quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reflexões sobre Arcade Fire e 'Reflektor'

Agora que já se passaram alguns dias do lançamento extra-oficial do novo disco do Arcade Fire, "Reflektor", já é possível se chegar a uma conclusão direta e pouco surpreendente em se tratando da banda canadense: que disco, meus amigos, que disco!

Seguindo uma tradição recente de fazer um grande suspense para o lançamento, que talvez tenha atingido o seu perigoso ápice com Daft Punk e o "Random access memories", lançado no já longínquo 21 de maio, os não mais tão meninos e nem tão meninas do Arcade Fire também foram divulgando as músicas em conta-gotas, nas últimas semanas.

Daí veio a faixa título, num vídeo dirigido pelo craque Anton Corbijn [que criou a estética de muita banda da década de 1980, de U2 a The Cure] e a excelente "Afterlife", que faz uma homenagem ao Orfeu de Camus, inspirado na peça de Vinicius, entre tantas outras músicas. Mas, de alguma maneira, apesar dessas duas músicas citadas terem clipes interessantes [o de "Afterlife" é lindo], parecia que alguma coisa ali "atrapalhava" a fruição da música. Agora, sem a imagem para "competir", podemos ver que, sim,  Win ButlerRégine Chassagne e cia. acertaram. De novo.



Se colocassem um arma na cabeça para me obrigar a dizer qual é a maior banda da atualidade, diria que é o Radiohead. Mas o Radiohead não é exatamente da minha geração - quero dizer, teria idade para acompanhá-los desde o início, mas eu não tinha idade mental para percebê-los lá pela metade da década de 1990. Já o Arcade Fire é a banda que eu acompanhei desde o primeiro disco. Vi crescer, por assim dizer.

O grupo da francófila Quebec [o que, por si só, já dá um caráter mais global às outras bandas de sua geração] apareceu no meu radar numa segunda onda de bandas independentes do século XXI, após a primeira enxurrada que trouxe, entre outros, Strokes e White Stripes. Eles chegaram a mim com uma outra banda que, para demonstrar como funciona essa questão do hype, eu nem me lembro mais qual era. Não quer dizer que esta segunda banda era ruim, [Foi o Bloc Party? Acho que não, acho que o Bloc Party veio depois, ainda.] mas que o Arcade Fire conseguiu se manter num auge contínuo, como se fosse possível, se renovando sempre, mas sem perder à conexão com eles mesmos. Eu até lembro que eu preferia a outra banda na época, por ser mais rock 'n' roll que o Arcade Fire, mas tudo mudou com um show a que eu assisti deles.

Era o saudoso Tim Festival, por sua vez, já uma mutação do Free Jazz. Eram também as minhas primeiras férias na vida. Para piorar, coincidiam também com um casamento de amigos próximos. Apesar disso tudo, não pestanejei: iria voltar das férias e assistir ao septeto [atualmente; na época, não sei], mesmo que precisasse ir de terno. E assim foi. E não me arrependi. Foi um dos melhores shows da minha vida. Logo de cara, já me fez pensar: "como assim eu ainda preferia a outra banda?". Eles subiram todos ao palco e ficaram em silêncio encarando a plateia por alguns míseros segundos, suficientes para hipnotizar quem estivesse embaixo. Começaram a entrada da música, ainda no escuro, baixinho, calminho, sem nervosismo, mas quando vem o momento "Oooooh, ooooh, oooooh, oooooooh, ooooooh...", as luzes se acenderam numa explosão e, aí, meu amigo, eles já tinham ganham completamente o jogo. Momento arrepio imediato, que só de assistir de novo arrepia novamente. A partir disso, o que fizessem ali - e eles fizeram muito, os caras chegaram a escalar a estrutura do palco! - era extra. O vídeo abaixo não dá nem um triscado do que realmente foi. Mas já dá para sacar:



Desde então, não consegui evitar acompanhar tudo o que eles fizeram. Quando reclamaram da soberba por terem gravado em igrejas, por conta da acústica, seu segundo disco "Neon bible", pensei, após ouvir o resultado, que o mundo, então, precisava de mais soberba - deste tipo de soberba que entrega o que promete. Quando lançaram "The suburbs" não precisei defendê-los de nada porque era um álbum intocável.

Aliás, se há algo que se repete a cada disco com o Arcade Fire é que eles não fazem, quase que como um milagre, música ruim. Não conseguem. Ao ouvir e assistir aos vídeos deste novo "Reflektor" pensei que, finalmente, tinham errado. Não era um alívio, nem uma decepção, era uma aceitação de que ninguém acerta sempre. Nem mesmo o Radiohead.

Mas aí que, talvez, more a grande diferença entre as bandas - além de todas as outras. Enquanto o Radiohead quer sempre experimentar, o Arcade Fire quer fazer canções bonitas. O nível de boniteza em suas músicas é muito, muito alto. Sempre é de uma beleza tão impactante, envolvente, quente, gostosa, feliz. Daí, talvez, a crítica pela soberba em "Neon bible". Pareciam estetas, sem sangue nas veias. Mas se para fazer músicas bonitas assim é preciso ser um pouco divino, e menos humano, eu, um simples ouvinte, autorizo. Que assim seja, então.

Às primeiras audições de "Reflektor", já sem as imagens para desviar meu foco, meu pensamento, minha percepção oscilou entre achar que era o disco mais rock 'n' roll deles, com direito até a riffs de guitarra, e o disco mais de pista, para dançar, com batidas mais retas, linhas de baixo mais evidentes. Como se fossem o elo perdido entre Joy Division e New Order, mas sem as nuvens pretas que cobriam o céu dos ingleses de Manchester. Como poderiam? A resposta para as minhas dúvidas, então, apareceu no nome do imenso [no talento] James Murphy. Ele, o homem por trás de nada menos que LCD Soundsystem, foi o produtor do disco. Tudo agora se explica. Eles são rock E também são dançantes. E também continuam produzindo músicas lindas, lindas, lindas que você não vai acreditar que são possíveis.

O que faz essa beleza toda, na minha humilíssima opinião, é a utilização, sem medo de parecerem grandiosos - e aí, novamente vamos nos aproximando de uma outra característica do Radiohead, que também não tem medo da grandeza - de inúmeros e diferentes instrumentos. Cordas são presença garantida em todos os álbuns, mesmo nesse, mais rock, mais dançante.

Outra vantagem dos canadenses logo de cara é a mistura das vozes masculina inglesa do californiano que cresceu no Texas Win Butler e da feminina francesa quebequense Régine Chassagne. É um contrabalanço entre alto e baixo. Grande e pequeno. Grave e agudo. Força e delicadeza. E as metáforas poderiam continuar. Na música título deste último disco, por exemplo, ela canta em francês um pedaço, e faz o backing vocal para ele. É uma camada perfeita para ele se exercitar.

Na segunda faixa, "We exist", além de barulhinhos eletrônicos, guitarra econômica, um baixo que parece saído de uma música do Michael Jackson, você encontra os violinos, ali. É como se eles juntassem o pueril, do entretenimento, do querer se divertir numa pista, sem se importar com o dia de amanhã, com uma necessidade de tocar mais fundo, com a vontade de emocionar. O final dele, em crescendo, com os violinos sustentando toda a música, é capaz de emocionar e fazer dançar - ao mesmo tempo - o mais duro das pedras.

Mas se você ainda tem espaço para se emocionar um pouco a mais, eles emendam com "Afterlife". Tecladinhos saídos de uma música disco da década de 1990. Bateria seca, simples, nada demais. Entra Win Butler: "Afterlife / oh my god, what awful word". Parece uma música simples, até que, ao fim da primeira estrofe, ele pergunta: "I've gotta know" - e aí começa de verdade. Percebemos que a simplicidade inicial é apenas a cama para a música, o tecladinho jamais vai sumir, mas ele vai ficar embaixo de uma camada de guitarras, de um coro simples, que tornam a música imensa, enorme. "But you say / Oh / When love is gone / Where does it go? /  And you say / Oh / When love is gone/ Where does it go? / And where do we go?  / Where do we go? / Where do we go? / Where do we go?"

"Afterlife" não é exatamente sobre a vida após a morte - ou não apenas. Mas sobre aquele momento em que estamos saindo de um amor e perguntamos: e agora? Como recomeçar? O clipe mostra isso bem.



Bem, poderia falar coisas bonitas de cada uma das canções desse disco, que virou uma pequena obsessão desde que o escutei pela primeira vez. Mas talvez possa resumir dizendo que estou cogitando mudar a resposta para o suposto homem atrás da arma, lá de cima, quando ele me perguntar "qual é a maior banda da atualidade?"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Questão de signo

Ele é um engenheiro. Trabalha em uma empresa de telecomunicação.
Ela é jornalista, faz, por falta de pessoal, o horóscopo, além da parte da TV.
Os dois têm pouco mais de 20 anos. Recém-formados. Ele um pouco mais velho. Ela, mais bonita.

***

Quando se olharam, quando as suas visões, os seus olhares, quando os os seus olhos, as miradas, se entrecruzaram pela primera vez, fez fogo, viu uma labareda cruzando o glóbulo ocular dela, subiu um arrepio pela espinha dele, que o fez balançar. Ficou sem ar e confuso. Encheu o ar de pulmões. Com sede, queria beber da saliva dela.

***

Ele frequentava a igreja. Lia o horóscopo. Queria acreditar. Tinha explicação para todas as suas dúvidas. Mas as dúvidas continuavam a aparecer. Não cessavam. Arranjava outras explicações. Ela não sabia o que escrevia. Apenas escrevia. Tinha feito, no máximo, um mapa astral. Tinha gostado. Mas, de um modo curioso, até para ela mesma, ela sempre, sempre, lia o que tinha escrito. No dia seguinte, fingia algo, disfarçava, e lia, como se fosse a primeira vez que ela tinha contato com aquelas palavras. E, de certa forma ainda mais estranha, era.

***

Pernas que brilham, pernas, coxas, que não são as mais grossas, são até finas, para os padrões, mas a pele brilha, como se fosse seda – essa metáfora batida, mas que funciona perfeitamente – a textura convida ao toque, os dedos querem afundar, como em uma colcha felpuda nos frios invernos da infância. Coxas que combinavam com o resto do corpo, se encaixavam perfeitamente ao quadril e aos joelhos, mostrando que o todo não sobreviveria sem suas partes.

***

“Momento de balanço na sua vida. Tente não se expor muito” – dizia o seu horóscopo. Libra, ele era de libra. Ela, escorpião. O que ela queria dizer para ele? Qual era o recado que ela estava colocando no horóscopo? O que é “não se expor muito”? Será que ele estaria...

“Hora de grandes transformações em sua vida. Prepare-se para a luta” – dizia o de escorpião. Era obviamente uma mensagem. Ela não estava bem com o relacionamento.

***

“Como assim, você não sabe o que escreveu?”
“Eu apenas escrevo qualquer coisa. Não fico reparando em qual signo isso vai cair. Você sabe que eu não acredito nisso...”
“Mas eu acredito!”

***

Terminaram o relacionamento, que nem tinha começado direito. O que o incomodava não era ela dar recados para ele via a coluna, não era fingir que não sabia de nada, mas a exposição. Como ele iria falar que acreditava em horóscopo e desconsiderar a coluna dela, a principal coluna de horóscopo da cidade? Era muita contradição. Não conseguiu lidar com isso. E cancelou a assinatura do jornal.

***

Ela pediu para mudar de seção, mas a chefe não deixou, alegando que havia recebido muitas cartas de leitores que disseram que a coluna atual era a melhor que o jornal já tinha tido. Para convencê-la, a chefe ainda sugeriu que ela assinasse a coluna. Nada de aumento, porém.

Ela pensou bem e aceitou, com a condição de que ela assinasse a coluna com um pseudônimo. E que fosse um segredo do jornal a identidade de Madame Solobugiavitch.

domingo, 27 de outubro de 2013

Violência nossa do dia a dia

Uma das maiores e mais infundadas teses que se apregoam sobre o brasileiro é que ele é um sujeito pacífico. Talvez porque nos comparemos - sempre - com países que têm comportamento mais bélico, imperialista, e que arranjam guerras para se meter a todo momento. Ou talvez porque também nos medidos com a régua de outras nações em que há protestos e reivindicações diárias, sobre assuntos os mais variados. Talvez nem uma coisa nem outra aconteça com o Brasil, nem com os seus habitantes. Mas isso não impede que sejamos, sim, muito violentos, à nossa maneira.

Briga na cidade
E nem vou entrar no mérito histórico que, na minha opinião, o Luiz Ruffato já fez isso. Mas tentar falar do presente, para que comecemos a observar o óbvio ao nosso redor. Porque basta sairmos de casa que vemos uma cena de pura violência - e nem estou falando da simbólica, porque aí seria ainda mais "fácil" de encontrar. Sempre vemos uma discussão, uma briga, uma confusão no trânsito, um assalto, um pega-ladrão, um policial fazendo nada.

