mostra como havia um grupo de crianças que trabalhavam em regime parecido com a escravidão, para uma família que tinha simpatia com regimes autoritários como o nazismo ou o integralismo. O dossiê, que chega com a revista em janeiro às bancas, está imperdível.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

E unibus pluram

David Foster Wallace mostra em seu artigo "E unibus pluram"* como há uma distancia entre os críticos e o objeto criticado quando este objeto eh a televisão. Ele insiste que a reclamação de que a qualidade da TV eh ruim, tao comum entre esses críticos, apenas demonstra como eles agem como Pilatos, lavando suas mãos.

DFW sugere, todavia, que o critico admita que esse numero altíssimo de seis horas assistindo a TV eh mais importante que qualquer conselho que ele venha a nos - a audiência - dar. Ao participar dessa nova realidade e aceitar sua completa impotência para mudar esse aspecto, o critico poderá  talvez, começar a enxergar, e falar na língua de quem passa tantas horas em frente à TV, pontos positivos na programação  Em vez de lavar as mãos, suja-las ainda mais.

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Outro aspecto que merece destaque no texto eh o momento em que ele eh produzido: a década de 1990. Exatamente, portanto, no limite do aparecimento dessa outra tecnologia, da popularização desse entretenimento que, talvez, consegue monopolizar mais a atenção que a própria TV: a internet.

Seria, agora, igualmente interessante ler um novo artigo, um ensaio desse mesmo nível (o que eh uma tarefa incomum) sobre a grande rede. Como diferentemente do que então e ainda acontecia/e com a televisão  a internet nasce como alternativa; como ela eh a democratização da informação encarnada no éter  como era a oportunidade de as pessoas produzirem seus próprios conteúdo; a liberdade de escolha potencializada ate o ultimo degrau.

E como até esses prognósticos  se mostraram falsos, ou parcialmente falsos apos 20 anos de uso.

Hoje eh possível  já, escutar pessoas reclamando da internet como se reclamava da TV. Agora, o grande vilão mudou. Como o próprio DFW diz, aparentemente essas pessoas procuram bodes expiatórios para as suas próprias magoas e defeitos. Eh mais um episodio do que eu chamo de terceirização de culpa.

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Em certo momento do texto, DFW me traz um epifania. Nada a ver com TV e a critica ao seu conteúdo.

Quando ele usa um sufixo comum para transformar um verbo em um substantivo, percebemos a forca que certos elementos tem sobre a gente. Sing-er, Do-er, Be-er. Beer. Aquele que eh.

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*Encontrei essa explicação interessante para a expressão:
E pluribus unum= out of many, one. This phrase was created and put on the Great Seal of the United States after declaring independence. It is meant to speak to the diversity and unity of America.
E unibus pluram=from one, many. We are alone, yet alone together in our viewing of television.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Vai uma rabanada aí?

[Texto publicado originalmente na "Revista de História", em 2010]

A cena é apenas narrada, sem imagens de arquivo, mas mesmo assim, tocante. No fim do documentário “Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos”, um amigo do fotógrafo e etnógrafo conta que um cabisbaixo Verger, já encerrando o expediente nessa vida, encontrou-se com ele e a esposa. Quando a esposa perguntou o que Verger queria para melhorar o ânimo, ele respondeu que uma guloseima que a sua mãe fazia, mas que seria impossível de reproduzir. Ao descrever o que seria tal quitute, a mulher do amigo percebeu: era rabanada! Correu para a cozinha para fritar o pão embebido de leite e ovos, tascou açúcar e canela e o francês mais baiano da História comeu chorando.

Talvez nem todas as histórias em relação à rabanada sejam tão emocionantes, mas haverá quem diga que sempre “come chorando” uma fatia dourada dessas. Além disso, se os momentos não são tão marcantes assim, a oportunidade em que, hoje em dia, se come rabanada é única: o Natal. Ou alguém – com exceção dos espanhóis – se empanturra de pão-frito-doce no carnaval?

O antropólogo Raul Lody autor do “Dicionário do doceiro brasileiro”, além de “À mesa com Gilberto Freyre”, é outro desses que come o doce em qualquer época do ano. Ele explicou em um texto que a rabanada nasceu dentro de um contexto de reaproveitamento do pão, um ingrediente sagrado para os católicos por representar o corpo de cristo.

“Então, é costume não se jogar o pão fora, e se algum pedaço e desperdiçado deverá ser beijado, verdadeira reverência ao sagrado”, escreve ele.

Como a grande maioria das tradições natalinas, a rabanada também é importada. A origem é incerta, o mais provável seja uma incorporação de hábitos franceses – daí como os anglófilos a chamam:French toast. Há informações contraditórias, porém. Há quem diga - americanos, em geral - que seria uma receita espanhola da Idade Média. Outros dizem que fritar pão não tem exatamente uma origem única, porque seria uma forma generalizada de melhorar o gosto do alimento nosso de cada dia. Nesse caso, a primeira referência, segundo o famoso dicionário de inglês Oxford, dataria de 1660.

[Foto: Little Miss Joey / Flickr]
Por último, há os partidários de que a citação original de uma receita sobre fritar pão estaria em Apicius: "Aliter dulcia: siligineos rasos frangis, et buccellas maiores facies. in lacte infundis, frigis [et] in oleo, mel superfundis et inferes." – numa tradução bem livre: "Um outro doce: Corte sigilinos [um tipo de pão de trigo] em pedaços grandes. Banhe no leite, frite no óleo, mergulhe em mel e sirva". Um outro nome dado para essa rabanada pré-cristã é pan dulcis.
Mesmo que não se tenha uma certeza, a expressão como os conterrâneos de Verger chamam o quitute pode explicar um pouco sua origem: pains perdus, que quer dizer “pão perdido” literalmente. Apesar de hoje já venderem pão para rabanada e usarem outros tipos de pães, brioches ou panetones como matéria-prima, o único ingrediente que se repete na imensa maioria das receitas é: pão do dia seguinte. As receitas se referem ao pão que não se pode mais comer porque está duro, um pão dormido, um pão perdido. Portanto, a rabanada é uma forma de salvar o pão. Muito natalino, não?

Outro termo que tem um pouco da explicação da origem – ou pelo menos, de um dos usos – da rabanada é como parte de Portugal as chama: pão parida, ou somente fatias de parida, ou o nome inteiro: pão de mulher parida. Misture pão (trigo), ovos, leite, açúcar e frite, e você tem, além de rabanadas, uma bomba calórica, cheio de energia. Dizem que era bom para mulheres amamentando porque daria leite. E também explica um pouco o costume de comer as Fatias douradas (outro nome português que é autoexplicativo) no nevado Natal europeu: se esquentar de dentro para fora.

Por fim, a origem de “rabanada”. O mais provável seja uma adaptação do espanhol “rebanada” que quer dizer... fatias. Imagine fritar uma baguete?

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

A língua perfeitamente correta

In his preface, Quijada wrote that his “greater goal” was “to attempt the creation of what human beings, left to their own devices, would never create naturally, but rather only by conscious intellectual effort: an idealized language whose aim is the highest possible degree of logic, efficiency, detail, and accuracy in cognitive expression via spoken human language, while minimizing the ambiguity, vagueness, illogic, redundancy, polysemy (multiple meanings) and overall arbitrariness that is seemingly ubiquitous in natural human language.”
Quijada, fotografado por Dan Winters
Em um dos seus perfis mais que perfeitos, a "New Yorker", via repórter Joshua Foer, tentou descrever o trabalho e a obra monumental de John Quijada, a construção e criação da língua Ithkuil - o site dele é precioso. O texto é imenso, com um apanhado de informações invejável, citações a outros criadores de língua, inclusive a John Wilkins, e termina com uma grande reviravolta que, talvez, numa interpretação bem aberta, pode explicar bastante a proposta da língua.

Um dos problemas graves de Quijada remete a Wilkins. Conforme anotou Borges no seu famoso ensaio, o defeito da proposta do "capellán de Carlos Luis, príncipe palatino..."era acreditar ser possível mapear as atitudes humanas. Como se fossem finitas. Como se cada interpretação da vida fosse igual. Como se as próprias palavras não tivessem vida própria e mudassem seus sentidos anos depois. A língua é uma ótimo exemplo de como, mesmo dentro do que nós costumamos chamar de humanidade, desse processo que consistiu em levar a razão para dentro da animalidade, nós não temos controle de nada.