Ontem uma cena me deixou bastante assustado, pela completa gratuidade. Andava na rua da Praia de Botafogo, altura da Farani, quando reparei em um taxista parado para entrar nessa rua, saindo do carro, no meio do trânsito, enquanto o sinal ainda estava vermelho, com uma barra de ferro que seria do tamanho do meu braço. Ele foi em direção a um ônibus do lado dele e, sem qualquer tipo de diálogo, quebrou o espelho lateral. Vi o vidro se despedaçando e ele, então, discutindo alguma coisa com o motorista, como se quisesse dar uma lição no outro. O motorista, a partir daí, esperou o taxista voltar para dentro do carro para jogar o ônibus de uma maneira muito bizarra contra o táxi, que, com o forte impacto, foi lançado para o canteiro central da avenida. Era a vez do motorista tentar dar uma lição no debatedor. Os dois, porém, não conversaram nada. Não vi um diálogo, uma troca - como se isso não adiantasse para nada. Só a porradaria. Em seguida, o sinal abriu e o ônibus zarpou, e o taxista foi atrás.

Eu fiquei pensando coisas banais e egoísticas: era o 512, um dos "meus" ônibus. Eu poderia estar ali dentro. E os passageiros? E se alguém quisesse descer exatamente no próximo ponto, em frente ao Edifício Argentina? E se houver gringos dentro do ônibus que vai para o Pão de Açúcar? E quem se importa com os gringos? E por que deveríamos nos importar mais com eles? Isso aconteceria em outro lugar? Por que acontece aqui? Seria o sentimento de impunidade?

Abandono
Não era o sentimento de impunidade, eu consegui, finalmente, responder a alguma questão. Isso contava, claro, mas era parte, um elemento de uma questão maior. Para mim, essa violência acontece pela completa falta de confiança nas instituições brasileiras. Imagino alguém falando com o motorista: você deve ir à polícia. O motorista iria rir, porque ele não acredita que a polícia poderia resolver esse tipo de situação. A polícia serve para matar pobres em favelas. Ou, você deveria denunciar o taxista para... para quem se denuncia um taxista? Para a prefeitura? Onde? Como? E o que acontece? Alguém já viu algum taxista sendo punido por alguma razão? Aliás, e o motorista de ônibus? O que ele fez para despertar esse sentimento destruidor do taxista? Para quem denunciá-lo? Para a Fetranspor? Para a Rio-Ônibus? Para a própria empresa?

O que acontece é que não confiamos em nenhuma dessas instituições. Nenhuma. Vivemos, desde sempre, ao largo do Estado - não só o governo, mas tudo o que nos envolve - que só aparece para cobrar algo, jamais oferecer conforto ou soluções. É claro que há exceções e eu não quero generalizar nem cair numa reclamação vazia em que o Brasil seria o pior lugar do mundo. Não é nem próximo disso. O que eu estou tentando sustentar é que nossa mentalidade é um pouco a do bangue-bangue: cada um por si, e o Estado - aparentemente - contra todos.

Talvez isso explique por que gostamos das multidões. Carnaval, futebol, praia, réveillon. E talvez isso explique por que quando se junta essa montoeira de gente não ocorrem desgraças. Talvez queiramos fugir desse sentimento individual, isolacionista. Talvez nessas horas, sentimos o prazer de fazer parte de um grupo muito maior, algo tão incomum, e nos sentimos protegidos. Talvez percebemos, inconscientemente, que a massa nos dá um poder que não sabíamos que tínhamos. E as manifestações estão aí para não nos deixar mentir.

Novamente eu penso em Machado de Assis e como ele talvez tenha descrito a alma social desse ser estranho chamado brasileiro ao colocar seu defunto-autor Brás Cubas para dizer que escreveria suas memórias com a “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Nosso exterior, nosso formato é até festivo, alegre, pacífico, galhofento, portanto. Batucamos em qualquer lugar que dois ou mais brasileiros se encontram. Mas essa pena esconde uma tinta, um conteúdo que, apesar da aparência, é na verdade triste, ensimesmado, introspectivo, e que usa do extravasamento exatamente para não ter contato com o seu interior. Basta ver uma boa tradição das nossas artes e dá para enxergar isso. A própria bossa nova, tão lembrada agora com o centenário de Vinicius. Ou Goeldi [que ilustra esse post]. O resultado, porém, é que a impulsividade da galhofa, quando não utilizada para esses fins alegres, esquenta a melancolia num fogo alto que a transforma certamente em violência. A violência é a nossa melancolia que transbordou.

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É mera coincidência, mas...  "Flamengo, Botafogo e Centro ganham mais policiamento: Em duplas, PMs patrulharão áreas onde roubos de rua registraram aumento nos últimos meses".

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Encontrei isto aqui, perdido nos arquivos deste blog. Achei, novamente, uma coincidência.

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Na tarde em que eu publico isso, outra vez a violência se mostrou presente. No meio da tarde, como está virando rotina aos fins de semana, ouvi um grito de "pega, pega". Me levantei e fui para a janela, quando vi um homem forte batendo como um lutador de mma num garoto magro, negro, que carregava uma bolsa de mulher. O garoto tentava evitar os socos da maneira que conseguia, mas estava acuado. Depois de alguns segundos de socos, o homem olhou para o lado, alguma coisa chamou sua atenção. Foi o suficiente para o menino fugir. O homem foi atrás, mas, logo depois, parou novamente e olhou para trás, e viu um grupo imenso de garotos magros e negros vindo na sua direção, e decidiu voltar. Entrou no seu carro, uma pajero ou cherokee que estava estacionada na avenida, e foi embora. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Lembranças

Eu era novinho, tipo 5 anos, e todos os meninos da natação gostavam da mesma menina - mais velha, 8 anos, Cecília, Maria Cecília. Ou estou confundindo? Bem, de toda forma, eu lembro que ela era uma menina que não dava muito papo para ninguém. O que nós, crianças, chamávamos de metida. Nós, meninos, decidimos - não sei por quê - que deveríamos - tínhamos que! - falar com ela, avisá-la, comunicá-la de nosso "amor" por ela. não sei bem o que era isso, e acho que na época ninguém sabia. Mas por algum acaso, decidimos que tínhamos que falar com ela. Tínhamos. E, como todos os outros meninos tinham vergonha - assim como eu - eu resolvi, não me pergunte por quê, ir. Eu tinha que falar com ela. Lembro da cena com perfeição. Do carro da mãe dela, um fusca prateado. Da pedra de brita. Do meu pé ficando sujo. Do calor. Da luz vermelha. Dela, com os pés para o lado de fora do carro. Do seu ar meio esnobe. De querer ficar distante dos outros. De eu chegando perto dela, de todos os meus amiguinhos se escondendo nos outros carros, mas observando o processo todo, eu me aproximando, e não sabendo muito bem o que dizer, e aí falei, simplesmente, "Oi, Cecília, tudo bem?" - ela me ignorou. Ou falou algo muito simples, tipo "oi", e continuou ouvindo música, no rádio do fusca prateado. Eu insisti, disse que tinha que contar algo, ela quase deu de ombros, eu continuei: "É que eu e meus amigos gostamos de você há muito, muito tempo". Lembro até do movimento que eu fiz com as mãos, como se fossem hélices - o que me pareceu na hora, tanto é que eu completei: "Há tanto tempo que parece um ventilador". Ela não riu. Continuou parada, lá. Imóvel. Como se eu não tivesse lá. Eu estava tremendo. Gaguejando. Suando frio. "Bem", disse, "tenho que ir". Saí de lá, como se tivesse tirado uma bigorna de sobre a minha cabeça. Assim que passei pelo primeiro carro, os meninos vieram falar comigo. Queriam saber como tinha sido. Quando lhes contei que ela tinha nos ignorado solenemente, eles ficaram um pouco decepcionados. Eu, ao contrário, estava me sentindo aliviado. Curioso. Como se o simples fato de ter falado com ela - enfrentado esse medo pavoroso que eu tenho, além de ter feito o que eu acho que seria o certo - tivesse me tirado essa bigorna. Hoje, de certa forma, tenho um pouco de orgulho da cena.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pílulas de filosofia

O elevador apertado e antigo do prédio na Rua Prado Júnior o deixava ainda mais desconfortável. Era como se ficasse mais evidente que ele não tinha onde se esconder. Ficava mais claro que não havia rota de fuga. Se alguém entrasse ali, o enxergaria. Não havia dúvidas. E ele não teria o que dizer, como explicar que ele estava em um prédio em uma rua conhecida por ter puteiros em todos os quitinetes? Nem adiantava tentar começar a dizer que ele não estava ali por isso, para isso, porque ele também não poderia explicar – não tinha como – o que ele estava fazendo, sem cair também no julgamento moral das pessoas. Era errado, era ilegal. Ficava exposto. Ele poderia ir preso. Nilton preferia quando tinha que ir aos morros. Era, ao menos, e por um lado, mais discreto. Apesar de ficar claro para os moradores da favela o que ele estava fazendo ali – já que ele claramente não pertencia ao ambiente – ao menos era improvável – ele sempre imaginou – que encontrasse um conhecido.



Bem, ele achava isso até que o improvável, que sempre dá um jeito de acontecer, aconteceu. Era uma quarta, de noite, estava quente do verão mais quente. Desesperado, em casa, numa ansiedade que não tinha televisão, filme ou caminhada na rua aleatoriamente que diminuísse, que ele subiu o morro. Ele precisava de um pouco, só um pouco nada demais. E aí, ele encontrou a mais improvável das pessoas na mais improvável das situações – que, depois, se mostrou ainda mais improvável.  Era a sua vizinha de porta: uma senhorinha de cabelos azul-claro, que, no prédio, aparentava ter dificuldade de se locomover e, lá no morro, se esgueirava como uma gatuna profissional. Pelo que Nilton pôde perceber, ela também estava tentando se esconder, passar despercebida num ambiente que não era fácil ser discreto. Os dois se viram, fingiram que não se viram, depois admitiram que se viram, e se cumprimentaram, mas não conversaram na hora. Ele subiu, ela desceu, os dois sabiam o que o outro fazia ali, mas passaram em branco.

Meses depois, foi ela, dona Lourdes, quem lhe indicou o endereço de Copacabana, esse endereço, deste elevador que ele sobe agora, assim que começaram as pacificações. Foi ela quem tomou a iniciativa do diálogo, quebrou a falsa moralidade com delicadeza e cuidado, e colocou debaixo da porta de Nilton um bilhete perguntando se ele já sabia onde poderia comprar mais. À negativa de Nilton, ela dizia que já estava velha para continuar se expondo assim e pedia para ele lhe fazer o obséquio de, caso ela lhe entregasse um novo contato, comprar para ela também. Ela lhe entregaria, sempre que necessário, uma lista de compras. Ele, com uma espécie mais sutil de pena, e porque estava sem qualquer contato – e a fissura estava aumentando fortemente –, aquiesceu.

Subia no elevador quase rezando para que ninguém conhecido entrasse ali. Morava perto, no Flamengo, e não seria improvável que alguém pudesse passar por ali. Mas... o que essa outra pessoa estaria fazendo ali?, pensou e isso lhe deu uma espécie de segurança. Por que alguém conhecido estaria subindo um elevador na Prado Júnior? Ao mesmo tempo que esse raciocínio o deixou mais aliviado, pensou que ele poderia ser visto na saída do prédio. Alguém poderia passar em frente. Não adiantava. Nilton estava no grau máximo da fissura: a neurose. Qualquer barulho atraía sua atenção. Qualquer movimento em falso. Imaginou que suas pupilas estivessem dilatadas como as de um gato. Seu coração, em disparada. Décimo-primeiro andar. O elevador faz um “plim” e ele empurra a porta para respirar. Sem perceber, tinha segurado a respiração por todo o trajeto, como se o ar ali dentro fosse contaminado. Era sempre assim quando ia “visitar” o Beto. Sempre ficava nervoso. Não melhorava em nada o fato de metade das lâmpadas do corredor estarem queimadas. O ambiente lúgubre o lembrava que ele estava fazendo algo errado. Que ele poderia ser pego. Que ele deveria se envergonhar.

Um dia encontrou um galã de novelas no hall de entrada do prédio. Um desses de quase 50 anos, que fazem os protagonistas, tem uma família feliz e que você nunca iria desconfiar de encontrar num ambiente como esse. Mas ele estava. E agia como se nada fosse estranho. Quando chegou o elevador ao térreo, Nilton ainda tentou manter a esportiva, entrar no jogo teatral do ator e perguntou se ele – o ator – não iria subir. O ator, sorrindo aquele sorriso que ele já tinha visto num comercial de banda larga, disse que não, que estava bem ali. Certamente também ficou preocupado. Certamente. Será? E se alguém tirasse uma foto dele no prédio? Mas não poderiam associar ele ao prédio. Não dava para enquadrar ele e o prédio. E se desse, ele – o prédio – ficaria muito pequeno. Além disso, o prédio não tem nada demais, exteriormente: como provar que ele estava na Prado Júnior? Enfim, enfim, enfim...



Tocou a campainha e Beto não demorou a recebê-lo.

“Niltinho! Quanto tempo! Tá querendo me deixar pobre? Entra, entra, não fica aí na porta que a gente nem consegue conversar direito.”

Beto era assim, uma tempestade de palavras. Um sujeito estranhamente extrovertido, principalmente para um negócio que, em tese, exigia perfis menos públicos.

“Oi, Beto” – diz apenas, Nilton, quieto, tentando aparecer o mínimo possível.

“Diz aí, Niltinho, quer uma água, uma cerveja, uma provinha, alguma coisa?” – dá uma pausa, meio forçada, para fazer a sua piada de sempre: “Uma maçã? Rá!” – diz e dá a mesma gargalhada de sempre.

“Não, não, Beto, não vou me demorar” – diz apressado Nilton, na tentativa de parar aquele sorriso exagerado.

“Senta aí. Take it easy, tá?” – Beto mostra do sofá – “Mi casa, su casa. Se você não se sentir à vontade aqui, estou ferrado. Não vou me sentir bem” – fala e, de repente, está num monólogo:  “Nilton, um dos meus melhores clientes, Ce n’est pas possible!” – e voltando a falar com Nilton: “Aqui, Niltinho, é tutti buona gente.”

Nilton ficava extremamente entediado com essa exibição gratuita de Beto. Ficou em silêncio, esperando que ele acabasse, e logo Beto foi ao assunto.

“Então, Beto, já que você não está muito para conversa hoje, vamos direto ao assunto: o que vai querer?”
Nilton mostra a lista que dona Lourdes lhe havia entregue, num papel de alta gramatura, dentro de um envelope que parecia, quase, de casamento.

“Essa dona Lourdes... Ela é mó barato, né, Niltinho?”

“Eu... eu não a conheço direito. Ela é minha vizinha, mas nós nunca falamos muito.”

“Sugiro você filar uma das pamonhas que ela faz. São divinas. Ela é do interior de São Paulo. Veio para o Rio quando o marido foi transferido. Desde que o marido morreu, ela virou minha cliente. Cliente preferencial. Sempre pede do melhor. E você? O que vai ser hoje?”

“Eu... eu não sei direito. To meio perdido. O que você me deu na última vez não bateu direito. Fiquei muito agressivo, muito desorientado...”

“Nietzsche? Poisé. Ele tem esses efeitos colaterais, mesmo. Você começa a achar que é o verdadeiro super-homem. Acha que o mundo inteiro tem que se curvar à sua vontade. É complicado. E cria-se um paradoxo: é como se devêssemos tomar doses muito homeopáticas, mas aí, ao ser mais cuidadoso, o efeito de Nietzsche não seria o efeito de Nietzsche: para ser Nietzsche, não pode haver meio termo. É uma bomba.”

“Fiquei muito inseguro, como um adolescente.”

“Imagino, imagino.”

“O que a dona Lourdes pediu dessa vez?”

“Dona Lourdes é uma senhora mais velha, né, gosta dos grandes clássicos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Quatro de Sócrates-Platão [os dois vêm juntos, numa embalagem dois em um] e quatro de Aristóteles.”

“Quatro de cada? Quatro?”

“Ela é uma mulher forte, e com bastante tempo livre.”

“Dá até um pouco de inveja.”

“Quer tentar um deles? Tenho aqui um pedacinho de Sócrates – eu considero o máximo, mesmo que tenha algumas ressalvas. Elegante, cínico, ácido, afiado. Para aqueles dias em que você precisa abalar numa balada.”



“Queria algo mais calmo...”

“Hum, mais calmo... aqui... vai ser complicado... mas, deixe-me ver... Que tal, então, algo completamente diferente do de sempre? Que tal um santo Agostinho? Hein? Se não, se achar muito radical, ao menos um escolástico? E aí não temos como fugir: teria que ser são Tomás de Aquino. Hein, que tal? Dão sempre segurança, certeza, verdades, um porto para atracar quando o mar tá tão revolto. Sai muito, sabia? Por mais que, hoje, eles tenham ficado fora de moda, que as pessoas, em geral, não falem muito deles, ainda circulam bem. E, eu acrescentaria: acho que tendem a crescer mais. Aliás, o que acha de Kierkegaard? Segurança, quase contemporâneo, quase vintage. É cool ser retrô, hoje em dia.”

“Acho que não dá... Me disseram que há um problema grave com eles...”

“Que problema?”

“Um problema grave... íntimo...”

“Ah, a impotência? Bem, é verdade. Eles não são muito, assim, potentes. E você, que vem de Nietzsche... é melhor não, mesmo.”

“Descartes, me falaram que Descartes é legal.”

“Hum... eu acho que é muito... como direi... cerebral. Você vai ficar lá, parado, viajando, pensando, dentro da sua cabeça, e não vai fazer nada mais, e se esquece que há um mundo aí fora.” [Silêncio.] “Já sei: Kant!”

“Quem?”

“Kant. Ele vai te mostrar o que você sabe – e o que você não pode saber. E a partir daí, vai ficar muito claro para você o que é categoricamente imperativo.”

“Pô, gostei, hein.”

“Só tem um problema.”

“Qual?”

“Ele é muito crítico.”

“Voltamos à estaca zero.”

Toca o telefone. Beto se levanta.

“Niltinho, dá um minuto? Fica aqui com o cardápio, que eu já volto.”

Nilton começa a ler. Apesar de falastrão, Beto era totalmente organizado. Parecia que Nilton estava fora do país. Galileu: Corpo científico, notas de empirismo, leve traço de experiências em geral, ceticismo profundo, e alto grau de dificuldade em lidar com questões ligadas à autoridade. Heidegger: sentimentos controversos com relação a instituições infinitamente deploráveis, sensação de retorno a um passado remoto, mergulho em busca incessante pelo Ser, raspas do tacho da metafísica, pensamentos autorreferentes sobre o pensamento. Possibilidade de bad trip. Marx: sociabilidade extremada, toques revolucionários de... “Não.” Diógenes: aumento de cinismo a níveis pré-pós-modernidade, antissociablidade exagerada, busca em si pelo homem verdadeiro... Volta Beto.

“Niltinho, é isso aqui, não tenho dúvida” – e lhe entrega o pacote.

“Baruch Spinoza” – lê Nilton.

“Isso. Origem na península ibérica – alguns dizem Portugal, outros Espanha, quem vai saber de verdade? – mas desenvolvido na Holanda. Onde é o melhor para se crescer que a Holanda, hein? Foi proibido entre os judeus, era mal-visto pelos cristão, mas era um gente fina. É ter contato com ele e sentir que tudo faz parte do todo.”

“Interessante... Mas, cara... eu não sei bem  o que eu quero...”

“Aí, complica, Niltinho, aí, complica...”

“Faz o seguinte: me vê 200 gramas daquele Nietzsche, 200 desse Baruch, 200 do Diógenes, gostei dele...”

“... Ótimo, Diógenes é pouco conhecido, mas ótimo. Muitas boas histórias...”

“... E 200 do Kant.”

“Faz o seguinte, leva mais 200 do Heráclito, que está saindo muito pouco nesses dias, que eu te faço um abatimento. E você sabe: aqui, tudo é original, direto da fonte. Nada batizado.”

“Demorô.”

domingo, 20 de outubro de 2013

O enforcado

Seguindo a indicação de Dorrit Harazim, n'O Globo de hoje, fui ler o texto de George Orwell, antes de ele se chamar George Orwell [era ainda apenas Eric Blair], intitulado "A hanging". Imperdível. Aqui todo. Um trecho, abaixo:
It is curious, but till that moment I had never realized what it means to destroy a healthy, conscious man. When I saw the prisoner step aside to avoid the puddle, I saw the mystery, the unspeakable wrongness, of cutting a life short when it is in full tide. This man was not dying, he was alive just as we were alive. All the organs of his body were working--bowels digesting food, skin renewing itself, nails growing, tissues forming--all toiling away in solemn foolery. His nails would still be growing when he stood on the drop, when he was falling through the air with a tenth of a second to live. His eyes saw the yellow gravel and the grey walls, and his brain still remembered, foresaw, reasoned--reasoned even about puddles. He and we were a party of men walking together, seeing, hearing, feeling, understanding the same world; and in two minutes, with a sudden snap, one of us would be gone--one mind less, one world less.

sábado, 19 de outubro de 2013

A ginga brasileira em "O drible"

Existe uma possibilidade de explicação totalizante do que-quer-que-seja, como acredita Murilo Filho - e todos, até a sua geração? Provavelmente não. Provavelmente o que podemos fazer é tentar, por meio de uma alegoria, explicar um aspecto qualquer do-que-quer-que-seja e, a partir disso, a partir desse lampejo, dessa faísca, esperar um fogo do saber, que não pode ser contado, comunicado, compartilhado, se alastrar por dentro de si, e repentinamente, sem que se pensasse possível, se sabe, se tem o conhecimento - mesmo que ele não possa ser apreendido dentro da cabeça, porque o apreender seria colocá-lo em palavras, ou seja, englobá-lo, encapsulá-lo, em outras palavras, totalizá-lo, e, aí, se perderia novamente. Apenas se sabe. É carnal, ultrapassa a fronteira do puro racional e se espalha pelo corpo todo.

Por que essa introdução empolada? Para tentar explicar que livro [!], de que tamanho que é "O drible", novo livro de Sérgio Rodrigues - e "pai" do personagem supracitado Murilo Filho, apesar de "pai", neste livro, não ter uma acepção fácil. Sérgio escolhe o futebol para tentar não explicar, porque aí cairíamos na desgraça da totalização, mas "pensar" o Brasil, mais especificamente no século XX, na segunda metade deste século tão estranho. Pensar o Brasil - adentrando alguns dos seus meandros, das suas principais qualidades e mais difíceis defeitos. Que país construímos, como nós nos identificamos, o que vemos, quando olhamos para o espelho.

São dois os personagens principais: Murilo Filho e Murilo Neto, pai e filho, sendo que há um antagonista claro, Peralvo, um personagem que permeia toda a obra e é quase a personificação, quase a humanização do que é o Brasil [se isso fosse possível]: o filho de uma mãe de santo com um europeu, que se cruzaram, não se sabe muito bem como, em uma cidade ínfima no interior de Minas Gerais. Um menino que demora a falar, como um Brasil que demorou a ser visto até como uma terra a ser explorada, e que começa a se comunicar exatamente numa derrota, quando o Brasil perde para o Uruguai em 1950. Traça ali o seu destino: seria jogador de futebol.

O futebol, nesta obra, é mais que um pano de fundo: a linguagem está encharcada dele.
Esse drible do Pelé no Mazurkiewicz é
importantíssimo no livro [ver aqui]
Aparece até mesmo em sua ausência: se Murilo Filho é um cronista esportivo da grande geração brasileira de cronistas que povoou nossas redações, dos anos 1950 até, no máximo, 1990, entre Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos, para ficar em dois exemplos citados, Murilo Neto ignora o esporte, mas sua fixação com a cultura pop dos anos 1970 é interpretada como um paralelo ao do pai pelo futebol: são colecionadores de lembranças. São arquivistas de emoções passadas. Murilo Filho despreza o filho, desde pequeno, mas ele tenta, de todas as maneiras, chamar a atenção do pai - inclusive, tentando jogar bola. Infrutiferamente.

Esse é o esqueleto da obra. Encarnando esse organismo, está o desbunde de uma geração que se descobria no fim da década de 1950 e início da seguinte, pela primeira vez talvez na vida, talvez na história, livre; o baque e a violência com o golpe de 1964; a repressão que se transformou em uma máquina de sangue, e que acabou não apenas com utopias, mas com vontades e coragens; e os anos anestesiados de 1980, que estávamos aprendendo novamente a escutar nossa voz - talvez ainda não tenhamos aprendido, talvez não aprendamos nunca, talvez aprender seja uma constante que nunca termina. Há a música da bossa nova e o rock brasil. A literatura de Nelson e Machado de Assis. Mas, sobretudo, há o futebol.

O livro mostra o cotidiano das relações entre jogadores, jornalistas, dirigentes inescrupulosos [um certo sr. Miranda, do Vasco], massagistas pais de santo, olheiros, e toda a fauna que gravita em torno, e dentro, das quatro linhas. Narra também partidas épicas em estádios esquecidos, que têm sabor de lenda, em que Peralvo marca dez gols, sozinho, em um único tempo, e é perseguido por matadores ainda dentro do campo. Ou quando Peralvo joga possuído por uma entidade de outro mundo contra Pelé.