Um belo exemplo disso, é aquela passagem do ensaio de Borges, ainda mais famosa, exatamente porque foi citada por Foucault como epígrafe da sua tese, "As palavras e as coisas".
Esas ambigüedades, redundancias y deficiencias recuerdan las que el doctor Franz Kuhn atribuye a cierta enciclopedia china que se titula Emporio celestial de conocimientos benévolos. En sus remotas páginas está escrito que los animales se dividen en
a. pertenecientes al Emperador
b. embalsamados
c. amaestrados
d. lechones
e. sirenas
f. fabulosos
g. perros sueltos
h. incluidos en esta clasificación
i. que se agitan como locos
j. innumerables
k. dibujados con un pincel finísimo de pelo de camello
l. etcétera
m. que acaban de romper el jarrón
n. que de lejos parecen moscas

sábado, 22 de dezembro de 2012

Como nascem os gostos

Tive uma epifania nessa semana. Consegui responder a uma pergunta que me fazia há muito: como nascem os nossos gostos? Ou melhor, por que somos tão influenciados, principalmente na tradição psicanalítica, pela ideia de que os nossos primeiros anos moldam bastante nossas personalidade? Isso, claro, já partindo da premissa - ou seja, já respondendo a questionamentos anteriores, afirmando claramente um caminho - de que somos feitos de uma matéria bastante moldável ao nascermos. Considerando isso, por que somos mais influenciados nesse primeiro momento de vida que em todos os demais?

Antes de continuar, a contextualização. Uma das grandes vantagens da arte urbana, essa que não fica restrita ao interior de museus, e que pode ser vista ao andarmos pelas ruas, é exatamente a possibilidade de revisita. Em alguns casos, passamos todos os dias pelos mesmos monumentos. Eu tenho o privilégio, por exemplo, de ver uma obra que desde a primeira vez que a descobri, gostei.

Foto de Laura Marques, d'"O Globo".
É a peça singelamente batizada de "Escultura para o Rio de Janeiro", de Waltercio de Caldas, criada em 1997. Acho incrível esses pilares puxando a calçada para o alto, para o céu, como se fossem algo orgânico, como se tivessem vida, como se a cidade, a parte mais física da cidade, mais pedra, mais terra, mais solo, se movesse por vontade própria.

Nem sempre, claro, foi assim, desse jeito, de passar por uma obra que eu gostasse à primeira vista. O que não é bom nem ruim em princípio. Talvez se não tivesse passado por outra experiência, diferente dessa, nunca teria chegado à conclusão de como nascem os nossos gostos. Em um dos meus outros trabalhos anteriores, tinha que passar diariamente em frente ao muro do jóquei em frente ao Hospital da Lagoa.


View Larger Map
Aqui dá para ter uma ideia do que eu via diariamente.

É uma tela urbana - digamos assim - bem dinâmica. Que muda todos os dias, praticamente. Que tem sempre elementos novos, mesmo que sem a ação do homem. Pode chover, aparecer uma infiltração. Pode alguém novo aparecer e pintar por cima dos antigos. Pode a prefeitura "limpar" a tela. As variáveis são muitas. Mas, como passava diariamente por ela, eu acompanhava essas transformações lentas, como todas as da natureza. No início, um pouco sem um diálogo. Apenas via aquelas imagens e elas não faziam sentido para mim. Depois, com o tempo, relaxando, sem querer entender o sentido delas, eu comecei a me encantar pelo todo. E novamente tive essa sensação de que o muro era vivo, mutante, influenciado por diversos organismos que o faziam diferente a cada olhada. Sem perceber, na hora que baixei a guarda da minha razão que tentava explicar os seus detalhes em separado, comecei a gostar do muro também.

Foi assim que, agora, eu, que hoje em dia vejo um grafite pouco realista na escada do Botafogo, sem prestar muita atenção para ela, comecei a sentir uma simpatia gratuita por aqueles traços que reproduzem esportistas das mais variadas atividades, tive esse insight.

As crianças são influenciadas pelos pais nos seus primeiros anos exatamente porque elas não têm esse raciocínio, essa elaboração, para refletir sobre as informações que lhes são dadas. Elas recebem toda a carga do mundo emotivamente, sem qualquer trava, sem qualquer defesa, vão absorvendo tudo, aprendendo, e apreendendo sem qualquer filtro, direto, na veia, dentro de um desses espaços que recentemente descobrimos e apelidamos em nosso cérebro.

Depois, com o passar do tempo, criamos algumas barreiras, formas de nos defender dessa inundação, dessa enchente de dados novos, para podermos, inclusive, ter noções de tempo, espaço, aprender recursos cognitivos, criar mecanismos racionais etc. É um processo lento e que provavelmente demora muito para se acabar - se acabar.

Não sei se a minha resposta é factível, nem se é a verdade. Mas é uma resposta que me convence. Isso é mais que suficiente.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

'And I feel fine'


"... Beijei a boca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou."



"Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia
[...]
Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia... "



"It's the end of the world as we know it. 
It's the end of the world as we know it. 
It's the end of the world as we know it and I feel fine."



E a minha música preferida de todos os tempos:


"There's no secret to living (there's no secret to living)
Just keep on walking
There's no secret to dying (there's no secret to dying) 
Just keep on flying."

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

As verdades-verdadeiras da 'Veja'

Em uma das minhas regras autoimpostas está escrito que não posso desconsiderar qualquer fonte de informação, mesmo que o passado recente da dita-cuja seja completamente desprezível. Foi por isso que eu encarei a matéria de capa da "Veja", dessa semana, sobre a leitura e a escrita na era digital. É uma reportagem deveras interessante - mesmo, sem ironia - principalmente porque, acredito, o assunto é ainda muito novo [ainda] para se ter posições ideológicas pré-definidas.

Como todo texto da "Veja", o texto faz previsões para o nosso futuro um pouco catastróficas. Assegura que a nossa transformação, do papel para o digital, é a mais impactante dos últimos 2,5 mil anos e diz que isso pode ter reflexos na maneira como nossos neurônios se organizam. Como uma empresa que é prioritariamente de papel, e intrinsecamente conservadora [no sentido mais estrito da palavra], parece temer essa mudança. De toda forma, é realmente válida a leitura da reportagem.

Todavia, como confirmando a expectativa que se tem antes de abrir uma revista dessas, logo na primeira frase, há uma daquelas frases lapidares que arrepiam os pelos da nuca de desgosto até do menos atento. A primeira linha, aquela que deveria convidar o autor para dentro do texto, atesta: "Sócrates, o homem mais sábio de todos os tempos, estava enganado". Oi? Homem mais sábio de todos os tempos? Como assim? Não era para essa frase ser a mais convidativa? Deve ser de propósito, claro. Criar uma polêmica de cara, que nem é a intenção da reportagem, passar adiante uma verdade estabelecida - por eles - e nem dar bola. Claro que o resto da matéria vai tentar explicar o motivo pelo qual seu Sócrates estava enganado. Mas nenhuma linha tenta abordar o motivo de sua eleição para o posto do homem mais sábio. Curioso. Fiquei imaginando que a revista deveria receber uma carta nos seguintes termos:

"Querida dona 'Veja',

Nem sempre leio as suas reportagens porque acredito que a senhora exagera em suas afirmações, principalmente as de cunho político. Acredito que, muitas vezes, há uma perseguição a personagens específicos. Mesmo que acredite num mundo ideal, eu prefiro ouvir outras opiniões. Acredito no diálogo com outras pessoas, até mesmo com opiniões contrárias às minhas, para que a verdade apareça sozinha.

Fui fisgado, porém, pela reportagem de sua última capa, que aborda um tema de meu interesse específico, mesmo que esteja um pouco pessimista em relação às artes em geral. Fiquei intrigado, entretanto, pela afirmação categórica que a senhora sustenta logo no início do texto. Sócrates - logo ele - é o homem mais sábio de todos os tempos. Não é que não concorde, muito o admiro, é praticamente um ídolo para mim. Mas gostaria de saber quais foram os critérios utilizados para tal afirmação. Digamos, é uma curiosidade profissional.

Desde já grato pela sua atenção, e contando com a sua compreensão,

Platão.

ps. Admito que Sócrates era um tanto preguiçoso. Sem querer concordar com o tom da revista, mas já concordando, tenho que dizer: ele nunca escreveu nada!"