Além de todas as possibilidades interpretativas, há ainda a forma: vários estilos e vozes narrativas, que mudam o ponto de vista a toda hora, deixando a leitura mais dinâmica, e quase de acordo com as mudanças do estilo do próprio Murilo Filho [aliás, uma homenagem clara ao Mário Filho, que é, entre outras tantas coisas, autor de "O negro no futebol brasileiro"]. Começa com uma conversa entre pai e filho, sendo que só o pai fala, num tom de diálogo sem resposta, mais ou menos o que acontece em "Grande Sertão: Veredas", passa por um realismo fantástico, em que Peralvo é capaz de enxergar auras e antecipar em cerca de um segundo o mundo - uma grande vantagem para um jogador de futebol -, resvala numa literatura pop, tipo Nick Horby, volta para o diálogo rosiano, e termina num monólogo interior de Murilo Neto. Se isso não bastasse, há um humor entremeando todo o livro, e uma ação que empurra para frente o leitor, e o faz cair no muito conhecido - e pouco experienciado - paradoxo do livro que você não quer que acabe, mas também não quer parar de ler.

O autor, o autor
São diversas passagens que dariam interpretações imensas, que poderiam conjecturar sobre cada um dos elementos, como os seres que são conjurados a Peralvo por sua mãe: Oxóssi, Dom Sebastião, o Judeu Errante, Olorum, Seu Sete, o Enforcado, Joana D'Arc. Todos eles têm explicações prováveis no próprio texto. Todos eles contêm segredos que podem ser desdobrados e que dariam outras histórias.

Até mesmo o que, em uma primeira interpretação, poderia ser visto como o ponto fraco do livro, o suicídio da mãe de Murilo Neto, esposa de Murilo Filho, - já que é um assunto muito distante do ambiente do livro, parecendo gratuito - consegue ter uma explicação, ao fim, que remonta à história de nossa literatura, e que passa, novamente, por Nelson, Machado, de uma maneira bem real por Euclides da Cunha e, o autor não coloca, mas eu acrescentaria, Jorge Amado.

Ao fim, ficamos com a certeza de que Sérgio conseguiu trazer o futebol para explicar a vida, já que o inverso, como Murilo Filho explica, não é possível. "Há entre os dois uma simetria, um descompasso no qual não me surpreenderia que coubesse toda a tragédia da existência." Não poderia ser mais preciso.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A questão das biografias: uma terceira via

Em vez de tomar partidos, o historiador Ronaldo Vainfas escolheu uma terceira via para se discutir a polêmica das biografias. Tive a sorte de entrevistá-lo, para sair desse FlaxFlu. Um trecho polêmico:
acho que qualquer indivíduo tem o direito de aceitar ou não virar tema de livro. É uma questão de privacidade. O que não pode é aceitar ser biografado e interferir no trabalho do biógrafo para construir uma auto-imagem que lhe convenha. Já no caso dos mortos, acho um absurdo que as famílias se metam nisso. A legislação que delega às famílias, por exemplo, o direito de acesso à documentação pública é um desatino. Pior ainda é processar editoras ou autores que publicam passagens da vida do biografado que, no entender dos parentes, atenta contra a honra e a memória do personagem. No caso da biografia dos personagens contemporâneos já mortos, este problema é tremendo. Se a família do biografado não autoriza ou não facilita a documentação, o livro não sai. Por que isto ocorre? Porque os familiares querem "preservar a memória" edificante do biografado, como se alguém fosse santo, ou então querem tirar proveito financeiro do autor ou da editora.
Mais aqui

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Brasil x Uruguai: o nosso maior clássico

No primeiro - e excepcional - capítulo do novo livro de Sérgio Rodrigues, "O drible" (que será lançado na noite desta quinta-feira no Shopping Leblon), um dos personagens, que ainda não está totalmente exposto, fala sobre uma das cenas mais famosas da Copa de 1970, da Seleção, e, talvez, de toda a história do futebol: o não-gol de Pelé contra o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, em que o nosso camisa 10 dá um drible da vaca, deixa passar a bola por um lado do guarda-balisa e chega nela pelo outro e chuta para a meta - mas erra, milimetricamente. Realmente é um lance impressionante [como se pode ver abaixo] - e a narração no livro desse lance não fica muito atrás de sua origem.


O personagem que narra o drible explica o seu fascínio por este momento específico: "Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol."

Ao ler essa frase, e todo o capítulo, fiquei pensando que, talvez, nosso maior adversário, nosso maior rival, não seja a Argentina. A Argentina talvez seja famosa hoje em dia porque teve Maradona, que os nossos vizinhos insistem em dizer que era maior que Pelé. Nossa questão com eles, tendo a sugerir, é mais de aversão, por conta do que nós consideramos como soberba. Todavia, não consigo lembrar um jogo tão importante que tenhamos disputado com eles. Já contra o Uruguai... Há, ao menos para a minha geração, três marcos históricos, três pontos que nós lembramos e somos lembrados sempre, como aqueles em que nós nos construímos. E em todos eles há ligação com o Uruguai.

O primeiro, e o mais óbvio, seria o Maracanazo. O maior estádio do mundo. Um time até então imbatível. Uma torcida de milhares de pessoas. Apenas a necessidade de um empate. E aí...


Esse primeiro momento marca o que foi chamado por Nelson Rodrigues de "complexo de vira-lata", nossa pré-história, aquele momento que nós éramos cidadãos de segunda-classe, nós não éramos nós mesmos. Ainda não tínhamos descoberto nossa brasilidade, nosso jeito de ser e agir. O Maracanazo é quase a demonstração prática de que "não vamos dar certo". Não adianta ser o melhor, temos que ganhar. O 2x1 para eles, de virada, foi, provavelmente, a maior humilhação que nossa seleção tomou.

Já o segundo momento seria exatamente esse jogo nas semifinais da Copa de 1970, o tal "maior momento da história do futebol", como descreve o personagem do Sérgio. É o ápice da superação desse complexo de inferioridade, o momento em que o futebol virou uma das nossas principais características, nossa principal afirmação, nossa identidade. O processo que tinha se iniciado em 1958, com a primeira conquista, chegava ao cume na melhor das copas, vencida pelo melhor dos times. Vencemos a partida contra o Uruguai por 3x1, em um jogo em que Pelé não marcou na copa do México. Não precisava. Já tinha se imortalizado.

Depois de 1970, o Brasil entrou num jejum de títulos mundiais que durou 24 anos. É uma fase de depressão, quase revisitando o momento "vira-lata". Era a ressaca de uma ditadura que aterrorizou os brasileiros de diversas maneiras por 21 anos. Não podíamos mais ser nós mesmos, porque isso era ser contra o que se determinou ser Brasil.

Já na década de 1990, após passar por Sarney e Collor, o Brasil começava a se reerguer. E, para ir para a Copa dos EUA, em 1994, teria que enfrentar, pela última rodada das eliminatórias exatamente ele, o nosso maior adversário, Uruguai, em uma outra oportunidade. Mas por que esse jogo deve figurar como um dos mais importantes do Brasil de todos os tempos? Talvez não seja exatamente um clássico no mesmo nível dos anteriores, já que, para começar, nem de Copa era. Mas para mim, para a minha geração, esse jogo representou exatamente a volta da esperança. Uma ideia de que podíamos, de novo, ganhar uma copa, não era mais algo tão inacreditável.


Além disso, esse jogo "final" foi aquele em que Romário, finalmente, tinha sido convocado para a seleção, após uma campanha imensa que só faltou o presidente Itamar Franco se meter. Foi o jogo que fez Parreira aceitar que Romário era imprescindível. Que ele era um supercraque indiscutível. E foi importante para ele, Romário, mostrar para o técnico que não era tão indisciplinado, como sua fama o anunciava.

A partida foi eletrizante. Para os brasileiros, principalmente. Foi o típico jogo de um time só. Era ataque contra defesa. Nossa superioridade, nossa vontade, não deixaram o drama de 43 anos antes se instalar novamente no Maracanã. Romário também contribuiu. Sempre foi um perigo, conseguindo meter uma bola no travessão logo de cara. Mas o gol, apesar da grande pressão brasileira, não saiu no primeiro tempo.

Na metade final, o gol ainda fez um pouco de doce. Mas era questão de tempo, mesmo. E saiu numa jogada que, apesar dos oficiais 1,68 m de Romário, acontecia com razoável frequência: um gol de cabeça do Baixinho. Por fim, para fechar o caixão, uma jogada que, por uma dessas coincidências que o Deus do futebol gosta de aprontar, lembra bastante o de Pelé, 23 anos antes.

Romário é lançado e sai correndo. Está cara a cara com o goleiro Siboldi, exatamente como Pelé estava com Mazurkiewicz no México. Romário joga o corpo para dar o drible da vaca, assim como Pelé havia feito, mas, 23 anos depois, o guarda-metas uruguaio já esperava essa reação e vai se encaminhando para, esquecendo a bola, fazer a falta no atacante brasileiro; Romário, por sua vez, também, já esperava a reação à sua ação, e consegue entortar o corpo para o lado oposto de onde tinha ameaçado primeiramente ir e, em vez de fazer o drible em que ele passa por um lado e a bola pelo outro do arqueiro, decide continuar seguindo a bola, driblando o goleiro pela obviedade. Assim, ele alcança a bola e, diferentemente de Pelé, faz o gol.

Poderíamos gastar páginas e mais páginas sobre a discussão do que é mais importante, o drible ou o gol. Se foi mais importante Romário ter feito um lance menos bonito, mas mais eficiente, ou a jogada Pelé foi tão perfeita que ele quase errou ao fim, só para dar um caráter de incompletude, mais ou menos como Michelangelo afirmava sobre suas esculturas que ele deixava sem terminar. Melhor que essa discussão quantitativa, é pensar como a história de um lance pôde enriquecer o outro e que, sem querer comparar os gênios da bola, estamos falando de jogadores fora-de-série, que conseguiam tomar decisões em milissegundos, "tão rápidas são essas operações mentais, chamamos de instinto", como escreve Sérgio, via seu personagem, no livro. Um privilégio para nós brasileiros que ambos tenham vestido a Canarinho.

Em nosso principal clássico, portanto, nos jogos mais marcantes - para mim - estamos vencendo. De 2 x 1. Nesse caso, porém, o juiz nunca vai apitar o fim da partida.

Buraco existencial

O consultório pareceria comum para quem não fosse muito detalhista. Não era o caso de Mário. Um grande sofá dividido entre pessoas com cara de poucos amigos. Um quadro na parede de uma gravura com um anjo apoiando o rosto na mão e olhando para o horizonte. Uma atendente atrás da mesa que parecia entediada. Um atraso de horas para ser atendido. Mas as semelhanças acabavam no primeiro parágrafo.



Se dizem que o psicólogo é aquele que observa os homens que observam a mulher bonita que passa, Mário era aquele que observava o psicólogo, os homens que observam a mulher bonita que passa e certamente a mulher bonita que passa. Não era muito de falar, mas compensava essa sua falha moderna por um olhar muito atento ao que existia ao seu redor. Ele começou a notar alguns ruídos nesse cenário tão familiar. Primeiro, a atendente não estava se lixando as unhas. Ou lendo alguma revista de fofoca. Sua cara de tédio era acompanhada da leitura de um livro – ele conseguia vislumbrar. Ela estava segurando o livro de uma maneira que ele não conseguia enxergar o título até que... ela mudou de página e ele percebeu que era um desses novos autores gringos que são incensados como a grande novidade e que ele, ao tentar lê-los, percebe que a insônia é pretensão de quem fica querendo parecer preocupado.

Outro detalhe intrigante foi o cesto de revistas. Para começar, não era de vime. E, novamente, nada de fofocas, nem publicações semanais da direita, que não diz seu nome. Havia “Piauí”, “Bravo” [a última edição, inclusive] e até, perdida, um exemplar de “Revista de História da Biblioteca Nacional”. Na capa, “Sexo e poder no Brasil”. Olhou ao seu redor, assustado. As pessoas – os doentes, os pacientes – não pareciam estar muito confortáveis naquele ambiente – pudera, ninguém fica, mesmo, satisfeito de visitar um médico. Mas elas também liam as revistas. Mário trocou a perna cruzada e começou a acariciar a própria barba.

Perdido em suas confabulações – ele também era conhecido por se desligar da realidade e mergulhar completamente em pensamentos que o levavam para lugares muito distantes – ele não percebeu quando o seu nome foi chamado pela atendente: “Mário Arruda? Mário Arruda?” Só despertou quando o paciente que estava sendo atendido passou na sua frente. Era muito ruído para um momento único e nem Mário, o desligado, conseguiu passar incólume. “Sim?”, responde ele, como se não soubesse o que estava fazendo ali. À sua frente, está a atendente, uma moça morena, de quase 40 anos, um pouco roliça demais, com cara de tédio ainda maior que quando lia o livro, apontando o consultório: “Você pode entrar, já.” – Cara-de-pau, ele pensa, ao ouvir o “já”, mas não diz nada – “Obrigado”, responde.

O consultório, em si, não tinha, igualmente, nada demais – mesmo. Mário ficou esquadrinhando, para tentar enfim descobrir algo que o denunciasse como um charlatão para o conselho médico, algo como um livro de Eduardo Galeano, uma reprodução do Diego Rivera ou um CD do Ibrahim Ferrer. Nada. Era tudo feito na cor branco-médico, o mais clean possível. Sobre a mesa, um corpo humano de brinquedo, em miniatura, que lhe lembrou Eva, a mulher gigante, que existia nos parques de diversão de sua infância. Um relógio. Um computador. Um receituário. Uma tampa de vidro. Uma mesa de madeira escura, meio vagabunda, que destoava completamente do ambiente. Um médico, atrás da mesa, forçando um sorriso para tentar ser cordial. Estranho, muito estranho.



“Pois não?” – o médico estava ali tentando criar o primeiro contato, a primeira esfera de intimidade.

“Bem, doutor Ernesto, eu... eu nem sei bem por onde começar...”

“Comece pelo início.”

Mário dá uma olhada para ele, quase de reprovação, mas o médico parecia que tinha falado a frase anterior com a maior espontaneidade que possuía. Mário resolveu relevar.

“É que... está doendo tudo.” Ficou em silêncio, como se isso já resolvesse sua questão, como se, então, a partir de então, o médico já soubesse o que deveria fazer.

“Doendo tudo...?” – ele faz um movimento com as mãos como se mostrasse o quanto essa frase não queria dizer absolutamente nada. “Você poderia ser mais específico?”

“Dói tudo. Às vezes é aqui” – e aponta para o estômago – “Uma acidez que não tem tamanho. Queima tudo, tudo. Como se eu tivesse engolido Nero ainda vivo, na sua fase mais piromaníaca, ou simplesmente comido duas pimentas Jalapeño no café da manhã.”

“Sei”, diz, enigmaticamente, o doutor, anotando algo em seu bloco. Quando Mário fica em silêncio, ele o incentiva: “O que mais?”

“Em outras vezes eu fico sem respiração. Sem ar, como dizem. Tento puxar o ar e é como se eu não tivesse força para isso. Ou como se não houvesse mais ar no mundo. Como se eu estivesse vivendo constantemente numa estação espacial, sem os privilégios de poder flutuar ou a pressurização constante.”

“Entendi” – agora ele já olha diretamente para Mário. “Só isso?”

“Não. Tem aqui, também” e aponta para o meio do peito. “Em alguns momentos, o meu coração parece disparar como se fosse o cavalo do J. Ricardo em dia de Grande Prêmio. Em outros, parece que é a reencarnação de Macunaíma e fica dizendo apenas ‘Ai, que preguiça’, de tão lento. Não se decide. E eu vou para cima e para baixo, sem qualquer aviso, como se eu trafegasse normalmente numa montanha-russa e epiléptica como Dostoiévski à guisa de vida.”

O médico voltou a escrever: “À guisa de vida... OK. Vamos dar uma olhada?”

Os dois vão para a maca, que fica ao lado da mesa, mas com uma divisória de hospital improvisada para dar mais privacidade para os pacientes. “Alguma coisa a mais?” – pergunta enquanto Mário está se deitando.

“Tiro a camisa?”

“Pode tirar.”

Um silêncio, antes que Mário continuasse.

“E uma tristeza imensa. Uma vontade de fazer nada. Um apenas quero ligar a TV e ficar mudando de canal a cada cinco segundos.”

O médico dá umas pancadas com os dedos no abdômen de Mário. Faz um “hum” que ecoa por alguns segundos. Ausculta o coração. Pede para respirar fundo e, antes dele expelir o ar, já está pedindo para inspirar novamente, e fica meio confuso – é para inspirar fundo ou o mínimo? Diz outro “hum”. Olha as pupilas. “Hum.” Pede para abrir a boca e usa um palito de sorvete. “Hum.” Coloca uma luz no ouvido. Tira pressão. “Hum.” Vê os reflexos dos joelhos – quase nulos em alguns momentos, chutes dignos do Roberto Carlos – o jogador – em outros. “Hum.”

“Tá ok. Pode vestir a camisa”, diz, enquanto volta para a sua mesa.

Mário demora 36 segundos a mais e volta em seguida.

“Buraco existencial”, diz o doutor, à queima-roupa, antes que Mário pudesse se sentar confortavelmente.

“Oi?”

“Isso, buraco existencial. Você sofre do que chamamos de ‘a crise do buraco existencial’.”

“Mas... o que é isso? Tem cura?”

“É uma doença crônica, que existe há muito tempo. Hipócrates nunca falou sobre isso porque, acreditamos, ele também sofreu do problema. Mas vemos essa síndrome – é uma síndrome – aparecer de tempos em tempos, com mais ou menos intensidade. Há picos em momentos de grande agitação, de grande insegurança, de grandes acontecimentos.”

“Então, não tem cura?”

“Eu percebi logo que era isso na hora que eu bati no seu abdômen. Percebi um som oco, típico da ausência de algo que deveria estar ali e não estava. Isso acarreta exatamente os sintomas que você tem apresentado. Na ausência da existência, o baço acaba produzindo a bílis negra, fria e seca, e que controla o humor melancólico. Quando você falou que ficava desanimado ao mesmo tempo que inquieto, achei tudo muito complexo. Indicava que poderia ser isso. Mas quando ouvi a ausência, soube que faltava aí uma existência. O baço está nitidamente sobrecarregado.”



”Doutor? E a cura?”

“Não se inquiete. É possível conviver com esse problema. Ninguém até hoje...”

“Cura, doutor Ernesto? Há cura?”

“Não. Quer dizer. Há tratamentos.”

“Que tipo de tratamento?”

 “O transplante de existência.”

“Como assim?”

“Bem, geralmente se pega um homem ou mulher – até agora, o mais comum, até por questões históricas, foi aparecer mais em homem, mas isso é uma tendência que não se confirma mais – bem, se pega um homem ou mulher e você tira um pedaço da existência deles e transplanta para o paciente que sofre de Buraco da existência. O bom é que, assim como o fígado, a existência cresce sozinha, se se adaptar bem ao novo hospedeiro. Assim, dá para transplantar uma existência para várias pessoas. O procedimento é até razoavelmente comum. Mas pode acarretar em alguns efeitos colaterais.”

“Efeitos colaterais? Tipo o quê?”

“Bem, com a existência de outra pessoa, você acaba sem a própria falta de existência, que era a sua existência, de alguma maneira, entende?”

“Mais ou menos. Estou confuso.”

“Bem. É confuso mesmo. Imagine que o Buraco da existência seja a sua forma de existir. Se você preencher esse buraco, você não é mais você.”

“Mas eu sou, então, um buraco?”

“Eu prefiro o verbo ‘estar’. Você está em um buraco.”

Mário se encosta na cadeira. O diagnóstico era, de certa forma, pior que o câncer. Ao menos, com o câncer ele teria alguma coisa. Coisa demais, aliás. No caso, faltava algo a ele. E não era como não ter o rim, por exemplo, que você normalmente tem dois e um pode compensar o outro. Era a própria existência que lhe tinha escolhido como incapaz de recebê-lo, a si próprio.

“Vamos fazer o seguinte”, disse o médico, “Vou lhe passar um remédio, paliativo, para este momento. Vamos marcar um segundo encontro, daqui a uma semana. E aí, você pensa melhor sobre o transplante. Temos ótimas existências no mercado, hoje em dia. Você pode escolher entre várias profissões e ideais. De esportistas, engenheiros, artistas, médicos, por que não?, políticos, advogados, arquitetos - empresário, empresário tá saindo bem. As opções vão de anarquistas a neoliberais.”

“Mercado?”

“Sim, infelizmente isso tem um custo e nenhum plano de saúde cobre. Infelizmente.” – O médico entrega a Mário uma receita em que ele pôde enxergar escrito “Sentidorol  - gotas – 30, pela manhã, ao acordar”. Mário se levanta e vai em direção a porta, em silêncio, atordoado. O médico o acompanha, segura a maçaneta e, antes de abrir a porta, lhe diz:

“Não é o fim do mundo. Você, afinal, existe.”

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Antidepressivos: a força

Desde que a lei n. 13.564 entrou em vigor, há duas semanas, já foram retirados de circulação 565 deprimidos em todo o país, segundo dados oficiais do governo federal. Tudo para cumprir a meta do novo presidente da República que batalhou pela sua concretização, para colocar em prática seu slogan que diz que país feliz é país sem deprimidos.  Desde então, a depressão, vista há muito como um problema de saúde pública do mundo contemporâneo, e que atinge um número cada vez maior de pessoas, está sendo tratada como uma contravenção penal, como é, por exemplo, o jogo do bicho.

O doente é retirado do convívio social e isolado em um dos 20 resorts por todo o país que foram desapropriados no início do ano e, após leilões em lote, concedidos para iniciativa privada em esquema PPP. Eles são classificados em quatro estilos (beach, jungle, country, adventure) para atender as demandas do programa. Nesses rebatizados e remodelados centros de tratamento, os doentes são submetidos a sessões ininterruptas do que se convencionou chamar de “alegria e felicidade”, acompanhados de médicos, psicólogos, líderes religiosos e psiquiatras, além de profissionais mais especializados, como animadores, dançarinos e recreadores, que ministram as sessões em questão. Como pena, os detidos são obrigados a passar por diversas atividades que incentivem a interação social.



Claro que a medida não passou a vigorar sem polêmica. Os maiores críticos da proposta são os ex-donos dos resorts, que ganharam uma indenização que eles chamam de simbólicas. E não adiantou o governo tentar explicar que era uma medida em caráter de urgência, de saúde pública, que tinha impacto em todo o país, e que beneficiaria diretamente, segundo as contas dos ministérios da Saúde e da Justiça, as cerca de 13 milhões de pessoas que são diagnosticados como deprimidos – isso, sem contar com os beneficiados indiretos. A associação que representa os ex-donos de resort já informou que vai entrar na justiça para reaver os imóveis ou, ao menos, aumentar os valores passados.

A indústria farmacêutica foi outra que também apresentou queixa para a central que está coordenando todas as ações. Como, pelos critérios estabelecidos pela lei, quem tomar antidepressivo deve ser levado para uma dessas detenções, começou a circular um mercado ainda mais negro que o anterior de medicamentos de tarja preta. Estão acontecendo adulterações e fabricações caseiras de remédios – o que é proibido por lei (outra lei). A lei, argumenta a indústria farmacêutica, é muito dura: em um de seus artigos, é considerado contraventor quem tomar frequentemente – mais de três vezes na semana – qualquer tipo de remédio para dormir.

E não adiantou o governo fazer campanha em todas as mídias, mostrando imagens de todos os deprimidos se “divertindo” [termo usado] nos resorts-prisão: aprendendo a surfar [na versão beach], usando arco e flecha [na versão adventure], andando de cavalo [nos country], praticando arvorismo [na jungle] etc.. Sempre haverá reclamações de que os deprimidos não estão autorizados a sair do local e que são obrigados a passsar pela “diversão”. Pais e familiares de alguns internos costumam de dizer que, mesmo com o esforço do governo, os deprimidos não se “divertem”.

O dia a dia de um deprimido nesses lugares é agitado. Não há muito rotina, exatamente porque rotina faz parte de um cotidiano considerado pelos critérios do programa de reabilitação apresentado como “chato”. A única regra portanto é: não se pode parar quieto. Eles têm exatas oito horas de sono, em um quarto coletivo – porque não é permitido também o isolamento. Nas 16 horas que ficam acordados, são obrigados a participar das sessões de “alegria e felicidade”. Todas as atividades são ao ar livre, com a exceção de quando chove – aí, vão a lugares o mais distante possível da chuva, para que ela não contamine os doentes. Também são incentivadas a prática religiosa, mas sempre das igrejas cadastradas, que recebem o selo de “animação”, fornecido pelo Ministério do Esporte e Religião.


Não é permitido, porém, ao deprimido enquanto em tratamento ficar em nenhum momento consigo mesmo, seja rezando, orando, meditando, refletindo, pensando, imaginando, ou mesmo praticando atividades solitárias ou que requerem alguma concentração, como ler ou jogar xadrez, por exemplo.

São feitas festas durante todo o dia, de diferentes tipos, para que o deprimido possa ter opções variadas e nunca se entediar, mas há certas tendências, que já podem ser mapeadas. Nas praias do Nordeste, há bastante axé e forró eletrônico. No Sul, rock. São Paulo, capital e interior, sertanejo universitário. Rio, pagode. São músicas leves, felizes, animadas, que têm a intenção de, segundo os criadores do programa, “levantar o astral”.