Nem todo mundo concorda com a 'Veja'. Rafael, por exemplo, colocou
 Platão e Aristóteles no centro de sua "Escola de Atenas". Sócrates
é o carequinha, com toga meio esverdeada, em discussão, ali
do lado esquerdo de quem olha.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Humor contemporâneo



Esse pessoal do "Porta dos fundos" é a único humor a que eu assisto hoje em dia. Acho chato todo o mais produzido [que eu tenha acesso, claro]. Mas eles, que não miram na gargalhada, conseguem, quando não o riso, serem divertidos. Sempre. O que é um mérito e tanto. São mais inteligentes bem mais inteligentes que a média, sempre sem respeitar o espectador, como deve ser o humor.

Mas não é porque eles não se importam com quem está vendo o vídeo que suas propostas são idiotas, como outros casos. Todo mundo tem direito a produzir qualquer esquete que quiser - doa a quem doer. O problema é que algumas pessoas acham preconceitos antigos, apologias a crimes de todas as naturezas, e imbecilidades generalizadas engraçadas. Aí não é só um problema de quem está criando esses vídeos.

As críticas travestidas de piada feitas por Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Clarice Falcão e cia, descem pela garganta com dificuldade, numa disputa entre a gargalhada nervosa, o sorriso do reconhecimento da realidade espinhosa, e o riso amarelo. São bem amargas, bem amargas, em certos momentos. Porque, bem, porque eles devem imaginar que, de doce já basta a vida.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Google Zeitgeist

Saiu o "Google Zeitgeist 2012" no Brasil. Detalhes que me surpreenderam / me divertiram:

Palavra mais buscada: "Face" - isso, assim, encurtado, para o desespero - ou a glória - de quem acha que quem fala assim é menos capaz que os demais.

Quinta, "Zerg rush". Nunca tinha ouvido falar. Mas sugiro as pessoas digitarem isso na busca.

Os cinco eventos mais procurados [em ordem]: Eleições, Carnaval, Olimpíadas, Lollapalooza, Festa Junina. "Eleições" na frente do carnaval. "Olimpíadas" ali na frente. "Lollapalooza" logo de cara - será a confirmação da ligação: internet-música-jovem?. "Festa junina"? Será a confirmação da ideia: Brasil-tradição-festa?

Música, "Gangnam style". Cadê "Ai se eu te pego"? Nem entre os dez. Será que foi um evento internacional, apenas?

Músicos: "Pedro Leonardo" liderando e Whitney em terceiro. Desgraça pouca é bobagem. Adele em segundo.

Time de futebol: Flamengo e Corinthians na frente. Fluzão apenas em décimo.

Esporte: Olimpíada em primeiro, à frente do Brasileirão. Devo ter contribuído para isso.

Destino de viagem: São Paulo em primeiro, à frente do Rio. Por que será?

How to...: "Como excluir Facebook". Quase uma resposta para a principal busca de tudo.

What is... "Sopa" em primeiro lugar - a campanha na internet foi realmente forte. E deu certo.

No mais, esse retrato não explica nada, mas é interessante ver como nos comportamos na internet, quando ninguém está vendo. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cervejochatos

Parece que é oficial: estamos vivendo entre cervejochatos, também conhecidos como cervochatos. Em comum, como pode-se perceber, a chatice. E o ar pernóstico, de quem sabe mais que os outros e quer enfiar esse saber garganta à dentro dos pobres mortais que apenas querem tomar uma cervejinha no fim do dia.

Cláudia Amorim explica:
... o site americano www.beerandwhiskeybros.com listou “os dez mandamentos da beerchatice”. Estão catalogados ali comportamentos como não aceitar beber uma cerveja se não for servida no copo correto. Ou metáforas como insistir em permanecer num quarto escuro, sozinho, na hora de degustar uma nova cerveja especial. Pior: o cervochato, segundo a tábua dos mandamentos, dá opinião onde não é chamado, inclusive no supermercado — isso quando não critica as escolhas feitas pelo comprador ao lado. Nesse inventário, sobra para os amigos: não adianta o camarada levar umas cervejinhas para a casa desse ser exigente tentando ser simpático, pois o cervochato só serve aqueles exemplares que passaram por sua seleção superior. Outro tipo de comportamento — mas desta vez comum a chatos de todas as áreas, de samba até literatura, passando por cinema e o que mais houver — é o do beer snob, que faz exibicionismo de conhecimento, inclusive com citações em alemão.
Edu Passarelli completa:
Existem também as variações digitais dos cervejochatos. Eles passam o dia em redes sociais, comentando os passos de pessoas do meio cervejeiro ou analisando lançamentos e postando suas fotos, principalmente daquelas cervejas que causam inveja ao bebedor mais comum. Frequentam fóruns, mantêm blogs e, por trás dos teclados, são valentes como poucos.
É sempre útil repetir que a
Westvleteren, a cerveja mais
incrível do mundo, nem tem rótulo
Agora, temos que fazer uma distinção bem clara. Ser chato não é uma característica associada à cerveja, ou ao vinho, mas ao fulano que o toma - sempre. Existem chatos abstêmios, e eu nunca vi uma cerveja chata - no máximo, choca. Portanto, afirmar que todo mundo que bebe cerveja de verdade é um cervechato cai na categoria das generalizações simplistas que, vez por outra, encontramos geralmente feita pelos sujeitos mais preconceituosos e de mente mais rasa. Pode acontecer com música, time de futebol, partido político, religião e todo grupo que envolve emoções à flor da pele.

Na minha opinião de muito envolvido no assunto, não é o cara que quer tomar apenas cervejas de verdade que é um chato. Cada um tem todo o direito de consumir o que quiser, do lixo ao luxo. Para identificar um desses cevejochatos, sugiro procurar por proselitismo. Ou quem não se aguenta com tanta cultura, tanta informação e diminui os demais por não serem iguais a ele.

A esses, seria bom lembrar que grande parte da cultura cerveja se deve aos monges, muitos deles bem humildes. Para esses religiosos, a vaidade é um pecado capetal.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Aumentam autores, diminuem leitores

Arte de Cavalcante para a reportagem do André
Dois textos aparentemente sem ligação no "Prosa" de hoje me pareceram feitos um para o outro. A coluna do Miguel Conde, resumidamente, falava sobre a preponderância do papel do crítico em um mundo em que se espalha a ideia de que a opinião de todos têm o mesmo valor. A reportagem do André Miranda abordava o crescente fenômeno da autopublicação. Em ambos os casos, os intermediários entre os produtores e os leitores diminuíram. Mas não é só nesse aspecto que os dois textos dialogam.

No texto do Miguel, havia uma tentativa de encontrar esse poder perdido pelos críticos, num mundo em que as instituições se vaporizam com cada vez mais frequência. Como se diferenciar do leitor comum? Com que argumentos provar que o crítico tem uma opinião mais válida que a do leitor eventual? Na verdade, é provável que até tenha, dentro de um ponto-de-vista institucional - o crítico consegue enxergar mais faces da mesma obra - mas, para o leitor comum, o que vale mais, muitas vezes, é a opinião do amigo com quem ele divide as mesmas preferências.

Daí acho que a crítica não vai acabar [ao menos não consigo enxergar o fim dela], mas haverá, na minha  humilíssima opinião, a ainda maior segmentação das críticas. Nem sugiro que esse processo incentivará a diminuição do diálogo entre diferentes correntes, porque poderá haver, dentro desse processo segmentado, até quem preze olhar para todos os lados envolvidos antes de vaticinar a sua opinião.

E eu suspeito ser muito saudável a perda do poder dessas figuras que sempre carregaram as decisões entre a vida e a morte literária: quem é publicado [ou não], quem é bom [ou não]. O crítico, como o próprio artista, o escritor, ou quem quer que seja, não é ninguém melhor ou maior, apenas trabalha com aquilo que é, para os outros, pura diversão. Deveria, na opinião de muita gente, se sentir um privilegiado. E, talvez, isso bastasse.

A falta de editores e o crescimento dessas editoras de autopublicação podem indicar uma outra tendência: o crescimento exponencial do número de livros. Se essa sugestão se concretizar como uma das principais formas de negócio do mercado de livros, posso imaginar um processo curioso, análogo ao intuído pelo Marcelo Latcher, dos leitores profissionais: se pagará apenas para se publicar o livro. Com o aumento da quantidade de livros, da demanda, o número proporcional de consumidores diminuirá. Há uma famosa lei econômica por aí.