Infelizmente, já houve óbitos nos centros de detenção. Em alguns resorts de praia, apesar do número não ser oficial, houve ao menos cinco afogados. Especula-se que tenham sido casos de deprimidos que tentaram escapar dos resorts. Em um resort adventure, houve um caso de morte no tobogã: a menina de 19 anos F. G. quebrou o pescoço na descida. Na Jungle, um garoto conseguiu fugir para o meio da floresta, mas acabou morrendo, ao ficar perdido. Na Country, um rapaz morreu em um acidente com a corda do arreio dos cavalos, que se enrolou no pescoço dele.


Mesmo com a polêmica, o governo informou que vai continuar a investir no programa de recuperação. O presidente disse que quer que o país seja o primeiro do mundo a erradicar essa doença epidêmica, acabando com a proliferação e a contaminação dos casos. Para isso, o presidente, e seu grupo de assessores, estuda inclusive modificar o tratamento de água para acrescentar, além de flúor e cloro, uma dose de antidepressivo também.

O que querem os Black Blocs?

Capa de "O Globo" de hoje: polícia diz que manifestação ontem no Centro do Rio de Janeiro tinha 7 mil participantes. Sindicato dos professores contou 100 mil.

Além de demonstrar pontapés homéricos de ambos os lados e um serviço de propaganda disfarçada que quase nos deixa na curiosa situação de fazer uma média aritmética [havia, então, 53,5 mil manifestantes], a contagem de público - já um clássico da polêmica há gerações - serve também como metáfora da forma como nós estamos encarando as manifestações deste estranho 2013. Exageros para ambos os lados. Ao chutes. Um brincadeira de polícia & bandido em que os sinais estão trocados: a polícia é que é ruim. Como se cada um dos lados usasse o outro para justificar seus atos extremos.


Agora, isso aqui de cima - registrado ontem, na Rua de Santana, não pode acontecer. Parece que o policial vai preso

Quero sugerir uma hipótese: acreditar, teoricamente, em um dos lado, sem censuras. Quero ver aonde isso nos leva. Escolho o lado da polícia-bandida-governo-mídias-tradicionais: os protestos são sempre pacíficos, mas há um grupo de mascarados infiltrados que praticam atos de vandalismo, quebrando patrimônio público e privado [essa frase, ou variações muito sutis dela, está em praticamente todos os vídeos dos telejornais da Globo sobre os protestos a que eu assisti].

Comecemos: há, então, vândalos - essa categoria estranha, amorfa. Gente que quer causar a destruição parcial ou total de algo. Gente que quer enfrentar a polícia. Mas, aqui, já, me surgem problemas - e que eu acho estranhíssimo que não surjam para ninguém mais. Eu começo a me perguntar: por quê? Por que eles querem causar a destruição? Por que eles querem enfrentar a polícia? Por quê? Ninguém se faz essas perguntas?

Vamos começar a especular, a partir do que é possível um sujeito mediano ter lido. Não é curioso que não tenha havido qualquer estrago ao Theatro Municipal, à Biblioteca Nacional, ou ao Museu Nacional de Belas Artes, que ficam, todos, ao redor da Câmara dos Vereadores, na Cinelândia, epicentro de todas as manifestações, bloco de chegada de todas as passeatas, e foco de todos os protestos? Não é curioso, no mínimo, que os quebra-quebra tenham como alvo prédios simbólicos, como a própria Câmara, ou a Assembleia dos deputados estaduais, ou ainda bancos? Na pior das hipóteses, houve saque em lojas de produtos de consumo: TVs, bolsas, telefones celulares. Mas são casos de muito menor alcance - até mesmo porque as mídias tradicionais não deram tanta atenção a isso, e seria uma ótima pedida para se falar bastante. Não quer representar alguma coisa o fato de os protestos terem começado, lá no já longínquo junho, por conta dos péssimos meios de transporte, os manifestantes mais exaltados tacarem fogo em ônibus?

O que querem, afinal, os tais black blocs? Dizer, aliás, que eles são um grupo uníssono já é errar de primeira. Dizer que eles querem a mesma coisa, idem. Dizer que eles acertam sempre - igualmente. Mas - novamente caio no mesmo problema - por que eles saem de casa, se fantasiam de vingadores mascarados, e enfrentam a polícia que é, nitidamente, mais preparada e covarde que eles? Por que se expor assim, e ainda ter a chance de ir preso? Por quê?

Novamente, vamos às especulações: querem o anarquismo. Querem uma sociedade mais justa. Querem proteger os demais manifestantes. Querem ser uma vanguarda incendiária. São sádicos.

Para todas essas questões, há formas mais inteligentes de tratar o problema - se isso for realmente um problema - do que a que foi tratada até agora. Aumentar a violência contra eles só vai fazer nascer mais black blocs. Veja o caso da repressão violenta [e corrupta] ao crime organizado, que a polícia pratica desde sempre aonde nos levou: uma sociedade ainda mais violenta.

Por que, em vez de apenas negá-los como uma espécie de câncer no tecido tão em funcionamento das manifestações, que basta ser extirpado para que tudo funcione perfeitamente, não tentar entendê-los? Não é descobrir suas reivindicações, porque talvez eles nem as tenham, mas ouvi-los. Descobrir o que os leva a sair de casa, por que eles têm tanta vontade, tanta raiva assim.

De toda forma, há, ao menos, um resultado infinitamente positivo nas atitudes desse "bando de mascarados". Agora, eles é que são o problema. Antes de junho, as manifestações eram vistas - pelos governos, mídia, enfim, o status quo - como um problema em si. Certamente avançamos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

'El golem' - Jorge Luis Borges

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

Y, hecho de consonantes y vocales,
habrá un terrible Nombre, que la esencia
cifre de Dios y que la Omnipotencia
guarde en letras y sílabas cabales.

Adán y las estrellas lo supieron
en el Jardín. La herrumbre del pecado
(dicen los cabalistas) lo ha borrado
y las generaciones lo perdieron.

Los artificios y el candor del hombre
no tienen fin. Sabemos que hubo un día
en que el pueblo de Dios buscaba el Nombre
en las vigilias de la judería.

No a la manera de otras que una vaga
sombra insinúan en la vaga historia,
aún está verde y viva la memoria
de Judá León, que era rabino en Praga.

Sediento de saber lo que Dios sabe,
Judá León se dio a permutaciones
de letras y a complejas variaciones
y al fin pronunció el Nombre que es la Clave,

la Puerta, el Eco, el Huésped y el Palacio,
sobre un muñeco que con torpes manos
labró, para enseñarle los arcanos
de las Letras, del Tiempo y del Espacio.

El simulacro alzó los soñolientos
párpados y vio formas y colores
que no entendió, perdidos en rumores
y ensayó temerosos movimientos.

Gradualmente se vio (como nosotros)
aprisionado en esta red sonora
de Antes, Después, Ayer, Mientras, Ahora,
Derecha, Izquierda, Yo, Tú, Aquellos, Otros.

(El cabalista que ofició de numen
a la vasta criatura apodó Golem;
estas verdades las refiere Scholem
en un docto lugar de su volumen.)

El rabí le explicaba el universo
"esto es mi pie; esto el tuyo, esto la soga."
y logró, al cabo de años, que el perverso
barriera bien o mal la sinagoga.

Tal vez hubo un error en la grafía
o en la articulación del Sacro Nombre;
a pesar de tan alta hechicería,
no aprendió a hablar el aprendiz de hombre.

Sus ojos, menos de hombre que de perro
y harto menos de perro que de cosa,
seguían al rabí por la dudosa
penumbra de las piezas del encierro.

Algo anormal y tosco hubo en el Golem,
ya que a su paso el gato del rabino
se escondía. (Ese gato no está en Scholem
pero, a través del tiempo, lo adivino.)

Elevando a su Dios manos filiales,
las devociones de su Dios copiaba
o, estúpido y sonriente, se ahuecaba
en cóncavas zalemas orientales.

El rabí lo miraba con ternura
y con algún horror. '¿Cómo' (se dijo)
'pude engendrar este penoso hijo
y la inacción dejé, que es la cordura?'

'¿Por qué di en agregar a la infinita
serie un símbolo más? ¿Por qué a la vana
madeja que en lo eterno se devana,
di otra causa, otro efecto y otra cuita?'

En la hora de angustia y de luz vaga,
en su Golem los ojos detenía.
¿Quién nos dirá las cosas que sentía
Dios, al mirar a su rabino en Praga?

É proibido portar mochila nas costas


Agora é lei. Ou melhor, é lei desde 2011, como diz seu enunciado - que faço questão de repetir: é "Proibido portar mochila nas costas neste elevador - Lei municipal n. 5292 de 11 de julho de 2011". Mas não só os elevadores devem portar esse aviso: "os carros do metrô e os ônibus, os prédios comerciais e de serviços e de uso misto, edificações dos poderes públicos, as lojas de departamento e os shopping-centers deverão fixar cartazes com informação sobre a forma mais correta de se transportar mochilas ou os chamados backpackers". Quem não exibir esse aviso fica sujeito "ao pagamento de multa de R$ 1.000,00 (mil reais)".

Admito que fiquei surpreso com esse aviso no elevador da firma. A primeira reação, talvez mais instintiva de quem se sente sempre oprimido pelo Estado, foi: e quem vai coibir isso? Será que teremos guardas municipais andando nos elevadores para verificar quem está usando - ou não - a mochila no lugar certo Além disso, o caso piora [ou melhora, sei lá] quando se descobre que não há punição prevista em lei - nesta lei, ao menos - para quem descumprir a ordem e andar com mochila nas costas. E aí? O que acontece se eu for flagrado? Também fiquei na dúvida: a minha bolsa é do tipo carteiro: será que ela se encaixa na denominação "mochila ou os chamados backpackers"? Provavelmente não, mas vai dizer isso para o guarda que quer multar.

Depois desse primeiro movimento, caí na realidade: quem ou por que legislamos sobre esse tipo de assunto? Com uma pequena pesquisa na internet, descobri que o assunto já foi comentado por outras pessoas. E que o autor da lei é o ex-vereador Roberto Monteiro [PCdoB], vice na corrida para as próximas eleições presidenciais do Vasco [o que é uma ótima posição a se ocupar no Vasco - por uma questão de lógica, o segundo lugar deveria assumir o cargo no clube]. Mas não há uma linha, no texto de lei, sobre a razão de se legislar sobre este assunto. 

Podemos, então, especular: porque muita gente anda com as mochilas nas costas, em espaços mínimos. Claro. Mas, imaginem: como colocar um guarda - que a lei não prevê - nesse espaço mínimo para coibir a quebra da lei? Lá no da firma, ele não caberia, se viesse na sua versão Darth Vader. Aliás, se é uma lei para ganhar espaço, vão colocar mais um sujeito na cabine para conferir seu cumprimento? Não é o cúmulo do contrassenso? Aliás, a Guarda Municipal pode multar? Não é só a PM?

E, agora sem ironia: por que, realmente, devemos legislar sobre esse assunto? Será que devemos desconfiar, tanto assim, do bom senso dos cidadãos? Nosso povo não era majoritariamente de bem? O que aconteceu com a solidariedade do carioca? Onde está a simpatia, a bem-aventurança, o savoir-vivre daquele que pega qualquer transporte em público diariamente? Deve ter se perdido no primeiro ônibus, metrô ou trem lotado.

Por fim caí em mim ao perceber que a Câmara dos Vereadores da segunda maior cidade do país existe exatamente para isso: para criar leis inúteis, que não podem ser aplicadas, ou para fazer homenagens a figuras esdrúxulas, ou inventar datas em homenagem ao combate aos ratos - entre outros dias importantes do nosso calendário. Ou para aprovar, sem qualquer tipo de discussão, os projetos encaminhados pelo excelentíssimo senhor prefeito.

Alguém falou em crise na educação, aí? Ou CPI dos transportes?

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Huascarán

O céu estava branco e os primeiros flocos de neve já gelavam seu rosto. À sua frente, o Huascarán, com suas duas pontas, e seus 6768 metros. Era a primeira vez que o via. João estava com medo. Não sabia muito bem do quê. Ficou parado em frente a uma das pequenas lagoas, imobilizado, e só saiu do transe hipnótico quando uma senhora vestida com roupas que pareciam ter séculos de existência trouxe um bebê lhama para ele segurar e tirar fotos, em troca de um trocado. Ele não queria segurar lhama alguma. Não estava feliz. Não queria compartilhar nada, não queria interagir. Estava com medo, um medo que não sabia dizer bem o que era.

Atrás dele, estava o guia. “Me llamo Pablo”, ele disse secamente, em uma das poucas vezes que abriu a boca para se comunicar. Era um índio, baixo, atarracado, forte, com o rosto largo e nenhum sorriso, que parecia estar totalmente à vontade apenas por estar ali. Assim que a mulher com o lhama apareceu e insistiu, falando um espanhol muito quebrado, Pablo disse algo para a mulher, em quéchua, em um tom mais grosseiro que o normal, e ela saiu, sem se virar. Ele mascava algo e entregou para João, “És para el soroche”, umas raspas do que parecia ser uma raiz, enrolada em uma folha que ele reconheceu ser de coca. João pegou sem pensar muito aquela combinação e colocou na boca.