O livro tenderá a ser de graça, aberto a todos. Já o profissionalismo será pago. Quem quiser publicar, mesmo em formato de e-book, terá que desembolsar uma grana. O mesmo acontecerá a quem quiser distribuir nos canais mais tradicionais. Ou ter uma edição mais caprichada. Ou, até posso imaginar, quem quiser uma opinião abalizada - de um crítico profissional. Ou seja, o mercado não deverá diminuir - por isso, ao menos. Pelo contrário.

Já pela mudança na hegemonia da discurso escrito, bem, é outro papo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O sempre atual Caetano Veloso

Vou tomar a liberdade de cometer uma frase peremptória: Caetano Veloso é um diapasão de seu - nosso - tempo. Mesmo que acredite que não conseguimos fugir por completo do nosso momento histórico, Caê consegue, melhor que seus pares, representar-refletir o "quando" ele vive. Isso, claro, para o bem e para o mal.

Ele pode, por isso, ser visto ambiguamente. Como sem personalidade ou antenado. Interessado nas novidades ou um sujeito que não quer/não sabe envelhecer. Suas músicas tendem a ficar mais datadas, referentes diretamente a um período específico, que não caem bem em outros tempos. Quando escutamos a introdução, por exemplo, de "Alegria, alegria", e depois o "Caminhando contra o vento / sem medo e sem documento..." já pensamos na década de 1960, na luta contra a ditadura, no nascimento de uma juventude que teve que lutar por liberdade, mesmo sem saber direito o que era isso.


Esse lado que tenta se atualizar pode ser visto no momento em que ele encampa a guitarra elétrica, quando tem entreveros com a ditadura, quando mora em Londres, quando volta e grava "Araçá azul", seu álbum mais experimental, no meio da lisérgica década de 1970, depois nos 1980, quando ele se aproxima de ritmos mais populares da Bahia; já na primeira década de 2000, quando faz álbuns covers, regravando até Nirvana, e, recentemente com a sua trilogia com a banda "Cê".

Não é um reflexo imediato da realidade. É um reflexão. Por exemplo, a trilogia "Cê" nasceu do reaparecimento do rock independente no mundo anglófilo, que teve o seu marco, na minha opinião, com "Is this it?", dos Strokes, logo no iniciozinho do século XXI. Já "Cê", o primeiro álbum do novo Caetano roqueiro só sai em 2006. E novamente houve uma combinação de elogios rasgados e narizes torcidos, de gente que se incomoda muito com a figura do músico.

Caetano sofre da síndrome de atualidade. Acha que é importante dar opinião sobre qualquer assunto que lhe perguntam. Mesmo que ele não saiba muito bem do que fala. Mesmo que a sua opinião não seja muito concreta. Mesmo que ele ainda esteja desenvolvendo um argumento, como uma obra em progresso, ele passa adiante as suas razões ainda com os vergalhões à mostra. Isso, claro, é mal visto por muitos.

Porém, mesmo que Caetano seja um artista que lida muito bem com a palavra, ele se expressa melhor é no formato de música. E deveríamos prestar mais atenção em sua música, que faz as críticas que ele gostaria de expressar de outras formas. É um dado curioso, mas provavelmente sem qualquer sentido, para um homem que tentou, algumas vezes, ser cineasta.

Vejamos o seu nêmesis, para uma comparação. Chico Buarque é um artista que sempre buscou - mesmo que inconscientemente - a canção perfeita, aquela que não se degrada com o tempo, que não fica associada a um ou outro momento. Pense em "A banda", talvez o marco inicial de sua obra. Claro que Chico também é um cronista, e "Cálice" e "Apesar de você" estão aí para mostrar que ele também protestou contra a ditadura. Como disse logo no início, não é possível fugir da sua História. Mas eu o vejo - e é claro que outra pessoa pode vê-lo de outra forma - como alguém que procura fazer músicas atemporais. Daí, talvez, o problema que ele tem enfrentado com os seus últimos discos. Ficam perdidos, soltos. Não reverberam, ninguém se lembra, não fazem sentido claro.

Caetano, não. Nesse seu último disco, ele fala sobre Maringhella, no momento em que uma biografia sobre o líder comunista sai, para revisitar o mito. Fala sobre a violência generalizada no interior do Pará. Revisita e homenageia a bossa nova. Faz um "funk melódico". Brinca com as palavras, delicia-se com neologismos. Canta pagodes românticos. Fala que tudo é "mega, giga, terabom". Isso sem deixar de ser rock, totalmente rock e bem íntimo, mostrar-se praticamente nu. Um Caetano de sempre: um Caetano sempre atual.

Aos 70, ele é provavelmente o atual maior artista brasileiro vivo. Ou melhor, continua sendo. E, como li em outros lugares, agora que a trilogia rocker acabou, nem tente prever o que virá pela frente.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

MPB eletrônica

Não, não é a versão em DB de "Só tinha de ser com você", da Fernanda Porto com o Patife, que lançou há cerca de uma década [!] o que um amigo chamou bem apropriadamente de "tuntitutização" da MPB.

É chegada a vez dos medalhões da música que um dia foi popular no Brasil de se embrenharem pelo barulhinhos, pelos ruídos, pela estranheza da eletrônica. O resultado é irregular, como sói acontecer quando artistas de diferentes grandezas optam por caminhos igualmente diversos na abordagem de elementos igualmente exóticos nas suas paradas. Separei alguns exemplos que me ocorreram.




Sejamos justos. Essa onda não é de agora. Chico Buarque já tinha no seu disco "Carioca" feito uma "Ode aos ratos", que, por sua vez, era ainda anterior, da trilha sonora do "Cambaio", aquela peça de 2001 [ui!] que o Chico fez as músicas junto com o Edu Lobo. É um rap, mas não muito tradicional - ainda bem. Como se ele tivesse misturado com outros elementos, principalmente do nosso repertório nordestino, como embolada. Eu, particularmente, acho que é a melhor música do século XXI de Chico.




Nunca fui fã-fã, mesmo, de Gal Costa, e havia passado batido desse novo CD dela, cujas músicas foram escritas todas pelo Caetano. De cara, essa música dá um estranhamento, mas é um estranhamento que chama para dentro da música, e faz você prestar mais atenção. A voz de Gal é plácida, flutua acima das estranhezas, das camadas da música, que é uma colagem de barulhinhos, sem uma instrumentalização óbvia.



Caetano Veloso, que desde o seu experimentalíssimo "Araçá azul" mexe com eletrônica, foi ao baile nesse "funk melódico". É um batidão, mas com uma intensidade diminuída. Como um Sany Pitbull pós-spa [a contradição é proposital]. Mas que cabe bem na proposta de Caetano, que apenas "veste" essa roupa, como ele faz com qualquer outro ritmo. Ele não se prende a nada, não se amarra em nada.



Por fim, chegamos ao rei. Roberto Carlos não poderia deixar passar a onda incólume, sem adentrar. Já tinha sinalizado com a participação do [qual era mesmo o nome dele?] MC Leozinho em um dos seus [nada] especiais de fim de ano. Agora, repete a dose com uma música autoral, que poderia ser cantada por Leozinho, Marcinho, ou Buchecha. Esse pessoal que, como Bob Charles, não incomoda ninguém.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A bossa nova é foda

Talvez tenha sido apenas coincidência. Na mesma semana que iriam morrer Niemeyer e Décio Pignatari, eu ouvi o novo disco do Caetano, "Abraçaço", que começa exatamente com "A bossa nova é foda". Para terminar a semana, vi a exposição fixa do MAM-Rio que usa o famoso acervo de Gilberto Chateubriand para fazer uma impressionante "genealogia do contemporâneo". O que me chamou mais a atenção? A área de "Respirações Geométricas - O legado concreto e neoconcreto na afirmação de uma modernidade singular no Brasil". Não deve ser coincidência.


O segundo momento do Brasil como um país democrático acontece pós-Vargas. Para mim, o período de produção artística e cultural que até hoje norteia bastante de nossa vida. Até hoje, nossos parâmetros estéticos ainda são a Bossa Nova [depois Tropicalismo], o concretismo e o neo-concretismo [poesia, artes plásticas], em suas áreas respectivas. Era, como bem escreve Luiz Camillo Osório, a "afirmação de uma modernidade singular no Brasil", uma tentativa de se fazer uma "modernidade" à brasileira. É, após descobrirmos do que éramos e estávamos sendo feitos, tentar produzir algo inédito, que nos afirmaria como únicos, nos identificaria, e - por consequência, mas não como objetivo inicial - afetaria o mundo inteiro. Foi assim, em menor ou maior grau, com todos esses processos.