Não sabia bem o que fazer. Por que ele tinha chegado ali? Tentou fazer o percurso mental: foi uma prima, meio maluquinha, que tinha ido antes para o Peru e dito que Cuzco era ótimo, mas que ela tinha gostado mesmo foi de conhecer Huaraz, Chavin de Huántar e, principalmente, o Huascarán. As fotos dela eram incríveis. Além de ela ser uma ótima fotógrafa, o céu estava azul. Bem diferente do que ele via agora. A prima, empolgadíssima, disse que era ali que se conhecia os verdadeiros peruanos, não na versão para a exportação que todo mundo conhece quando vai visitar as ruínas de Machu Picchu. Nada disso o empolgou. Ele só ficou com vontade de ir quando ela disse que Huascarán era o quarto ponto culminante da América do Sul e que tinha sido muito difícil para ela subir. Mesmo com o tempo bom, havia muito vento, a temperatura estava muito baixa e, principalmente, a altitude, com o ar rarefeito, fez com que ela vomitasse muito ao chegar no ponto culminante. Mas, para ela, que adorava se meter nessas hippongagens, já tinha tomado chá de santo Daime e não se sabe mais de quais outros santos, esse processo serviu como uma espécie de purificação. “Mudou a minha vida”, disse ela, séria, olhando para ele, após mostrar as fotos no computador.

João não queria mudar de vida. Estava satisfeito com o esquema que montou para si, de acordar ao meio-dia, investir na bolsa pela tarde-noite, e varar a madrugada jogando pôquer valendo dinheiro pela internet. Estava bom assim, não tinha o que reclamar. Já tinha comprado um apartamento, seu carro era do ano, saía aos fins de semana com os amigos de infância, com quem nunca perdeu contato. Ao ouvi-la, ele queria, ele ficou tentado, ficou com vontade de enfrentar a quarta montanha mais alta do continente.  Mas por quê? Por que ele queria enfrentá-la? Ele agora se pergunta olhando para a montanha, logo à frente dele, com o medo subindo junto com o frio, por suas pernas em direção ao coração. Ele não era um homem de se questionar muito. Muito menos de viajar para lugares não urbanos. Só tinha saído do Brasil para ir aos EUA, Argentina, e na Europa fez as capitais mais famosas: Paris, Londres, Roma. Viajava sempre para o Nordeste do Brasil e gostava muito de praias. O lugar menos óbvio a que tinha ido era o Pantanal e Bonito. Por que, então, resolveu ir para uma cidade praticamente desconhecida no interior do Peru para subir uma montanha? Ele, que jamais tinha feito uma trilha na vida?

“Vamos nos quedar un poco acá, ¿si?”, ele pediu para Pablo, que, fez uma cara de contrariado, mas, sem demorar um segundo, se sentou no chão de grama úmida e gelada.

Tinha chegado via Lima e, depois de três dias na capital, sem achar particularmente nenhuma graça na cidade que vive quase sempre nublada, foi para Huaraz, onde fica o parque nacional de Huascarán. Ele tinha vindo para cá, ele acredita, porque queria fazer algo diferente. Estava entediado com o seu cotidiano. Estava? Acha que estava. Mas ele gosta do cotidiano, mas se entediou. Começara a malhar numa academia e também decidira correr na praia, na tentativa de aumentar sua endorfina, e foi nessa época, em que ele estava experimentando esse novo formato de vida, que ouviu a história da prima. Ele queria fazer algo diferente do que ele tinha feito sempre. Tentou arranjar companhia entre os amigos e os que não olharam para ele com cara de surpresa e reprovação disseram que não conseguiriam tirar férias em tão poucos meses, como ele havia planejado. Iria sozinho, então. Como tudo o que fez na vida, até ali. Lembra-se de estar empolgado com a viagem. Estava empolgado com a viagem. Ele, que conseguiu comprar o apartamento com 28 anos, com o dinheiro do próprio suor, com sua inteligência matemática, como dizia, com apenas sua visão empresarial e seu faro para negócios e jogadas, não seria parado por uma montanha, mesmo que ela tivesse mais de 6 mil metros.  Lembrou-se do pai, fiscal da receita. Sempre fora contra a sua vida, o seu estilo de vida. Quando começou a viver do jeito que vive e gosta de viver, o pai lhe disse que não daria um centavo para ele, se ele não optasse por uma profissão de verdade. A mãe ficou dividida, mas não conseguiu convencer o pai a mudar de ideia. João, para começar nessa nova carreira, nessa fase da vida, teve que fazer algumas concessões. Vendeu o carro que tinha, parou de sair, de viajar, parou tudo. E investiu na bolsa. Todo dia, o dia todo, loucamente. Depois, percebeu que o pôquer poderia ser mais que um hobby, e fazia jornadas duplas. Houve semanas que ele praticamente não dormiu, trocando de mercado, indo de Shangai, para Hong Kong, depois Tóquio, Nova York, Londres, Paris, Frankfurt, aí ia para o pôquer e acordava em Shangai novamente e o ciclo continuava. Investia em petróleo, commodities, novas empresas de tecnologia, blue chips. Sua carteira era variada, mas sua atitude era bem agressiva. Foram seis anos de luta, de trabalho profundo para se estabelecer, após a faculdade de administração que largou faltando apenas o trabalho final. Ele tinha orgulho de ter dado certo. De poder mostrar para o pai que ele deu certo. A mãe ajudou. Deu uma grana para alugar o primeiro apartamento. Emprestava o próprio carro, quando ele precisava. O início foi complicado, mas ele agora se sente orgulhoso de ter vencido. Sim. Nunca chegou a discutir de verdade com o pai, mas guardou uma mágoa forte dele.  Como se o pai não tivesse estado lá quando ele mais precisava. O pai ainda não entende como o filho, já com 35 anos, quer continuar numa vida tão insegura, sem qualquer garantia. E como ele vai se aposentar? Como ele vai criar os filhos? Aliás, nunca vai se casar? A mãe, sem que nem o filho nem o pai saibam, paga escondido um plano de saúde para João. Não aguentaria ver o filho num hospital público, caso algo de errado – bate na madeira – acontecesse. Então, o que mudou dentro dele? Por que esse medo, agora, ao ver os cumes brancos da montanha? Onde está a empolgação que ele tinha, de mostrar que ele poderia enfrentar qualquer problema?

No dia anterior, tinha ido conhecer Chavin de Huántar. Ficou, pela primeira vez na viagem, impressionado. Algo dentro dele tinha se movimentado. Conseguiu visualizar, enquanto o guia da excursão que ele tinha contratado falava, o encontro de civilizações, de peregrinos com locais há milênios naquele descampado. Conseguiu ver o sacerdote que exercia também o poder político discursando e dizendo que eles deveriam fazer sacrifícios aos deuses em prol de boas colheitas e para afugentar os maus espíritos. Viu o homem jovem subindo os degraus da pirâmide em direção ao sacerdote para tomar um chá de cacto de são Pedro, enquanto inúmeros músicos tocam instrumentos rústicos, que imitam o som dos ventos, dos animais, da vida. O homem que é colocado dentro da pirâmide – e João também entra na pirâmide e está quase em transe com a descrição – e segue pelos corredores estreitos, úmidos e frios, com pouquíssima ventilação, e iluminação precária, mas que as pupilas dilatadas pelo chá o fazem enxergar razoavelmente bem. Escuta os sons de jaguares, do lado de fora, e continua, assustado, com medo do que vai encontrar, mas sabendo que ele tem que se sacrificar pelo seu povo, para que todos pudessem viver melhor, vai tateando as paredes, evitando os buracos no chão, percebendo que os caminhos são labirínticos, que ele já perdeu a noção de para onde deve seguir, todos os lados parecem o mesmo lado, e com esses sons, ele não consegue se concentrar direito, ele deve ir, mas está apavorado – e se encontrar com algum deus? E se o deus o matar? – ele tem que continuar, mas para onde? Deve ir, vai, anda, continua, a música e os jaguares na cabeça, ele está perdido, continua, está desesperado, começa a rezar baixinho, repetir palavras pedindo proteção, quando encontra o monolito de cinco metros de altura: É deus, deus, deus! Volta correndo, tropeçando, gritando, caindo no chão, até que é derrubado por um buraco que ele não viu e, sem que tivesse tempo de saber o que estava acontecendo, sua cabeça é decepada. Lá fora, o sacerdote mostra a cabeça para a multidão que esperava  ansiosamente por isso e festeja. Eles continuam protegidos, os deuses estavam saciados.



“No podemos demorar mucho”, diz Pablo, já de pé, impaciente, olhando para o lago, de costas para João.

“Solamente un poco más, Pablo”, comenta João, “por favor”. 

Abraça os próprios joelhos trazendo as pernas para o encontro do corpo. Sente uma ternura imensa pelo homem sacrificado que nem sabia que existia dentro dele. Pobre homem, diz de si para si. Enquanto Pablo joga pedrinhas no lago, percebe que não queria fazer nada. Não queria subir a montanha, não queria descer o que já tinha subido. Queria ficar apenas parado. Ficar ali, com esse nada, esse vazio que tinha dentro de si. Isso era ele. Não o homem que investia na bolsa, jogava cartas na madrugada, como forma de ganhar mais dinheiro. Era esse homem ali, parado, isolado do mundo, perdido, se não fosse esse índio que quer abandoná-lo.

Quanto mais ele ficava parado, mais ele queria ficar parado. Mais ele se sentia com frio. Pablo se afastou, foi para perto do lago, deixando sua sensação de solidão infinita ainda maior. Sua cabeça começou um caminho de desligar-se. Ele ficou com vontade de deitar, apenas dormir um pouco, só para descansar. Depois ele veria o que iria fazer. Colocou a mochila do lado e deitou, enrolado nas próprias pernas, ali.

Acordou com Pablo à sua frente, nervoso como ele imaginou que o índio não poderia ficar: “¡Levantate, hombre, levantate!”, gritava Pablo, enquanto dava tapas na cara de João, que tinha desligado completamente. Quando conseguiu se sentar, Pablo puxou uma garrafa térmica, que João nem tinha percebido que existia, abriu, colocou o líquido num copo plástico e esticou a mão: “¡Bebe!” João, sem pensar muito tomou o chá, que percebeu ser de coca. “Esto és el soroche”, disse Pablo, enquanto insistia para João tomar todo o chá, que parecia de hortelã.

“Vamos volver” “Não”, “Não”, ele disse e já não se importava de fingir falar espanhol. Tinha que seguir adiante, tinha que subir até o cume, tinha que completar a caminhada. Os dois ficaram se encarando, sem falar nada. Era a primeira vez que Pablo o olhava não com um olhar de condescendência, nem de tédio, mas de uma mistura de revolta com respeito.

“Tu estás mal, Joan-o, tienes que volver.”

“Você pode voltar, se quiser, eu tenho que continuar.”

“¿Se quedó loco, Joan-o? Estabas dormindo hace dos minutos. ¿Que piensas que va a lograr con eso?”

“Pablo”, falou e esperou o ar entrar, inflar o pulmão, e sair antes de continuar. “Eu vou subir.”

Terminou de dizer e começou a caminhar em direção ao Huascarán. Estava determinado. Não importava o que acontecesse. Ele iria subir. Vislumbrava a trilha. Ele iria conseguir subir. Não deve ser tão difícil, o pensamento ocorreu na sua cabeça, como se fosse ele tentando se convencer de que tinha sido a escolha certa. Foi a única escolha possível, disse para si mesmo, como se tentasse abafar as vozes que pudessem acordar e duvidar de si mesmo. Ele tinha que seguir. Não iria se perguntar as razões, os motivos, os quereres, as vontades, ele simplesmente tinha que seguir porque tinha que seguir porque tinha que seguir. Iria subir nem que ele congelasse. Nem que ele ficasse preso lá em cima. Nem que ele virasse um fóssil. Não vou pensar nisso, tentou novamente controlar o raciocínio que insistia em amedrontá-lo, como se estivesse boicotando sua caminhada, como se duvidasse da própria capacidade. Ele tinha que continuar. Começou a repetir mentalmente:  Tenho que ir, tenho que ir, tenho que ir. Um passo depois do outro, um passo e outro.

Pablo deixou João seguir uns 100 metros na esperança que ele desistisse e voltasse. A nevasca aumentava de intensidade. Os flocos cresciam. João pisa em falso, escorrega e quase cai no chão. Chega a colocar o joelho direito no chão, e impede a queda com a mão direita. Pablo balança a cabeça de um lado para outro, contrariado de uma maneira que ele não era nem pelo próprio filho. Esse brasileiro quer se matar? Ele pensou em quéchua. Por que isso acontece comigo? Por que eu não pego os turistas mais comuns? Se ele morrer, não vai ser bom. Eu vou ser amaldiçoado. Eu vou ser preso. Para sempre o espírito dele vai frequentar os meus sonhos. Nunca mais vou dormir direito. Espírito de louco. Ele é capaz de fazer tudo. Será que ele consegue? -  Sem perceber, Pablo já estava, balançando a cabeça, seguindo João.

A neve começa a se acumular no casaco de João, que tenta espantá-la, como se fosse bichos. Percebe, então, que o seu casaco não é tão impermeável quanto imagina. O bicho vai penetrando entre as fibras que, desgastadas, permitem o ataque. O chão é de cascalho grosso, que faz os pés afundarem, e perde o apoio. Vai se sentindo úmido. O ar rarefeito atrapalha sua respiração. Caminha vagarosamente, respira pela boca. Ofega. Para, coloca as mão na cintura, olha para o alto. Sente a pressão baixando, força a inspiração. Segura o ar dentro dos pulmões. Tenho que continuar. Tenho que continuar. Pega uma barra de cereal, come, mesmo sem fome. Come a segunda. Bebe água. Chega Pablo. Os dois se entreolham, em silêncio. Ficam assim. João nitidamente cansado, Pablo inteiro, como se caminhasse no calçadão de Copacabana. Entrega a João dois bastões de caminhada e uma banana.

“¡Vamos!”, diz o índio e segue em frente. João vai atrás, agora com os bastões.



Após a parte com o cascalho mais fino, começa, verdadeiramente, a subida. Não é excepcionalmente íngreme, o que o faz pensar sobre o quão alto ele está. É um caminho cheio de chicanas, com pedras maiores, e não muito bem assentadas. Estão inseguras. A cada passo, João testa o peso antes de colocar todo o corpo, com medo de escorregar. Isso faz com que ele, que já não caminhava em uma frequência rápida, demore ainda mais. Pablo anda um pouco e para, para esperá-lo. Não parece ansioso, mas um pouco entediado, como sempre. Está preocupado, à sua maneira. Está, de certa forma, se sentindo conectado com aquele homem, estranho, tão diferente de si. Acha curiosa a força de vontade do brasileiro. Por que ele quer ver isso aqui em cima? O que tem de tão incrível? Lembra que vinha para Huascarán desde que era muito jovem, rapazinho. Vinha com as lhamas de uma fazenda, onde ele trabalhava como pastor. Gostava do lugar por sua tranquilidade. Agora, tinha muita gente.

Em uma pisada errada, João quase escorrega. Muitas pedras se soltam e caem. Ele olha para baixo e vê que já subiu bastante. Parecia que não tinha andado quase nada, mas já tinha percorrido um bom espaço. Fica empolgado, mas a empolgação dura pouco: olha para cima e percebe o quanto ainda tem que percorrer. Quanto mais ele anda, mais ele descobre caminhos que ainda não conseguia enxergar e que agora vai ter que andar. Respira fundo, toma outro gole d’água. Resolve comer a banana. Pede para Pablo esperar um pouco. Se senta em uma pedra ao lado da trillha. O corpo já está molhado, numa mistura de suor com a neve que cai. Não sente frio. Parece que há uma usina dentro de si, queimando lenha em quantidades imensas e fazendo uma caldeira ferver. Depois de comer a banana, se sente melhor.

“Vamos?” – e parte na frente. Pablo dá um riso e vai atrás.

Não demora muito e o índio o ultrapassa novamente, quase como se não fizesse esforço. João está sentindo os joelhos  doer - “rodillas”, a palavra surge, sem querer, em sua cabeça. Como ele se lembrou dessa palavra? Nunca estudou verdadeiramente o espanhol, apenas no colégio, em umas aulas a que ele não gostava de assistir. A professora era uma mulher de uns 30 e muitos anos, que nunca tinha sido bonita, mas que estava especialmente acabada. Parecia ter engordado recentemente, os cabelos sem vida, o rosto sem cor, os lábios tristes, os olhos cansados. A turma implicava com ela bastante. Não era uma turma fácil – João nunca foi de se deixar mandar, sempre organizou o grupo da balbúrdia – mas implicavam especificamente com essa professora. Qual era o nome dela? Um dia, a algazarra estava tão grande, que a professora, num ataque de raiva, sem perceber o que estava fazendo gritou um “¡Carajo!”. A turma se silenciou imediatamente, olhando para ela. Nunca um professor tinha dito um palavrão em sala, assim. Ainda mais um palavrão de cunho sexual, e pior: que não era dito em tom de humor, ao contrário. Os alunos olhavam a professora, que os olhava de volta, em silêncio. Estavam todos estupefatos. Todos pensavam a mesma coisa, aparentemente. João, ao menos, estava muito surpreendido com muitas coisas. Entre elas, que aquela professora pudesse falar um palavrão. Que ela fosse capaz de dizer “carajo”. Ela parecia encalhada. Mas não deveria ser. Por outro lado, ele também pensou que essa era uma ótima oportunidade de fazer uma denúncia contra ela para a coordenadora pedagógica. Mas ele não poderia ir direto. Se não, a denúncia não teria tanta força. Ele era apenas um aluno indisciplinado, com péssimas notas, que estava reclamando de uma professora, que nunca teve qualquer reclamação. Qual era a chance de isso dar certo? O plano surgiu inteiro em sua cabeça: ele iria falar com a Rafaela, que era amiga da representante da turma. A Rafaela gostava dele, e ele a ignorava completamente. Nesse caso, ele iria pedir um favor para ela. Saberia que ela faria o que ele quisesse. Daí, ele iria dizer que eles eram menores, não poderiam ser expostos a esse tipo de palavreado. Era hipócrita, claro. Ele mesmo era o maior desbocado do mundo, mas valia a pena jogar com o regulamento, para que essa professora – qual era o nome dela? – fosse tirada. Por que ele implicava tanto com ela? A professora, depois de uns instantes em silêncio, voltou a si: “Vocês sabem que em espanhol essa palavra que eu usei não é palavrão, não sabem?” João ficou impressionado. Era muita cara-de-pau da professora. Começou, muito de leve, a gostar dela. Resolveu levantar a poeira. “Professora, mas para a gente é, sim.” O resto da turma começa a cochichar entre si, o tumulto volta a se instalar, a professora está nitidamente perdendo o controle de si. Começa a chorar baixinho, os olhos se avermelhando, o rosto pegando fogo, até que ela sai de sala, batendo a porta com delicadeza. Por que eu estou lembrando disso agora?

Os dois chegam em um momento em que a subida é bem mais íngreme. Uma área que não dava para ser vista lá de baixo. João desperta dos seus pensamento nessa hora. Sente-se decepcionado. Sente-se fraco. “Retroceder nunca, render-se jamais”, lembra do filme do Van Damme. Uma porcaria. O primeiro filme que o Van Damme tinha feito – ele tinha feito pontas em outros filmes, mas nenhum com essa projeção. João tinha visto primeiro “O grande dragão branco”. Em “Retroceder...”, Van Damme faz o capanga do vilão. Ele, depois, só fez mais um vilão em toda a sua carreira. Ou em todos os outros filmes que João acompanhou. Por que ele tinha gostado tanto de Van Damme? Gostava muito de “O grande dragão...”. Um clássico da “Sessão da tarde”.

As pedras são mais altas que o seu próprio joelho. Pablo pega os bastões de volta e dá a mão para puxar João nas pedras maiores. Ele diz que esta é a pior parte e João agradece, intimamente, que ele estava conseguindo passar pela pior parte. Já não se sentia mal. Apenas cansado. Um cansaço imenso, que o abraçava como um urso. E como vamos voltar? Nunca se pensa na volta, durante a ida. Lembrou desse conselho de um amigo ainda dos tempos da faculdade, que morava longe. Para baixo todo santo ajuda. Sua mãe sempre usava todos os ditados e bordões que pudesse usar. Gostava especificamente dos envolvendo, direta ou indiretamente, culinária. Meter o  pé na jaca. Mamão com açúcar. Sopa no mel. Quer moleza, senta no pudim. Senta no pudim.

“¡Cuidado!”

As pedras estavam escorregadias. Parecia que ele estava andando sobre o gelo. E, na verdade, estava mesmo. Todo o seu entorno estava branco. A neve agora já tinha tomado tudo. Estava difícil até olhar para cima, com a intensidade da nevasca. Nunca tinha visto tanta neve na vida. Era como se estivesse sendo metralhado por infinitas armas que disparam flocos de gelo.

Depois da parte de pedregulho, pararam novamente para descansar. João vê Pablo abrindo a boca e colocando a língua para fora, para beber a água do gelo derretido. Ele faz igual. Percebe que não funciona muito bem. Quando abaixa a cabeça, percebe que Pablo o observa rindo, rindo, que vai crescendo até uma gargalhada. João não imagina que Pablo pudesse rir. Nem imagina o que era assim tão engraçado, mas não se importa de ser o motivo da piada. Após gargalhar, o índio se vira e começa a andar.

“Falta pouco?”

O índio balança a cabeça, misteriosamente.

Ao menos, planície. Os dois estão andando sobre a neve, que afunda os tênis de João que, claro, não são impermeáveis e ficam molhados rapidamente. Pablo se distancia, como ele não fez em nenhum momento até então e logo João o perde de vista. A visibilidade é muito ruim. Não dá para enxergar um palmo na frente dos olhos – João pensa na mãe, para logo a imagem cair na do Mestre dos magos – ele sempre sumia nas horas decisivas. Seria Pablo uma versão peruana do Mestre dos magos? Mais calado, mais taciturno, tão enigmático quanto. Para um pouco. Para onde ir? A trilha não é clara. Sente um pânico se instalando dentro de si. Não fique em pânico – repete para si mesmo, sem falar nada. Não entre em pânico agora. Agora, não. Antes que ele se desesperasse, porém, enxerga a trilha deixada pelas pegadas de Pablo. Suspira metaforicamente, aliviado. Dá uma corridinha, para tentar alcançar Pablo e, antes de ele perceber, já está lá: Huascarán. O lago que fica no centro, entre os dois cumes da montanha. A visibilidade é horrível e João não consegue ver quase nada. Pablo está lá, debaixo de uma rocha, comendo algo que João não consegue identificar o que é. Vai para perto do índio, se senta. E olha para frente. Fica um pouco decepcionado. É isso? O que ele via não lembrava em nada as fotos da prima. Aquela lagoa, ali, parada, era a mesma. Mas na foto da prima parecia a afirmação da força do mundo. O sol, o céu azul, a claridade. Emanava felicidade. Ali, a mesma lagoa, os mesmos picos pareciam o fim – ou o início do mundo. Ou o lugar onde o fim e o começo se encontravam. O vácuo, que puxava toda a luz do mundo. Como se o caos ainda estivesse instalado, estivesse puxando o mundo como o redemoinho, e após uma digestão, devolvesse um novo mundo a partir dele. Estava tão escuro, tão nevando, tão branco. Parecia que havia um túnel que ligaria esse mundo com um outro, um outro qualquer, um próximo mundo, um mundo paralelo, algo diferente, outro – e a sua entrada era o epicentro da tempestade. Era ali, logo acima do cume que estava mais longe de si. Era naquele ponto escuro, nebuloso, indecifrável. Era um lugar onde a luz não penetrava, onde, apesar de estar no alto, mais próximo do sol, parecia que nunca tinha recebido um raio de quentura na vida. Era a tristeza absoluta. Era o fim, o fim.



João está completamente encharcado, mas ainda sem frio. Calmo como talvez nunca tenha estado. Como se ali, no fim de todas as coisas que ele conhecia na vida, os problemas dele tivessem perdido importância. Ali, naquele lugar horrível, que suga todas as energias do mundo, que impede do ar de existir, ele percebeu que não havia diferença entre ele existir ou não. Diante dessa imensidão, desse buraco negro infinito, ele se tornava completamente desimportante. O mundo era desimportante. O mundo existia apesar dele, apesar de todo o restante da humanidade. Não havia nada nem ninguém que pudesse controlar aquela força, que arrastaria até o mais forte dos homens.

Essa ideia não trouxe um desespero, ou uma impotência para João. Ao contrário: lhe deu liberdade. Lhe proporcionou uma certeza de que ele poderia tentar fazer, ser qualquer coisa. Ele percebeu seu tamanho, sua pequeneza, e isso o fez saber também seus limites. O jogo estava claro para ele. Sabia que jamais sentiria essa mesma sensação novamente. Jamais conseguiria ver o início e o fim do mundo ao mesmo tempo. E foi a única coisa que ele queria guardar para si. Esse abismo, esse sublime, que o tomava por em cada recanto do próprio corpo, como se fosse um líquido viscoso dentro de um recipiente vazio com várias reentrâncias. Virou-se para Pablo e falou: “¿Vamos volver?”