O que é curioso nessa seção "geométrica" do MAM-Rio é ver como as produções foram se - na falta de uma palavra melhor - abrasileirando. Como no início elas são muito duras, retas, linhas diretas, e vão se transformando em curvas, molezas, levezas. Ou, para forçar uma barra e usar o exemplo dos mortos da semana, saindo de Pignatari e indo para Niemeyer. Daí, por exemplo, as trocentas frases que se resgataram essa semana em que o arquiteto reforça a sua adoração pelas curvas em detrimento dos ângulos retos.

Se o modernismo foi o tempo histórico em que as representações entraram em crise - pense em todos os movimentos internacionais em que o "realismo" tinha saído de moda, desde o início do século XIX até as vanguardas do XX -, coube a essa geração de 1950-60, então, a tentativa de produzir a nossa - brasileira - primeira arte abstrata, portanto "moderna".

Num primeiro momento, cada um se inspirando em uma fonte diferente, me parece que eles tentam forçar o que na falta de palavra melhor vou chamar de "durezas" exteriores. Depois, "amolecem". Claro que nenhuma das fases é clara, nem os seus "seguidores" - é uma impressão minha e uma imprecisão geral. E é complicado colocar artistas tão versáteis em grupos estáticos. Pegue o exemplo de Volpi, por exemplo, que tenta abrasileirar os seus desenhos geométricos em bandeirinhas. Como se fosse impossível ser exatamente reto no Brasil. Como se o sol, o céu, o sal amolecessem nossas vidas.

No fim de "A bossa nova é foda", Caetano resume o espírito ao cantar: "O velho transformou o mito das raças tristes / Em Minotauros, Junior Cigano, / em José Aldo, Lyoto Machida, / Vítor Belfort, Anderson Silva / e a coisa toda: / a bossa nova é foda". Não é claro, ao menos para mim, quem é o "velho". Tenho duas interpretações. A primeira, por conta do título da música e da idolatria de Caetano, seria João Gilberto. "O mito das raças tristes" me lembrou Lévi-Strauss, mas também e principalmente o complexo de vira-lata, desenvolvido por Nelson Rodrigues, que, por acaso, é até hoje chamado de "velho" pelo seu filho Nelsinho. Esse personagem híbrido, meio Nelson, meio João, que não precisa nem seria bom ser identificado, teria conseguido transformar nossa raça de tristes em guerreiros, orgulhosos de sua força.

Talvez no futuro vejamos esse nosso terceiro momento democrático, que vai de Itamar e FHC até Lula e Dilma [até agora] como um novo renascimento. Com a retomada no cinema, o aparecimento de um tímido, porém constante mercado editorial, de novas formas de produção musical, novos nomes nas artes plásticas, etc. Tudo fruto de uma liberdade maior, de políticas públicas de incentivo, de um crescimento econômico, de uma maior preocupação com a produção artística como elemento identitário, etc. Mas precisamos de, ainda, algumas gerações para poder enxergar bem esse processo. No fim, fico imaginando que não deve ser uma coincidência o fato desses movimentos aparecerem com a democracia.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

É o "Amor" de Zerbini

Agora que a exposição de Luiz Zerbini, "Amor", chegou ao fim no MAM-RJ, vou repassar as anotações que eu fiz enquanto passeava pelo saguão do museu "assistindo" às obras dele, e enquanto as pessoas tiravam fotos das fotos que não eram mais fotos [deve haver uma ironia escondida por aí].


Read made.

Como fazer telas com negativos / positivos de fotografias? O material, nesse caso, realmente importa? Provavelmente sim. Há uma clara preocupação estética na arrumação dos positivos. Há intervenções, colorações, representações - em certo momento é como se olhássemos do alto de uma cidade organizada. Há perspectiva. E há ângulos diferentes: ao se aproximar é possível ver os positivos. No geral, não conseguem captar muito a minha atenção.

Há citações de arte abstrata: Pollock [?]. Uma bandeira [do Brasil?]. O mar [azul!].

O retrato de uma cidade. Um cidade que valoriza artistas. Clara, aberta, com poucos prédios, muitos espaços em branco. Um labirinto. Jogo da velha. Labirintos. Mondrian?

Os títulos são esquecidos num canto. São importantes?

Read made or not. A transfiguração do objeto comum, mas não tão comum, em outro, incomum.



Telas.

[A parede do MAM sofre com vazamentos que chamam a atenção principalmente porque as telas são vazadas.]

"Suicida alto astral", detalhe
"Suicida alto astral". "Crédulo na vida porém suicida", está escrito na tela. Suicida é um estado de espírito ou uma ação? Exuberância, luxúria, verde, plantas e, no alto, uma caveira. Tentou o humor?

O mar retratado como se aprisionado em uma TV, com várias linhas horizontais. É interessante?

Gostei de uma figurativa, chamada "Mamão manilha". Formas bem quadradas, divisão espacial pixelada. Exuberância novamente. A natureza, na sua potência criadora, é reproduzida. Mas ele tenta organizar esse caos. Aclimatá-lo nos quadrados da tela quadrada. É um embate. Ou uma assimilação.

Na parte de cima da parede, da mesma parede, telas abstratas. Os quadrados vencem. As formas se resumem a repetições de pequenos quadrados.

Uma pequena cena surrealista. Uma cena realista de um personagem surreal.

Água. Uma piscina? Um pequeno porto? As águas balançam. Não parece o mar. A cor é escura. É suave o balançar. Ele ainda tenta aprisionar a paisagem. Ou apreender. Aprender. Prender.

Parece que estamos sempre na favela, em um ambiente que em o caos e o  mínimo de organização se encontram. Postes, fios, caixas de som, um mico. Transformador, árvores, caramujos, plantas, plantas na lata de tinta. Um chinelo. Ao fundo, quadrados. De novo.

Os quadrados abstratos fazem muito mais sentido nesse contexto. São a depuração da realidade. São o retratos figurativos, sem a figuração.

A praia, novamente, vai perdendo a materialidade. Ela agora é o pano de fundo. As intervenções, os riscos, as cores, enquadramento, estão no primeiro-plano. Mata fechada, folhas de todas as cores.


O ambiente do computador: bits e bytes. Estamos dentro de um disco rígido. Aqui, o ambiente nasceu quadrado. E quem aparece? Insetos. Larvas, demonstrando que a vida aparece mesmo nos ambientes mais inóspitos.

Instalação.

Ele é tão fascinado pela praia que a trouxe para cá. Tentou reproduzir um ambiente, bem estilizado, pobre, brasileiro, que sempre dá um jeito de sobreviver com um pouquinho mais de conforto. Areia em todos os... quadrados.

Como decodificar a vida? Todas as telas têm quadrados - limites. Menos a do surfista - ato falho - "Suicida alto astral". Talvez tenha uma explicação para isso.

Na instalação, encontramos - olha ela aí de novo - uma caixa de som. Um rádio. Um iPod. E um copo de pinga. São pescadores.


Conclusão.

Zerbini se faz algumas perguntas: como fazer arte - como produzir - em um ambiente tropical?  Em um lugar que é alegre - alto astral? É necessário ser um suicida? É necessário negar esse ambiente? Ser contra essa inexorabilidade? É necessário tentar enquadrar as paisagens? Dar um sentido a esse caos que nos arrodeia? Como lidar com a exuberância, com o exagero, com o não-se-importar da natureza, que aparece até em ambientes anódinos, em um país tropical? Como controlar a pujança, a força produtora, a "vontade"? Há a necessidade de moldá-la? Como esse país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza lida com esse mundo fragmentado - de bits, bytes, de quadrados, pixels, de positivos de fotografias?

Nós seguimos em frente, como sempre. Nos adaptamos, reciclamos. Onde está a beleza aí? Há beleza nesse ambiente? Será que não devemos apenas treinar nosso olhar para encontrar o belo no mamoeiro - essa quase praga - que brota num vaso no meio da obra? Obra! Uma reforma. Estamos em reforma. Abertos para a obra. Talvez essa seja a resposta para todas as perguntas.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Quando o capitalismo chegar

Já contei essa história para tanta gente e tantas vezes que é até meio estranho repeti-la aqui, escrevendo. Mas acho que ela é tão exemplar em relação à maneira como ainda não temos capitalismo no Brasil, diferentemente dos países que essas práticas foram estabelecidas há mais tempo, como a Inglaterra, que praticamente as inventou.

E o capitalismo, eu quero deixar bem claro, não é, para mim, o sistema onde simplesmente há iniciativa privada, mas onde a concorrência entre as empresas é tão grande que as que prestam serviços ineficientes ou vendem produtos de má qualidade simplesmente não sobrevivem. É o esquema em que até os mais pobres têm direito a serem atendidos / servidos com dignidade. Se não, por terem o poder de escolher outra marca, de reclamar com um bom órgão regulador, de saber que as suas necessidades não foram atendidas, quem vai pagar a conta é a empresa que não está praticando o capitalismo de maneira correta.

Capitalismo selvagem

Mas falava eu sobre a tal história exemplar. Tentarei resumi-la. Estava eu precisando comprar assadeiras - simples assadeiras - para fazer um tradicional roast inglês em casa. Seriam duas carnes, beef e pork, mais legumes, portanto eu precisaria de três vasilhas dessas. Fui ao supermercado que eu ia sempre quando precisava comprar produtos menos básicos, o Sainsbury's, e tomei um susto quando vi o preço da primeira assadeira que encontrei. Não lembro exatamente os valores, mas era algo como £45. Impraticável, pensei. Como comprar gastar mais de - sei lá - R$ 300 em assadeiras que, provavelmente, usaria poucas vezes mais? Olhei para outra prateleira e encontrei outra de £15. Ainda assim, não era possível. Era uma assadeira bonita, resistente, dura, mas não. Por fim, na última prateleira, numa terceira marca, do próprio supermercado, encontrei assadeiras por £3. Eram nitidamente mais finas, mais maleáveis, mas não me importei. Eram essas. Se fossem descartáveis, por serem tão baratinhas, não haveria problemas.

Qual foi a minha surpresa quando as assadeiras, mesmo que extremamente baratas, me serviram muito bem, e não somente naquele dia, mas durante todo o restante da minha estadia? Pensei que, mesmo pago a mais barata, estava sendo tratado com dignidade. Parece óbvio, mas no Brasil não é assim que se trata. Não é porque você é pobre, ou tem pouco dinheiro, ou pede o  produto mais barato que você deve ser visto como diferente.

Pense em um serviço, produto, indústria, e, logo em seguida, tente se lembrar: qual deles consegue sobreviver a um teste mais exigente? Transporte público, ônibus, metrô, trem! O trem, minha gente! Bancos, cartão de crédito! Telefonia, internet! OK, peguei pesado, peguei logo os campeões de reclamações. Mas vamos mudar de foco. Restaurantes, por exemplo. Qual é o restaurante que te atende bem e te cobra um preço justo? Qual é o lugar que, ao sair, você pensa: me senti bem tratado e não assaltado? Peça uma pizza em casa, um japonês. Quando foi a última vez que eles entregaram na hora combinada? E quando foi que a comida era incrível? Vamos sair dos serviços porque pode ser que o problema seja de ramo de atividade.

Indústria. Qual é a indústria que realmente trata os consumidores de maneira igual, independentemente da faixa de preço praticada? Não com produtos iguais, porque não é esse o ponto, mas com o mais baratinho sendo ainda algo digno, algo que você compraria em um momento de vacas magras. Pense nos produtos mais básicos. Papel higiênico. Sabonete. Feijão. Cerveja. Cerveja, então, nem se fale. Café, igualmente. Parece que servem com serragem. Isso sem falar nos produtos que são importados, mas que não deveriam, como o meu exemplo mais recente, iogurte. Ou algo ainda mais cotidiano, como legumes. Alguém tem coragem de comprar os legumes do Mundial, por exemplo?

Entramos já no Comércio. Já repararam nas letras pequenininhas dos comerciais das grandes lojas de varejo? Aquelas são as condições das promoções apresentadas. E, bem, ter ou não ter aquelas letras, para mim, é indiferente. Não temos qualquer informação sobre o que podemos ou não fazer. Ou já tentou devolver um produto qualquer após o prazo, ou sem a notinha? [Claro que, nesse caso, é uma maneira do comércio se precaver contra o consumidor-espertinho que tenta usar as brechas desse nosso sistema pré-capitalista.] Impraticável.

A verdade é que ainda vivemos em um sistema próximo do feudal, quando o assunto é práticas comerciais. Poucas empresas vendem poucos produtos e nós, por falta de opção, somos obrigados a consumir o menos pior, achando que estamos fazendo um ótimo serviço. Daqui a pouco e com o andar da carruagem, não me espantaria se voltássemos a fazer escambo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Questão de humanidade

Tenho uma relação mista com Criolo. Não fui um dos primeiros a "adotá-lo", e fiquei um bom tempo sem nem mesmo conhecê-lo. Quando o descobri, fiquei impressionado como ele conseguia usar elementos de estilos que eu gosto muito, como afrobeat, e que, por acaso, raramente eram usados em músicas aqui no Brasil. Foi uma ótima surpresa.

"Bogotá" é excepcional.

Em um show, porém, com Mulatu Astatke, muito da minha simpatia foi por água abaixo. Ele parecia em uma outra voltagem, interpretando um personagem elétrico, ligadão, doido ["Criolo doido" era a sua alcunha ainda nos tempos das quebradas], que não condizia com a tranquilidade sábia daquele senhorzinho que tocava xilofone tão calmamente ao lado. No palco, Criolo parecia over, exagerado, demasiado, too much. Desde então acabei tendo pouco contato com ele novamente.

Mas fiquei feliz quando ele foi um dos nomes escolhidos pela equipe da BBC par mostrar os novos sons da América Altina [escrevi errado, sem querer, mas gostei do neologismo, que me remete a algo "altivo", mas no "alto", como se nos "Andes"]. A outra brasileira, igualmente bem escolhida na minha opinião, foi Gaby Amarantos, que eu também não conhecia. Infelizmente, ela foi alvo dos "comentaristas de internet"* quando a BBC divulgou o link da reportagem no Facebook.

Voltando a Criolo, fiquei ainda mais impressionado quando ele, nesse videozinho pequeno da BBC, falou uma frase que ficou ecoando na minha cabeça desde então. Parecia ingênua, sem muita elaboração, quase como um ato de fé, uma verdade que se repete para se aprender por incorporação. Mas, mesmo que ele não soubesse o que estava falando, ou, principalmente, se é algo intuitivo, que ele nem tem noção ao certo de onde brotou, que ele percebe como uma verdade própria e estava, naquele momento, apenas a externando... isso não importa. O fato é que a frase é excelente:

"Definir a arte é esquartejar uma das poucas coisas no planeta que ainda te faz sentir humano."

Por partes, por favor [evitando o esquartejamento].

A primeira parte da frase é mais controversa: "Definir a arte é esquartejar...". Soa como se a arte não pudesse ser definida por palavras, como se as palavras fossem incapaz de abarcar todas as possibilidades da arte. É verdade, sim, mas tem um lado medroso, implícito, de evitar problemas espinhosos. Mesmo que seja um "esquartejamento", e, portanto, uma certeza de fracasso, você fala essa frase de efeito, dá essa saída, que é mais fácil, do que enfrentar o problema insolúvel. Como se sabe, eu discordo completamente. Não é porque o problema não pode ser resolvido que não se pode pensar nele. Esse raciocínio, aliás, me lembrou aquele outro, de Wittgenstein, de que não devemos falar sobre o que não sabemos.

Mas é a segunda parte da frase que me interessa: "... uma das poucas coisas no planeta que ainda te faz sentir humano." Se isso não é já uma definição para a arte, eu não me chamo Kleber Cavalcante Gomes. E é uma belíssima definição, eu diria.

Em um mundo em que as pessoas pensam - ou, num raciocínio otimista, ainda pensam -, verdadeiramente, que se pode resumir todas ações em algoritmos, como se fosse possível a previsão do futuro, em que estamos destinados à cibernética, que somos cada vez mais ciborgues, que nossa simbiose com as máquinas aumenta de maneira exponencial... o que é ainda humano? O que ainda te faz sentir-se humano? O que o homem faz e que o não-homem não consegue fazer?

Numa época que o artista é [ainda? ?] mais importante que a obra, que a arte [ainda, já?] não se banalizou o suficiente para perder a sua aura de mágica, podemos pensar que é esse objeto, esse ato, essa interpretação de mundo que, por falta de nome melhor, chamamos de "arte",  nos diferencia dos não-homens. Nem adianta existirem macacos-pintores, porque é o ato de olhar, não o de produzir, que a arte existe. Só existe arte quando o espectador [mesmo que o próprio artista] decide isso. E isso, otimisticamente, não deve ser uma questão de "ainda" ou "já".

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* "Comentaristas de internet" são aqueles fulanos que tendem a falar mal do assunto proposto, independentemente do quê, só porque o bom é aquilo que eles conhecem, sabem, tem acesso, imaginam, mas que nunca é tátil, ficando apenas no campo da idealização ou do sonho. Geralmente eles se colocam numa posição de superioridade ao objeto retratado, falando coisas como "é um absurdo que isso esteja sendo mostrado". Também é comum a presença de nostalgia nesses comentários, mesmo, ou principalmente, quando há uma nostalgia daquilo que não se viveu. Exemplo: "Olha como a nossa música, que já produziu Chico&Caetano, está representada hoje!" São típicos casos de pequenos autoritários preconceituosos, com idade mental próxima da antiga pré-adolescência, que não tem o hábito nem de ouvir qualquer opinião controversa à sua, de ler os textos que criticam, nem de simplesmente clicar nos links apresentados.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Pioneiro à la Bangu

[Fotos originais e primeira versão de uma reportagem publicada neste mês na "Piauí", após uma edição profunda que a tornou muito mais elegante.]

Estátua incompleta de Donohoe
Futebol, samba, moda, gatos e Bangu. Essas podem ser consideradas, sem ordem, as grandes paixões do artista Clécio Régis. Tudo em sua fábrica de cenografia no bairro da Zona Oeste carioca tem ligação com esses pilares. Um quadro no canto do escritório romantiza a fábrica de tecidos que, no final do século XIX, transformou aquela região de areal em uma espécie de república livre, quase independente do restante do Rio. Em todos os lugares gatos descansam ou passeiam à procura de um outro lugar para repousar. Sobre a mesa, a estátua de Nossa Senhora da Aparecida, protegida pelo escudo do Bangu Atlético Clube.

“O time de futebol é maior que religião. A minha maior emoção é ver o Bangu entrar em campo. Porque está 0 x 0. Depois, não sei”, conta ele que fez questão de emoldurar os ingressos das partidas a que assistiu na segunda divisão do campeonato carioca, após o time ter sido rebaixado no ano do seu centenário, em 2004. “O Bangu foi campeão do mundo em 1960”, tenta contrapor, fazendo menção à vitória no International soccer league.

Clécio é um homem de 53 que parece uns dez anos mais novo. É empolgado, vivo, inquieto, hiperativo. Seu raciocínio vai de um lado para outro, fazendo com que ele esqueça várias vezes o fio da meada. Diz que tentou estudar moda, artes plásticas, mas acabou virando “artista na prática”. Suas escolas foram a TV Globo, onde ainda presta serviços, e as de samba, para onde também faz trabalhos.

“Sou chamado de o artesão da Sapucaí”, conta, procurando a prova onde estaria o epiteto, sem sucesso.

O artista e empresário parece estar sempre em busca de um projeto para apoiar. Já produziu exposições sobre futebol e moda no shopping de Bangu, onde funcionava a fábrica. Ou o Grêmio Literário José Mauro de Vasconcellos, considerado como um museu do bairro, que homenageia o autor de “Meu pé de laranja lima”, nascido em Bangu.

A última iniciativa de Clécio [talvez quando este texto for publicado já será a penúltima] é a tentativa de homenagear o homem que é, na opinião dos banguenses, o responsável por trazer o futebol para o Brasil: Thomas Donohoe. De acordo com os pesquisadores locais, Donohoe chegou ao Brasil em 21 de maio de 1894, e botou a bola para rolar antes de Charles Miller, o “pai” oficial do futebol brasileiro. Clécio já construiu uma estátua de mais de quatro metros de Donohoe, com uniforme de época e feições em detalhes, e tem planos de colocá-la em um espaço público. O local já foi escolhido, será na praça Thomas Donohoe, em frente ao estádio do Bangu. Faltam agora os ajustes finais: a reconstrução do estádio e a recriação da praça.

“Tive essa ideia”, conta Benevenuto Rovere, o seu Beto, presidente do museu de Bangu, “quando estava assistindo à corrida de São Silvestre, como faço todos os anos, e o jornalista falou: 'os atletas passam agora em frente à praça Charles Miller, o pioneiro do futebol no Brasil'. As pessoas não sabem que o pioneiro é o seu Danau!”, exalta-se ele, lembrando da maneira carinhosa como Donohoe é chamado em Bangu. “No dia 2, eu me reuni com o Clécio e ele falou que iria fazer a estátua.”
Clécio e a sua criação

Os dois se baseiam na tradição oral de Bangu, que sempre deu a Donohoe o posto de primeiro homem a trazer o futebol para o Brasil, e nas pesquisas feitas pelo jornalista Carlos Molinari, outro torcedor doente do Bangu. No seu livro-bíblia “Nós é que somos banguenses”, ele se propôs a contar, ano a ano, a trajetória do seu time.

O primeiro capítulo da monumental obra começa antes da fundação do clube, em 1904, e é dedicado praticamente apenas a Donohoe. De acordo com o texto, o escocês, nascido a 25 de janeiro de 1863 na vila industrial de Busby, a 8 quilômetros de Glasgow, se casou em 1890 com Elizabeth Montague, e veio ao Brasil para trabalhar na fábrica de tecidos que estava sendo montada em Bangu. A esposa teria trazido a bola para o que seria a primeira partida organizada em solo nacional, em setembro de 1894. Antes, portanto, da primeira partida oficial de Charles Miller, em abril do outro ano:
No domingo pela manhã, já era possível ver o sr. Donohoe arrumando uma área livre (...), de preferência bem nivelada (...) e fincando quatro estacas, duas de cada lado da várzea, formando assim as traves. Quem passasse pelo local naquela manhã poderia imaginar que o escocês estivesse tentando construir alguma coisa. À tarde, porém, devem ter pensado que todos os técnicos britânicos enlouqueceram. Donohoe chamou de casa em casa todos os seus companheiros dos velhos tempos e um grupo composto de aproximadamente dez homens apareceu nas proximidades do terreno para estrearem a bola nova e matarem a saudade do tão salutar jogo que eles haviam deixado para trás na Inglaterra.
Como o texto não demonstra as suas fontes, fica a dúvida, porém: como é que Molinari sabe tantos e tamanhos detalhes da vida de Donohoe?

“Através dos livros do Bangu é possível determinar onde morava. A rua exata, o número. Onde seu filho foi morar depois de casado, a profissão do filho. Fora isso, temos rastros dele quando há alguma cerimônia na fábrica Bangu e ele é citado como um dos mestres de seção, participando dos almoços, das recepções que chefes de estado tinham quando iam até o estabelecimento fabril”, explicou por email Molinari, admitindo, porém, que deu uma “romanceada” na história. “Entrar na psicologia do personagem foi a fórmula que eu encontrei para que o texto ficasse atrativo aos leitores.”

Sem papel e sem testemunha, esse pioneirismo, claro, é contestado. Há relatos, mais ou menos nebulosos, de outros bate-bolas por todo o país pré-Miller. Marinheiros que aportavam nas costas brasileiras e aproveitavam a folga para jogar uma pelada nas praias. Ou um grupo de padre jesuítas no interior de São Paulo que ensinou a prática para os estudantes de um colégio.

“A brincadeira de chutar uma bola existe há mais de mil anos”, argumenta John Mills, biógrafo do atualmente aceito pioneiro do futebol. “Charles Miller foi o primeiro a trazer um livro de regras e organizar uma partida de 11 contra 11”, defende.

Segundo a opinião de Pedro Sotero, diretor do Museu do Futebol, e do sociólogo do esporte Ronaldo Helal, Miller teria institucionalizado a prática do esporte futebol. Helal sugere ainda um passo além. Ele considera que mais importante do que descobrirmos a data ou quem foi o pioneiro, é pensarmos como nos relacionamos com esses “mitos fundadores”.

Longe do mundo acadêmico, Clécio está mais perto é do refrão de um dos sambas mais famosos da Mocidade Independente de Padre Miguel, por acaso, a escola da região: “sonhar não custa nada / o meu sonho é tão real”.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Faces de Lula

[Crítica publicada originalmente na "Revista de História".]

O ídolo dos sindicalistas. O candidato favorito das eleições. O filho de dona Lindu. Quem é Luiz Inácio da Silva, ou, como é conhecido por todos os companheiros, Lula? O retirante nordestino, o viúvo que casou com uma viúva, o líder dos metalúrgicos que perdeu um dedo em um acidente de trabalho, o brasileiro que tem entre as suas grandes frustrações não saber batucar?

Talvez por conta de sua trajetória incomum, de torneiro mecânico a presidente da República, ou por sua imensa popularidade enquanto era o chefe do Estado, Lula foi retratado, direta ou indiretamente, por três diferentes produções cinematográficas nos últimos dez anos: “Lula, o filho do Brasil”, “Peões” e “Entreatos”. Complementares em alguns aspectos, elas mostram faces diferentes desse mesmo personagem que até hoje surpreende os brasileiros.

O último filme a ser realizado, “Lula, o filho do Brasil”, talvez seja o mais fraco de todos. O longa de Fábio Barreto é a única ficção, mas o seu problema não reside nesse aspecto. Ou não apenas. O maior defeito da produção é não se ater a um determinado momento histórico do personagem. Sem esse recorte temporal, somos apresentados a um grande painel, mas sem qualquer profundidade. Vemos em uma cena Lula perder o dedo mindinho da mão esquerda, e na outra, ele já está de volta ao trabalho. Ele fica viúvo em uma sequência, sofre na seguinte, e já escuta sobre Marisa Letícia, que vem a ser sua segunda esposa, logo em seguida.



Além disso, há exageros, ausências e uma inverossimilhança forte, do tipo “falta de química”, no casting. Os aumentos se dão principalmente no trato da faceta sindicalista de personagem. Após uma das famosas greves da virada da década de 1970 para a 1980 fracassar, Lula – corretamente interpretado por Rui Ricardo Dias – é mostrado em uma negociação tensa com os demais metalúrgicos. A cena é situada em uma igreja, no filme de Barreto. Mas em “Linha de montagem”, de Renato Tapajós, documentário que cobriu exatamente esse período, vemos que o cenário foi muito menos simbólico: um ginásio. Esses aumentos são perdoados quando se tem em mente que a ficção deve ter mais liberdade para recriar certos momentos que nunca se repetirão à perfeição. Já a escolha de Cléo Pires para interpretar sua primeira mulher, Maria de Lurdes da Silva, é mais difícil de desculpar. Parece simplesmente inapropriado. Pior só se em vez de Glória Pires para o papel de Dona Lindu colocassem Regina Duarte.

Se o filme de Barreto foi exibido em ano eleitoral, e sofreu críticas por isso, “Peões” e “Entreatos”, de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles respectivamente, foram projetos gestados ao mesmo tempo, no momento em que a popularidade de Lula estava se dirigindo ao seu ápice, a eleição de 2002.

Seguindo a sua trajetória de investigação e de dar voz ao homem comum, Coutinho tentou resgatar a história de personagens que não ficaram conhecidos com as greves do ABC. Buscou os seus personagens no Nordeste e nas próprias cidades do ABC paulista. Vários idolatram Lula, chamando-o de “segundo pai”, “grande mestre”, “o cara” [antecipando Obama?], “pessoa lutadora”, “grande pessoa”, “pai”, “irmão”, “meu tudo”, “filho lindo”, homem cuja mãe teria orgulho [o que remete, sem querer, ao filme de Barreto, que mantém o foco firme em Dona Lindu, lembrando que Lula dedicou o seu discurso de posse a ela].


Os entrevistados têm, todos, sotaque nordestinos. Sentem orgulho desse passado de trabalho duro, afirmando que o “filho de metalúrgico é também metalúrgico”, ou que “peão de fábrica não é vergonha alguma”. Os entrevistados que apresentam alguma mágoa e que tentaram uma vida melhor para os filhos argumentam que essa dor se deve principalmente porque tiveram que priorizar o sindicalismo e o trabalho à família. Mesmo esses, todavia, dizem não se arrepender do passado. Todos afirmam que participavam do movimento porque gostavam. Porque queriam ser parte da História. A maioria aparenta ser bem livre, do tipo que, passando dificuldades, não se deixa levar pela opinião dos outros, tentando trilhar os próprios caminhos. Fica a impressão de que essa alta autoestima se deve exatamente pelo fato de terem participado de um movimento maior que o cotidiano duro das fábricas, sentirem que estavam lutando pelo bem comum de todos, pelo certo.

Coutinho faz uma espécie de continuação ou resposta ao “Linha de montagem” de Tapajós, inclusive encontrando a servente que escondeu os rolos dos filmes quando a polícia tentou encontrar na época das greves. João Moreira Salles, por sua vez, pratica um quase milagre ao produzir uma obra que envelhece cada vez melhor. E essa tendência não tem previsão de mudar. Ao fazer um registro de um período muito pequeno, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial de 2002, o filme conseguiu capturar a personalidade de personagens que se tornariam muito famosos nos anos seguintes. É possível ver momentos de quase intimidade [nunca é uma intimidade completa com uma câmera ligada ao seu lado] de José Dirceu, Antonio Palocci, Ricardo Kotscho, Luiz Gushiken, José Genoíno, Aloizio Mercadante, Duda Mendonça, entre muitos outros.


O longa começa numa cena bastante simbólica. Lula está no barbeiro, aparando um dos seus principais ícones, enquanto dá uma entrevista ao telefone em que comenta política externa e mercado financeiro, com metáforas futebolísticas.

Os personagens estão, em alguns momentos, interpretando claramente para a câmera. Mas há outros que eles surpreendem pela sinceridade. Como quando, na reunião pré-debate, José Dirceu admite que não podia mostrar o que “tinha guardado no cofre” das outras eleições. Ou quando Lula fala que tomava pinga na hora do almoço quando trabalhava na fábrica.

Mas o melhor é ver o personagem principal interpretando a si mesmo. Lula conta causos, fica chocado com o medo de Regina Duarte, faz piada com Bush, demonstra suas diferenças para o polonês Lech Walesa [do sindicato Solidariedade], dá sua versão da formação do PT e de como o Partido dos Trabalhadores era único no mundo.

Em um dos momentos mais engraçados, Lula aguarda sentado a uma mesa para gravar a participação em propagandas em apoio a candidatos da base, quando o publicitário Duda Mendonça se aproxima para passar os pontos que o candidato deveria reforçar. Enquanto fala, Duda batuca de leve na mesa e Lula o observa com um olhar fixo. Quando acaba, Lula fala em um tom quase de ciúme que a sua maior frustração era nunca ter aprendido a batucar nada. Duda, por sua vez, diz que, ao contrário, era ótimo. Há um corte rápido e logo vemos os dois personagens, no mesmo cenário, mas com Duda batucando desbragadamente enquanto Lula apenas o observa, ainda mais vidrado, como se invejasse o companheiro.

Ao fim, fica a impressão de que o filme é um documento histórico único. Que vai ser estudado pelas próximas gerações, que vão tentar entender a história do polêmico presidente, um dos mais populares da História, mas que igualmente esteve próximo de vários escândalos. Para saber como mudou a vida de Lula, basta pensar em quantos dos políticos mostrados no filme de João Moreira Salles ainda se mantêm ativos publicamente.

Novidades nem tão novas na música


Apesar de 2009, só descobri essa música agora. Edward Sharpe & The Magnetic Zero, " Home", grande concorrente a um novo "Young folks", com a vantagem que os dois discos da banda americana [que não tem nenhum Edward Sharpe entre os seus integrantes] são bons, diferentemente do disco dos suecos do Peter Bjorn and John, em que só se salva mesmo a canção mais famosa. Edward Sharpe & The Magnetic Zero, como se vê no vídeo, é daquelas bandas folk de amigos, cheia de gente tocando vários instrumentos. Me lembrou, lá longe, Sufjan Stevens, que, pelo que eu vi, é da mesma gravadora, Rough Trade. [Dica de Gabriela Cunha.] 



Já o Gravehurst é mais... hum... inglês. Menos ensolarado, mais intimista, mais interno, menos hippie [nada contra hippies]. Banda de um cara só, Nick Talbot, que é de Bristol [continua a minha dúvida sobre o que é que tem na água de Bristol]. Essa "Nicole" acima é uma versão instrumental, mas é uma exceção - as demais músicas vem com a voz de Talbot. Mas o clima é o mesmo, sempre. Ela é tão bonita, tão comovente, tão observar o mar cinza de sobre um penhasco, que eu não resisti a escolhê-la. [Diga de Rodrigo Elias.]